Alguns Favoritos de 2017 Parte 1

Vou postar em 3 partes meus filmes favoritos vistos pela primeira vez ano passado. Aqui os vinte favoritos em ordem cronológica.

Fanny (Marc Allegret, Marcel Pagnol, 1932)
fav01Parte do meio da chamada trilogia de Marselha do Pagnol. Um primor de imaginação dramática e cheio de pequenos detalhes de cena. É um triunfo do Pagnol dramaturgo, enriquecendo e contradizendo o anterior Marius (1931), mas muito mais do que mero teatro filmado. Pagnol ainda é neste ponto mais autor/produtor (Marc Allegret assina as imagens), mas a mão dele está sobre todo o filme sobretudo as quatro atuações centrais (Fernand Charpin em especial que domina o filme e cujo a presença de cena no seu misto de poder e gentileza diz muito sobre a visão de mundo).

La Maternelle (Jean Benoit-Levy, Marie Epstein, 1933)
fav02Quando crescer é cruel. Um retrato cuidadoso se bem duro de um jardim de infância de crianças abandonadas e de baixa renda francesas do começo dos anos 30. Co-dirigido por Jean Benoit-Levy e Marie Epstein, irmã de Jean. Incrível pensar que o filme foi realizado a mesma época de Zero de Conduta, já que eles se completam, tão bem. Um pé no documental, outro no gosto de pela poesia de danação que os franceses da época gostavam tanto, ou seja, não lá muito distante de Vigo. Os closes de crianças tem expressividade de Griffith.

Le Roman d’un Tricheur (Sacha Guitry, 1936)
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Para um cara que supostamente considera o cinema um mal necessário para registrar suas palavras, Sacha Guitry era de uma cineasta de uma fluência impar. Nenhum mais do que neste causo aqui, no qual ele lança mão de cada truque narrativo e visual que pode para expandir as desaventuras do escroque do título. Um filme revigorante sobre o prazer de narrar.

A Mulher do Padeiro (Marcel Pagnol, 1938)
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Pagnol novamente, aqui em pleno domínio da forma. Gente a trocar prosa enquanto o drama corre no pano de fundo do máximo do humor aos extremos do trágico. É de um controle de tom e drama incomuns. E lá no centro está Raimu como o padeiro corno do título, ao mesmo tempo alvo de chacota de toda a comunidade, mas que carrega consigo toda uma dignidade.

Vénus Aveugle (Abel Gance, 1941)
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Abel Gance indo ao território de Jean Epstein. O material é um melo rasgado sobre uma mulher que perde aos poucos a visão e depois precisa recuperar as esperanças e o pretendente que cria toda uma realidade para ela. A direção de Gance toda construída sobre questões de ver e encenar. Foi um dos primeiros filmes finalizados na França ocupada e a alegoria política é tão óbvia que é meio inacreditável que passou batido pelos censores.

Os Homens que Pisaram na cauda do Tigre (Akira Kurosawa, 1946)
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Um dos triunfos maiores e menos vistos de Kurosawa. Uma fabula essencialista, quase abstrata. Em termos práticos é um filme sobre cruzar uma barreira militar e ele tem a simplicidade de um filme de missão do Walsh. A montagem do Kurosawa poucas vezes tão exata. E são só 59 minutos.

O Baile da Casa de Anjo (Kôzaburô Yoshimura, 1947)
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Uma espécie de Soberba japonês. Só que aqui a passagem do tempo e a decadência são tomados não pela industrialização, mas pelo sentimento de derrota na guerra e as novas realidades do Japão ocupado daqueles novos tempos.

The Elegant Life of Mr. Everyman (Kihachi Okamoto, 1963)
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Okamoto é conhecido como um especialista em filmes de ação, mas a carreira embarca muitos outros registros e esta comédia sobre liberdade, prazer e imaginação sobre o ponto de vistas dos excessos alcoólicos do homem comum do título é uma pequena maravilha. Um dos pontos altos esquecidos do cinema novo japonês.

Oh, Bomb! (Kihachi Okamoto, 1964)
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Okamoto desta vez no registro da comédia absurdista e anarquista. Dadaísmo delirante neste conto sobre reagir as transformações da sociedade japonesa do pós guerra lançando bombas. A montagem é um primor. Imagino que o Carlão Reichenbach devia adorar este.

Wolves, Pigs & Men (Kinji Fukasaku, 1964)
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Um dos primeiros filmes do Kinji Fukasaku e uma pequena obra prima selvagem sobre três irmãos em esferas diferentes do mundo do crime. Super violento e sem perdão com uso muito bom Ken Takakura num dos seus raros papeis sem espaço para qualquer qualidade positiva. O uso constante de animais como metáfora entrega de que se trata de um irmão mais vulgar dos filmes do Imamura da época.

Love for an Idiot (Yasuzo Masumura, 1967)
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Masumura atualizando Amor Insensato do Tanazaki para o fim dos anos 60. Como a obra prima do Tanazaki já era sobre ocidentalização e ambos são mestres em ridicularizar o orgulho masculino ferido é um casamento dos mais felizes. Vertigo se todas as perversões de Hitchcock fossem expostas a nu. O uso de cor por parte do Masumura é excepcional, o que faz muito sentido num filme sobre um homem levado a loucura pela presença feminina. A Naomi de Masumura se torna o novo Japão ideal cujo protagonista bobalhão só consegui construir como imagem quando ela se revela plena a ele só cabe se submeter de quatro.

