Mostra 2016

mostra1

A Hora da Religião, de Marco Bellocchio

Com algum atraso, o tradicional post de dicas da Mostra.

Este ano a Mostra está com um grupo maior que o habitual de retrospectivas, a maior sendo a do Wajda, mas a também uma retrospectiva do Bellocchio e outra do Friedkin, além de ciclos em homenagem ao Kieslowski e Jamursch. Acho que todas elas têm seu interesse.   Nas maiores eu diria que os filmes da década de 50 são os mais imperdíveis do Wajda (apesar de serem também alguns dos mais manjados). Do Bellocchio, De Punhos Fechados são incríveis apesar de que foram exibidos na Mostra em 2007 acho, mas também não deixaria escapar A Hora da Religião um dos melhores filmes do mundo e que segue pouco conhecido. A do Friedkin já é menor e inclui os 5 longas do período mais famoso dele mas daria particular atenção a O Comboio do Medo, seu remake maldito de O Salário do Medo que parece finalmente começar a ser recuperado nos últimos anos e Viver e Morrer em Los Angeles, um dos melhores filmes americanos dos  anos 80. A não perder também a exibição de O Quarto Homem, um dos melhores filmes da fase holandesa do Paul Verhoeven. Não se esqueçam também da sessão de curtas do Aloysio Raulino, que além de ser um dos melhores fotógrafos foi um curta metragista documental notável. Lacriminosa e O Porto de Santos estão sem dúvidas entre os melhore filmes brasileiros de qualquer duração.

Muitos veem reclamando da seleção da Mostra e do sempre detestado ineditismo. De fato, creio que esta é a Mostra com menos filmes de medalhão que eu me lembro e com relativamente poucos filmes premiados nos três grandes festivais europeus. Por outro lado, a Mostra tem um número bem razoável de filmes menos badalados interessantes (algo no qual o Rio este ano deixou a desejar). Acho que idealmente em Festivais panorâmicos que são menos baseados num recorte curatiorial do que numa tentativa de apresentar uma visão ampla do ano, um equilíbrio nestes dois polos é fundamental e creio que 2016 termina deixando a desejar nos grandes festivais do fim de ano.

Listo os filmes novos em 3 listas separadas. A primeira é dos grandes destaques. Depois uma segunda lista de filmes de cineastas cujo trabalho me interessa bastante, depois uma última lista com filmes que também me chamam a atenção ou porque já vi outros trabalhos bons dos cineastas (mas um pouco menos do que a lista B) ou porque li elogios de pessoas que levo em conta.

As recomendações dos filmes novos seguem abaixo. Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Filmes

Thom Andersen além de Los Angeles Plays Itself

the-thoughts-that-once-we-had

The Thoughts That Once We Had (2015), de Thom Andersen

Muitos cinefilos paulistanos tiveram a oportunidade de conhecer Thom Andersen quando a Mostra trouxe Los Angeles Plays Itself em 2014. Trata-se certamente da obra prima de Andersen tanto como cineasta quanto crítico, mas a partir de amanhã (8/7) o CCSP iniciara a retrospectiva “Hollywood e além: o cinema investigativo de Thom Andersen” que nos dará a oportunidade de conferir o restante da obra de Andersen que vai certamente além daquele grande filme. A retrospectiva inclui até onde sei todos os longas e médias do realizador e grande maioria dos curtas dele, incluindo alguns trabalhos do ano passado que ainda não circularam muito. Andersen é um cineasta essencial justamente porque poucos são tão hábeis em nos colocar diante de como a história das formas (seja numa arte como cinema, seja nos espaços públicos que frequentamos, etc.) ajuda a formar nossa compreensão do mundo. Como costumo dizer o que há de menos importante nos filmes de Andersen e se concordamos ou não com suas teses e conclusões, mas este desejo de expandir o olhar.

