Alguns Filmes da Semana (27/01 a 02/02)

estranhoencontro

Estranho Encontro

Estranho Encontro (Walter Hugo Khouri, 1958)
Creio que não via Estranho Encontro desde a retrospectiva do Khouri no CCBB, creio que em 2002. É meio um choque reencontra-lo agora. Aquelas imagens super estudadas do Khouri colocadas num contexto dramático em que não só fazem todo o sentido, mas que dotam elas de uma abrasividade que o cinema dele normalmente não tem. Lembrei-me que Jairo Ferreira na primeira edição do Cinema de Invenção escreveu um capítulo sobre os filmes de horror do cineasta localizando-os na nossa tradição do experimental. É um jogo de poder claustrofóbico, um estudo cuidadoso de opressão langiana a partir dessa figura da mulher explorada, a câmera do Khouri só um objeto a mais de agressão assim como a arquitetura daquela casa de campo burguesa de trevas. É algo entre Val Lewton e Buñuel, mas tão brasileiro que a salvação é um gigôlo (quase um Breakfast of Tiffanys campestre e decadente). Tudo recoberto por uma atmosfera de fetiche sexual perverso e sem filtros.

Zatoichi and the Chest of Gold (Kazuo Ikehiro, 1964)
Sexto filme da série de Ichi, o samurai cego. Depois de ser apresentado no primeiro filme, os quatro seguintes se moveram no sentido de tirar mais e mais elementos dele. Faz sentido que nessa altura ele seja tabula rasa para aventura e este é o filme mais funcional e direto da série até aqui. O que sobra são aqueles temas centrais do filme de samurai, honra e ganancia e no centro Shintaro Katsu cuja presença projeta este movimento continuo da ação. O diretor Kazuo Ikehiro, estreante na série, entrega algumas cenas de luta de espada inspiradas e o filme tem o misto de estilização e contenção que caracterizam os esforço de mitificação da série.

The Flying Dagger (Chang Cheh, 1969)
Poucos sabem por aqui, mas foi o sucesso de filmes de samurai em geral e da série Zatoichi em particular que levou a Shaw Brothers a se mover da operetta ao filmes de espadachim no qual Cheh fez seu nome (um dos últimos filmes da série devolve o favor com Katsu enfrentando Jimmy Wang Yu em Zatoichi meets the One-Armed Swordsman).  The Flying Daggger é um perfeito exemplar de Chang Cheh no que ele tem de mais vital. Um tratado sobre violência como uma doença que se espalha, cada paulada da adaga voadora prometida pelo título se multiplicando em outras três. O prologo engenhoso (rodado num P&B expressivo que por si só o destaca dos filmes de ação locais da época) oferece o tom com um casal sendo assassinado e a heroína extraindo a justiça/vingança do assassino que vai promover a contra ação. O preto e branco também ajuda a reforçar a crueza da violência aqui. O herói em si é Lo Lieh, sempre o mais distante dos protagonistas de Cheh, uma qualidade que é bem explorada aqui e reforça o tom áspero e movediço do filme.

D’jagão Mata para Vingar (José Mojica Marins, 1973)
Ninfas Diabólicas (John Doo, 1978)
Violência e sexo. Estradas diferentes de perdição. Um pouco da vitalidade da indústria de cinema brasileira, aquela que nosso discurso anti-histórico insiste não existia. Mojica longe do registro do horror, mas no faroeste no qual ele também sempre se aclimatou bem (estreou por ele em A Sina do Aventureiro), intrigas e vingança em cima de vingança. O protagonista cigano oferece um desvio a mais e meio que sugere uma versão peculiar de aproximação com o faroeste indianista em voga em Hollywood na época. A se notar a montagem de Mojica de uma fluição e liberdade que ajudam a reorientar o sentido de tal estrada da violência. John Doo não tem a forma invulgar de Mojica, pelo contrário Ninfas Diabólicas vai com facilidade do livre ao canhestro, tem dificuldades de negociar este meio termo entre horror e pornochanchada (Garret fazia isso com mais habilidade, por exemplo). É um filme de sereias míticas, aqui transvestidas de ninfetas colegiais. O marinheiro vira o pai de família enjoado vivido por aquele operário padrão da indústria de São Paulo Sergio Hingst que encarna como sempre o enfado paulistano como ninguém. O desvio pela praia de Santos, espaço de lazer do trabalhador paulistano por excelência, vira aqui o palco da danação enquanto o triangulo do poder vai aos poucos se movendo. Não um filme com o completo do controle do que faz, mas sempre um filme de grande força.

Projeto Flórida (Sean Baker, 2017)
Parte do que me fascina aqui é o diálogo entre  conceito e a encenação. Pois muito do filme parece pronto antes da câmera rodar, mas ele existe sobretudo naquele olhar generoso que os filmes do Baker têm, no desejo de criar algo com as suas duas atrizes principais, de existir no momento. Existe este pôr em cena num fluxo constante e existe a rigidez das ideias calcadas na dureza da existência socio-econômica dos personagens, ali no limiar dessa narrativa de dissolução. Quase tudo que se escreve sobre o filme meio que independe dele, pois as ideias já estão ali prontas na pesquisa inicial de imersão que o Baker (de certa forma o dispositivo aqui não está muito distante dos documentários do Eduardo Coutinho). O único momento em que o filme falseia é na cena final quando joga atoalha e assume a mistificação de cinema como saída. De resto o filme existe neste misto de imersão num espaço e imersão com as duas atrizes que fazem mãe e filha. Nisso não surpreende que o filme converge com tanto frequência para o atrito entre elas e Dafoe, que é o elemento mais escrito e mais pensado em cena, o profissional de Hollywood (e que seja na lógica dramática do filme o administrador bem intencionado mas limitado pelas durezas do mundo, o bom neoliberal que a mídia de um modo geral adora mitificar).

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