Lincoln na Cahiers

O Eduardo Valente estava atrás de um espaço para reproduzir a cobertura do Cahiers para o Lincoln do Spielberg e eu ofereci o blog.  São dois artigos mais uma entrevista com o Tony Kushner em francês. Para aumentar o tamanho das imagens é só clickar nelas.

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Algumas listas

holy_motors

Como sempre a edição de janeiro da Film Comment vem acompanhada de listas de melhores do ano de muita gente boa. Separei algumas:

Thom Andersen

Attenberg (Athina Raqchel Tsangari)
O Cavalo de Turim (Bela Tarr)
Era uma Vez na Anatolia (Nuri Bilge Ceylan)
The Forgotten Space (Allan Sekula e Noel Burch)
O Garoto da Bicicleta (Jean-Pierre e Luc Dardenne)
Gerard Richter Painting (Corinna Belz)
Isto Não é um Filme (Jafar Panahi)
Jean Gentil (Israel Cardenas e Laura Amelia Guzman)
Robinson in Ruins (Patrick Keiller)
Tabu (Miguel Gomes)

Anton Dolin

1)O Mestre (Paul Thomas Anderson)
2)Eternal Homecoming (Kira Muratova)
3)Holy Motors (Leos Carax)
4)Prometheus (Ridley Scott)
5)Gebo e a Sombra (Manoel de Oliveira)
6)Amor (Michael Haneke)
7) Paradise:Faith (Ulrich Seidl)
8)Skyfall (Sam Mendes)
9)Mud (Jeff Nichols)
10)O Segredo da Cabana (Drew Godard)

Marco Grosoli

1) Vous n’avez encore rien vu (Alain Resnais)
2)To the Wonder (Terrence Mallick)
3)Florentina Hubaldo, TCE (Lav Diaz)
4)Holy Motors
5)Eternal Homecoming
6)Cosmopolis (David ronenberg)
7)A Bela que Dorme (Marco Bellocchio)
8)The Millenium Rapture (Koji Wakamatsu)
9)Tabu
10)J Edgar (Clint Eastwood)

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Da valoração do exploitation

Mandingo1

Vou escrever sobre Django para a Cinética, mas é difícil ao ler boa parte do que se produziu sobre o filme (aqui, mas também lá fora) não notar como certa preguiça por vezes se apodera do discurso crítico, especialmente na forma como se adota certas lógicas fáceis que acompanham o marketing do filme. 90% do que se escreveu sobre o filme parece bater na tecla de que se trata de uma sátira/homenagem ao faroeste italiano a começar pelo filme homônimo do Sergio Corbucci. Não deixa de ser curioso notar que não houve nem de longe a mesma insistência em conectar o mais bem visto Bastardos Inglórios com o filme do Enzo Castellari que lhe emprestava o nome, por sinal o protagonista daquele filme Bo Svenson está em Bastardos tanto quando Franco Nero neste, mas sem receber um décimo da atenção. Django Livre tem certamente sua dose de faroeste italiano (especialmente na sua primeira metade), mas descrevê-lo como tal é uma considerável má representação do que o filme tenta ser. É pegar algumas referencias e elementos de superfície e trata-los como se representassem o filme como um todo. Assim como Kill Bill e A Prova de Morte, Django Livre tem uma estrutura dual e a segunda parte do filme só é um western na medida em que a maior parte dos filmes históricos passados nos interior dos EUA por volta de 1860 costuma ser classificada como tal. É muito mais próxima dos dramas exploit de escravidão dos anos 60/70 do que qualquer um dos Sérgios (a critica do Sérgio Alpendre para a Interlúdio, de longe o melhor texto publicado por aqui sobre o filme, ao menos menciona Mandingo do Fleischer), mas estes filmes não tem o mesmo valor dos faroestes (eles são por demais incômodos para receberem o tratamento crítico dispensado hoje em dia aos italianos) e boa parte do discurso crítico a respeito das referencias de Tarantino frequentemente se confunde com consumo. É muito mais fácil retomar aos filmes italianos e fazer de conta que Django Livre é algum mash up de faroeste spaghetti e blaxploitation, as referencias são óbvias e já mais ou menos canonizadas,  e torna também o filme muito mais fácil delidar seja a favor ou contra.

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Pina Bausch, Wenders, Akerman e o produto cultural

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NB: You often set bodies in states of pure survival, what they do when cold, when hungry, when threatened, where they get the resources to bear it physically. Your films often gauge the concrete strength of bodies.

 CA: Yes, but also the joy of expending energy; I love to dance, it’s like a drug, a liberation of all the bonds of pleasure – yes, as you say, definitely related to sexuality, but not only sexuality.

 NB: However, that’s not what your film on Pina Bausch is about.

 CA: No. At first, I had been dazzled, I only saw the beauty, the aestheticism. But in making a film on her, I understood that in fact she makes you take pleasure in her sadism through formal beauty. But she’s a great artist.

 NB: Isn’t the very principal of mise en scène intrinsically sadistic, to put bodies at your disposal and take pleasure in them?

 CA: No, it’s not the same thing because it goes through the image. On stage, we see the body in real life. And in the same moment. The cinema is both at the time now, the day when you’re watching the film, but also the moment when the film was made. No, it’s not the same thing at all. And moreover, for her, the actors fall down, throw themselves against the walls, for instance – but it’s through the form, her aestheticism, that we take pleasure in it.

 She talks with a soft, gentle voice. She’s a guru, nobody dares to say anything. For each show, she takes notes, she bandies words, the dancers give themselves over to improvisation. And she works up a montage, an assemblage of what interests her. She dominates completely, with a sweet voice that’s worse than a fistfight. In 1973, ‘Psychoanalysis and Politics’ with Antoinette Fouque – it boils down to the same thing. She would psychoanalyse you savagely and almost kill you. Many mistaken ideas held reign after May ’68; for example, there were many Jewish Maoists, I don’t know how it was possible, I never believed in any ideology. After Stalin and the camps, you know for sure that an ideology leads to the worst. Even if it seems beautiful and good and like just a theory.

Semana passada conversava com um amigo sobre o Pina do Wenders, filme que tanto eu como ele nutrimos pouca simpatia, quando ele me perguntou se eu conhecia o média que Chantal Akerman rodara sobre Pina Bausch. Fui atrás de ver o filme este fim de semana e Un jour Pina m’a Demandé faz um contraste muito forte com o elogiado filme do cineasta alemão. É algo que fica claro nesta longa passagem de uma entrevista sobre a carreira de Akerman que Nicole Brenez realizou com ela ano passado, especialmente quando Akerman aponta que a experiência de realizar um filme sobre Bausch transformou seu olhar sobre a obra dela, uma experiência que presume de principio que exista um olhar algo que o Pina de Wenders dispensa por  completo (Wenders a muito deixou de olhar imagens para somente consumi-las).  Un jour Pina m’a Demandé mostra coreografia de forma muito mais recortada, mas a nele uma atenção para o corpo e sobretudo para o esforço de cada membro da equipe de Bausch para realizar cada movimento pedido por ela que a torna muito mais expressiva. Uma atenção ao processo, uma admissão de que a beleza tem um custo, que nasce de algum lugar (na visão de Akerman, o sadismo de Bausch) que a torna muito mais que uma série de imagens bonitas para bom consumo da plateia do Reserva Cultural.  É a velha questão de ponto de vista: Akerman oferece um olhar, Wenders somente um produto cultural.

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Melhores de 2012 (25-1)

Primeiro um pequeno adendo: esqueci de incluir nas menções honrosas Lomge do Afeganistão, filme organizado pelo John Gianvito cujo todo é mais forte do que suas partes irregulares e que inclui um episódio (Fragments of Dissolution do Travis Wilkerson) que estaria fácil bem perto do topo da lista se eu incluisse curtas.

25) O Verão de Giacomo (Alessandro Comodin)
1225

O prazer com que Comodin filma este dia de verão e o sentimento de descoberta presente nele chegam a lembrar o Um Dia no Campo de Renoir e a ecos constantes tanto da segunda parte do Aquele querido Mês de Agosto, quanto do trabalho de alguns outros cineastas italianos recentes com gosto por se localizarem na fronteira entre ficção/documentário (Michelangelo Frammartino, Pietro Marcello). O que realmente torna o filme marcante porém é como a abordagem táctil imposta por Comodin consegue levar este aparente dia banal entre aquelas duas pessoas  e revelar dali todo um sentimento de história pregressa repartida entre aqueles duas figuras, que é algo que se revela ainda mais forte quando da mudança de garotas no último rolo (a única intromissão realmente radical de Comodin sobre seu filme) que reestabelece a ação como um todo como parte da história daquele rapaz.

24) Nuit Blanche (Frederic Jardin)
1224

Um dos filmes de ação mais excitantes da safra recente. Jardin parte da mais essenciais premissas (policial corrupta vai a uma boate devolver uma maleta com drogas) e encontra nela um sem  numero de novas possibilidades (geográficas, emocionais, narrativas) que vão se acumulando enquanto mais e mais portas de entrada se abrem.  A última meia hora é basicamente uma longa sequencia de ação sustentada que segue encontrada novas formas de elevar tensão.  Alguns momentos muito criativos de ação (a uma sequencia que não ficaria deslocada num filme de Jackie Chan dos fim dos anos 80) e um trabalho muito cuidadoso com câmera na mão (a fotografia é do Tom Stern, fotografo do Eastwood). Lançado por aqui erm DVD pela California sob o super genérico titulo Pura Adrenalina, mas é melhor que todo o catalogo para cinema que eles lançaram em cinema este ano. Por curiosidade o filme foi co-escrito pelo Nicolas Saada, um dos melhores críticos da Cahiers nos anos 80.

