
The Story of Woo Viet
Para variar me atrasei novamente aqui com o blog. Dessa vez tive um motivo mais nobre que a vadiagem, já que passei as últimas três semanas tomado pela preparação do catálogo de uma retrospectiva do cinema de Hong Kong que estou curando no CCBB e deve chegar até vocês em breve. Para quem me acompanha por aqui mais do que pelas redes sociais também escrevi sobre o interessante último filme de Clint Eastwood, 15h17 – Trem para Paris na Cinética.
Rio 40 Graus (Nelson Pereira dos Santos, 1955)
“Nelson Pereira dos Santos e a cidade do Rio de Janeiro apresenta”. Não haverá começo mais justo e filme que lhe de conta tão bem. Não via Rio 40 Graus fazia uns 15 anos e segue um grande filme, dos melhores do Nelson, sobretudo na forma como exprime a generosidade de registro que sempre lhe foi particular. Em Rio 40 Graus cabe-se e pode-se tudo da celebração ao trágico, do melodrama ao humor, da completa ausência de perspectivas a esperança. Há, é claro, uma tese geral de exploração que une as muitas situações, mas Nelson podia ser membro do partidão à época, mas nunca foi dado a se fechar numa nota só. Me parece também muito forte como Rio 40 Graus existe para além da leitura habitual de um clássico neorrealista, as imagens do Nelson têm uma atmosfera, uma tensão e nervosismo que existem bem para além do naturalismo que se supõe.
Garota de Ipanema (Leon Hirszman, 1967)
Não conhecia Garota de Ipanema, em parte porque o filme quase não circula (lembro-me dele passar no cinema em duas oportunidades nos meus 19 anos de São Paulo) e em parte porque sempre ouvi que o filme era uma bosta. Bem, quem dizia isso é maluco, apesar de que consigo imaginar que no contexto de 1967 não fosse o filme que se esperasse fosse do Leon, fosse de um retrato da juventude da zona sul carioca, fosse simplesmente de um filme chamado Garota de Ipanema. Aliás, poderia se chamar A Falecida, como o longa anterior do Hirszman. O cinema dele sempre teve certa morbidez, um amargor, as suas ficções seja aqui, na Pedreira de São Diogo, A Falecida ou São Bernardo parecem se mover rumo a um abismo. Mas acho que Garota talvez seja mais radical nesses movimentos, a montagem em especial é muito inspirada e o filme vai desse aparente alegria classe média jovem da zona sul para um esgarçamento completo, sem saídas possíveis. Lembra um tanto El Justicero do Nelson filmou pela mesma época, mas no Nelson o escracho é maior, a gente ri para não chorar, no Leon predomina o cortejo fúnebre.
The Story of Woo Viet (Ann Hui, 1981)
Ou a paixão de Chow Yun Fat. Vi The Story of Woo Viet uma vez antes lá por volta de 2002 ou 2003, me lembrava de um filme forte, mas me bateu muito mais dessa vez. É da série de filmes sobre refugiados vietnamitas que Ann Hui fez pelo começo dos anos 80. O principal motivo dela retomar ao tema várias vezes é que a população de Hong Kong odiava os refugiados e chegar até eles, buscar uma empatia com seu drama lhe parecia importantes. Chow Yun-Fat, em começo de carreira, faz um desses refugiados, atualmente em Cingapura, sonhando com Hong Kong e quem sabe um dia o Ocidente, ele é veterano da guerra e entende-se rápido que isto significa ter se envolvido com algumas barbaridades. Tem duas coisas muito fortes que se destacam no filme. A primeira é a presença de Chow, muito longe da figura de estrela de cinema que viria a encarnar, nada do senhor cool, daquela segurança de se mover pelo mundo, mas aqui de reagir ao peso dele. Os olhos de Chow são um caso aparte, não se tem dúvida que eis um homem que viu de tudo e está resignado a continuar vendo, para ele o estado de exceção há muito virou a regra. A outra coisa é o deslocamento, a condição do refugiado. Existe-se neste espaço no qual você responde a uma longa história, mas pertence a lugar nenhum. A história de Woo Viet é uma história de violência, vem-se dela, sonha-se em fugir dela, mas a ela se retorna de novo e de novo.
