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Auto Focus

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Aproveitando que The Canyons apareceu em algumas listas de melhores do ano e caiu nas graças de alguns amigos que respeito muito, reproduzo um texto meu de 2003 de outro filme de Schrader que me parecer ter vários pontos de contato com ele e que me interessa bem mais.

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Azul é a Cor Mais Quente (Abdellatif Kechiche, 2013)

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Chegar por último em filmes que recebem discussões acaloradas como Azul é a Cor Mais Quente tem por vezes o efeito de te deixar completamente fora dela. Inevitável depois de que o filme acaba ficar com a impressão de que nada ali justifica as reações passionais. Me pareceu um filme de passagem de adolescência bem competente, mas bastante limitado. Centrado numa atuação principal muito forte e alguns momentos muito bem observados, mas diluído por um excesso de esquematismo (sobretudo na segunda metade) e na crença excessiva do Kechiche de que o estilo closes tremidos que sempre lhe agradou emprestasse uma espécie de força que não esta ali (apesar de aquela concentração de closes ter um interesse perverso). O filme é bem mais forte quando visto como uma experiência subjetiva do que naturalista algo que fãs e detratores parecem igualmente distantes. É território no qual a Catherine Breillat já minou com muito mais competência várias vezes, mas não consigo ver ali nenhum grande crime para além de ganhar a pior competição da história de Cannes (quão abismal foi à seleção de Cannes este ano? meu terceiro filme favorito dela foi também meu terceiro filme favorito do Takashi Miike este ano).

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Maurice Pialat

Aos Nossos Amores

Aos Nossos Amores

Aproveitando o começo da retrospectiva imperdível do Maurice Pialat no CCBB de São Paulo, reproduzo o meu texto sobre Aos Nossos Amores para o Cineclube da Contracampo.

A Matéria Prima

Maurice Pialat é geralmente descrito como um cineasta realista – o que não é uma descrição de toda errada, mas que diz muito pouco. Talvez seja melhor apontar que, ao lado de Jean-Marie Straub, Pialat é o mais materialista dos cineastas. O que se vê em seus filmes é o que se obtém. Quando vemos a jovem Sandrine Bonnaire flertando com um marinheiro americano, as imagens do filme revelam apenas o que têm de mais planas: o prazer que esta adolescente tem com o flerte e a segurança com que se relaciona com a própria sexualidade. Pialat está bem longe de ser algum tipo de cineasta descritivo, mas seu trabalho com freqüência é antes de mais nada derrubar a parede que distancia o espectador da ação, colocá-lo no meio do combate. O que temos na maior parte do tempo é uma imagem bruta e tão neutra quanto o cineasta consegue deixa-lá. Muito da dificuldade de um filme como Aos Nossos Amores vem dele deixar boa parte do trabalho para o espectador – que é quem é chamado para se decidir neste panorama de guerra familiar. É preciso saber lidar com as imagens no que elas têm de mais plano e bruto para realmente se apreciar Pialat.

As primeiras imagens de Aos Nossos Amores nos apresentam Sandrine Bonnaire – este foi seu primeiro filme – num ensaio de uma peça amadora. Ela é aqui um tanto desajeitada a ouvir as instruções do irmão (você tem 16 anos, é incapaz de amar), que de certa forma adiantam os eventos posteriores. Pialat põe as cartas na mesa e entrega para o espectador a matéria prima do filme: Bonnaire. Aos Nossos Amores é um dos casos mais impressionantes de parceria diretor/atriz: todo o filme é construído a partir dos ritmos da atriz, existe a partir dela. Mesmo na famosa cena do jantar, onde sua participação parece discreta, Bonnaire permanece central. Não é uma questão de um quadro composto para valorizar a atriz, pelo contrario, ela nem sempre tem espaço privilegiado na imagem. Trata-se de focar o filme na relação entre a atriz e a câmera, da atriz com os outros atores. Pialat sempre gostou de construir situações em que atores deixassem cair a máscara da interpretação – não surpreende portanto sua atração por atores infantis ou adolescentes, mas no seu trabalho com Bonnaire levou o processo ainda mais longe. Um dos prazeres de Aos Nossos Amores é justamente observar uma atriz descobrindo sua arte. Há um senso de novidade a cada gesto, a cada interação, mesmo nas mais desagradáveis cenas de violência, em que não temos muitas dúvidas de que os atores estão mesmo a trocar tapas.