23) Outrage Beyond (Takeshi Kitano)
1223

Sustentando no espaço entre Brother  e os dois Eleição de Johnnie To, é o melhor filme de Kitano em alguns anos (e isto vindo de alguém que defende a maior parte dos filmes dele dos últimos dez anos). Se Outrage era um slasher com Yakuzas, Outrage Beyond muito rapidamente se revela uma comédia de maneiras de gangsters que ao mesmo tempo celebra o código que supostamente os rege e faz troça de todos os rituais e traições que os dominam. Se o filme anterior era um banho de sangue com a disposição de um Mario Bava, este é uma questão de um plano a mais, seja da câmera segurar por um segundo a mais sobre uma ação ou um contraplano perfeitamente executado.

22) In Another Country (Hong Sang-soo)
1222

Um tanto fácil na sua estrutura se comparado a outros filmes recentes de Hong, mas ainda assim carregado por uma série de achados de situações e locações que o aproximam muito de alguns dos filmes mais relaxados de Rohmer dos anos 80. E somente Hong poderia pegar Isabelle Huppert e despoja-la de todo os excessos de grande atriz, ela não esteve tão relaxada e bem num filme em anos.

21) The Great Cinema Party (Raya Martin)
1221

Um dos grandes filmes políticos do ano. Perfeitamente estruturado na maneira que consegue estabelecer um estado de violência histórica e depois procede em esvazia-lo e por fim preenchê-lo com seus amigos. É um filme construído sobre a presença da história das Filipinas, mas sobretudo dos amigos de Martin que relaxadas a jogar conversa fora servem como contraponto essencial a mesma. Fazer uma festa também pode ser um ato político.
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Melhores de 2012 (50-26)

Como nos últimos anos o critério da lista é a de filmes lançados nos últimos três anos vistos por mim pela primeira vez em 2012.

Menções honrosas: 21 Jump Street (Phil Lord e Chris Miller), Abendland (Nikolaus Geyrhalter), Abrir Puertas y Ventanas (Milagros Mumenthaler), Aprés Mai (Olivier Assayas), Argo (Ben Affleck), Boa Sorte, Meu Amor (Daniel Aragão), Buenas Noches España (Raya Martin), Djailoh (Ricardo Miranda), Dredd (Pete Travis), Eden (Bruno Safadi), Flying Swords of Dragon Gate (Tsui Hark), A Guerra Esta Declarada (Valerie Donzelli), Hotel Mekong (Apichatpong Weerasethakul), The Inkeepers (Ti West), J Edgar (Clint Eastwood), Killer Joe (William Friedkin), Margaret (Kenneth Lonergan), Mientras Duermes (Jaume Balagueró), Missão Impossivel 4 (Brad Bird), La Noche de Enfrente (Raul Ruiz), O que se move (Caetano Gotardo), Pa Negre (Augustin Villaronga), The Raid (Gareth Evans), White – The Melody of a Curse (Got Kim e Sun Kim), The Woman Knight of Mirror Lake (Herman Yau)

50) Ballet Aquatique (Raul Ruiz)
1250
O penúltimo filme de Ruiz não poderia ser mais simples construindo-se a partir de material alheio e alguns poucos elementos de cena e atores. É uma homenagem a Jean Painlevé, mas é sobretudo um filme de Ruiz que na sua simplicidade não deixa de ser uma declaração de princípios:  tudo no cinema permite um novo mergulho no imaginário. Ruiz é um maluco do qual sentiremos muita falta.

49) Lockout (James Mather e Stephen St. Leger)
1249

Entre os filmes desta lista Lockout deve ser de longe o menos ambicioso. Basicamente uma desculpa para os diretores estreantes Mather e Leger e o produtor Luc Besson reimaginar Fuga de Nova York numa estação espacial. Tudo aqui é perfeitamente genérico e dispensável, mas Lockout possui algo que uma bomba inflada como Skyfall jamais terá: uma compreensão total do seu material e dedicação a ele que evita trata-lo como mais ou menos do que é. Nenhuma tentativa envergonhada de se justificar ou tentar soar espertinho e irônico (para um filme que procura tanto se aproximar do cinema de ação dos anos 80, Lockout não demonstrar nenhum fetiche auto referencial).  Alem disso o filme se beneficia muito da presença de Guy Pearce (apesar de duas sessões do filme depois eu ainda não ter certeza se ele estava a se divertir horrores ou horrorizado que seu agente lhe colocou num filme como este).

48) Les Mains en l’air (Romain Goupil)
1248

Um filme sobre a política de imigração francesa do ponto de vista de um grupo de crianças que trata o olhar infantil com respeito e sem nenhuma condescendência ou exploração.  Les Mains em L’air faz um trabalho notável de combinar história nos rituais infantis (incomporavelmente melhor do que a maioria dos filmes sobre olhar infantil sobre história). Goupil é um ótimo diretor que merecia ser mais conhecido.

47) Vamps (Amy Heckerling)
1247

Bem longe da sátira sobre vampiros  que inevitavelmente será vendida/vista, mas uma muito pessoal e agradável comédia sobre passagem do tempo.  Tem uma série de ótimas ideias e sobretudo um olhar muito claro e forte sobre seu tema central. Alem disso os últimos dez minutos são consideravelmente mais envolventes do que uma comédia ligeira sobre vampiros lançada direta em vídeo deveria ser.

46) Sightseers (Ben Wheatley)
1246

Wheatley segue seu tour pelo ficção cinematográfica inglesa com sua contribuição para o mais inglês dos gêneros: a comedia de humor negro de serial killer. Se há algo terrível na Inglaterra de Sightseers é que o mal dela é um dado que o filme reconhece como existindo antes dele, só um fato a mais dentro da sua construção, com o qual simplesmente se deve conviver.  É um filme a principio muito mais ligeiro do que Kill List, mas que faz o mesmo movimento de naturalismo para um mal estar assustador.
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O Jerry Lewis oculto

Na correria da Mostra não tiove como mencionar antes, mas o sempre muito atento Jaime Christley localizou no You Tube alguns trabalhos que Jerry Lewis dirigiu para a TV após seu último longa em 83. Dois episódios para TV, um para uma sitcom chamada Brothers em 85 e outro de uma série de ação juvenil chamada Superforce (há um terceiro episódio televisivo da mesma época, mas este não parece ter caido na rede até hoje). Para os interessados em pesquisar este periodo oibscuro do Lewis diretor seguem os videos.

Brothers:

Super Force:

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Festival do Rio


Deixo aqui links para todas as críticas que escrevi para o Festival do Rio e depois delas algumas observações sobre outros filmes que vi, não todos, mas daqueles que queria fazer algum comentário mais especifico.

Abrir Puertas y Ventanas, de Milagros Mumenthaler e Viola, de Matias Piñeiro
Diário da França, de Raymond Depardon e Claudine Nougaret
Dores de Amores, de Raphael Vieira
Éden, de Bruno Safadi
Elefante Branco, de Pablo Trapero
Escola Secundária, de Celina Murga
Fantasia Lusitana, de João Canijo
O Gosto do Dinheiro, de Im Sang-soo
Hoje, de Alain Gomis
A Negociação, de Nicholas Jarecki
Reconversão, de Thom Andersen
O Segredo da Cabana, de Drew Goddard
Shokuzai, de Kiyoshi Kurosawa
Simon Killer, de Antonio Campos
Starlet, de Sean Baker
Tabu, de Miguel Gomes
Turistas, de Ben Wheatley
A Última Vez que Vi Macau, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata

Argo (Ben Affleck)
Os dois primeiros filmes de Affleck eram sustentados no pendulo de um ótimo uso das locações em Boston com uma direção segura de atores, o que torna abandonar casa para fazer um filme cuja ação é essencialmente de estúdio e muito distante de Boston um risco (a cidade sempre servia com rede de apoio nos momentos que Gone Baby Gone e The Town fraquejavam).  Felizmente o outro elemento que sustentava estes filmes, o bom gosto do diretor para material, o carrega aqui novamente, Argo é baseado num excelente caso real e Affleck inteligentemente constrói a partir dele um filme sobre a arte de fabular. O filme existe entre dois modos de artifício hollywoodiano: a sátira inofensiva das sequencias em Los Angeles e a tensão de thriller nas passagens em Teerã. A confluência destas duas imagens artificiais e a convicções com que ambas são apresentadas garante energia constante que sustenta o filme.

Foxfire (Laurent Cantet)
Se Argo é o sucesso da fabulação, este novo longa do Cantet é o exato oposto, um filme que assusta justamente pela forma como fracassa em se articular minimamente. Diante de Foxfire, pensei em alguns filmes brasileiros que deram errados e que você topa com em festivais nos quais da para imaginar o cineasta e o montador olhando para o material na frente da ilha de montagem trocando aquele olhar cúmplice desesperado de quem reconhece que não tem filme nenhum ali. Não é nem que o filme é péssimo, ele simplesmente é tão frágil tão incapaz de se impor, que ele é destinado a jamais escapar da inconsequência.  Diante do filme você entende como Cantet foi de ganhar Cannes para no longa seguinte não ser selecionado em nenhum dos festivais de porte europeus.