Nuvens Dispersas (Mikio Naruse, 1967)
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Último filme de Naruse, um melo de contrastes, as imagens controladas do drama familiar japonês no qual o próprio Naruse realizou muito dos seus filmes e os sentimentos tempestuosos do drama.  Sirk vai a terra de Ozu se quiserem. Repressão japonesa como combustível para uma infelicidade tortuosa. O filme, porém, acena com um romantismo esperançoso no fim do túnel, uma última chance redentora para o drama de repressão.

Goyokin (Hideo Gosha, 1969)
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Filme de samurai sobre a neve. Aquele velho tema do gênero moral contra dever num dos seus tratamentos mais formalistas. Gosha é um mestre do gênero e este filme menos agressivo e mais essencial de que outros dele. O uso de cor sobre neve é notável. Um lembrete de que Tatsuya Nakadai deve ser o grande ator japonês da sua geração.

O Pequeno Teatro de Jean Renoir (Jean Renoir, 1970)
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Vi/revi toda a filmografia de Renoir no começo do ano passado para o curso que eu dei na Mostra do CCBB e este é certamente um dos mais perfeitos finais de carreira de um grande mestre. De uma simplicidade desconcertante, mas há todo um mundo de possibilidades ali e o último episódio é o cinema chegando aos céus. “Revoluções tornam a vida aceitável”. Parte do que torna Renoir um dos maiores é que ele sempre foi fiel a si mesmo, mas seguiu olhando em frente.

Yakuza Justice: Erotic Code of Honor (Tatsumi Kumashiro, 1973)
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Kumashiro segue o segredo mais bem guardado do cinema japonês, muito porque fez sua carreira quase toda em filmes eróticos de baixo orçamento. O grande Tadao Sato considerava-o a maior revelação da geração pós cinema novo e que sua carreira comparava positivamente a de Oshima em muitos aspectos. Esta fabula budista yakuza começa num nascimento nas aguas e termina numa morte idem. No meio termo o bebe vira um monge e é seduzido pelos prazeres da carne para o meio violento dos Yakuzas. É um dos seus filmes mais improváveis e delirantes, sobre inocência e pecado, graça e violência, salvação e perdição. Faria uma bela sessão dupla com o Running on Karma do Johnnie To.

The Yakuza Papers Vol. 3: Proxy War (Kinji Fukasaku, 1973)
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Toda a serie The Yakuza Papers (5 filmes feitos por Fukasaku e o roteirista Kazuo Kasahara entre 73 e 74)  reimaginam a história da ascenção da Yakuza no pós guerra japonês como uma liberação simbólica de toda a violência da reconstrução econômica do país. Este é o melhor de todos construído sobre um formato radical onde os jogos de poder sem controle se realiza nos insertes documentais enquanto Fukasaku filma aquele monte de gangster disputando de forma juvenil quem grita mais alto e tem pinto maior. Até o último ato de uma purgação violenta insuportável que encontra ponto final na ideia de um corpo sem entranhas, o homem esvaziado como estado final deste mundo cão do renascimento japonês.

 Bitterness of Youth (Tatsumi Kumashiro, 1974)
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Kumashiro novamente, aqui num complete contraste com Yakuzo Justice, um filme que destaca o cuidado com que ele consegue delinear seu material dramático. Mais longo e filmado com mais tempo do que a uma semana e pouco mais de hora dos roman pornôs habituais da Nikkatsu. Os temas são próximos dos do filme anterior, liberdade e perdição, mas os caminhos são outros e igualmente recompensadores.

One Night Stand (Pierre Rissient, 1977)
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Um sonho orientalista numa Hong Kong de cinema, não a do cinema local, mas de um imaginário ocidental. Perverso no seu sentimento de não pertencimento, um filme de lugar algum, mas do cinema, a perdição do imaginário cinéfilo. Richard Jordan torturado e suspenso entre lugares, entre culturas, no meio de uma série de atrizes do cinema local. Um dos dois filmes que Rissient dirigiu e que apontam possibilidades de um cinema que pouco teve chances de ir em frente.

Dr Jekyll et les Femmes (Walerian Borowickz, 1981)
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Boro flertando com um mundo de Franco, mas Boro tem uma precisão formal que Franco só sugere em cenas isoladas. Atração da perversão. O homem só encontra a paz quando aceita o monstro interior. O mais reprimido e depravado dos sonhos. E pensar que durante muito tempo, Boro era visto a esta altura como um pornografo decadente.

No Topo das Escadas (Paul Vecchiali, 1983)
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Paul Vecchiali fazendo um monumento a presença da Danielle Darrieux que se desdobra como um estudo dos fantasmas mal resolvidos da ocupação francesa. Darrieux que, afinal, reza a lenda quase foi assassinada pela resistência. Vecchiali é um cineasta ideal para este confronto, pois poucos expõem seus sentimentos de forma tão nua, tão direta. Estão ali toda uma série de fantasmas, todas as feridas varridas para debaixo do tapete e está ali Darrieux imensa para enfrenta-los e incorpora-los de frente.

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