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Mostra 2019 – Recomendações

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Amazing Grace

Aquele post anual de recomendações da Mostra. Vem este ano em 5 grupos. Uma primeira lista de dez, uma segunda, 10 brasileiros, mais dez apostas e depois o resto.

Fora isso, recomendo muito os dois filmes antigos do Rosemberg, Jardim de Espumas e Cronica de um Industrial, que participam da homenagem a ele. A copia restaurada de Satantango e tem bons filmes na retro do Assayas apesar de achar a seleção bem decepcionante. Continuar lendo

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Nova História do Cinema Brasileiro (org. Fernão Ramos e Sheila Schvarzman)

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Lançado no final do ano passado pela Editora do Sesc, Nova História do Cinema Brasileiro (org. Fernão Ramos e Sheila Schvarzman) é um trabalho bastante ambicioso. 25 artigos e cerca de 1100 páginas vindo de um grupo amplo de pesquisadores de cinema brasileiro dividido em dois volumes. Menos uma revisão como o nome pode sugerir e mais um esforço de atualizar alguns dos princípios da historiografia do cinema brasileiro a partir de correntes mais contemporâneas. Há aqui uma bem-vinda ênfase no mercado exibidor, uma redução num autorismo que se foca exclusivamente no conteúdo dos filmes, um destaque maior ao filme documental e também a esferas do cinema popular geralmente negligenciadas em estudos do tipo (artigo sobre a boca do lixo e o beco da fome e outro sobre as comedias contemporâneas, além de maior ênfase na produção mais comercial da Embrafilme). O fantasma dos questionamentos do Jean-Claude Bernardet sobre as limitações da historiografia clássica do cinema brasileiro paira sobre o livro e um desejo de oferecer uma resposta prática.

O enfoque na exibição é especialmente bem-vindo considerando as dificuldades do cinema brasileiro de pensar a difusão. Um dos melhores artigos do livro é justamente o de Carlos Roberto de Souza e Rafael de Luna Freire que lida com a chegada do cinema sonoro ao Brasil e que trata tanto da lenta transição ao longo dos anos 30 do nosso parque exibidor quanto das primeiras experiências sonoras realizadas por aqui. É um artigo que soma muito as quase 300 páginas que detalham o cinema silencioso brasileiro que abrem o volume e que outras histórias poderiam negligenciar.

Se há um eixo que sustenta o livro é justamente a relação entre realizadores/governo/exibidores.  Neste sentido Nova História do Cinema Brasileiro é uma obra política fundamental fazendo um esforço grande de traçar um panorama histórico das politicas governamentais para com a indústria cinematográfica começando com o papel dos governos locais e brasileiro como clientes a encomendar filmes documentais até a Ancine. Por exemplo, os artigos que lidam com a produção das décadas de 40 e 50 fazem um ótimo cronograma das primeiras tentativas do governo de estabelecer uma obrigatoriedade da exibição do filme brasileiro.  Da mesma maneira, Tunico Amancio realiza um bom trabalho sobre a Embrafilme. Se há uma fragilidade estrutural no livro ela me parece justamente uma dificuldade para fazer o movimento entre as políticas de estado e ideologia. Salvo pelos artigos de Natalia Christofoletti Barrenha e Sheila Schvarzman que lidam com o INCE e uma menção no texto de Fernão Ramos sobre o fim da Embrafilme sobre o neoliberalismo de Fernando Collor de Melo, os artigos tem dificuldade articular como os governos se articulam ideologicamente diante do audiovisual. O mesmo artigo do Fernão Ramos, por exemplo, menciona a ironia de Celso Furtado, um economista de esquerda, ter dado os primeiros passos para o desmonte da Embrafilme, mas não pensa nos efeitos da passagem dos militares ao Sarney sobre a empresa (assim como quando se discute a produção contemporânea se aponta uma mudança após a passagem de Fernando Henrique Cardoso a Lula, se de fato se aprofundarem sobre o que a mudança significava.  A despeito disso, os dois volumes são certamente o trabalho de mais folego sobre as políticas de estado quanto ao cinema brasileiro.

