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Thom Andersen além de Los Angeles Plays Itself

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The Thoughts That Once We Had (2015), de Thom Andersen

Muitos cinefilos paulistanos tiveram a oportunidade de conhecer Thom Andersen quando a Mostra trouxe Los Angeles Plays Itself em 2014. Trata-se certamente da obra prima de Andersen tanto como cineasta quanto crítico, mas a partir de amanhã (8/7) o CCSP iniciara a retrospectiva “Hollywood e além: o cinema investigativo de Thom Andersen” que nos dará a oportunidade de conferir o restante da obra de Andersen que vai certamente além daquele grande filme. A retrospectiva inclui até onde sei todos os longas e médias do realizador e grande maioria dos curtas dele, incluindo alguns trabalhos do ano passado que ainda não circularam muito. Andersen é um cineasta essencial justamente porque poucos são tão hábeis em nos colocar diante de como a história das formas (seja numa arte como cinema, seja nos espaços públicos que frequentamos, etc.) ajuda a formar nossa compreensão do mundo. Como costumo dizer o que há de menos importante nos filmes de Andersen e se concordamos ou não com suas teses e conclusões, mas este desejo de expandir o olhar.

Entre outras coisas é uma bela oportunidade para colocar as preocupações com arquitetura, espaço público e políticas de Andersen num contexto mais amplo. Por exemplo, Red Hollywood (co-dirigido pelo Noel Burch) e Get Out of the Car, os filmes que Andersen realizou antes e depois de Los Angeles Plays Itself ajudam bastante a coloca-lo no contexto, o primeiro narrando a historia dos artistas militantes comunistas em Hollywood e o segundo completando a construção da identidade urbana de Los Angeles para além da sua imagem no próprio cinema.

A retro é uma rara oportunidade de assistir ao primeiro média dele Eadweard Muybridge, Zoopraxographer que é um dos seus melhores filmes e geralmente circula na internet em cópias de qualidade duvidosa. Um trabalho excepcional de crítica e história e um dos seus filmes formalmente mais interessantes, além de um bom exemplo do senso de humor do Andersen em relação ao seu tom professoral que sempre ajuda os filmes a fluir melhor. A retro também inclui a primeira exibição paulistana do longa mais novo de Andersen The Thoughts That We Once Had, que acho só passara por aqui no Fronteira ano passado. É um filme intrigante justamente porque tira Andersen do seu habitat natural do pragmatismo da crítica americana e numa direção mais especulativa da tradição francesa. O ponto de partida são os dois livros de cinema do Deleuze, mas é bom destacar aos deleuzianos que eles são mais um veículo para as ideias de Andersen do que o foco do filme.

A retro também inclui alguns trabalhos de cineastas próximos e as vezes parceiros do realizador como Peter Bo Rappmund, Billy Woodberry e Ross Lipman.

No dia 14 após a segunda exibição do The Thoughts That We Once Had haverá um bate papo entre o Andersen, Remier Lion e o Aaron Cutler (que fez a curadoria da mostra junto da Mariana Shellard).

A programação esta disponível aqui.

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Mostra 2015

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Um Dia Quente de Verão (1991), de Edward Yang

Não é uma das Mostras de São Paulo com seleção mais apetitosas, mesmo assim tem muita coisa a se ver.

Filmes que mais me interessam:

Hors-concours: Visita ou Memórias e Confissões (Manoel de Oliveira)
Ao Longo dos Anos (Nikolaus Geyrhalter)
Os Campos Voltarão (Ermanno Olmi)
É o Amor (paul Vecchiali)
Garoto (Julio Bressane)
John From (João Nicolau)
As Mil e Uma Noites (Miguel Gomes)
Para o Outro Lado (Kiyoshi Kurosawa)
Ryuzo e seus Sete Capangas (Takeshi Kitano)
Três Lembranças da Minha Juventude (Arnaud Deplaschin)

Filmes que me interessam bastante:

Aferim! (Radu Jude)
O Apostata (Federico Veiroj)
Através da Sombra (Walter Lima Jr.)
Campo Grande (Sandra Kogut)
Experimentos (Michael Almereyda)
Meu Amigo Hindu (Hector Babenco)
Meu Querido Hans (Alexander Mindadze)
Montanha (João Salaviza)
Para Minha Amada Morta (Aly Muritiba)
O Prefeito (Bruno Safadi)
O Quarto Proibido (Guy Maddin, Evan Johnson)
Quase Memória (Ruy Guerra)
Sob Nuvens Elétricas (Aleksey German Jr.)
O Touro (Larissa Figueiredo)
Volta a Terra (João Pedro Plácido)

