The Wreckages of European Civilization

aportuguesa

(versão em português aqui)

Rita Azevedo Gomes’ The Portuguese Woman is now screening on Mubi in most territories, it is very possible the best movie that will get any sort of release in these streaming-only days and I’m taken the opportunity to publish here the article I wrote for Cinetica after it get its first Brazilian screenings around a year ago.

The Portuguese Woman is Rita Azevedo Gomes’ seventh feature, a filmmaker on the frontlines of Portuguese cinema who despite three decades of rich production, has only start receiving deserved attention in the last few years. Her new film played recently at Olhar de Cinema in Curitiba and later in a small retrospective of her work in São Paulo. Gomes cinema brings with it some traditional elements of Portuguese cinema, above all in its relationship with literature and aristocracy, with some taste for nostalgic decadentism of the sebastianista variety.

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Os destroços da civilização europeia

aportuguesa

(English version here)

A Portuguesa da Rita Azevedo Gomes está em cartaz no Mubi pelo próximo mês e aproveito para republicar aqui a crítica que escrevi para a Cinética ano passado.

A Portuguesa é o sétimo longa-metragem de Rita Azevedo Gomes, cineasta da linha de frente do cinema português que apesar de três décadas de uma produção rica, só nos últimos anos veem recebendo timidamente um pouco da atenção merecida. Recentemente o filme circulou pelo Brasil, primeiro no Olhar de Cinema e depois numa pequena retrospectiva dos seus filmes em São Paulo. O cinema de Gomes traz à frente alguns elementos da tradição do cinema português, sobretudo na sua relação com a literatura e aristocracia, com um gosto por certo decadentismo nostálgico sebastianista.

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Melodrama as process

harry-&-son

(versão em português aqui)

Paul Newman was a film star for five decades, he also was a great film director for a couple of those. A fact that doesn’t get talk much nowadays, probably because Newman’s films don’t circulate as often as they should (a boutique label like Criterion should put out a collection of Newman’s work to get the ball on a reappraisal going, it is just six features after all). It is not like Newman’s directing career received no attention when it was an ongoing event, his debut feature Rachel, Rachel (1968) was Oscar nominated, his last one, an adaptation of The Glass Menagerie (1987) that is probably the best Tennessee Williams put on film, was in the Cannes competition. The first time I was aware of Newman as a director was reading a Serge Daney 1977 interview when asked about which American cinema Cahiers du Cinema was interested at the time the then magazine editor come out with a short list “Robert Kramer, John Cassavetes, Paul Newman, Stephen Dwoskin, Monte Hellman”. That is a lofty list and one that gives a very specific non-Hollywood entry point for his work.

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Melodrama como Processo

harry-&-son

(English version here)

Paul Newman foi uma estrela de cinema por cinco décadas, ele foi também um grande diretor por um par delas. Algo que não é mencionado muito nos dias de hoje, provavelmente porque os filmes de Newman não circulam tanto quanto podiam (um desses selos de lixo como Criterion bem que poderia lançar uma coleção com esses longas para colocar este processo de redescoberta em movimento, são só seis filmes afinal). Não é como se a carreira de diretor de Newman recebera nenhuma atenção à época, seu filme de estreia Raquel, Raquel (1968) foi indicado ao Oscar, seu último, uma adaptação de The Glass Menagerie (1987) que é provável a melhor filmagem de Tennessee Williams para cinema, esteve na competição de Cannes. A primeira vez que tomei consciência de Newman como diretor foi ao ler uma entrevista de 1977 de Serge Daney, quando perguntado sobre o cinema americano que interessava a Cahiers du Cinema à época seu então editor respondeu com uma pequena lista “Robert Kramer, John Cassavetes, Paul Newman, Stephen Dwoskin, Monte Hellman”. É uma lista de peso e uma que sugere um ponto de entrada bem distante de Hollywood para seu trabalho.

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Letters from a Disappearing Continent

mysteriesofcinema

(versão em portugues aqui)

There’s a new paperback edition of Adrian Martin’s Mysteries of Cinema coming out and that feels like a good opportunity to return to the book (the hardback one was published 2 years ago and costed so much, I assume only libraries bought it). This is a collection of forgotten pieces of Martin’s writing with 26 articles published between 1982 and 2016. The earliest one called “Scenes” is an attempt at dealing with fragmentary moments in movies in a similar radical style and the newest one “The Files We Accompany” (co-written with Martin’s partner Cristina Álvarez López, herself an excellent film critic) is itself a collection of short companion pieces for Martin and Lopez current video criticism work. The opposition between them says a lot about the richness and variety of the writing in this book.