Há também uma tendência a isolar o cinema brasileiro que as vezes cobra seu preço. Salvo por algumas referências as diferenças entre as realidades de mercado da indústria brasileira quando comparada as da Argentina e México no capítulo sobre a Vera Cruz, o cinema brasileiro existe quase por si só ao longo do livro, o filme estrangeiro aparecendo somente pelo viés do embate. Os dois textos que lidam com a indústria popular e sua crise nos anos 80, nunca buscam pensar ela no contexto de crises similares pelo mundo, fala-se da pornografia, mas não do mercado do mercado de home vídeo, etc. Falando em senões não passo deixar de apontar um certo incomodo dos anos 60 serem cobertos em dois artigos de folego (cerca de 180 páginas entre eles) do organizador Fernão Ramos na contramão da pluralidade do resto do livro. Há passagens ótimas como as sobre Paulo Emilio que liga os dois textos, mas há uma mudança notável para um trabalho mais detalhado de análise crítica (a passagem sobre Deus e o Diabo na Terra do Sol tem dois terços do tamanho do artigo sobre cinema experimental da Guiomar Ramos e Lucas Murari), o que dá para o período um certo olhar privilegiado e faz esta parte um bom livro dentro dos livros. Com todos os ótimos esforços de expandir um olhar sobre o cinema brasileiro é notável o número de realizadores relevantes que pouco ou nada são mencionados (Carlos Hugo Christensen, Domingos de Oliveira, Braz Chadiak, Alberto Salvá) porque não cabem bem nos recortes escolhidos, o que me indica que ainda a espaço para melhorar nesse sentido. E não posso esquecer de dizer que apesar de compreensível dada a extensão dos dois volumes, como pesquisador a ausência de um índice remissivo deu dor de cabeça para escrever este post de blog, imagina consulta para um trabalho de mais folego.

Estes senões são menores diante dos acertos da obra. A seção sobre cinema silencioso, os capítulos sobre cinema independente dos anos 40/50 (e da chanchada), o foco na Boca do Lixo/Beco da Fome/Embrafilme, o excelente artigo sobre a produção de comedias contemporânea, entre outros.

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Favoritos de 1967

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Post especial no blog hoje com meus filmes favoritos de 1967. O formato é o mesmo dos posts de fim de ano, mas com 100 filmes. Único critério é que todos os filmes tenham mais de 45 minutos, o que derrubou Wavelength do Michael Snow e alguns curtas.

Menções Honrosas: Os 26 do Expresso Postal/Robbery (Peter Yates), The Affair (Yoshishige Yoshida), Les Caifanes (Juan Ibañez), Cara a Cara (Julio Bressane), O Cérebro de um Bilhão de Dólares/Billion Dollar Brain (Ken Russell), Col Cuore in Gola (Tinto Brass), A Dança dos Vampiros/The Fearless Vampire Killers (Roman Polanski), Diabolicamente Tua/Diaboliquement Vôtre (Julien Duvivier), Um Dolar para Matar/Bandidos (Massimo Dallamano), Don’t Look Back (D.A. Pennebaker), O Golpe do Século/The Jokers (Michael Winner), A Grande Cilada/A Time for Killing (Phil Karlson, Roger Corman), I, a Man (Andy Warhol, Paul Morrissey), King Cat (Hsu Tseng-hung), A Lagrima Secreta/Poor Cow (Ken Loach), Lobo Samurai 2/Samurai Wolf II (Hideo Gosha), Love Affair (Dusan Makajanev), A Mulher de Meu Pai/La Mujer de Mi Padre (Armando Bo), On Paper Wings (Matjaz Klopcic), Os Onze Samurais/Eleven Samurai (Eichi Kudo), Operação Irmão Caçula/Ok Connery (Alberto de Martino), Quem Bate a Minha Porta?/Who’s That Knocking at My Door? (Martin Scorsese), Texas 1867/Payment in Blood (Enzo G. Castellari), Velvet Hustler (Toshio Masuda), Vou, Mato e Volto/Any Gun Can Play (Enzo G. Castellari).

100) Capricho/Caprice (Frank Tashlin)
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No final da carreira o humor cartunesco de Frank Tashlin se revela mais contido quase civilizado porém não menos caustico. Doris Day e Richard Harris são um casal bem improvável mas muito bem aproveitado.

99) A Morte Não Conta Dólares/Death Does Not Count the Dollars (Riccardo Freda)
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O velho oeste não é o espaço mais natural para um mestre do gótico italiano como Freda, mas este é um Spaghetti perverso e cheio de soluções inventivas.

98) Breves Encontros/Brief Encounters (Kira Muratova)
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Filme de estreia de Muratova prenunciando muito do que ela viria fazer depois, se menos radical e mais mergulhado nas tradições dos cinemas dos países comunistas do período.

