Alguns Filmes da Semana (03/02 a 09/02)

albumdefamilia
One-Armed Swordsman (Chang Cheh, 1967)

Não revia One-Armed Swordsman faz uns 10 anos e reencontra-lo é lembrar como o filme destila a essencia dos primeiros wu xias da Shaw Brothers. Um filme tão dramaticamente redondo, que ao mesmo é expansivo (as quase duas horas são das durações mais longas do gênero) e tão direto ao ponto. E lá no centro está a figura masoquista do Jimmy Wang Yu explorada com tanto cuidado por Chang Cheh, um lembrete de que o wu xia na sua gênese lida diretamente com explorar com representação do masculino no imaginário chinês (bom lembrar que nos gêneros mais populares do cinema local até o começo dos 60 (melodrama, opereta, musical as figuras masculinas em geral eram bem fracas). É curioso que o gênero naqueles tempos frequentemente trabalhava com triângulos com uma heroína e dois pretendentes contrastantes, mas aqui são as mulheres que se duplicam entorno dele.

Os Paqueras (Reginaldo Farias, 1969)
Os Machões (Reginaldo Farias, 1972)
Reginaldo Farias não tinha o mesmo craft do irmão Roberto, mas ele tinha um olho bem apurado e uma disposição para um risco um pouco maior. Os Paqueras não chega a ser tão bom quanto David Neves, nesta chave de crônica carioca que historicamente sempre considero um ponto alto e subestimado do cinema brasileiro, mas é de uma fluência grande e acho que arranja boas maneiras de quebrar o possível conservadorismo da narrativa. Os Machões certamente não é tão bom (para começo de conversa para uma comédia há uma deficiência de humor) e certamente um filme datadíssimo. Um dos primeiros feitos por aqui a lidar de forma direta com homossexualismo, certamente não passa em nenhum teste contemporâneo pelo contrário pelo olhar de hoje é um grande catalogo de fobias sexuais de todo tipo, apesar de nessas horas eu sempre imaginar que em 30-40 anos nosso cinema bom moço vai igualmente parecer questionável. Dito isso, é um filme com muita empatia pelo desviante, os três atores centrais (Reginaldo, Erasmo Carlos e sobretudo Flavio Migliaccio) são ótimos e há uma disposição para se mover do humor mais baixo a tragédia rasgada que é difícil não simpatizar.

Eu Dou o Que Ela Gosta (Braz Chadiak, 1975)
Álbum de Família (Braz Chadiak, 1981)
A melhor coisa ligada ao cinema brasileiro na semana passada sem dúvidas foi a bela entrevista que o Matheus Trunk fez com o Braz Chadiak, como o Francis Vogner bem definiu um raro momento de um cineasta brasileiro a relembrar os anos 60/70 sem um pingo de ressentimento. Deu vontade de ver/rever uns filmes do Chadiak cuja a obra muito me interessa. Vi Os Mansos cujo episódio dele não é grande coisa, mas o do Rovai é ótimo. Descobri este Eu Dou o Que Ela Gosta, que a despeito do título é menos uma comédia maliciosa do que uma comédia de costumes do interior mineiro com suas tradições e disputas de longa data com sexo servindo de tempero. Belo elenco com veteranos (Lewgoy, Hingst) e um Enio Gonçalves inspirado como o conquistar que desequilibra o filme. No geral as adaptações do Chediak me parecem melhores que os originais, mas este é bem bom. Certamente o melhor filme dele a existir longe das narrativas de dissolução que sempre foram sua especialidade. No outro extremo está esta adaptação de Álbum de Família. Na entrevista com o Matheus, Chadiak fala muito da sua amizade com Nelson Rodrigues e o dramaturgo co-escreveu e produziu essa versão. Album de Familia é um dos meus textos favoritos de Nelson, mas me parece também um dos mais difíceis de encenar, se mover-se demais em direção ao simbólico corre-se o risco a amenizar a radicalidade do texto, busque o naturalismo e afunde-se no choque do puro grotesco. O filme de Chadiak se aproxima bastante da versão de Sete Gatinhos que Neville de Almeida fizera no ano anterior, as imagens são rasas, a entropia familiar existe isolada de qualquer mundo reconhecível, mas muito frontal, todo incesto, morbidez e assassinato tratado não como excesso, mas extensão do núcleo familiar. O efeito disso é que todo o grand guignol do ato final se dissipa um tanto, mas se reforça a relação entre sexo e morte, a sensação de estarmos trancafiados numa tumba, de seguir uma procissão funérea e perversa. Amor louco como um ato de auto-canibalismo familiar.