Pequenas Chamas (Peter Del Monte, 1985)
Mais ou menos o que eu imagino um filme do Joe Dante seria se ele crescesse num país católico. Um menino de 5 anos, seus três amigos imaginários (um dos quais um dragão piromaníaco) e sua relação digamos um tanto próxima demais com a nova babá. Filme incomodo, de desejo, culpa e imaginação. De um delírio constante. Todas as cenas com as criaturas são ótimas, e tanto o moleque como Valeria Golino como a babá são muito bons. Del Monte é uma dessas figuras muito curiosas que só poderiam surgir na Itália.
California Company Town (Lee Anne Schimitt, 2008)
Travelogo pelas cidades industriais abandonadas da California. Um faroeste reverso. A expansão capitalista, o desejo pelo algo mais dá lugar a ruina. Onde antes havia um ideário de progresso, restam essas construções esvaziadas. Cidades do lugar nenhum, espaços que foram criados não porque havia um movimento populacional, mas porque as pessoas foram deslocadas até ali para servir. Um exercício arqueológico não do passado, mas de um presente em abismo.









O filme de samurai como puro delírio formalista. Duas ações: a paralisia e o movimento. Dois modos de se filmar: a beleza da composição de plano e a agressão com que ela é desmontada.
O irmão mais novo do Meteorango Kid. E bem o filme deu ao mundo os Novos Baianos, o que torna ele uma das maiores contribuições legadas pelo nosso cinema.
“Nenhuma casa moderna é completa sem a obra do Marques”. Franco essencial. Um sonho sujo do mais puro mal. 

O filme de transição de Hitchcock para o cinema sonoro. O uso do som fora de campo é especialmente bom. E o filme tem um bloco de ação entorno do assassinato principal que é precioso. Precisão de Lang, se muito menos punitivo na moral. E já esto ali quase todos os temas centrais do gordinho.
Um Lubitsch nada típico. Seu último filme mudo. Uma fantasia romântica mais ao gosto der um Borzage. Imagino que a eficácia do filme dependa de como cada um se sente diante da canastrice do John Barrymore, a mim ela raramente incomoda e neste caso completa o romantismo destrutivo. O filme é puro sentimento.
É uma pena que esta maravilha só circule em cópias bem ruins, dop contrário talvez estivesse na lista da semana passada. Quase uma completa abstração de luz em cima de temas de vida e morte a partir do farol aludido no título.
Proto gangster antes do trio Little Cesar/Inimigo Publico/Scarface solidificarem o gênero. James Cagney até está em cena como segundo em comando como se a aludir onde o gênero estaria em um par de anos.Um filme de gestos mais do que de atos violentos. Lew Ayres é o menos durão dos gangsteres, mas há uma inteligência em ação na performance dele que localiza o filme além do seu tempo. E quase tudo que podia ser genérico tem um toque inesperado. 
Parte do meio da chamada trilogia de Marselha do Pagnol. Um primor de imaginação dramática e cheio de pequenos detalhes de cena. É um triunfo do Pagnol dramaturgo, enriquecendo e contradizendo o anterior Marius (1931), mas muito mais do que mero teatro filmado. Pagnol ainda é neste ponto mais autor/produtor (Marc Allegret assina as imagens), mas a mão dele está sobre todo o filme sobretudo as quatro atuações centrais (Fernand Charpin em especial que domina o filme e cujo a presença de cena no seu misto de poder e gentileza diz muito sobre a visão de mundo).
Quando crescer é cruel. Um retrato cuidadoso se bem duro de um jardim de infância de crianças abandonadas e de baixa renda francesas do começo dos anos 30. Co-dirigido por Jean Benoit-Levy e Marie Epstein, irmã de Jean. Incrível pensar que o filme foi realizado a mesma época de Zero de Conduta, já que eles se completam, tão bem. Um pé no documental, outro no gosto de pela poesia de danação que os franceses da época gostavam tanto, ou seja, não lá muito distante de Vigo. Os closes de crianças tem expressividade de Griffith.
Para um cara que supostamente considera o cinema um mal necessário para registrar suas palavras, Sacha Guitry era de uma cineasta de uma fluência impar. Nenhum mais do que neste causo aqui, no qual ele lança mão de cada truque narrativo e visual que pode para expandir as desaventuras do escroque do título. Um filme revigorante sobre o prazer de narrar.

