Algumas observações sobre a lista da Sight & Sound

O Homem com a Camera, de Dziga Vertov

Semana passada como todo meio cinéfilo sabe foi divulgada a 7º lista de melhores filmes de todos os tempos da Sight & Sound. A atenção inevitavelmente acabou voltada para Um Corpo que Cai terminar a frente de Cidadão Kane pela primeira vez, mas acho mais atraente olhar para as margens dela. O que torna a lista da S&S, um objeto tão interessante é menos os filmes do que como a idéia de refazê-la de dez em dez anos permite um olhar sobre seu recorte. Em suma, inevitavelmente é menos uma lista sobre filmes do que sobre um cânone e entendo que discussão de cânones seja chata para alguns, mas não para mim.

O top 50 esta disponivel aqui para quem ainda não viu.

Algumas observações sobre a lista:

— O Homem com a Câmera como grande novidade do top 10 é simbólico por muitos motivos. Ao contrario de filmes que surgiram no top 10 em décadas passadas, o filme do Vertov não  contou com nenhuma restauração ou grande retrospectiva nos anos recentes para ajuda-lo, o máximo que se pode dizer é que o filme esta disponível numa excelente edição de DVD lá fora.É o primeiro filme de não-ficção no top 10 desde 52 e é também certamente o titulo mais experimental a entrar numa dessas listas. O Homem com a Câmera não só entrou no top 10 como o filme que ele tirou da lista foi o Encouraçado Potemkin. Vertov a frente de Eisenstein é uma quebra de cânone habitual muito inesperada e bastante simbólica se formas pensar mudança de paradigmas do que seria um cinema político hoje. Eisenstein por sinal não foi bem na lista como um todo, Ivan, o Terrivel caiu do top 50 para fora do top 100, o que me entristece bem mais do que Potemkin não estar no top 10.

— Nada, porem me entristece mais em toda lista do que a desvalorização de Charles Chaplin. Luzes da Cidade (em outros tempos uma inevitável presença no top 10) terminou num distante 50º e Tempos Modernos em 63º. Chaplin historicamente é o único diretor de comédias cujos filmes costumam figurar constantemente neste tipo  de lista, mas desta vez ele terminou inclusive recebendo menos votos que Buster Keaton (que teve A General em 34º e Sherlock Jr em 59º). Não é incomum encontrar artigos sobre os limites da história oficial que ao tocar em comédia menciona Chaplin como exceção no descaso com o gênero justamente pelos motivos extra humor (o sentimentalismo, o lado social, etc.), mas aparentemente nem estes bastam mais. Eliminado estes fatores faz certo sentido que Keaton, cujo estilo mais formalista e dinâmico certamente torna-o mais contemporâneo, colhera mais votos.

— Muito se reclamou – como sempre acontece após exercícios como esse – dá ausência de filmes  recentes, mas vale dizer que em 2002 entraram no top 50, 0 filmes da década de 90 e só 2 da de 80, contra os 2 dos 00 e 3 dos 90 desta vez. No top 100 como um todos apareceram 3 filmes dos anos 2000 (In The Mood For Love, Mullholand Dr, Yi Yi), 5 da década de 90 (Satantango, Close Up, Historie(s) Du Cinema, Beau Travail, A Brighter Summer Day) e 6 filmes da década de 80 (Shoah, Touro Indomável, Blade Runner, Sans Soleil, Veludo Azul, Fanny & Alexander). 14 filmes das últimas três décadas pode parecer pouco, mas é muito similar ao desempenho do cinema até 1939 (17 filmes). Pessoalmente, me preocuparia mais com M e A Atalante serem os únicos filmes da década de 30 não dirigidos por Renoir ou Chaplin ou com a lista contar com só 11 filmes asiáticos do que com a ausência de filmes recentes.

— Apesar de eu suspeitar muito da ideia de que vivemos uma era em que “tudo esta facilmente disponível” é verdade que esta é a primeira lista da S&S em que a combinação DVD/Blu-Ray + Internet tornou muitos filmes bem mais fáceis de acessar em boas copias; em 1992, por exemplo, seria muito difícil para A Cor da Romã aparecer numa lista dessas entre outras coisas porque era um filme difícil de sequer assistir.  Outro efeito provável da web é ajudar a permitir que certos guetos críticos refinem seus próprios cânones o que ajuda a explica o desempenho notável de Bela Tarr (não só Satantango em 35º, mas tanto Werckmeister Harmonies e O Cavalo de Turim entre os 10 mais votados dos anos 2000) ou Edward Yang ser o mais improvável diretor com dois filmes na lista.

— A lista como um todo diluiu muito mais seus votos do que nas edições anteriores, mas ainda sim se concentrou bastante na obra de alguns poucos diretores. Godard, Hitchcock e Bergman tiveram quatro filmes mencionados entre os 100, e Renoir, Welles, Dreyer, Tarkovsky, Coppola e Bresson tiveram três títulos cada um. Estes oito diretores terminaram responsáveis por 30% da lista.

4 Comentários

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4 Respostas para “Algumas observações sobre a lista da Sight & Sound

  1. João Gabriel

    Eu não acho ruim ter 8 diretores com 30% da lista. A lista não foi previamente calculada para ser diversificada. Ao contrário, os votantes, ao pensarem no seu top 10 pessoal, um número super restrito, naturalmente vão atrás de quem considerem indispensáveis. E há algo de saudável para a filmografia de um diretor não ter um filme absoluto que domine as preferências das listas, eis por quê os votos se dividem entre 3 ou 4 filmes, só para ficar entre os muito citados.

  2. Rodrigo Duarte

    Preciso!!!!

  3. Elson

    pra quem interessar possa, o filme “O Homem com a Camera”, de Dziga Vertov, está inteiro disponível no youtube.

  4. Pingback: Os melhores filmes de todos os tempos « Cine-Fórum CCB

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