A Forma da Agua (Guillermo Del Toro, 2017)
Nos últimos anos se tornou um modismo entre jornalistas culturais que buscam desesperadamente agradar a indústria sugerir nome de cineastas de minoria que receberam algum destaque para toda e qualquer franquia, o subtexto é de que se deseja menos narrativas diferentes, mas uma ligeira polida nas narrativas de sempre (e o inevitável tapinha nas costas do bom mocismo neoliberal, “muda-se tudo para permanecer como está” como diria o velho Leopardo). Menciono isso a respeito do Del Toro pois ele me parece dos poucos cineastas para quem está lógica faça algum sentido, dê a ele um Blade 2 ou um Hellboy e o gosto dele por monstros e apuro visual eleva o que poderia ser um filme de super herói rotineiro a algo expressivo, deixe ele completamente a vontade e os monstros se atrofiam numa domesticação de bons modos, as alegorias politicas soam infantilizadas. Não há exemplo maior do que este A Forma da Agua, em que todo aberrante desagua nos bons sentimentos, no bom tom, numa ideia covarde de fabula para adultos que tem vergonha de assumir a própria infantilização (a exceção por conta do Michael Shannon que reconhece em que filme está e deixa a nota subir de acordo). É um filme sobre uma mulher apaixonada por uma criatura, mas que só consegue imaginar a bestialidade a partir do antropomorfismo mais tosco. Um filme de monstro envergonhado, onde todo o horror foi drenado. Del Toro de certa forma é herdeiro de Tim Burton no seu gosto por monstros e apuro visual, mas se em Burton em meio a paixão pelo gênero ainda conserva (ao menos na primeira metade da sua carreira) uma fagulha de horror, uma certeza que a sociedade esta destinada a mandar seus freaks ao exílio, Del Toro opera no sentido oposto, aproveita-se do caminho aberto para traze-los a luz de vez. A Forma da Agua é um Edward Mãos de Tesoura impressionado demais com a própria capacidade de encantar. Estamos longe da fera a se deitar com as belas nobres do A Besta do Borowickz ou de Adjani a copular com a criatura criada a partir de todo o ressentimento do casal de Possessão. O monstro rejeitado da sociedade do Monstro da Lagoa Negra é só um novo príncipe encantado com um leve polimento de estranhamento. Todo o confronto, toda a abrasividade do filme de horror reconciliado na mais polida das embalagens. É triunfo e um desastre. Merece mesmo ganhar o Oscar.

Accident Man (Jesse V. Johnson, 2018)
Para quem aprecia o filme de ação com ênfase no trabalho de atores e dublês não há nada melhor no ocidente na última década do que os veículos de Scott Adkins, um lutador marcial inglês que conseguiu a improvável façanha de se tornar um estrela no mercado de filme de ação DTV, todo ele dominando por atores veteranos cuja presença traz ao espectador lembranças de dias melhores (seja um Van Damme/Lundgren ou um Cage/Cusack/Banderas). Este Accident Man é de certa forma apoteose da carreira de Adkins até aqui, uma adaptação de uma HQ inglesa, com o próprio Adkins como co-roteirista e um orçamento um tanto maior. É um filme mais expansivo com um universo bem mais detalhado do que os filmes de perseguição e/ou vingança com protagonistas monossilábicos que fizeram a sua carreira. Por um lado, isto gera um interesse maior e adiciona um elemento de excentricidade inglês ao filme (há um bloco de flashback longo que Matt Lynch, usuário popular do Letterboxd, descreveu como “o Rushmore dos filmes de matador profissional”). Ao mesmo tempo como estamos no terreno da HQ inglesa, então há um tanto de humor espertinho e piscadelas do estilo “somos mais radicais que os americanos, viu?” que eu podia passar sem. Mas assistis-se um filme de Adkins sobretudo pela execução da coreografia de ação e aqui o filme está muito a frente de outros filmes do gênero bem mais caros. Adkins e seu coreografo habitual Tim Man tem uma habilidade natural para ação simples, direta e brutal e o filme tem um elenco de apoio que serve Adkins muito bem, a primeira briga entre ele e Michael Jai White e Ray Park e mais tarde a sequência com Amy Johnston são tão boas quanto espero achar num filme de ação este ano. O diretor Jesse V. Johnson (ele próprio um ex-dublê que vem desenvolvendo uma boa carreira no filme de ação de baixo orçamento) tem um bom olho para o momento da ação e o filme tem um trabalho de câmera atencioso nessas sequencias (que contrasta com a ocasional impaciência nas cenas de diálogo) e os seus ocasionais cortes são precisos.

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