Outros Brasileiros que me interessam:

Aspirantes (Ives Rosenfeld)
Boi Neon (Gabriel Mascaro)
California (Marina Person)
O Espelho (Rodrigo Lima)
Fome (Cristiano Burlan)
Futuro Junho (Maria Augusta Ramos)
Mais do que Possa Me Reconhecer (Allan Ribeiro)
Mate-me por Favor (Anita Rocha da Soliveira)
A Morte de J.P. Cuenca (João Paulo Cuenca)
Origem do Mundo (Moa Batsow)
Piadeiros (Gustavo Rosa de Moura)
Ralé (Helena Ignez)
Seca (Maria Augusta Ramos)
Todas as Cores da Noite (Pedro Severien)
Tropykaos (Daniel Lisboa)

Outros filmes de interesse:

El Abrazo de la Serpiente (Ciro Guerra)
Armadilha (Brillante Mendoza)
Boxe (Florin Serban)
A Bruxa (Robert Eggers)
Bone Tomahawk (S. Craig Zahler)
Cinzento e Negro (Luis Filipe Rocha)
Coração de Cachorro (Laurie Anderson)
Desde Alla (Lorenzo Vigas)
Enquanto Estamos Sonhando (Andreas Dressen)
Mistress America (Noah Baumbach)
Ornamento e Crime (Rodrigo Areias)
Pardais (Runar Runarsson)
La Patota (Santiago Mitre)
Sabor da Vida (Naomi Kawase)
Son of Saul (Laszlo Nemes)

Imperdivel claro é a retrospectiva do Film Foundation. A seleçáo é otima, alguns filmes como A Cor da Romã e Coronel Blimp passaram na Mostra nem tem tantos anos assim, mas valem muito a pena. Tem pelo menos dois clássicos do cinema americano que raramente são discutidos desta maneira (Bom Dia Tristeza do Preminger e Um Caminho para Dois do Stanley Donen), três filmaços pouquíssimo vistos (Aguaceiro, do Bahram Beizai, Garota Negra, do Ousmane Sembene, e Manila nas Garras da Luz do Lino Brocka), além é claro da exibição de Um Dia Quente de Verão do Edward Yang, que é junto do filme do Manoel o maior evento da Mostra, até porque por questões de direitos segue sem nenhum lançamento em DVD/Blu-Ray de qualidade.

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Nova Holywood no CCBB

Corrida Sem Fim (1971), de Monte Hellman

Corrida Sem Fim (1971), de Monte Hellman

Começou hoje no CCBB-SP (semana passada no de Brasília e a partir da próxima quarta no Rio) a mostra Easy Riders: o cinema da Nova Hollywood. A despeito de o nome trazer a mente aquele livro horroroso do Peter Biskind, a mostra tem uma bela seleção indo dos títulos mais manjados (o próprio Easy Rider, Bonnie e Clyde, MASH, A Última Sessão de Cinema, etc.) e incluindo vários grandes filmes em 35mm que passam muito pouco como O Portal do Paraíso, Two-Lane Blacktop, Five Easy Pieces, Targets, The Effects of Gamma Rays on Man in the Moon Marigolds, Os Maridos, Tragica Obsessão, Warriors e A Ultima Missão. Alem disso exibem em Blu Ray (O CCBB ainda não suporta DCP infelizmente) alguns belos filmes de gênero da época igualmente raros como Nasce um Monstro, Sorcerer, Halloween e Rolling Thunder. Certamente um dos eventos mais legais do ano. Só tem um filme selecionado que eu não recomendo (Rede de Intrigas), o resto mais do que justifica as longas filas que devem rolar no CCBB.

Além disso tem um ótimo catalogo com textos do Luiz Carlos Oliveira Junior, Calac Nogueira, Bruno Andrade, Guilherme Martins, Sergio Alpendre, etc. Contribui com uma tentativa de traçar uma historiografia do cinema americano partindo deThe Shooting/Ride in The Whirlwind de Hellman e Caçada Humana do Arthur Penn e indo até o começo da década de 70. Acho um pouco corrido demais dado as limitações de tamanho, mas creio que serve de introdução ao tema.