97) O Incerto Amanhã/Hurry Sundown (Otto Preminger)
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Um filme sobretudo para fãs de Preminger com um trabalho de encenação dos mais vigorosos a serviço de um melodrama épico sobre disputas de terra no sul dos EUA bem irregular. Uma das vantagens de se falar sobre filmes de mais de 50 anos é que aquilo que à época poderia ser só um problema, como a incapacidade de Preminger de imaginar as cenas com a família negra, ganham em retrospecto muito de interesse.

96) …E o Bravo Ficou Só/Will Penny (Tom Gries)
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Dos melhores faroestes revisionistas americanos do período. Charlton Heston possivelmente nunca teve oportunidade melhor de ir além da imagem de astro de ação. Tom Gries é uma figura irregular, mas muito curiosa desse período que tende a terminar soterrada diante de figuras mais chamativas da Nova Hollywood. Continuar lendo

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A Home with a View (Herman Yau, 2019)

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Entrou recentemente no Netflix, a Home with a View, um dos três filmes que Herman Yau já lançou este ano. Boa oportunidade para tomar algum contato com a obra bastante particular de Yau. Trata-se de um bem reconhecível comedia de Hong Kong com seus excessos e falta de vergonha, como bem típico de Yau é um filme cujo ponto de partida lida de forma bem direta com algum problema local, no caso a crise habitacional. Hong Kong é dona de uma das maiores densidades populacionais do mundo e se boa parte do cinema comercial local em sincronia com a indústria chinesa se dedica a vender um estilo de vida cheio de apartamentos super espaçosos, a realidade local é de que a não ser que se tenha muita grana qualquer coisa especialmente acima de um quarto/sala é um luxo.  O filme de Yau se centra numa família média (pai Francis Ng, mãe Anita Yuen, avô Lawrence Cheng, um casal de filhos adolescentes) tomada pelas nuroses locais cujo maior alivio é a vista do porto da cidade da janela da sala/cozinha, até o dia que o morador da cobertura da frente instala um outdoor ilegal tampando o pouco de natureza visível. Yau tira o máximo do conceito muito teatral da vista da janela, assim como de todos os quartos e corredores estreitos que ocupam uns 90% da ação do filme. Todas as personagens são neuróticas a começar com Koo se divertindo muito como a personagem mais cartunesca e simpática do filme. O humor segue firme sobre o absurdo das situações. Indo da farsa burocrática com a família buscando os mais diversos órgãos públicos para regularizar a situação e o governo incapaz de lidar com a afirmação de Koo de que o outdoor é uma “obra de arte patrocinada”, até ser aos poucos tomado pelo desespero. Para um filme construído sobre uma série de situações absurdas destinadas a subir de tom por rolo, A Home with a View tem uma visão muito reconhecível de depressão e vida nas grandes cidades. Para quem se interessar, também disponível no Netflix no mesmo tom de farsa cotidiana, Shark Busters (2002), no qual Yau lida com uma epidemia na época de policiais em dívida com agiotas. É o que mais me fascina na obra de Herman Yau ao longo de 60 filmes em três décadas ninguém deixou um olhar mais especifico sobre como se vive em Hong Kong no período independente de filmar fitas policiais, de horror super violentas ou comédias rasgadas.

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Ecrã 2019: Mirante e Anos de Construção

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Mirante

Semana passada aconteceu na Cinemateca do MAM no Rio, a terceira edição do Ecrã, festival de cinema experimental que na contramão da maioria dos festivais brasileiros segue crescendo e se notabiliza por um perfil bem mais arriscado de curadoria. Não tive chance de ir ao Ecrã este ano, mas pude conferir alguns filmes e aproveito para deixar aqui algumas anotações sobre dois que me pareceram muito interessantes Mirante do Rodrigo John e Anos de Construção do Heinz Emigholz.

Ambos são filmes construídos no fortuito da passagem do tempo. Em Miragem, o cineasta em recuperação prostrado na cama do quarto observa o que transcorre ao seu redor, enquanto em Anos de Construção, Emigholz acompanha ao longo de cinco anos o processo de renovação do museu Kunsthalle Mannheim na Alemanha.

