Trama Fantasma (Paul Thomas Anderson, 2017)

Phantom-Thread

Com uma parceria real num casal é atingida: com cogumelos envenenados e um gosto pela dor. Este dia o Eduardo Valente falava mal do filme e dizia que tinha mais paciência para Anderson quando os filmes dele puxavam para o lado do humor, concordo com ele, mas diria que Trama Fantasma é justamente a grande comédia sadomaso sobre o poder na esfera privada que eu não sabia que precisava.

O filme do Anderson que ele mais lembra é justo o Embriagado de Amor, o último filme cômico romântico dele. É quase um espelho reverso do filme anterior, onde antes o domínio era de uma certeza de algo maior ao seu alcance e neurose judaica do Adam Sandler, aqui temos uma perversidade latente e uma vontade de dar uma boa sacaneada em todo o sentido de respeitabilidade das classes altas inglesas. Sandler começa embaixo e era levada as alturas pelo amor, aqui Daniel Day-Lewis começa no alto é tem que ser levado aos joelhos pela amada. Até a oposição Sandler/Day-Lewis, literalmente o máximo de humor baixo e grande ator que o imaginário da indústria americana produz reforçam essas oposições complementares.

Trama Fantasma é todo construído a partir de noções de cumplicidade e poder. Previsto nesta ideia de que igualdade é sempre algo buscado e difícil de atingir. De um princípio de desequilíbrio. Os filmes de Anderson se movem de forma parecida. Sempre digo que o pior do Anderson é a fan base que não só está sempre pronta para colocá-lo nas alturas, mas age como se cada filme fosse um objeto idealizado, neste sentido Anderson é mesmo o novo Kubrick.  Uma certa irregularidade, uma disposição de jogar na tela cada ideia independente da qualidade sempre foram parte da graça do cinema dele (mesmo Magnolia que acho de longe o pior, tem um charme no ridículo da coisa toda). Trama Fantasma é até bem disciplinado para os padrões dele, a mudança para Inglaterra provavelmente ajudou neste sentido, mas por exemplo as tentativas de se aproximar dos grandes movimentos de câmera do Max Ophuls são ainda mais frágeis que imitações similares do Kubrick.

Os três filmes anteriores de Anderson, Sangue Negro, O Mestre e Vício Inerente, eram todos à sua maneira grandes painéis históricos americanos. Road movies sobre os detritos esquecidos de uma sociedade capitalista se movendo da ascensão do capital empreendedor do século XIX até a decadência da contracultura nos anos 70. A política em Trama Fantasma se reduz radicalmente a figura do casal e seus jogos de poder, mas há algo que resta desses filmes na descrição da tecelagem do personagem de Day-Lewis. Como sempre Anderson é cuidadoso neste trabalho descritivo e há ali ainda atuação contida quase fantasmagórica da Lesley Manville, como a irmã que de fato toca o negócio a família.

Há aí um dos elementos mais cativantes do filme pois Trama Fantasma só parece ser um filme sobre um gênio temperamento difícil, de gênio Reynolds Woodcock tem só a pompa (até no nome que parecer algo que Pynchon inventaria para sacaneae um “grande” estilista). A casa de Woodcock é uma fábrica de salsichas de classe. Aquele festival de mulheres formiguinhas a executar a “visão” do artista que é muito mais um símbolo, uma ideia a ser vendida de status, do que um fato. Conversei com mais de uma amiga que ao contrário de mim entendem de moda, e elas foram unanimes em dizer que os vestidos do filme são muito menos bons do que parecem, que existe ali uma ideia de “grandes vestidos”, mas que tudo soa de segunda linha.

Vale apontar que Trama Fantasma é ele próprio um filme bem menos classudo do que aparenta, uma comédia perversa sobre a forma de romance elegante. O filme se fecha ali sobre aquele casal que só ama pelas vias do sofrimento do outro. O que nos filmes anteriores era um esgarçamento do estar no mundo, vira aqui esta competição de supremacia entre duas pessoas. Esta lógica do mundo retomada em esfera privada. E daí vale destacar o esforço de Day-Lewis de servir de escada para a muito menos famosa Vicky Krieps. O sorriso dela com a certeza que domou o homem e o colocou no seu lugar a imagem maior de satisfação do filme.

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