Holy Motors (Leos Carax)
Daria uma grande seção dupla com o derradeiro filme do Saraceni, O Gerente.  Notável como Carax consegue ao mesmo tempo ser de uma melancolia muito dolorosa e de uma vitalidade imensa. Não é meu favorito dele, mas é certamente a melhor atuação de Denis Lavant ou as onze melhores, não tenho certeza. Vale dizer que o filme talvez seja ainda mais impressionante nas sequencias discretas como na que o pai vai buscar a filha do que nas passagens mais chamativas.

Hotel Mekong (Apichatpong Weerasethakul)
Menos um filme menor do que um sedutor trabalho “entre filmes”.  Sempre notável como Apichatpong lança mão de alguns poucos elementos de cena e conjura deles um encantamento, um desejo no espectador de se perder neles sempre muito envolvente.  Da para traçar um bom paralelo entre ele e o média do Raul Ruiz que passou na Mostra, que tem principio semelhante, mas é mais bem resolvido.  Haverá quem preguiçosamente vai usar aquela saída preguiçosa e descartar o filme como videoarte, mas Hotel Mekong me parece fazer mais sentido numa sala de cinema e esta mais próximo de Griffith que Bill Viola.

Jards (Eryk Rocha)
O filme anterior do Eryk Rocha Transeunte era um filme de personagem que só me parecia negociar com sucesso sua relação com a figura que se propunha observar nas suas sequencias musicais. Este seu novo documentário sobre Jards Macalé, não deixa de funcionar como uma extensão natural dos momentos mais fortes do filme anterior; inserindo o musico num projeto estético com muito pontos de contato com o de Transeunte. Jards transforma os duetos que Macalé grava ao longo do filme uma extensão natural da dança que a câmera de Rocha realiza com o arredio musico.

Killer Joe (William Friedkin)
De um modo geral tedo a preferir hillbillyexplotation em country rock do que em filme, mas Friedkin se aproveita bem do encontro entre a misantropia do texto e a sua própria sensibilidade. Não haverá aqui espaço para o trabalho de exploração formal sofisticado que o cineasta usara em Bug adaptado do mesmo dramaturgo, mas há uma intensidade na histeria do filme que lhe serve com força.  Há também um grande Matthew McChougney que carrega o filme por muito dos seus momentos mais frágeis.

Moonrise Kingdom (Wes Anderson)
Já estreou e muita gente já viu, mas aproveito a oportunidade para indicar o texto do Fabio e para dizer que é o meu Wes Anderson favorito em uma década.

Primeiro Dia de um Ano Qualquer (Domingos de Oliveira)
Não vi o outro filme de Domingos de Oliveira deste ano (Paixão e Acaso) que me disseram ser ainda mais desleixado, mas este Primeiro Dia de um Ano Qualquer segue o processo desta ultima década dele em direção ao completa preguiça na hora de transformar seus textos em filmes.  Se Domingos fosse capaz de encontrar alguma vitalidade no meio da pobreza o processo se justificaria, mas a parte um par de cenas em que os atores conseguem salvar não há nada aqui, e para piorar este é um dos piores e menos interessantes textos que ele filmou desde o seu retorno ao cinema em 98.

O Verão de Giacomo (Alessandro Comodin)
Deveria ter escrito um texto sobre O Verão de Giacomo para a Cinetica, mas na correria no retorno a São Paulo acabei sem tempo, o que é uma pena já que se trata de um dos melhores filmes que passaram no festival.  É um filme muiro em como gestos e sentimentos permanecem na história de cada um. É um dos mais bem resolvidos filmes de dispositivo recentes, no caso, os problemas de audição do Giacomo do titulo, um adolescente surdo que o cineasta conhece. O prazer com que Comodin filma este dia de verão e o sentimento de descoberta presente nele chegam a lembrar o Um Dia no Campo de Renoir e a ecos constantes tanto da segunda parte do Aquele querido Mês de Agosto, mas do trabalho de alguns outros cineastas italianos recentes com gosto por se localizarem na fronteira entre ficção/documentário (Michelangelo Frammartino, Pietro Marcello). O que realmente torna o filme marcante porém é como a abordagem táctil imposta por Comodin consegue levar este aparente dia banal entre aquelas duas pessoas (Giacomo e a irmã do cineasta Stefania, que serve de uma guia paciente para o protagonista) e revelar dali todo um sentimento de história pregressa repartida entre aqueles duas figuras, que é algo que se revela ainda mais forte quando da mudança de garotas no último rola (a única intromissão realmente radical de Comodin sobre seu filme) que reestabelece a ação como um todo como parte da história daquele rapaz.

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Mostra

Por conta dos pedidos de amigos um post de recomendações da Mostra. Dividi-as desta vez em cinco listas. A primeira com os 10 filmes que acho todos deveriam ver na Mostra de qualquer jeito, a segunda é de outros que recomendo com mais força e a terceira tem outros filmes de interesse que dependem mais das preferências de cada um. Depois duas listas de brasileiros que equivalem às listas 2 e 3.

Alem disso a Mostra contém quatro retrospectivas. A do Andrei Tarkovski dispensa apresentações, o máximo que pode se dizer contra ela é que os filmes do Tarkovski reaparecem em película com mais frequência do que as retros habituais da Mostra. Não conheço Minoru Shibuya, mas amigos que conhecem mais a fundo cinema japonês recomendam. Há duas retrospectivas de cineastas contemporâneos, não tenho grande interesse na de Sergei Losnitza, mas para quem não conhece a de Miguel Gomes é im perdível, são só 3 longas e um programa de curtas, mas todos são muito recomendáveis (podferiam ter aproveitado e montado um segundo programa com outros curtas da O Som e A Fúria, qualquer desculpa para passar Repace é sempre justificável).

Entre as sessões de clássicos, destaque maior para a sessão em homenagem ao Carlão Reichenbach com o seu Alma Corsária em sessão dupla com um dos seus filmes favoritos Raros Sonhos  Flutuantes do Eizo Sugawa. Haverá ainda homenagens aos 50 anos da Positif (com exibição de Muriel e Os Deuses e os Mortos), Chris Marker (que também terá o seu ótimo documentário sobre Tarkovski exibido escondido num dos programas de docs sobre ele). Entre as cópias restauradas, se mencionará muito Era uma Vez no Oeste, Tubarão e Lawrence da Arabia, mas imperdível mesmo será o Coronel Blimp, da dupla Powell/Pressbuger, que é só o melhor filme da história do cinema inglês.

25/11 O DIA EM QUE MISHIMA ESCOLHEU O SEU DESTINO (11.25 JIKETSU NO HI: MISHIMA YUKIO TO WAKAMONO-TACHI), de Koji Wakamatsu (119′). JAPÃO
A BELA QUE DORME (BELLA ADDORMENTATA), de Marco Bellocchio (115′). FRANÇA, ITÁLIA.
APRÈS MAIS (APRÈS MAI), de Olivier Assayas (122′). FRANÇA.
BARBARA (BARBARA), de Christian Petzold (105′). ALEMANHA.
ESTUDANTE (STUDENT), de Darezhan Omirbayev (90′). CAZAQUISTÃO.
LA NOCHE DE ENFRENTE (LA NOCHE DE ENFRENTE), de Raúl Ruiz (110′). FRANÇA, CHILE.
O GEBO E A SOMBRA (O GEBO E A SOMBRA), de Manoel de Oliveira (91′). PORTUGAL.
OUTRAGE: BEYOND (AUTOREIJI: BIYONDO), de Takeshi Kitano (112′). JAPÃO.
TABU (TABU), de Miguel Gomes (119′). PORTUGAL, ALEMANHA, BRASIL, FRANÇA.
UM ALGUÉM APAIXONADO (LIKE SOMEONE IN LOVE), de Abbas Kiarostami (109′). FRANÇA, JAPÃO.

10+10 (10+10), de Vários (107′). TAIWAN.
A GLÓRIA DAS PROSTITUTAS (WHORE´S GLORY), de Michael Glawogger (110′). ALEMANHA, ÁUSTRIA.
ABENDLAND (ABENDLAND), de Nikolaus Geyrhalter (90′). ÁUSTRIA.
ALÉM DAS MONTANHAS (DUPA DEALURI), de Cristian Mungiu (155′). ROMÊNIA.
BALLET AQUATIQUE (BALLET AQUATIQUE), de Raúl Ruiz (50′). FRANÇA.
HANNAH ARENDT (HANNAH ARENDT), de Margarethe von Trotta (113′). ALEMANHA.
INGRID CAVEN, MÚSICA E VOZ (INGRID CAVEN, MUSIQUE ET VOIX), de Bertrand Bonello (95′). FRANÇA.
JOVENS DE PEQUIM (BEIJING FLICKLERS), de Yuan Zhang (96′). CHINA.
LINHAS DE WELLINGTON (LES LIGNES DE WELLINGTON), de Valeria Sarmiento (151′). FRANÇA, PORTUGAL.
LONGE DO AFEGANISTÃO (FAR FROM AFGHANISTAN), de John Gianvito, J. Jost, M. Martin,Soon-Mi YooT. Wilkerson (120′). ESTADOS UNIDOS.
MEMORIES LOOK AT ME (JI YI WANG ZHE WO), de Song Fang (91′). CHINA.
MYSTERY (MYSTERY), de Lou Ye (98′). CHINA, FRANÇA.
NA NEBLINA (V TUMANE), de Sergei Loznitsa (127′). ALEMANHA, RÚSSIA, LETÔNIA, HOLANDA , BIELORÚSSIA.
NO (NO), de Pablo Larraín (115′). CHILE, FRANÇA, ESTADOS UNIDOS.
O LAGO BALATON (NÉMET EGYSÉG@BALATONNÁL – MÉZFÖLD), de Péter Forgács (79′). HUNGRIA.
PARA ELLEN (FOR ELLEN), de So Yong KIM (94′). ESTADOS UNIDOS.
PERDER A RAZÃO (A PERDRE LA RAISON), de Joachim Lafosse (114′). BÉLGICA, LUXEMBURGO, FRANÇA, SUÍÇA.
POSTCARDS FROM THE ZOO (KEBUN BINATANG), de Edwin (95′). INDONÉSIA, ALEMANHA, HONG KONG.
REALITY (REALITY), de Matteo Garrone (115′). ITÁLIA, FRANÇA.
TIRO NA CABEÇA (HEADSHOT), de Pen-Ek Ratanaruang (105′). TAILÂNDIA, FRANÇA.