Aos leitores de Brasília devo estar por ai para participar do debate da Mostra no dia 29 a noite.

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Mostra 2014

Los Angeles por Ela Mesma, de Thom Andersen

Los Angeles por Ela Mesma, de Thom Andersen

Como sempre faço uma lista de indicações para Mostra. Está divida em 3 blocos, os dois primeiros tem 10 filmes cada e são recomendações mais fortes. Asterisco indica que eu já vi o filme.

A MOÇA E OS MÉDICOS (TIREZ LA LANGUE, MADEMOISELLE), de Axelle Ropert (100′). FRANÇA.
A PROFESSORA DO JARDIM DE INFÂNCIA (HAGANENET), de Nadav Lapid (119′). ISRAEL, FRANÇA.
*DETETIVE D: O DRAGÃO DO MAR (DI RENJIE: SHEN DU LONG WANG), de Hark Tsui (130′). CHINA.
*DO QUE VEM ANTES (MULA SA KUNG ANO ANG NOON), de Lav Diaz (338′). FILIPINAS.
JAUJA (JAUJA), de Lisandro Alonso (108′). ARGENTINA, DINAMARCA, FRANÇA, MÉXICO, EUA, ALEMANHA E BRASIL.
NOITES BRANCAS NO PÍER (NUITS BLANCHES SUR LA JETÉE), de Paul Vecchiali (94′). FRANÇA.
O VELHO DO RESTELO, de Manoel de Oliveira(19′). (o Alentejo, Alentejo que passa com ele estaria na terceira lista)
OS CONVIDADOS (THE GUESTS), de Ken Jacobs (79′). ESTADOS UNIDOS.
QUEEN & COUNTRY (QUEEN & COUNTRY), de John Boorman (115′). REINO UNIDO.
UM POMBO POUSOU NUM GALHO REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA (EN DUVA SATT PÅ EN GREN OCH FUNDERADE PÅ TILLVARON), de Roy Andersson (100′). SUÉCIA, ALEMANHA, NORUEGA, FRANÇA.

A VIDA INVISÍVEL (A VIDA INVISÍVEL), de Vítor Gonçalves (99′). PORTUGAL.
ACIMA DAS NUVENS (CLOUDS OF SILS MARIA), de Olivier Assayas (123′). FRANÇA, SUIÇA, ALEMANHA.
CARTA A UM PAI (CARTA A UN PADRE), de Edgardo Cozarinsky (70′). ARGENTINA, FRANÇA.
*COM OS PUNHOS CERRADOS (COM OS PUNHOS CERRADOS), de Luiz Pretti, Pedro Diogenes, Ricardo Pretti (74′). BRASIL.
*COSTA DA MORTE (COSTA DA MORTE), de Lois Patiño (84′). ESPANHA.
DOIS DIAS, UMA NOITE (DEUX JOURS, UNE NUIT), de Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne (95′). BÉLGICA, FRANÇA, ITÁLIA.
DUAS IRMÃS, UMA PAIXÃO (DIE GELIEBTEN SCHWESTERN), de Dominik Graf (138′). ALEMANHA, AUSTRIA, SUIÇA.
ELA VOLTA NA QUINTA (ELA VOLTA NA QUINTA), de André Novais Oliveira (108′). BRASIL.
MINHA AMIGA VICTORIA (MY FRIEND VICTORIA), de Jean Paul Civeyrac (95′). FRANÇA.
PÁSSARO BRANCO NA NEVASCA (WHITE BIRD IN A BLIZZARD), de Gregg Araki (91′). FRANÇA, ESTADOS UNIDOS.