Entre outras coisas é uma bela oportunidade para colocar as preocupações com arquitetura, espaço público e políticas de Andersen num contexto mais amplo. Por exemplo, Red Hollywood (co-dirigido pelo Noel Burch) e Get Out of the Car, os filmes que Andersen realizou antes e depois de Los Angeles Plays Itself ajudam bastante a coloca-lo no contexto, o primeiro narrando a historia dos artistas militantes comunistas em Hollywood e o segundo completando a construção da identidade urbana de Los Angeles para além da sua imagem no próprio cinema.

A retro é uma rara oportunidade de assistir ao primeiro média dele Eadweard Muybridge, Zoopraxographer que é um dos seus melhores filmes e geralmente circula na internet em cópias de qualidade duvidosa. Um trabalho excepcional de crítica e história e um dos seus filmes formalmente mais interessantes, além de um bom exemplo do senso de humor do Andersen em relação ao seu tom professoral que sempre ajuda os filmes a fluir melhor. A retro também inclui a primeira exibição paulistana do longa mais novo de Andersen The Thoughts That We Once Had, que acho só passara por aqui no Fronteira ano passado. É um filme intrigante justamente porque tira Andersen do seu habitat natural do pragmatismo da crítica americana e numa direção mais especulativa da tradição francesa. O ponto de partida são os dois livros de cinema do Deleuze, mas é bom destacar aos deleuzianos que eles são mais um veículo para as ideias de Andersen do que o foco do filme.

A retro também inclui alguns trabalhos de cineastas próximos e as vezes parceiros do realizador como Peter Bo Rappmund, Billy Woodberry e Ross Lipman.

No dia 14 após a segunda exibição do The Thoughts That We Once Had haverá um bate papo entre o Andersen, Remier Lion e o Aaron Cutler (que fez a curadoria da mostra junto da Mariana Shellard).

A programação esta disponível aqui.

Deixe um comentário

Arquivado em Programação

Alguns favoritos de 2015

Belos filmes vistos e revistos ao longo de 2015 realizados até 2012.

fv001

Carmen (Cecil B De Mille, 1915)

fv002

The River (Frank Borzage, 1929)

fv003

Man to Man (Allan Dwan, 1930)

fv004

The Champ (King Vidor, 1931)

fv005

Platinum Blonde (Frank Capra, 1931)

Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Filmes, Listas

Meus Favoritos de 2015

2015c

Noite Sem Distancia, de Lois Patiño

Como sempre o critério aqui são filmes vistos pela primeira vez este ano que tiveram as primeiras exibições nos últimos 3 anos.

Primeiro um comentário rápido sobre curtas. Meu favorito do ano foi Noite Sem Distancia do Lois Patiño. Outros 9 curtas que gostei muito em ordem alfabética: Bitch Better Have My Money (Rihanna, MegaForce), Fort Morgan (Alexander Stewart), Hunter (Scott Barley), I Dalio (Mark Rappaport), Ihomtep (Leo Pyrata), Message de salutations: Prix suisse / remerciements / mort ou vif (Jean-Luc Godard), Um Século de Energia (Manoel de Oliveira), Sem Título #2: La Mer Larme (Carlos Adriano), World of Tomorrow (Don Hertzfeldt).

Vale apontar que optei por não contar Visita ou Memórias e Confissões do Manoel de Oliveira como um filme de 2015.