38 TESTEMUNHAS (38 TÉMOINS), de Lucas Belvaux (104′). FRANÇA.
A CAÇA (JAGTEN), de Thomas Vinterberg (115′). DINAMARCA.
A CASA (A CASA), de Júlio Alves (70′). PORTUGAL.
A CULPA DO CORDEIRO (LA CULPA DEL CORDERO), de Gabriel Drak (81′). URUGUAI.
A FEITICEIRA DA GUERRA (REBELLE), de Kim Nguyen (90′). CANADÁ.
A PARTE DOS ANJOS (THE ANGEL´S SHARE), de Ken Loach (101′). REINO UNIDO, FRANÇA, BÉLGICA, ITÁLIA.
ALPES (ALPEIS), de Yorgos Lanthimos (93′). GRÉCIA
ANTIVIRAL (ANTIVIRAL), de Brandon Cronenberg (110′). CANADÁ.
AQUI E ALI (AQUÍ Y ALLÁ), de Antonio Mendez Esparza (110′). ESPANHA, ESTADOS UNIDOS, MÉXICO.
BULLY (BULLY), de Lee Hirsch (99′). ESTADOS UNIDOS.
CANÇÃO PARA O MEU PAI (LULLABY TO MY FATHER), de Amos Gitai (82′). FRANÇA, SUÍÇA.
DEPOIS DA BATALHA (BAAD EL MAWKEAA / APRES LA BATAILLE), de Yousry Nasrallah (116′).
ENTRE O AMOR E A PAIXÃO (TAKE THIS WALTZ), de Sarah Polley (116′). CANADÁ, ESPANHA, JAPÃO.
ESTRADA DE PALHA (ESTRADA DE PALHA), de Rodrigo Areias (93′). PORTUGAL, FINLÂNDIA.
FELICIDADE (GLÜCK), de Doris Dörrie (112′). ALEMANHA.
FIM DE SEMANA EM CASA (WAS BLEIBT), de Hans-Christian Schmid (85′). ALEMANHA.
FOGO (FOGO), de Yulene Olaizola (61′). MÉXICO, CANADÁ.
IMPERDOÁVEL (IMPARDONNABLES), de André Téchiné (113′). FRANÇA.
INDIGNADOS (INDIGNADOS), de Tony Gatlif (88′). FRANÇA.
INVASION (INVASION), de Dito Tsindzadse (104′). ALEMANHA, ÁUSTRIA.
KEYHOLE (KEYHOLE), de Guy Maddin (93′). CANADÁ.
LA DEMORA (LA DEMORA), de Rodrigo Plá (84′). URUGUAI, MÉXICO, FRANÇA.
LA SIRGA (LA SIRGA), de William Vega (88′). COLÔMBIA, FRANÇA, MÉXICO.
LAURENCE ANYWAYS (LAURENCE ANYWAYS), de Xavier Dolan (159′). CANADÁ , FRANÇA.
MAR CALMO (LA MER A L´AUBE), de Volker Schlöndorff (90′). FRANÇA, ALEMANHA.
MELHOR NÃO FALAR DE CERTAS COISAS (MEJOR NO HABLAR DE CIERTAS COSAS), de Javier Andrade (100′). EQUADOR.
NA SUA AUSÊNCIA (J’ENRAGE DE SON ABSENCE), de Sandrine Bonnaire (98′). FRANÇA.
O AMANTE DA RAINHA (EN KONGELIG AFFÆRE), de Nikolaj Arcel (137′). DINAMARCA.
O CICLO (FULL CIRCLE), de Zhang Yang (104′). CHINA.
O SORRISO DO CHEFE (IL SORRISO DEL CAPO), de Marco Bechis (75′). ITÁLIA.
OS SELVAGENS (LOS SALVAJES), de Alejandro Fadel (119′). ARGENTINA.
POR ENQUANTO (MEANWHILE), de Hal Hartley (62′). ESTADOS UNIDOS.
PREENCHENDO O VAZIO (LEMALE ET HA’HALAL), de Rama Burshtein (87′). ISRAEL.
RENOIR (RENOIR), de Gilles Bourdos (101′). FRANÇA.
RIO (RIVER), de Ryuichi Hiroki (89′). JAPÃO.
SONHO E SILÊNCIO (SUEÑO Y SILENCIO), de Jaime Rosales (120′). ESPANHA, FRANÇA.
WALK AWAY RENÉE (WALK AWAY RENÉE), de Jonathan Caouette (90′). FRANÇA.

BOA SORTE, MEU AMOR (BOA SORTE, MEU AMOR), de Daniel Aragão (95′).
ELENA (ELENA), de Petra Costa (82′).
ERA UMA VEZ EU, VERÔNICA (ERA UMA VEZ EU, VERÔNICA), de Marcelo Gomes (91′).
JARDIM ATLÂNTICO (JARDIM ATLÂNTICO), de Jura Capela (90′).
JARDS (JARDS), de Eryk Rocha (93′).
LAURA (LAURA), de Fellipe Gamarano Barbosa (78′).
O QUE SE MOVE (O QUE SE MOVE), de Caetano Gotardo (97′).
O SOM AO REDOR (O SOM AO REDOR), de Kleber Mendonça Filho (131′).

A BUSCA, de Luciano Moura (96′).
A COLEÇÃO INVISÍVEL, de Bernard Attal (98′).
A FLORESTA DE JONATHAS, de Sergio Andrade (99′).
A MEMÓRIA QUE ME CONTAM, de Lúcia Murat (95′).
A ÚLTIMA ESTAÇÃO, de Marcio Curi (114′).
A ÚLTIMA PALAVRA É A PENÚLTIMA, de Evaldo Mocarzel (72′).
BALANÇA MAS NÃO CAI, de Leonardo Barcelos (77′).
CHAMADA A COBRAR, de Anna Muylaert (72′).
CINE HOLLIÚDY, de Halder Gomes (91′).
COLEGAS, de Marcelo Galvão (100′).
CORES, de Francisco Garcia (95′).
DORES DE AMORES, de Raphael Vieira (80′).
ESTADO DE EXCEÇÃO, de Juan Posada (75′).
EU NÃO FAÇO A MENOR IDEIA DO QUE EU TÔ FAZENDO COM A MINHA VIDA, de Matheus Souza (90′).
KÁTIA, de Karla Holanda (74′).
LACUNA, de André Lavaquial (73′).
NOITES DE REIS, de Vinicius Reis (93′).
NOVE CRÔNICAS PARA UM CORAÇÃO AOS BERROS, de Gustavo Galvão (93′)
O DIA QUE DUROU 21 ANOS, de Camilo Tavares (77′).
PAIXÃO E ACASO, de Domingos Oliveira (83′).
PRA LÁ DO MUNDO, de Roberto Studart (78′).
PRIMEIRO DIA DE UM ANO QUALQUER, de Domingos Oliveira (81′).
SINFONIA DE UM HOMEM SÓ, de Cristiano Burlan (93′).
SUPER NADA, de Rubens Rewald (94′).
UM FILME PARA DIRCEU, de Ana Johann (80′).
UMA HISTÓRIA DE AMOR E FÚRIA, de Luiz Bolognesi (75′).

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Algumas observações sobre a lista da Sight & Sound

O Homem com a Camera, de Dziga Vertov

Semana passada como todo meio cinéfilo sabe foi divulgada a 7º lista de melhores filmes de todos os tempos da Sight & Sound. A atenção inevitavelmente acabou voltada para Um Corpo que Cai terminar a frente de Cidadão Kane pela primeira vez, mas acho mais atraente olhar para as margens dela. O que torna a lista da S&S, um objeto tão interessante é menos os filmes do que como a idéia de refazê-la de dez em dez anos permite um olhar sobre seu recorte. Em suma, inevitavelmente é menos uma lista sobre filmes do que sobre um cânone e entendo que discussão de cânones seja chata para alguns, mas não para mim.

O top 50 esta disponivel aqui para quem ainda não viu.