A CIDADE IMAGINARIA (A CIDADE IMAGINARIA), de Ugo Giorgetti (52′). BRASIL.
A COR QUE CAIU DO CÉU (EL COLOR QUE CAYO DEL CIELO), de Sergio Wolf (75′). ARGENTINA.
A HISTÓRIA DA ETERNIDADE (A HISTÓRIA DA ETERNIDADE), de CAMILO CAVALCANTE (120′). BRASIL.
A PEQUENA CASA (CHIISAI OUCHI), de Yoji Yamada (136′). JAPÃO.
A SELVA INTERIOR (LA JUNGLA INTERIOR), de Juan Barrero (80′). ESPANHA.
A VIDA PRIVADA DOS HIPOPÓTAMOS (A VIDA PRIVADA DOS HIPOPÓTAMOS), de Maíra Bühler, Matias Mariani (91′). BRASIL.
AMOR À PRIMEIRA BRIGA (LES COMBATTANTS), de Thomas Cailley (98′). FRANÇA.
ARRAIANOS (ARRAIANOS), de Eloy Enciso Cachafeiro (70′). ESPANHA.
AS BRUXAS DE ZUGARRAMURDI (LAS BRUJAS DE ZUGARRAMURDI), de Álex de la Iglesia (114′). ESPANHA,FRANÇA.
AS MARAVILHAS (LE MERAVIGLIE), de Alice Rohrwacher (111′). ITÁLIA,SUÍÇA,ALEMANHA.
AS NOITES BRANCAS DO CARTEIRO (BELYE NOCHI POCHTALONA ALEKSEYA TRYAPITSYNA), de Andrei Konchalovskiy (110′). RUSSIA.
AU FIL D’ARIANE (AU FIL D’ARIANE), de Robert Guédiguian (92′). FRANÇA.
AUSÊNCIA (AUSÊNCIA), de Chico Teixeira (87′). BRASIL.
BAAL (BAAL), de Volker Schlöndorff (88′). ALEMANHA.
*BRANCO SAI PRETO FICA (BRANCO SAI PRETO FICA), de ADIRLEY QUEIRÓS (93′). BRASIL.
*CAMPO DE JOGO (CAMPO DE JOGO), de Eryk Rocha (71′). BRASIL.
CASA GRANDE (CASA GRANDE), de Fellipe Barbosa (114′). BRASIL.
CASTANHA (CASTANHA), de Davi Pretto (95′). BRASIL.
DÓLARES DE AREIA (DOLARES DE ARENA), de Laura Amelia Guzmán, Israel Cárdenas (85′). REP. DOMINICANA, MÉXICO, ARGENTINA.
EL MUDO (EL MUDO), de Daniel Vega, Diego Vega (86′). PERU, FRANÇA, MEXICO.
ESTRELA CADENTE (STELLA CADENTE), de Lluís Miñarro (105′). ESPANHA.
FORÇA MAIOR (TURIST), de Ruben Ostlund (118′). SUÉCIA , DINAMARCA, NORUEGA.
MAPA (MAPA), de Leon Siminiani (85′). ESPANHA.
NON FICTION DIARY (NON FICTION DIARY), de JUNG Yoon-suk (93′). CORÉIA DO SUL.
O FIM DE UMA ERA (O FIM DE UMA ERA), de Bruno Safadi, Ricardo Pretti (70′). BRASIL.
O HOMEM QUE ELAS AMAVAM DEMAIS (L´HOMME QU´ON AIMAIT TROP), de André Téchiné (116′). FRANÇA.
O PEQUENO QUINQUIN (P’TIT QUINQUIN), de Bruno Dumont (200′). FRANÇA.
OBRA (OBRA), de Gregorio Graziosi (80′). BRASIL.
OPIUM (OPIUM), de Arielle Dombasle (77′). FRANÇA.
OS MAIAS – CENAS DA VIDA ROMÂNTICA (OS MAIAS – CENAS DA VIDA ROMÂNTICA), de João Botelho (133′). BRASIL,PORTUGAL.
PARIS DO NORTE (PARÍS NORÐURSINS), de Hafsteinn Gunnar Sigurðsson (95′). ISLÂNDIA.
PERÍODO DE GESTAÇÃO (UNCERTAIN TERMS), de Nathan Silver (74′). ESTADOS UNIDOS.
PERMANÊNCIA (PERMANÊNCIA), de Leonardo Lacca (90′). BRASIL.
PORQUE EU ERA PINTOR (PARCE QUE J’ÉTAIS PEINTRE), de Christophe Cognet (104′). FRANÇA, ALEMANHA.
PROMETO UM DIA DEIXAR ESSA CIDADE (PROMETO UM DIA DEIXAR ESSA CIDADE), de Daniel Aragão (90′). BRASIL.
RETORNO A ÍTACA (RETOUR À ITHAQUE), de Laurent Cantet (95′). FRANÇA.
RHINO SEASON (FASLE KARGADAN), de Bahman Ghobadi (88′). IRÃ, IRAQUE, TURQUIA.
RUA SECRETA (SHUIYIN JIE), de Vivian Qu (94′). CHINA.
SINFONIA DA NECRÓPOLE (SINFONIA DA NECRÓPOLE), de Juliana Rojas (85′). BRASIL.
TRISTEZA E ALEGRIA (SORG OG GLÆDE), de Nils Malmros (107′). DINAMARCA.
*VENTOS DE AGOSTO (VENTOS DE AGOSTO), de Gabriel Mascaro (77′). BRASIL.
WINTER SLEEP (KIS UYKUSU), de Nuri Bilge Ceylan (196′). TURQUIA, ALEMANHA, FRANÇA.