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Cartas de um Continente Desaparecendo

mysteriesofcinema

(English version here)

Há uma nova edição capa mole de Mysteries of Cinema do Adrian Martin sendo lançada e me parece uma boa oportunidade de retornar ao livro (a capa dura foi publicada dois anos atrás e era tão cara que imagino só bibliotecas compraram). Esta é uma coleção de textos perdidos de Martin com 26 artigos publicados entre 1982 e 2016. O mais antigo chamado “Scenes” é uma tentativa de lidar com momentos fragmentários em filmes num estilo similarmente radical e o mais novo ‘The Files We Acompany” (co-escrita pela parceira de Martin Cristina Álvarez López, também uma excelente crítica de cinema) é ele próprio uma coleção de textos menores que acompanham o trabalho atual de Martin e Lopez com crítica em vídeo. A oposição entre eles diz bastante sobre a riqueza e variedade do livro.

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Joe’s Guts

encarnacao

(versão em português aqui)
(Article on Mojica’s body of work here)

Originally published at Revista Paisá in August 2008 when Embodiment of Evil got its theatrical release.

And so the mythological Embodiment of Evil opened. 40 years in production. Out The Other Side of the Wind, with the difference – very typical of Brazilian cinema – that in place of unfinished, our version hadn’t been even shoot. For a film of such size, some annotations instead of a review:

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As Tripas do Zé

encarnacao

(English version here)
(artigo sobre a obra do Mojica aqui)

Artigo escrito originalmente para Revista Paisá em Agosto de 2008 quando do lançamento comercial de Encarnação do Demônio.

E eis que estreou o mitológico Encarnação do Demônio. 40 anos em produção. O nosso The Other Side of the Wind, com a diferença – bem típica do cinema brasileiro – de que no lugar de não-finalizado, nossa versão era não filmada mesmo. Para um filme desse tamanho, alguns apontamentos no lugar de uma crítica:

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Mojica and the Break of Reality

Mojica

This Night I’ll Possess Your Corpse

(versão em português aqui)

Jose Mojica Marins passed last week and learning the news one of the scenes that come to mind was the opening of The Bloody Exorcism of Coffin Joe, a film in which he plays dual roles as the filmmaker Mojica and Coffin Joe, there’s a press conference and a journalist asks the question that animates the film: what matters most creator or creature? The filmmaker-character harshly makes clear that the filmmaker comes first. The film itself produces some frictions on this duality, but remains on the filmmakers point of view. I mention this scene because in front of José Mojica Marins image sometimes the creator comes after the creature, and that is a shame because Mojica didn’t only create Coffin Joe, but was one of our cinema most original voices. The man who promote a break with the world and let every kind of contradiction devour itself in the margins.

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Mojica e a Ruptura da Realidade

Mojica

Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver

(English version here)

Semana passada faleceu José Mojica Marins e diante da notícia uma das suas cenas que me veem a mente é da abertura de Exorcismo Negro, filme no qual ele fazia o papel duplo do cineasta Mojica e de Zé do Caixão, estamos numa coletiva de imprensa e um repórter levanta a bola da pergunta que animaria o filme: o que importa o criador ou a criatura? O cineasta-personagem ríspido deixa claro que é ele cineasta. O filme em si produz algumas fricções nessa dualidade, mas é sempre mostrado do lado do cineasta. Menciono essa cena porque diante da imagem de José Mojica Marins por vezes o criador parece vir depois da criatura, o que é uma pena pois Mojica não só criou o Zé do Caixão, mas foi uma das vozes mais originais do nosso cinema. O homem que promoveu uma ruptura no mundo e deixou todo o tipo de contradição se auto devorar nas margens.

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Environmental Horror

darkwaters

(versão em português aqui)

Most of the reactions to Todd Haynes’ new film Dark Waters seem to center in its conventional status, its position as a film Haynes made as a favor for his friend Mark Ruffalo, not a real Haynes film, but a failed Oscar bait project. There’s two things to observe in such descriptions: first, a certain suspicious towards a kind of political minded film, one that comes from a fair lack of patience about films who use its important subject matter as a crutch, if it is true Dark Waters is an important movie that knows it is an important movie, that isn’t on itself neither a good or bad thing (see also both the good and bad films from Ken Loach). Second, the accusation of conventionality is rather weird for me. It is true Haynes started his career as a provocative artist with movies like Poison (a good title for Dark Waters by the way), but he made a conscious decision towards accessibility a long time ago. None of Haynes work of the past two decades is particularly radical, films like Far From Heaven and Carol invest heavily in how they express longing and fear, but do so while operating under very recognizable narratives beats. When his HBO remake of Mildred Pierce got a cold reception that was more due to the visual illiteracy of most TV criticism than any radical gesture, the problem was much more the miniseries playing as unabashed melodrama instead of doubling down on sign posts of prestige. Only I’m Not There among Haynes late work does play against conventional narrative structures and if what matters in all the others is his manner, it is worth pointing out that it has more to do with an intensification of feelings than his background as a semiotics specialist. Haynes work traffics in emotions more than ideas and as such Dark Waters is a success.