Algumas observações sobre a lista:

— O Homem com a Câmera como grande novidade do top 10 é simbólico por muitos motivos. Ao contrario de filmes que surgiram no top 10 em décadas passadas, o filme do Vertov não  contou com nenhuma restauração ou grande retrospectiva nos anos recentes para ajuda-lo, o máximo que se pode dizer é que o filme esta disponível numa excelente edição de DVD lá fora.É o primeiro filme de não-ficção no top 10 desde 52 e é também certamente o titulo mais experimental a entrar numa dessas listas. O Homem com a Câmera não só entrou no top 10 como o filme que ele tirou da lista foi o Encouraçado Potemkin. Vertov a frente de Eisenstein é uma quebra de cânone habitual muito inesperada e bastante simbólica se formas pensar mudança de paradigmas do que seria um cinema político hoje. Eisenstein por sinal não foi bem na lista como um todo, Ivan, o Terrivel caiu do top 50 para fora do top 100, o que me entristece bem mais do que Potemkin não estar no top 10.

— Nada, porem me entristece mais em toda lista do que a desvalorização de Charles Chaplin. Luzes da Cidade (em outros tempos uma inevitável presença no top 10) terminou num distante 50º e Tempos Modernos em 63º. Chaplin historicamente é o único diretor de comédias cujos filmes costumam figurar constantemente neste tipo  de lista, mas desta vez ele terminou inclusive recebendo menos votos que Buster Keaton (que teve A General em 34º e Sherlock Jr em 59º). Não é incomum encontrar artigos sobre os limites da história oficial que ao tocar em comédia menciona Chaplin como exceção no descaso com o gênero justamente pelos motivos extra humor (o sentimentalismo, o lado social, etc.), mas aparentemente nem estes bastam mais. Eliminado estes fatores faz certo sentido que Keaton, cujo estilo mais formalista e dinâmico certamente torna-o mais contemporâneo, colhera mais votos.

— Muito se reclamou – como sempre acontece após exercícios como esse – dá ausência de filmes  recentes, mas vale dizer que em 2002 entraram no top 50, 0 filmes da década de 90 e só 2 da de 80, contra os 2 dos 00 e 3 dos 90 desta vez. No top 100 como um todos apareceram 3 filmes dos anos 2000 (In The Mood For Love, Mullholand Dr, Yi Yi), 5 da década de 90 (Satantango, Close Up, Historie(s) Du Cinema, Beau Travail, A Brighter Summer Day) e 6 filmes da década de 80 (Shoah, Touro Indomável, Blade Runner, Sans Soleil, Veludo Azul, Fanny & Alexander). 14 filmes das últimas três décadas pode parecer pouco, mas é muito similar ao desempenho do cinema até 1939 (17 filmes). Pessoalmente, me preocuparia mais com M e A Atalante serem os únicos filmes da década de 30 não dirigidos por Renoir ou Chaplin ou com a lista contar com só 11 filmes asiáticos do que com a ausência de filmes recentes.

— Apesar de eu suspeitar muito da ideia de que vivemos uma era em que “tudo esta facilmente disponível” é verdade que esta é a primeira lista da S&S em que a combinação DVD/Blu-Ray + Internet tornou muitos filmes bem mais fáceis de acessar em boas copias; em 1992, por exemplo, seria muito difícil para A Cor da Romã aparecer numa lista dessas entre outras coisas porque era um filme difícil de sequer assistir.  Outro efeito provável da web é ajudar a permitir que certos guetos críticos refinem seus próprios cânones o que ajuda a explica o desempenho notável de Bela Tarr (não só Satantango em 35º, mas tanto Werckmeister Harmonies e O Cavalo de Turim entre os 10 mais votados dos anos 2000) ou Edward Yang ser o mais improvável diretor com dois filmes na lista.

— A lista como um todo diluiu muito mais seus votos do que nas edições anteriores, mas ainda sim se concentrou bastante na obra de alguns poucos diretores. Godard, Hitchcock e Bergman tiveram quatro filmes mencionados entre os 100, e Renoir, Welles, Dreyer, Tarkovsky, Coppola e Bresson tiveram três títulos cada um. Estes oito diretores terminaram responsáveis por 30% da lista.

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Veneza

È Stato il Figlio, de Daniele Cipri

Competição
OLIVIER ASSAYAS – APRÈS MAI (SOMETHING IN THE AIR) França, 122′
RAMIN BAHRANI – AT ANY PRICE EUA, 105′
MARCO BELLOCCHIO – BELLA ADDORMENTATA Italia, 115′
PETER BROSENS, JESSICA WOODWORTH – LA CINQUIÈME SAISON Belgica, Holanda, França, 93′
RAMA BURSHTEIN – LEMALE ET HA’CHALAL (FILL THE VOID) Israel, 90′
DANIELE CIPRÌ – È STATO IL FIGLIO Italia, França, 90′
FRANCESCA COMENCINI – UN GIORNO SPECIALE Italia, 89′
BRIAN DE PALMA – PASSION França, Alemanha, 94′
XAVIER GIANNOLI – SUPERSTAR França, Belgica, 112′
KI-DUK KIM – PIETA Coreia do Sul, 104′
TAKESHI KITANO – OUTRAGE BEYOND Japão, 110′
HARMONY KORINE – SPRING BREAKERS EUA, 92′
TERRENCE MALICK – TO THE WONDER EUA, 112′
BRILLANTE MENDOZA – SINAPUPUNAN (THY WOMB) Filipinas, 100′
VALERIA SARMIENTO – LINHAS DE WELLINGTON Portugal, França, 151′
ULRICH SEIDL – PARADIES: GLAUBE (PARADISE: FAITH) Austria, França, Alemanha, 113′
KIRILL SEREBRENNIKOV – IZMENA (BETRAYAL) Russia, 115′

The Milllennial Rapture, de Koji Wakmatsu

Orizonti
HAIFAA AL MANSOUR – WADJDA Arabia Saudita, Alemanha, 100′
CARLOS ARMELLA – LAS MANOS LIMPIAS Mexico, 11′
KIANOOSH AYARI – KHANÉH PEDARI (THE PATERNAL HOUSE) Iran, 100′
ALEXEY BALABANOV – JA TOZHE HOCHU (I ALSO WANT IT) Russia, 89′
MIN BHAM – BANSULLI (THE FLUTE) Nepal, 15′
FERNANDO CAMARGO, MATHEUS PARIZI – O AFINADOR Brasile, 15′
RENATE COSTA, SALLA SORRI – RESISTENTE Dinamarca, Paraguai, Finlandia, 20′
IVANO DE MATTEO – GLI EQUILIBRISTI Italia, Francia, 100′
LEONARDO DI COSTANZO – L’INTERVALLO Italia, Suiça, Alemanha, 90′
IBRAHIM EL BATOUT – EL SHEITA ELLI FAT (WINTER OF DISCONTENT)
Egito, 94′
FRÉDÉRIC FONTEYNE – TANGO LIBRE Belgica, França, Luxemburgo, 105′
ALESSIO GIANNONE – LA SALA Italia, 16′
IDAN HUBEL – MENATEK HA-MAIM (THE CUTOFF MAN) Israel, 76′
NICK KING – MARLA Australia, 15′
RUIJUN LI – GAOSU TAMEN, WO CHENG BAIHE QU LE (FLY WITH THE CRANE) China, 90′
TOBIAS LINDHOLM – KAPRINGEN (A HIJACKING) Dinamarca, 99′
JAZMIN LOPEZ – LEONES Argentina, França, Holanda, 80′
JAKE MAHAFFY – MIRACLE BOY EUA, 17′
BERTRAND MANDICO – LIVING STILL LIFE França, Belgica, Alemanha, 16′
SALVATORE MEREU – BELLAS MARIPOSAS Italia, 100′
CONSTANCE MEYER – FRANK-ÉTIENNE VERS LA BÉATITUDE França, 15′
ROBERTO MINERVINI – LOW TIDE EUA, Italia, Belgica, 92′
PAOLA MORABITO – I’M THE ONE Australia, 14′
CELIA RICO CLAVELLINO – LUISA NO ESTÁ EN CASA Espanha, 19′
BERNARD ROSE – BOXING DAY Inglaterra, EUA, 91′
DJAMILA SAHRAOUI – YEMA Algeria, França, 90′
CARLO SIRONI – CARGO Italia, 15′
MING-LIANG TSAI – DIAMOND SUTRA Taiwan, 20′
YESIM USTAOGLU – ARAF (ARAF – SOMEWHERE IN BETWEEN) Turquia, França, Alemanha, 124′
KOJI WAKAMATSU – SENNEN NO YURAKU (THE MILLENNIAL RAPTURE) Japão, 118′
BING WANG – SAN ZI MEI (THREE SISTERS) França, Hong Kong, 153′
MIN-YOUNG YOO – CHO-DE (INVITATION) Coreia do Sul, 16′
YORGOS ZOIS – TITLOI TELOUS (OUT OF FRAME) Grecia, 10′