Além disse como sempre vale destacar as retrospectivas e cópias de filmes restaurados que como sempre são um ponto forte da Mostra. A homenagem ao Victor Erice apesar de infelizmente não contar com seus curtas é obrigatória para quem não conhece. Nunca vi nada do Noboru Nakamura, mas o Sérgio Alpendre que conhece cinema japonês melhor do que eu recomendo-o bastante especalmente Lar Doce Lar e Paixão Mórbida. Dentro da retrospectiva do Marin Karmitz, destaco em especial Melo (Resnais), Salto no Vazio (Bellocchio) e Conto de Cinema (meu Hong Sang-soo favorito).

Meus grandes destaques porém ficam por conta das exibições de Los Angeles por Ela Mesma do Thom Andersen e Anna do Alberto Grifi e Massimo Sarchielli, ambos são filmes bem longos, mas essenciais e são oportunidade raras de ver no cinema.

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Fritz Lang

Almas Perversas (1945)

Almas Perversas (1945)

 

Evento imperdível para o cinéfilo paulistano: retrospectiva completa do Fritz Lang no CCBB. Vai depois para Rio e Brasília. Ao contrario da maioria dos eventos similares o CCBB separou uma bela grade (6 semanas) e todos os filmes serão exibidos em película.

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Broken Lullaby (Ernst Lubitsch, 1932)

Broken Lullaby é a principio um filme muito improvável na carreira de Ernst Lubitsch, bem distante da comedia sofisticada safada de um Trouble in Paradise ou Design for Living. Trata-se de um melodrama de pós-Guerra: jovem francês segue perseguido pela memoria do soldado alemão que matou vai a procura da família deste e aos poucos toma seu lugar. Há um peso enorme sobre as costas do filme, falamos frequentemente de comedia de recasamento, mais eis aqui mais incomum um drama de recasamento, onde o relacionamento que precisa ser recuperado é de todo um continente. Outro dia mencionei como o cinema de Capra era ligado intimamente aos anos 30 e o mesmo pode ser dito de Broken Lullaby que segue inseparável de um contexto do entre guerras, de uma ideia de continente dilacerado, assombrado pela ideia de que convidou a barbárie para sua própria sala. É um filme anti-guerra com algumas peculiaridades, já que ao mesmo tempo muito especifico no seu retrato e muito expansivo na forma que confronta de frente a ideia do assassinato institucionalizado. O humor em Lubitsch é frequentemente baseado num desejo de conservar as boas maneiras, fazer valer o pacto civilizatório por mais selvagens que sejam as situações, Broken Lullaby é o exato contraponto disso, um filme sobre vida após tal pacto ser quebrado. Não deixa de ser uma articulação do subtexto que assombra muitos dos seus filmes e raramente é sugerido no primeiro plano (as maiores exceções são provavelmente não por acidente as suas duas obras-primas do período da segunda guerra To Be or Not To Be e Heaven Can Wait). Como qualquer articulação do tipo, há momentos em que se flerta com a mão pesada (e não ajuda o protagonista ser Philips Holmes, um dos astros mais fracos do começo dos anos 30), mas o filme se sustenta em parte pela precisão da sua concepção: um filme sobre culpa no qual a única saída disponível é um suicídio simbólico. Lubitsch não encara tal ideia com qualquer subterfúgio, os últimos minutos do filme são quase insuportáveis. Quando a noiva do falecido leva Holmes a um quarto para ler a sua última carta para ela, o espaço é apresentado de forma tão opressiva que é como se Holmes se apresentasse diante de um pelotão de fuzilamento. As imagens finais são assombradas pela fragilidade da reconciliação possível, um dos finais felizes mais sinistros de todo o cinema.