Mirante é um filme animado por esta tensão entre a imobilidade e o desejo de ficção. Um fie sobre a possibilidade de se fazer um filme da cama de casa. Me fez pensar bastante no Diários da Grave do Guilherme Sarmiento que também era um filme todo na oposição entre o imobilismo e as questões animadas pelo mundo exterior. O filme do Sarmiento se assumia abertamente político desde as imagens iniciais, enquanto o de Rodrigo John vai se revelando aos poucos. A primeira metade vai animando as possibilidades de construção ficcional e o que talvez seja ainda mais essencial, as formas como a câmera do realizador pode ou não travar um corpo a corpo com as pessoas na rua. O mecanismo de Janela Indiscreta (sobretudo a primeira metade quando Hitchcock está interessado nas vinhetas da vida do prédio da frente que é algo geralmente ignorado em apropriações) tropicalizado. Com o tempo esses pequenos interlúdios e os ecos do entorno do realizador vão ganhando contornos opressores e eminentemente políticos. É impossível deixar o Brasil fora do seu quarto ou para fora de um filme brasileiro. Este movimento de contaminação é muito da força do filme tanto pela contaminação em si como dos possíveis sintomas e vícios que ela revela.

No outro extremo Anos de Construção é um filme bem claro desde o princípio. Emigholz entrega o que promete de forma por vezes ilustrativa. É um corpo estranho na obra do realizador porque as políticas de espaço que tanto lhe interessam são vistas aqui não do ponto de vista dos resultados do projeto arquitetônico, mas da intervenção da obra sobre o espaço. O filme me fez pensar bastante no Reconversão do Thom Andersen outro documentário sobre arquitetura e como o espaço é reimaginado, mas enquanto o trabalho de Eduardo Souto de Moura existia em função de reforçar os efeitos do contato do homem com o espaço, a renovação do museu aqui é imaginada em termos mais funcionais possíveis. Anos de Construção é um filme mais abertamente materialista para Emigholz, um filme de mergulho no processo, no gesto da construção, mas ele permanece um intelectual voltado para pensar nos resultados. O mergulho na obra é protocolar, uma comissão do próprio museu e o miolo do filme gira em falso. A força do filme está nas primeiras e nas ultimas sequencias quando Emigholz documenta o espaço sendo preparado para a intervenção e depois no momento em que é preparado para ser reaberto ao público. Como o espaço é repensado em termos contemporâneos e a carga ideológica do não-dito de tal processo. Há como sempre em Emigholz muito a se retirar sobre as políticas do espaço.

Um adendo: entre os curtas exibidos no Ecrã estava Reading Binging Benning que Kevin B. Lee e Chlóe Galibert-Lainé realizaram para uma oficina de crítica no festival de Roterdã do ano passado. Basicamente um diálogo sobre ver os filmes de James Benning. Pensei bastante nele enquanto via Anos de Construção e sobre as diferenças entre os projetos de Emigholz e Benning que podem superficialmente soarem próximos. Um dos pontos que os realizadores tratam é o que trazemos para a experiência do filme e eu habitualmente tenho relações radicalmente opostas quanto a Benning e Emigholz. Pouco leio sobre os filmes do realizador americano antes de vê-lo, mas faço sempre uma pesquisa sobre os do alemão, não necessariamente sobre o filme, mas sobre os seus assuntos.  O filme não se completa sem um universo mais amplo de informações. Não acho isso nem bom nem ruim, mas é uma diferença de experiência. Uma das coisas boas de um festival como Ecrã é que ele também nos faz pensar no entorno dos filmes.

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Faca no Coração (Yann Gonzales, 2018)