Menções honrosas (100-76) À Beira Mar (By The Sea, Angelina Jolie), The Airstrip (Heinz Emigholz), Aloha (Cameron Crowe), Being Boring (Lucas Ferraço Nassif), La Buca (Daniele Cipri), Da Sweet Blood of Jesus (Spike Lee), Daughters (Tochter, Maria Speth), Everest (Baltasar Kormákur), Experimenter (Michael Almereyda), Gangster Payday (Lee Biu-Cheung), Garotas (Bande des Filles, Céline Sciamma), Gett: o Julgamento de Viviane Amsalem (Ronit Elkabetz, Shlomi Elkabetz), Hill of Freedom (Hong Sang-soo), A Incrível História de Adaline (The Age of Adaline, Lee Toland Krieger), Mia Madre (Nanni Moretti), Ming of Harlem: Twenty One Storeys in the Air (Phillip Warnell), A Misteriosa Morte de Pérola (Guto Parante, Ticiane Augusto de Lima), Mountains May Depart (Jia Zhang-ke), Noite (Paula Gaitán), Pasolini (Abel Ferrara), Sabor da Vida (An, Naomi Kawase), Selma (Ava DuVernay), Temporary Family (Cheuk Wan Chi), Teobaldo Morto, Romeu Exilado (Rodrigo de Oliveira), Vício Inerente (Inherent Vice, Paul Thomas Anderson)

Continuar lendo

1 comentário

Arquivado em Filmes

Mostra Godard Programação SP

JLG/JLG - Autoretrato de Dezembro

JLG/JLG – Autoretrato de Dezembro

Post de serviço público a todos com a programação de SP da integral do Godard.

Continuar lendo

2 Comentários

Arquivado em Filmes

Dois filmes poloneses e uma dica

O-bi, o-ba, o fim da civilização, de Piotr Szulkin

O-bi, o-ba, o fim da civilização, de Piotr Szulkin

Começa nesta quinta, dia 15, uma retrospectiva das mais interessantes no CCBB-SP, Histórias de Transformação: mostra de cinema polonês, que já passou pelo Rio durante o Festival de Cinema. São 6 filmes pouco conhecidos por aqui (em alguns casos nunca exibidos no Brasil antes) que vão do começo dos anos 60 (Como Ser Amada, 1962, de Wojciech Has, que o cinéfilo brasileiro provavelmente conhece pelo seu filme seguinte O Manuscrito de Saragossa) até o fim dos anos 90 (Dívida, 1999, de Krysztof Krauze). A ideia é fazer um apanhado de formas de representação da vida polonesa no período incluindo a passagem da sociedade socialista para o modelo capitalista. Do pouco que vi a Mostra consegue isso com ecletismo notável. Os filmes vão ser exibidos em DVD, mas são tão obscuros e pouco vistos que acho vale o esforço de ir ao CCBB.

Faço o post não só para destacar a mostra, mas também comentar os dois filmes dela que eu vi. Como Viver (1977), do Marcel Lozinski e Obi-Oba, o Fim da Civilização (1985), do Piotr Szulkin. O filme do Lozinski é o único documentário da seleção, mas é uma sátira engraçadíssima sobre a vida no país do fim dos anos 70, centrada num grupo de jovens famílias que vão participar de uma competição de “famílias modelo” num campo de jovens socialistas. A contradição entre a ideia da competição e o ideal socialista é responsável por parte considerável do conflito e humor do filme, mas o que me parece mais notável aqui é como ele costura bem as suas situações de tal maneira que passaria facilmente por um filme de ficção.

Ainda melhor é Obi-oba no qual saímos do universo da observação cômica para a ficção cientifica distópica de cunho alegórica. Uma espécie de versão pós-punk do O Processo do Welles ou um romance do China Mieville antes do tempo. O filme compensa o pequeno orçamento com uso dos mais imaginativos de direção e construção de espaços. O mundo da pequena sociedade construída aqui é muito bem imaginado. Ao contrário da maioria de filmes similares a paranoia de Szulkin é animada por um incomodo político que nunca sugere mera impostura de gênero. O filme sabe cortar suas situações com humor sem com isso sacrificar a potência dramática delas. Não conheço outros filmes do Szulkin, cineasta até recentemente bem desconhecido no ocidente, mas este é parte de uma espécie tetralogia de ficção cientifica cujos outros títulos (Golem, Guerra dos Mundos: próximo século e Ga-ga: glória aos heróis) parecem igualmente muito interessantes e que eu planejo assistir em breve.