Penance, de Kiyoshi Kurosawa

Fora de Competição
JEAN-PIERRE AMERIS – L’HOMME QUI RIT França, Republica Checa, 95′
LYUBOV ARKUS – ANTON TUT RYADOM (ANTON’S RIGHT HERE) Russia, 110′
SUSANNE BIER – DEN SKALDEDE FRISØR (LOVE IS ALL YOU NEED) Dinamarca, Servia, 112′
PASCAL BONITZER – CHERCHEZ HORTENSE França, 110′
HINDE BOUJEMAA – YA MAN AACH (IT WAS BETTER TOMORROW) Tunisia, 74′
SIMON BROOK – THE TIGHTROPE França, Italia, 83′
LILIANA CAVANI – CLARISSE Italia, 21′
JONATHAN DEMME – ENZO AVITABILE MUSIC LIFE Italia, EUA, 80′
STEPHEN FUNG – TAI CHI 0 China, 100′
SILVIA GIRALUCCI, LUCA RICCIARDI – SFIORANDO IL MURO Italia, 51′
AMOS GITAI – CARMEL (2009) Israel, França, Italia, 93′
AMOS GITAI – LULLABY TO MY FATHER Israel, França, Suiça, 90′
DANIELE INCALCATERRA, FAUSTA QUATTRINI – EL IMPENETRABLE Argentina, França, 95′
KIYOSHI KUROSAWA – SHOKUZAI (PENANCE) Japão, 270′
SPIKE LEE – BAD 25 EUA, 123′
CARLO MAZZACURATI – MEDICI CON L’AFRICA Italia, 80′
MIRA NAIR – THE RELUCTANT FUNDAMENTALIST India, Paquistão, EUA, 128′
MANOEL DE OLIVEIRA – O GEBO E A SOMBRA Portugal, França, 95′
ABDALLAH OMEISH – WITNESS: LIBYA EUA, 57′
ROBERT REDFORD – THE COMPANY YOU KEEP EUA, 125′
KIMBLE RENDALL – SHARK (BAIT 3D) Australia, Cingapura, 93′
HENRY-ALEX RUBIN – DISCONNECT EUA, 115′
DANIELE VICARI – LA NAVE DOLCE Italia, Albania, 90′
ARIEL VROMEN – THE ICEMAN EUA, 98′

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Locarno

Competição Internacional
A ÚLTIMA VEZ QUE VI MACAU by João Pedro Rodrigues and João Rui Guerra da Mata – Portugal/France
BERBERIAN SOUND STUDIO by Peter Strickland – United Kingdom/Germany/Australia
COMPLIANCE by Craig Zobel – United States
DER GLANZ DES TAGES by Tizza Covi and Rainer Frimmel – Austria
IMAGE PROBLEM by Simon Baumann and Andreas Pfi ffner – Switzerland
JACK AND DIANE by Bradley Rust Gray – United States
LA FILLE DE NULLE PART by Jean-Claude Brisseau – France
LEVIATHAN by Lucien Castaing-Taylor and Verena Paravel – United Kingdom/United States/France
LOS MEJORES TEMAS by Nicolás Pereda – Mexico/Canada/Netherlands
MOBILE HOME by François Pirot – Belgium/Luxembourg
MUSEUM HOURS by Jem Cohen – Austria/United States
PADRONI DI CASA by Edoardo Gabbriellini – Italy
PLAYBACK by Sho Miyake – Japan
POLVO by Julio Hernández Cordón – Guatemala/Spain/Chile/Germany
SOMEBODY UP THERE LIKES ME by Bob Byington – United States
STARLET by Sean Baker – United States
THE END OF TIME by Peter Mettler – Switzerland/Canada
UNE ESTONIENNE A PARIS by Ilmar Raag – France/Estonia/Belgium
WO HAI YOU HUA YAO SHUO by Ying Liang – South Korea

Cineastas do Presente

APE by Joel Potrykus –United States
ARRAIANOS by Eloy Enciso – Spain
BOA SORTE, MEU AMOR by Daniel Aragão – Brazil
INORI by Pedro González-Rubio – Japan
JI YI WANG ZHE WO by SONG Fang – China
LES GOUFFRES by Antoine Barraud – France
LES MOUVEMENTS DU BASSIN by HPG – France
NOT IN TEL AVIV by Nony Geffen – Israel
ORLÉANS by Virgil Vernier – France
PEOPLE’S PARK by Libbie Dina Cohn and J.P. Sniadecki – United States/China
TECTONICS by Peter Bo Rappmund – United States
TOWER by Kazik Radwanski – Canada
TUTTI GIÙ by Niccolò Castelli – Switzerland
VAKANSI YANG JANGGAL DAN PENYAKIT LAINNYA by Yosep Anggi Noen – Indonesia
WINTER, GO AWAY by Various artists – Russia

Fora de competição

AGE IS… by Stephen Dwoskin
CHIRI (Chiri/Trace) by Naomi Kawase
I, ANNA by Barnaby Southcombe
FAIRY QUEEN by Jean-Paul Civeyrac
FAR FROM AFGHANISTAN by John Gianvito, Jon Jost, Minda Martin, Soon-Mi Yoo, Travis Wilkerson
INGRID CAVEN, MUSIQUE ET VOIX by Bertrand Bonello
L’ENCLOS DU TEMPS (The Enclosure of Time) by Jean-Charles Fitoussi
LA RICHESSE DU LOUP (Rich Is the Wolf) by Damien Odoul
LES COQUILLETTES by Sophie Letourneur
NAMI NO OTO (The Sound of Waves) by Ryusuke Hamaguchi and Ko Sakai
PERRET IN FRANKREICH UND ALGERIEN (Perret in France and Algeria) by Heinz Emigholz
RIO by Sarah Morris
THE CAPSULE by Athina Rachel Tsangari
Jeonju Digital Project
LIGHT IN THE YELLOW BREATHING SPACE by Vimukthi Jayasundara
THE GREAT CINEMA PARTY by Raya Martin

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De nostalgias e processos históricos

Algumas palavras sobre o post do Andre Barcinski sobre a decadência de cinema da última sexta-feira. Como alguém que acredita firmemente na ideia de que arte não passa por grandes evoluções ao longo do tempo (e definitivamente não no curto espaço de tempo que nossa pressa histórica tenta estabelecer como cheio de marcos) tanto o papo sobre grandes momentos como a  discussão decadentista me entendia um bom tanto. Simplesmente não é algo produtivo ou que me interesse.

Lembro-me sempre de uma entrevista com o ótimo crítico americano Dave Kehr, que começou a trabalhar em 72, em que ele mencionava que enquanto a grande mídia americana declarava que entravam num momento especial de cinema, a sua impressão pessoal era de que televisão havia destruído noções básicas de artesanato cinematográfico na maior parte da produção do período. O apocalipse de Kehr 40 anos depois parece bem excessivo, mas o mesmo vale para os quase press releases destinados a filmes geralmente bons, mas que nem de longe justificavam tamanha fanfarra.

Pessoalmente tenho dois credos como cinéfilo muito mais do que como crítico (a) todos filmes são inocentes até que me provem o contrário (até os do Lars Von Trier!) (b) mesmo os piores costumam ter um par de cenas interessantes o suficiente para justificar gastar 80-150 minutos com eles (que é o porque assisto tantos filmes quanto vejo e me sinto culpado de não ver o triplo deles).

Menciono tudo isso não para reprovar o Barcinski ou quem é que seja por acreditar que o cinema de hoje não é o mesmo, mas para explicitar minha posição geral sobre a questão (passei este fim de semana entre escrever sobre cineasta de horror chinês contemporâneo e curtas de Chaplin e ambas me são experiências muito prazerosas). É muito fácil desmerecer a posição dele acusando-o de ignorar o cinema contemporâneo, mas é um argumento potencialmente preguiçoso e limitado. Por exemplo, vi vários comentários desmerecendo-o por ele usar um filme do Peter Weir para começar o argumento e apesar de Weir nem de longe ser um favorito meu, The Last Wave é mesmo um belo filme que imagino muitos dos que desclassificaram o post a partir disso nunca viram.

Meu incomodo com o post é outro, é de que ele justifica o seu decadentismo numa desleitura de história bem problemática e típica dessa noção romântica do passado como uma grande era. Há algumas observações e ideias contidas nele que me parecem claramente erradas quando olhamos de forma mais cuidadosa a história que justificam certo ideário de involução que não tenho como subescrever.

Foi no meio dos anos 70 que Hollywood começou a usar, com mais freqüência, testes com público e pesquisas para decidir como fazer filmes (quem quiser se aprofundar no tema, sugiro ler “Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’n’Roll Salvou Hollywood”, de Peter Biskind).

Biskind quede certa forma organiza o livro dele em cima da surrada ideia de usar o duo Spielberg/Lucas como culpados fáceis por uma suposta decadência do cinema americano e sua perversão pela industria, usa este argumento  para vender uma suposta fortificação da industria ao longo da década. Pois bem, o mais famoso filme remontado pesadamente por culpa de exibições teste foi o Soberba de Welles no longínquo 1942. Se pararmos para ler o “Afinal, Quem Faz Filmes” do Bogdanovich muitos dos cineastas fazem menção a suas experiências regulares com estas exibições (Hawks achava-as uteis para comédias por exemplo).

O mesmo Welles viria alguns anos depois remontar e redublar o seu McBeth (é pouco mencionado, mas Welles tinha direito a corte final naquele filme) após testes ruins que apontavam um público confuso e com dificuldades com o sotaque escocês dos personagens. A Marca da Maldade e A Dama de Shangai foram igualmente vitimas de cortes extensos depois que os estúdios tiveram a confirmação de que eles não funcionavam como os thrillers eu foram encomendados. Orson Welles é um dos 5 melhores cineastas americanos pré-70, ele realizou 6 filmes para estúdios americanos, dos quais 4 foram remontados por testarem mal. Posso me esquecer de alguém, mas estou com dificuldades de pensar em 4 cineastas pós-70 que tiveram este numero de grandes filmes prejudicados, quanto mais 2/3 da filmografia em Hollywood.