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Desde o começo dos anos 2000, o giallo como expressão artística valida foi bastante revalorizado, muito pelo relançamento de clássicos (e as vezes nem tão clássicos assim) em bons transfers em home vídeo. O que resultou na última década num festival de filmes que trabalham sobre motivos e recorrências do gênero (a dupla Forzani/Cattet e Peter Strickland vem a mente em particular), filmes que no geral soam completamente equivocados nas suas afetações acadêmicas uma ideia que foi elevada a pontos grotescos no recente remake de Suspiria. A não ser que você seja Brian De Palma não há motivo algum para ler suas anotações sobre o funcionamento e prazeres dos mecanismos do horror italiano. Neste contexto é um prazer encontrar Faca no Coração do Yann Gonzales atualmente em cartaz no Mubi até os primeiros dias e agosto. Trata-se de um dos filmes mais divertidos do ano passado, com um domínio de cor e ritmo e uma ideia muito precisa de como fazer pastiche sem que o filme se limite a existir nessa chave. A equação entre sexo e morte (o filme se passa nos bastidores do universo pornô gay do fim dos anos 70) é mais um motor de cinema erótico do que o excesso puritano ao qual frequentemente reduzida. É sobre o prazer da encenação. Gonzales tem uma ideia sobre danação e decadentismo desprovida de julgamentos óbvios. E há um desejo muito forte de localizar nessa tradição algo que fale fundo ao espectador LGBT, mas que geralmente é ignorado nas leituras mais habituais sobre o gênero. Gonzales tem um sentido forte das possibilidades de aproximação entre perversão e emoção que o gênero permite, sobre o significado de encenar a morte num contexto operístico de arte italiana. Pode-se se tratar de um gozo interrompido, mas a ênfase permanece no gozo e não na interrupção O filme pode desaparecer no próprio delírio não fosse a presença de Vanessa Paradis como a diretora cujos atores começam a morrer um a um e ao qual cabe pouco mais do que seguir encenando enquanto o seu mundo sai do lugar, ela tem uma noção de encontro entre melodrama e horror que ancora muito bem o filme, uma transparecia de sentimentos que balanceia o artifício das imagens. Gonzales tem uma ideia muito clara de como toda a tradição italiana trabalha com um sentimento expansivo e como isso casa com o excessivo no filme de horror. Faca no Coração passou na competição de Cannes ano passado por algum motivo misterioso e é certamente um dos maiores acertos recentes deles. Segue no Mubi por mais quatro semanas.

 

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Gianvito e Dreyer no IMS

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Neste mês o Instituto Moreira Salles através da sessão mutual promove exibição dupla de A Palavra de Carl Theodor Dreyer e A Busca do Lucro e o Sussurro do Vento do John Gianvito. Programa imperdível. O filme do Dreyer é uma obra prima que merece sempre ser mais vista, mas sobre o qual já se escreveu uma literatura bastante rico. O do Gianvito é pouco conhecido e um dos meus filmes favoritos da década passada.  Sobre ele escrevi em 2008 numa cobertura do Festival de Buenos Aires:

Ontem mencionei que Charles Burnett representava uma alternativa para a ideia que normalmente temos de cinema americano, hoje meu festival foi bastante marcado justamente por essa ideia, especialmente por conta do maravilhoso Profit Motive and the Whispering Wind, de John Gianvito. O cineasta é um professor universitário, programador e crítico bissexto que realiza aqui o seu segundo filme, um média-metragem de cerca de uma hora que parte de A People’s History of United States, uma espécie de história alternativa dos EUA escrita por Howard Zinn a partir do ponto de vista de líderes sindicais, chefes indígenas, pioneiras dos diretos da mulher etc. Gianvito procura os memoriais e lápides das pessoas mencionadas por Zinn e os alterna com planos de natureza. O que emerge do mergulho de Gianvito é o profundo sentimento de história coletiva, assim como um exercício poderoso de transformar memória em arma política. Alguns dos túmulos visitados são de nomes conhecidos (Malcolm X, Paul Robeson, John dos Passos), mas a maior parte nos daria trabalho mesmo numa pesquisa de Google. A influência do casal Straub/Huillet é visível, e na ênfase na natureza, e em particular da força do vento – poucas vezes captado com tanto cuidado – Gianvito consegue fazer com que toda está história ressoe muito viva nos dias de hoje. A primeira vista uma descrição pode sugerir um filme difícil, mas bem distante disso, Profit Motive and the Whispering Wind é um filme emocionante e contagiante dentro do seu otimismo”.

Eu tenho alguns senões quanto ao movimento do terceiro ato da história para o presente que acho menos bem-sucedido do que Gianvito gostaria. Por outro lado, me fascina muito pensar a recuperação da história da esquerda americana que o filme realiza a luz da última década da vida pública local. Há no trabalho de Gianvito um prenuncio de uma série de movimentos para questionar a narrativa neoliberal dominante que viriam a ocupar o imaginário de setores progressistas americano. Fico pensando também em como tamanho filme de exceção tão combativo e ambicioso surgir num espaço onde a narrativas oficiais renegam qualquer possibilidade de uma tradição socialista e o quão pouco o cinema brasileiro procurou de fato pensar nossa história nos últimos quinze anos com essa contundência salvo ai esforço individuais específicos como o do Adirley Queirós.

Os filmes passam no Rio neste Sábado dia 6 (16h e 17h30) e na quarta dia 10 (18h30 e 20h)  e em São Paulo nos dias 18 (19h e 20h30) e 21 (18h e 20h).  Sempre com o filme do Gianvito passando primeiro.

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