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O Último Chá do General Yen (Frank Capra, 1933)

general yen

Meu amigo David Phelps curou um programa dos mais interessantes chamado Auteurs Gone Wild, atualmente em cartaz em Nova York. Numa troca de mails David sugeriu que eu escrevesse sobre os filmes que ele selecionou aqui para o blog e me pareceu uma ótima ideia para reativar este espaço aqui, além de ser uma excelente desculpa para revisitar alguns favoritos e descobri algumas raridades do catalogo de cineastas favoritos. Parte da ideia de David é buscar filmes nos quais cineastas tiveram liberdade para fugir de formatos nos quais foram consagrados e se aventurar por terrenos desconhecidos. Filmes que paradoxalmente são trabalhos nos quais seus diretores frequentemente tiveram um controle maior do que em seus filmes mais canonizados e se revelam bem mais excêntricos. Como alguém sempre fascinado pela ideia de contra cânone a seleção de Davis não poderia ser mais interessante para além de O Último Chá do General Yen, a serie inclui os dois filmes que Chaplin só dirigiu, A Woman of Paris (1923) e A Condessa de Hong Kong (1967), Sob o Signo de Capricórnio (Hitchcock), Anatahan (Von Sternberg), Peter Ibbetson (Hathaway), Edward, My Son (Cukor), You and Me (Lang) e Broken Lullaby (Lubitsch).

Por uma dessas coincidências eu passei uma parte razoável dos dois primeiros meses do ano assistindo uma série de filmes pré código Heyes com Barbara Stanwyck incluindo os três primeiros filmes que ela fez com Frank Capra (Ladies of Leisure, Miracle Woman e Forbidden), e não deixa de ser interessante retomar O Último Chá do General Yen, que acabou por ser a última colaboração deles,  tendo em vista os filmes anteriores. Apenas Miracle Woman pode ser descrito como um típico Capra e Forbidden tem um pouco da perversidade de General Yen. São também progressivamente melhores (Ladies of Leisure é bem medíocre, Forbidden irregular, mas muito interessante) e se O Último Chá do General Yen permanece o meu Capra favorito, os dois filmes que realizaria na sequência (Dama por um Dia, Aconteceu Naquela Noite), seriam meus outros dois candidatos.

No geral ver Yen pouco depois de uma série de outros filmes do começo da carreira ajuda a contextualiza-lo melhor e torna-lo menos um objeto estranho na carreira do diretor. Capra é um cineasta que só pode pertencer aos anos 30, porque o populismo proto fascista dele não faz muito sentido no pós II Guerra e de certa forma a condição de outro do General Yen permite que Capra lance mão comais liberdade dos impulsos anti-democráticos que permanecem no subtexto de seus filmes posteriores. Yen é o primeiro das grandes figuras que fascinam o diretor, mas sua concepção permanece mais distante e indecifrável de que nos filmes posteriores, muito pela relação estranha que ele mantém pela ideia do outro. Pois General Yen é uma fabula sobre o desejo missionário no qual o orientalismo é menos usado pelo seu fascínio (como em Sternberg), do que para desenvolver um jogo dualidades em que o fracasso do missionarismo é inseparável da constatação de que o estrangeiro não é o general oriental, mas a missionária ocidental.

As sequencias menos interessantes de O Ultimo Chá são aquelas que reduzem o filme a um jogo ideológico entre Stanwyck e Nils Ashter (ambos extraordinários, e é uma pena que o incomodo da presença politicamente incorreta do dinamarquês Ashter como um general chinês atrapalhe o reconhecimento do trabalho dele aqui), mas elas permanecem graças a concepção geral do filme. O Último Chá do General Yen é um romance inter-racial, previsto nos esforços da mulher branca de negar o seu desejo e na capacidade da imagem cinematográfica de desnuda-lo. Tanto quanto o melhor Sternberg do período, General Yen é na sua essência um filme erótico que esta no seu melhor quando a câmera (um dos melhores trabalhos de Joseph Walker) isola Ashter e Stanwyck no quadro e torna o desejo deles palpável. Yen é um dos raros filmes nos quais a figura objetivada pela câmera é quase sempre o homem, apesar de o filme levar tal ideia em direções curiosas como no pesadelo em que o general faz as vezes tanto de Nosferatu como Valentino.  Não se pode afinal escapar da câmera de cinema.  O tom brutal da perversidade do filme vem do reconhecimento desta ideia.

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