Deixe um comentário

Arquivado em Filmes

Mostra 2015

a-brighter-summer-day

Um Dia Quente de Verão (1991), de Edward Yang

Não é uma das Mostras de São Paulo com seleção mais apetitosas, mesmo assim tem muita coisa a se ver.

Filmes que mais me interessam:

Hors-concours: Visita ou Memórias e Confissões (Manoel de Oliveira)
Ao Longo dos Anos (Nikolaus Geyrhalter)
Os Campos Voltarão (Ermanno Olmi)
É o Amor (paul Vecchiali)
Garoto (Julio Bressane)
John From (João Nicolau)
As Mil e Uma Noites (Miguel Gomes)
Para o Outro Lado (Kiyoshi Kurosawa)
Ryuzo e seus Sete Capangas (Takeshi Kitano)
Três Lembranças da Minha Juventude (Arnaud Deplaschin)

Filmes que me interessam bastante:

Aferim! (Radu Jude)
O Apostata (Federico Veiroj)
Através da Sombra (Walter Lima Jr.)
Campo Grande (Sandra Kogut)
Experimentos (Michael Almereyda)
Meu Amigo Hindu (Hector Babenco)
Meu Querido Hans (Alexander Mindadze)
Montanha (João Salaviza)
Para Minha Amada Morta (Aly Muritiba)
O Prefeito (Bruno Safadi)
O Quarto Proibido (Guy Maddin, Evan Johnson)
Quase Memória (Ruy Guerra)
Sob Nuvens Elétricas (Aleksey German Jr.)
O Touro (Larissa Figueiredo)
Volta a Terra (João Pedro Plácido)

Outros Brasileiros que me interessam:

Aspirantes (Ives Rosenfeld)
Boi Neon (Gabriel Mascaro)
California (Marina Person)
O Espelho (Rodrigo Lima)
Fome (Cristiano Burlan)
Futuro Junho (Maria Augusta Ramos)
Mais do que Possa Me Reconhecer (Allan Ribeiro)
Mate-me por Favor (Anita Rocha da Soliveira)
A Morte de J.P. Cuenca (João Paulo Cuenca)
Origem do Mundo (Moa Batsow)
Piadeiros (Gustavo Rosa de Moura)
Ralé (Helena Ignez)
Seca (Maria Augusta Ramos)
Todas as Cores da Noite (Pedro Severien)
Tropykaos (Daniel Lisboa)

Outros filmes de interesse:

El Abrazo de la Serpiente (Ciro Guerra)
Armadilha (Brillante Mendoza)
Boxe (Florin Serban)
A Bruxa (Robert Eggers)
Bone Tomahawk (S. Craig Zahler)
Cinzento e Negro (Luis Filipe Rocha)
Coração de Cachorro (Laurie Anderson)
Desde Alla (Lorenzo Vigas)
Enquanto Estamos Sonhando (Andreas Dressen)
Mistress America (Noah Baumbach)
Ornamento e Crime (Rodrigo Areias)
Pardais (Runar Runarsson)
La Patota (Santiago Mitre)
Sabor da Vida (Naomi Kawase)
Son of Saul (Laszlo Nemes)

Imperdivel claro é a retrospectiva do Film Foundation. A seleçáo é otima, alguns filmes como A Cor da Romã e Coronel Blimp passaram na Mostra nem tem tantos anos assim, mas valem muito a pena. Tem pelo menos dois clássicos do cinema americano que raramente são discutidos desta maneira (Bom Dia Tristeza do Preminger e Um Caminho para Dois do Stanley Donen), três filmaços pouquíssimo vistos (Aguaceiro, do Bahram Beizai, Garota Negra, do Ousmane Sembene, e Manila nas Garras da Luz do Lino Brocka), além é claro da exibição de Um Dia Quente de Verão do Edward Yang, que é junto do filme do Manoel o maior evento da Mostra, até porque por questões de direitos segue sem nenhum lançamento em DVD/Blu-Ray de qualidade.

1 comentário

Arquivado em Programação