Alguns Filmes da Semana (20 a 26/01)

The Lusty Men - 1952

O Idiota (Akira Kurosawa, 1951)
Venho desde o ano passado vendo e revendo a filmografia do Akira Kurosawa e há algo de fascinante em reencontrar esta adaptação de O Idiota neste contexto. A primeira hora do filme é um tanto tateante, como se ele buscasse encontrar uma forma ideal de permitir o texto de Dostoevski existir no Japão contemporâneo, tudo sugere uma das radiografias sociais que Kurosawa se especializara no fim dos anos 40, mas sem a mesma força. Então em algum ponto do começo da segunda hora o drama se afinal e se torna dilacerante. Toda a mão pesada típica de Kurosawa entra em sincronia com o material, há um corpo a corpo com os personagens enquanto caminham para a danação: entoação, linguagem corporal, quadro, luz, tudo é pintado em tintas bem grossas, mas inevitáveis. Não acho que se correto apontar o filme como algum ponto de virada, mas é certo que a segunda metade aqui se aproxima mais de um filme ideal da imagem que se tem de Kurosawa.

The Lusty Men (Nicholas Ray, 1952)
Outra filmografia que revejo aos poucos desde o ano passado e curiosamente mais um filme sobre danação. Difícil não pensar Hawks na maneira como Ray transforma o rodeio numa forma para machões perdidos no mundo de cortejar a morte.  Ray faz uma radiografia muito mais cuidadosa do meio do rodeio e o que em Hawks seria uma tentativa de disfarçar o mal estar pelo viés estoicismo juvenil, aqui é de uma aceitação pungente. Quando num filme de Hawks dos anos 30 um personagem comete “suicídio” ao aceitar uma missão sem volta haverá sempre o sentimento de uma trabalho maior, de um ato cumprido, mesmo que o profissionalismo exista para disfarçar esta pulsão da morte, nada de desculpas aqui, quando Mitchum vai para a arena se matar, o faz, pois, o filme está acabando e Mitchum nasceu para morrer numa queda daquelas. Todas as personagens apontam para ele a falta de nexo de sua decisão e ele até recusa a explicação de trama de que ele queira competir com o ex-protegido mal-agradecido vivido por Arthur Kennedy. Não há nada, apenas uma consciência do fim eminente.

Forever Yours (Wen Yi, 1960)
Outro filme fúnebre (juro que é uma coincidência), mas um pensando para manter uma superfície solar. Este melodrama é veículo para Grace Chang, a maior estrela de Hong Kong no fim dos anos 50, começo dos 60. Acho que é o seu único filme que não é nem um musical ou uma comédia, sabemos que o filme se quer sério pois ele sequer arranja uma desculpa para Chang cantar (não que a indústria local tivesse problemas em fazer Grace Chang sofrer em muitos dos seus musicais, além dela ter sido uma excelente Carmem em The Wild Wild Rose). Aqui ela se apaixona e casa com um sujeito com doença terminal, mas no lugar do filme ser uma sucessão de desgraceiras, toma-se o caminho oposto, tudo na relação deles parece dar certo. O filme tem uma tensão muito interessante entre este tom ligeiro e a nuvem pesada que paira sobre os personagens, da nossa consciência da tragédia inevitável do terceiro ato.

Professor Marston e as Mulheres Maravilhas (Angela Robinson, 2017)
É fácil desmerecer este filme na sua superfície de biografia quadradona, e usar o termo “filme careta sobre personagens pouco convencionais”, mas ele me parece bem mais interessante que isso. A diretora e roteirista Angela Robinson pega o que devia ser um problema, a quase completa ausência de informação biográfica sobre a vida privada dos Marstons para além do fato que ela existia, num mérito, já que seu filme acaba se revelando muito mais um ensaio sobre as ideias dele sobre poder e desejo do que propriamente uma dramatização. E devo dizer que os três atores centrais são ótimos, em particular Rebecca Hall.

The Post (Steven Spíelberg, 2017)
Costumo curtir estes filmes de lição cívica do Spielberg, acho que é um tipo de filme que ele faz bem, mas tem algo frustrante neste The Post. Creio que tem a ver com quão pouco interesse o filme demonstre de fato pela história original, não há muita curiosidade a respeito dos chamados Pentagon Papers, sobre Vietnã ou o governo Nixon. Quando se assiste Lincoln ou Ponte de Espiões, para pegar os dois filmes recente dele nesta chave, por tudo que eles tenham a dizer sobre as concessões e dilemas da política americana nos anos Obama, eles são também filmes bem precisos sobre as negociações políticas da abolição da escravidão e da guerra fria. Aqui, a discussão sobre liberdade de imprensa existe num vácuo abstrato, os jornalistas de Spielberg não investigam nada, os documentos confidenciais que Hanks quer publicar pouco importam para além do dado de que o governo não quer que eles sejam publicados.  Sem um material dramático mais firme, o filme faz agua, mesmo que o Spielberg seja hábil em inserir dinamismo no pouco que há de material jornalístico e que Streep esteja muito bem.  A velocidade com que o filme foi feito dá ele menos urgência do que sugere um lado preguiçoso bem incomum (aquela abertura no Vietnã é um horror), Eastwood faz este tipo de produção as pressas com roteiro a uns dois drafts do ideal com frequência, mas eu diria que ele bem mais habilidoso em imaginar momentos individuais do que Spielberg. Uma coisa que me intrigou no filme foi a opção por cercar Streep e Hanks, dois dos atores mais icônicos do cinema americano hoje, com um elenco de apoio toda associado com televisão~, tem um efeito de distanciamento curioso.

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