Duvido muito que Os Vingadores passou por exibições testes muito mais extensivas do que as de Ben-Hur ou O Poderoso Chefão a suas épocas.  Sem discordar do aspecto daninho destas exibições, usa-las desta forma é reescrever a história do cinema e sobretudo limita-la a uma parcela importante mas relativamente pequena da sua história (a produção “A” de Hollywood que é onde ela sempre foi mais desenvolvida).

Faz todo sentido: filmes eram feitos para cinema. Ninguém achava que o filme seria visto e depois revisto em VHS, laserdisc, DVD, Blu-ray, TV a cabo, Netflix, Internet, etc.

Filmes eram produzidos com um único objetivo: estrear numa sala e arrecadar na bilheteria. Uma vez que o espectador tivesse comprado o ingresso, a batalha estava ganha.

Há uma verdade contida ai, salvo pela avant garde e de filmes bancados por investidores atrás de abatimento fiscal (algo raramente mencionado é que a maior parte dos filmes de baixo orçamento americanos da década de 70 foram financiados por empresários prontos só a deduzi-lo do imposto, por exemplo), cinema invariavelmente foi produzido com a intenção de arrecadar dinheiro (veja bem dinheiro, não bilheteria).

Claro que é muito mais complexo do que a noção romântica vendida por Barcinski especialmente nas camadas mais pobres da produção. Um dos filmes cuja fama aumentou muito no boom do DVD a partir do fim da década de 90 foi The Shooting do Monte Hellman, pois bem o filme do Hellman sequer conseguiu ser lançado nas salas americanas a época, não que o produtor Roger Corman tenha perdido qualquer sono com isso, The Shooting foi vendido para múltiplos mercados europeus e para a TV americana.

Praticamente em qualquer ponto da sua historia (da década de 10 aos dias de hoje) o filme de baixo orçamento sempre foi vendido em pacote com o desempenho individual deles afetando seus produtores apenas a longo prazo. Mas Filipe, nestes casos os filmes eram vendidos para o cinema e não DVD! Verdade, mas se formos olhar amplamente a produção em qualquer período as mesmas condições que frequentemente permitem criatividade abriam espaço para muita preguiça, há um motivo pelo qual Roger Corman e Edward L Cahn eram igualmente centrais para a AIP no fim dos anos 50, mas que os filmes do segundo só sejam apreciados hoje de forma irônica.

Mais importante, a televisão é parte do processo comercial do cinema muito antes do VHS se popularizar e com ela já nascia o daninho pan & scan como o comentário do Dave Kehr lá no começa do post bem nos lembra. Mesmo um filme de prestigio como os 2 Chefões do Coppola foi lançado na TV americana como um grande evento com o truque de serem remontados em ordem cronológica à época (este corte foi lançado em VHS aqui e imagino ao menos alguns cinéfilos da minha geração descobriram os filmes pela primeira vez assim).

Se formos subescrever para um olhar sobre os filmes que leve em conta seus métodos de produção é preciso reconhecer que estes sempre foram mais complexos do que o simplismo proposto pela Barcinski. E principalmente que a esta altura o cinema já passou mais tempo disputando a primazia do audiovisual com a televisão (e sua própria série de méritos/linites estéticos e de recepção) do que teve ela para si próprio.

É verdade que o DVD e a Internet afetam filmes contemporâneos, mas o mesmo vale para TV na tal era de ouro dos anos 70. Peter Weir, cujo trabalho serviu de ponto de partida da reflexão do Barcinski, era um homem de TV e o próprio The Last Wave foi filmado entre episódios para um minisserie da TV australiana e um filme feito para a mesma (The Plumber).

Até o chamado “cinema alternativo” sofre com isso. É só ver o fenômeno da globalização dos filmes de arte para comprovar.

Hoje, se você tirar o som de um filme argentino, por exemplo, é impossível diferenciá-lo de um filme francês ou de um sueco. Todos se parecem. A fotografia obedece à mesma estética publicitária “clean”.

As diferenças estéticas do cinema de cada país, antes tão evidentes, foram quase banidas, em prol de uma assepsia global. O cinema virou um grande saguão de aeroporto, igual em toda parte.

Mais do que qualquer outro trecho do post do Barcinski este me incomoda muito.  Ele é incorreto na observação e, para mim, na sua conclusão.

Primeiro não é bem verdade que os cinemas nacionais são desprovidos de um especifico; está ai o cinema romeno contemporâneo que na verdade até sofre muito com a impressão de ser programático em excesso (o fotografo Oleg Mutu por vezes parece ter mais influencia autoral sobre esta produção do que qualquer diretor) com um estilo que por vezes se sobrepõe as vozes individuais. Acho difícil olharmos o boom do cinema argentino na década passada ou do iraniano nos anos 90 e não ver o mesmo fenômeno em que o sucesso de alguns cineastas (Kiarostami, Mahmalbaf, Martel, Alonso) levou programadores de festivais a buscar seus múltiplos imitadores. É difícil imaginar algum cinéfilo vendo Las Acacias ou Tempo de Embebedar Cavalos e não assumir facilmente a origem deles.

Não discordo que exista certo cinema internacional contemporâneo, mas ele é bem mais complexo do que “a fotografia obedece a mesma estética”, primeiro porque não é um, mais vários que se encaixam em diferentes setores de exibição e eu diria são excessivamente  moldados pelas preferências estéticas de alguns programadores específicos (esta influência assim como a de certas vendedoras de direitos internacional certamente sustentam um post de sociologia dos problemas do cinema internacional contemporâneo melhor do que as reclamações contidas aqui). São barreiras muito menos nacionais do que de guetos específicos e elas certamente produzem muitas derivações nem sempre habilidosas, mas elas estão longe de se dissolvem todas no mesmo cinema, apesar de que salvo por alguns autores idiossicraticos nossas distribuidoras tenderem a se concentrar num par delas (um certo tipo de produção comercial local, geralmente francesa, e um mais agressivo “cinema autoral” geralmente bancado pela francesa Wild Bunch).

O que me incomoda sobretudo na observação inicial de Barcinski é a idéia de que este especifico nacional como uma qualidade em si. Acaba-se retomando uma ideia de cultura nacional, muito popular por aqui, que me parece bem problemática. A dissolução numa ideia de contemporâneo um tanto genérica é certamente um risco que alguns filmes correm (inclusive alguns brasileiros, diga-se), mas eu diria que é um risco bem menos problemático de que, digamos, exigir dos filmes do João Pedro Rodrigues alcancem um ideal da cultura português, que é a conclusão final que tiramos da reclamação do Barcinski.

Como críticos nunca gostamos de iniciar um argumento a partir de “eu não gosto de”, mas o principio de conecta-lo a um processo histórico sempre permite um risco grande de reversamente reconstruí-la sem intenção em favor da nossa agenda.

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Andrew Sarris

Uma pequena seleção de críticas de Andrew Sarris, um dos melhores cr[iticos americanos que faleceu hoje.

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Carlão

Escrevi três textos sobre o Carlão ao longo dos anos, um deles para a Cine Imperfeito em 2004 sobre O Império do Desejo que eu infelizmente não tenho cópia, os outros dois, sobre os filmes mais recentes dele (Bens Confiscados para a Contracampo em 2005 e Falsa Loura para a Paisá em 2008), eu reproduzo aqui neste post. Alem disso, participei (na verdade essencialmente escutei e transcrevi) um bate papo entre ele e o Inácio Araujo para edição de 5 anos da Contracampo em 2003 que esta disponivel aqui.

Alem disso gostaria de fazer um parêntese sobre a nota infeliz do Ministério da Cultura (que eu não vou reproduzir aqui porque não vale a pena), ela é só mais um lembrete que nós não temos mais um Ministério da Cultura, mas sim um ministério de comércio de exploração cultural.

BENS CONFISCADOS

Há dois fluxos constantes na obra de Carlos Reichenbach: de um lado há os filmes celebratórios e do outro os lamentos amargos (que geralmente tomam a forma de intensos melodramas). Isto talvez fique bem representado pela oposição da dupla O Império do Desejo (80) e Amor, Palavra Prostituta (81): no primeiro filme, pela forma como se constrói num clima de “tudo pode acontecer”, enquanto o segundo mantém uma estrutura extremamente fechada (um prólogo, um epílogo e quatro capítulos dedicados a cada protagonista).

Bens Confiscados é talvez o mais duro filme do cineasta desde Amor, Palavra Prostituta, um filme quase todo na negativa cujos momentos de alento surgem pela inabalável crença do cineasta na força do cinema. Assim como no filme anterior, Bens Confiscados é desenvolvido a partir de um formato dramático bastante rígido, com três atos demarcados por três espaços específicos (a metrópole, a chácara de interior e o hotel de litoral), cujo tom é ditado por um coadjuvante (o assessor político, o caseiro chucro, o húngaro). Ao optar por trabalhar o filme a partir deste princípio, Reichenbach – um cineasta que tendemos a associar com uma liberdade de filmar – não deixa de abrir mão de parte do que torna seu cinema especial. Só que esta limitação termina por se revelar um benefício a longo prazo, na maneira com que um certo desespero formal por parte do cineasta espelha o que se vê na tela.