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Horror Ambiental

darkwaters

(English version here)

Boa parte das reações ao novo filme de Todd Haynes, O Preço da Verdade, parecem se centrar no seu status convencional, sua posição de um filme que Haynes fez como favor para seu amigo Mark Ruffalo, não um verdadeiro filme de Haynes, mais um projeto fracassado de Oscar. Há duas coisas a se observar diante de tais descrições: primeiro, uma certa suspeita em relação a um tipo de filme político, uma que surge de uma falta de paciência justa para com filmes que usam sua temática importante como muleta, se é verdade que O Preço da Verdade é um filme importante que sabe ser um filme importante, isto em si não é nem algo bom ou ruim (veja também os bons e maus filmes de Ken Loach). Em segundo lugar, a acusação de convencional me parece bastante estranha. É verdade que Haynes começou sua carreira como um artista provocador em filmes como Veneno (um bom título para este aqui também), mas ele tomou uma decisão consciente rumo a acessibilidade muito tempo atrás. Nenhum dos filmes de Haynes das últimas duas décadas é especialmente radical, filmes como Longe do Paraiso e Carol investem pesadamente em como expressar desejo e temor, mas o fazem enquanto operam por caminhos narrativos bem reconhecíveis. Quando o seu remake para HBO de Mildred Pierce obteve uma recepção fria, isto se deveu muito mais o analfabetismo visual da maioria da crítica de TV do que qualquer gesto radical, o problema era minissérie se assumir como melodrama no lugar de reforçar os sinais de dramaturgia de prestigio. Entre os filmes tardios de Haynes somente Não Estou Lá trabalha contra estruturas narrativas convencionais e se o que importa nos demais seja sua abordagem, é justo apontar que este tem mais relação com uma intensificação de sentimentos do que seu passado de especialista em semiótica. O trabalho de Haynes passeia mais em emoções do que ideias e nesses termos O Preço da Verdade é um sucesso.

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Detour

detour

O meu irmão, Guilherme Martins, está com um podcast novo chamado Detour dedicado a filmes de gênero. Eu devo ser presença constante por lá. A ideia é geralmente fazer sessão dupla (ocasionalmente tripla) com filmes diversos. O primeiro programa está no ar com o Guilherme recebendo eu e o Francis Vogner dos Reis para um papo sobre Traga-me a Cabeça de Alfredo Garcia do Sam Peckinpah e o Fuga de Nova York do John Carpenter.

O site oficial do podcast é este aqui.  O programa piloto já está no ar no Spotify, Soundcloud, Castbox, Deezer e deve chegar a outros espaços como Apple e Google Podcasts ainda essa semana.  Vou buscar manter uma pagina aqui no bog atualizada com minhas participações nele.

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War Camera, War Generals

1917

(versão em português aqui)

Most of the discussion around 1917 centers around its false one-shot structure. It is without a doubt a showy dead-end stunt, but unlike something like Birdman, to get another “Oscar movie” from a few years ago that tried a similar stunt, the immersive quality does have a function. As a vehicle for cinematographer Roger Deakins, 1917 true star, and as a pure spectacle it does deliver a certain amount of small pressures, the more troubling aspects aren’t the execution itself but the foundation and consequences behind. I understand why cinephiles can be suspicious of such stunts, but I personally have no more problem with them than I do when a movie is shot in B&W, the complains have a reactionary undercurrent that suggest the way most commercial movies are made is the natural standard bearer for how movies should look. There’s something deeply stupid in movies like Sebastian Schipper’s godawful Victoria (2015) but that comes from trying to make an elaborate drama in conditions that don’t support one, a movie like 1917 that is really a series of long shots well disguised together is much more likely to sustain itself. There is little to the format beyond formalism as a form of Hollywood showmanship and a weak “war is one continuous carnage” idea, but that on itself is a starting point to be investigated and not an end.

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Câmera de Guerra, Generais de Guerra

1917

(English version here)

Boa parte da discussão entorno de 1917 se centra sobre a estrutura do falso plano-sequência. É sem dúvidas um truque de uma nota só espalhafatoso, mas ao contrário de Birdman, para ficarmos em outro “filme de Oscar” de alguns anos atrás que tentara truque semelhante, a qualidade imersiva tem sua função. Como veículo para o fotografo Roger Deakins, a verdadeira estrela do filme, e como espetáculo puro o filme entrega uma série de pequenos prazeres. O que ele tem de mais problemático surge menos na execução em si, mas na sua fundação e consequências por trás dela. Entendo porque cinéfilos podem ter desconfiança diante de tais truques, mas eu tenho por princípio tão pouco problema com eles do que com um filme fotografado em P&B, as reclamações me parecem terem sempre um subtexto reacionário que sugere que a forma como a maioria dos filmes comerciais é feita como uma forma ideal de que filmes devem buscar. Há algo profundamente estúpido em filmes como o péssimo Victoria (2015), de Sebastian Schipper, mas isso tem relação com como eles tentam elaborar dramas em condições que não o suportam, um filme como 1917 que na verdade é uma série de planos sequencias longos bem disfarçados como um só tem muito mais chances de se sustentar. Há pouco no formato para além de formalismo como uma forma de show Hollywoodiano e de uma ideia fraca de “guerra como uma carnificina continua”, mas isso em si é um ponto de partida a ser investigado e não um fim.

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