Ao escalar Beth Goulart como a ex-esposa do senador corrupto cujas denúncias são o ponto de partida da ação do filme, Reichenbach torna inevitável uma aproximação com Dois Córregos, onde a atriz também era usada nas cenas que serviam de moldura para o drama de sentimentos que estava no cerne do filme. Mas aqui, ao dar tom de chanchada a estas cenas, Reichenbach foi especialmente feliz. Não deixa de valer a pena apontar que, desde que Bens Confiscados foi exibido pela primeira vez, a forma de representação que o cineasta encontrou para este material de moldura ganhou ainda mais força. Há algo de profundamente político em Bens Confiscados, mas isso reside para bem além das cenas com Goulart ou mesmo na constatação mais didática do filme de que a figura mais destrutiva não é o peão violento, mas a do assessor de bons modos. O que há de político em Bens Confiscados é mais direto, atinge o espectador como um soco bem dado na cabeça do estômago.

Serena (Betty Faria) detém uma rara passividade para uma protagonista de Reichenbach. À primeira vista ela parece quase existir como testemunha para os dramas ao seu redor (o da garota, da mulher do caseiro). Até o momento em que aceita sair com Miklos (Eduardo Dusek) podemos mesmo afirmar que ela nada faz. Betty Faria – que, como produtora, de certa forma divide com o cineasta a condição de dona do filme – plana sobre Bens Confiscados como uma musa intocável (trata-se do raro verdadeiro exemplar de veículo para estrela no cinema brasileiro contemporâneo), ou ao menos é o que filme nos leva a crer, enquanto sutilmente vai trabalhando sobre ela desde seu primeiro plano. Quando se escreve sobre Reichenbach costuma-se usar o substantivo “generosidade”, que decerto é bastante correto, mas vale também observar que ocasionalmente esta generosidade vem complementada por um grande senso de crueldade. O que é Bens Confiscados se não um lentamente organizado estupro emocional? O que mais podemos tirar do rosto de Serena nas imagens finais? As certezas de Serena – que de certa forma espelham as do espectador diante de um material à primeira vista bastante convencional – vão sendo discretamente dissolvidas. A rigidez da mise en scène de Reichenbach – talvez a mais clássica do cineasta – revela algo de sufocante que permanece no ar. Se Serena termina por se revelar a grande vitima de Bens Confiscados, é justamente por, ao contrário do garoto ou da mulher do caseiro, crer que tudo sabe – quando pouco compreende da cadeia de eventos à sua volta. É justamente a sua posição de testemunha complacente que precisa aos poucos ruir. Bens Confiscados, um perfeito exemplar de parceria bem sucedida entre diretor/atriz, poderia ser descrito como um filme sobre um cineasta que aos poucos conduz sua atriz a uma armadilha, não fosse este comentário soar como a subvalorização da inteligência do trabalho de Betty Faria no filme.

Não podemos deixar de mencionar as diferentes maneiras com que o cineasta encontra camadas de manobra dentro da rigidez da forma que se auto-impôs. Basta observar a figura de Eduardo Dusek, que parece existir para além do filme, injetando em cada uma das suas cenas uma vitalidade bem particular; ou a seqüência em que o garoto passeia na praia com as duas pedagogas. Bens Confiscados reafirma a crença do cineasta em seu universo particular, na sua capacidade de trabalhar a partir de tipos (Antonio Grassi, excepcional), no artifício das suas imagens. Carlos Reichenbach acredita no cinema, algo que a maior parte dos nossos diretores apenas finge crer. Suas imagens significam e comentam a si mesmas, em vez de nos serem simplesmente dadas. Só por isso qualquer filme seu, mesmo os menores, é sempre um acontecimento no cenário do cinema brasileiro. Logo, Bens Confiscados – seu melhor trabalho desde Alma Corsária – não deixa de se afirmar como um dos grandes filmes que chegaram a nós em 2005.

FALSA LOURA

Falsa Loura começa e se encerra com a protagonista Silmara sendo sobreposta a cidade. Muito do projeto cinematográfico de Carlos Reichenbach fica claro nestes dois planos: o corpo de Silmara, com controle completo no começo e devastado ao final, se diluindo sobre todo este espaço da cidade. Falsa Loura existe neste intervalo entre um mergulho no materialismo e outro no imaginário dessa mulher. Logo, todas as fusões que se multiplicam ao longo do filme servem como pontes para que nos movimentemos de um extremo ao outro deste jogo estético. Carlão mistura registros com uma liberdade raramente vista no cinema brasileiro recente criando uma fábula musical concreta sem muitos equivalentes seja na sua obra seja de mais ninguém. Se seus filmes pós-Alma Corsária vinham se encaminhando para um certo classicismo – que se revelou de forma cristalina em Bens Confiscados, – Falsa Loura retoma uma liberdade maior, sem com isso abrir mão do melodrama zurliniano que tanto interessa ao cineasta e todo um cuidado com dramaturgia que o acompanha. Trata-se de um equilíbrio encontrado antes somente no grande Anjos do Arrabalde.

Mais do que nunca neste filme de intervalos temos contato com a generosidade que tanto marca os filmes de Carlão. Falsa Loura é Nelson Ayres e Paulo Ricardo, é Sócrates e um musical brega, é o mistério contido no rosto de João Borbonnais e a transparência do rosto de Maurício Mattar. Não surpreende que o filme incomode a tantos (basta vermos o tratamento vergonhoso que os juris do Festival de Brasília e do Cine Ceará dispensaram a ele). Este é talvez o grande ato político de Carlão; numa era onde filmes – mesmo aqueles de proposta mais radical – são sempre codificados, nos entregar um filme que se recusa veementemente a sê-lo. Falsa Loura abraça a tudo, menos a ser produto. Não é um caminho fácil e a recusa se torna por vezes inevitável, mas o filme segue de pé com a mesma dignidade de sua protagonista.

O cineasta usa desta generosidade para compor seu universo como um painel onde o mínimo detalhe conta. Impressiona como cada operária, mesmo com só duas ou três falas, ficam registradas diante de nosso olhar com sua personalidade; ou a maneira como pequenos momentos se sobressaem – Cauã Raymond dando uma última olhada na casa de Silmara, o espetáculo de um segurança rígido a acompanhar a movimentação no Clube Alvorada, o rosto sempre iluminado de Silmara enquanto ela reage às mais diversas situações -, ou a transparência límpida com que tudo é encenado, sem segredos, mas confiante que se achou naquele espaço, nessas personagens e sobretudo nesses atores algo especial.

Falsa Loura se instala em sua São Paulo periférica quase abandonada pelas câmeras do cinema brasileiro, ao menos no registro proposto por Carlão (só Ricardo Elias vem tentando algo similar). O bloco passado no Clube Alvorada é exemplar na maneira que este processo se realiza. São imagens de uma fluidez, de uma troca de experiências e de uma riqueza narrativa impressionantes. É o espaço do conto de fadas cotidiano onde o imaginário das operárias é realmente tangível, onde cada drama individual não só pode ganhar corpo, mas é celebrado. Mais que um espaço, um palco, para cada uma daquelas mulheres. Onde até mesmo o cantor e sua banda podem se afirmar dentro da sua própria fábula. O momento onde a banda entra em cena e Carlão a revela em todo um esplendor que faz justiça ao espaço que ocupam no imaginário de Silmara e suas amigas, ao mesmo tempo em que o cineasta dobra todo o seu projeto e permite reconhecermos aquele outro imaginário que por uma hora é confirmado. Igualmente privilegiadas, num sentido oposto, são as seqüências da fábrica, onde se pratica uma verdadeira ontologia espacial do trabalho, com cada movimento cuidadosamente pensado, mas repousado de maneira com que o filme jamais se perca numa mão pesada sobre a brutalização do capital (Reichenbach sabe que é tudo é muito mais complicado). Seqüências como estas (ou todo o bloco final no interior) nos relembram daquela palavra meio assustadora chamada mise-en-scène que os burocratas do nosso cinema adorariam que esquecessemos enquanto celebram seus filmes geriátricos, mas que sempre se reafirma diante da camera de Carlão.

Como Inácio Araujo bem observou, Falsa Loura é o primeiro filme de fato sobre o proletariado pós-marxista. Um filme que desloca todo o nosso olhar habitual sobre o tema. Construído sobre relações de poder, mas onde elas se instalam numa chave entre o imaginário e o comportamental. A Silmara cabe no máximo reconstruir o guarda-roupa da amiga mais simples ou se afirmar diante das companheiras seja pela firmeza de sua presença, valorizando seu encontro com o músico popular, ou pelos seus cabelos loiros. Carlão sabe delinear a maneira como hoje o verdadeiro palco político se constrói através das relações de comportamento. É marca da grandeza de Falsa Loura que o filme possa se construir através de todo um imaginário afetivo popular, mas nunca deixa de ser um filme sobre esta operária específica, que o filme se recuse sempre a generalizar aquela experiência quando a tentação é de certo muito grande.

Por fim, Falsa Loura melhor do que qualquer outro filme do cinema brasileiro, registra a maneira como a história diária se escreve no corpo; como toda uma jornada de brutalização – ainda mais impressionante na medida que o filme se recusa a encarar Silmara como vítima – se revela ali na superfície daquela mulher. Em seu movimento final, com a fábula completa e o corpo brutalizado – em último plano digno de antologia – cabe a ela simplesmente se dissolver diante de nós.

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