A pintura

Maurice Pialat começou a carreira como pintor, e é uma pena que seja tão raro encontrar reproduções desta sua obra inicial, já que ela diz muito sobre sua estética particular. Pode-se dizer que Pialat tem, junto com Robert Bresson, o melhor olhar de pintor de todo o cinema. Seus filmes à primeira vista não têm nada em comum, e é bem provável que eles (Bresson, ao menos) não gostassem muito de ser colocados juntos, mas as semelhanças são consideráveis. Quando se pensa na relação cinema/pintura, geralmente vem à mente filmes cujas imagens estáticas fiquem bonitas numa reprodução em livro ou revista (praticamente qualquer filme fotografado por Vittorio Storaro) – não é dessa idéia de aproximação cinema/pintura que falamos aqui. Considerem esta passagem de uma entrevista de Bresson dada à época do lançamento de O Dinheiro: “Já fui chamado de janseísta, o que é loucura. Sou o oposto. Estou interessado em impressões. Darei um exemplo de O Dinheiro. Quando estou nos Grands Boulevards, a primeira coisa que penso é: como eles me impressionam? E a resposta é que eles me impressionam como uma massa de pernas e sons de pisadas sobre o pavimento. Eu tentei comunicar esta imagem através de imagem e som… É preciso haver um choque no momento de faze-lo, é preciso haver a sensação de que os humanos e as coisas a ser filmadas são novos, você precisa jogar surpresas no filme. É isto que acontece na cena no Grands Boulevards. Eu podia sentir os passos, me foquei nas pernas do protagonista, e na maneira que eu podia propeli-lo pela multidão até onde ele precisava chegar. Estes são os Grands Boulevards até onde me interessam, todo o movimento.”

Esta descrição (que poderia tranqüilamente ter vindo de Pialat, apesar de que a solução por ele encontrada certamente seria outra) se parece muito mais com a que se espera de um pintor do que a de um cineasta, mas ela pode ser uma boa porta de entrada para obra de ambos os cineastas em questão. Ela também aponta uma clara distância tanto de uma imagem bela (e elas são bem raras em Pialat) quando do realismo fotográfico com o qual ele é freqüentemente associado. Sua associação com o último será de uma profunda radicalização do processo. A pergunta-chave que guia Aos Nossos Amores é: como representar a experiência desta adolescente? È isto que Pialat fará seguindo-a pelas noitadas com as amigas, pelo mal-estar dentro de casa ou no desconforto com que testa um vestido de noiva. O filme procurará sempre a imagem mais adequada para isso. Podemos sentir na pele as pinceladas de Pialat, a forma como se trabalha por acumulação dentro do plano. É um filme de radicais alterações de tom, indo dos momentos mais alegres aos mais desconfortáveis. Muito se fala da vida promíscua de Suzanne, mas pouco a vemos. Geralmente apenas uma preliminar ou alguma troca de dialogo pós-sexo, na verdade sexo aqui – como em alguns outros filmes que cineasta fez à época como Loulou e Policia – é mais um desejo, uma urgência do que um prazer – e o filme deixa-o quase todo nas suas elipses, se concentrando mais nas suas conseqüências. Aos Nossos Amores vai mesmo a estratosfera nas cenas entre pais e filhos (o próprio Pialat interpreta o pai e Evelyne Ker faz a mãe). Aqui a forma como o cineasta consegue captar o clima do set é usada ao máximo em favor do filme. É notório que Aos Nossos Amores teve o que talvez seja o set mais caótico da carreira de Pialat, com grandes desentendimentos – possivelmente incentivados – entre o elenco, em especial entre Evelyne Ker e Sandrine Bonnaire. As cenas entre Bonnaire, Ker e Dominique Besnehard (o irmão que assume a condição de figura paterna pela maior parte do filme) são de um peso e concentração raro em todo o cinema. O clima de que o apartamento-ateliê (um grande achado cênico, por sinal) está prestes a explodir e que animosidade toma conta do ar é latente. A guerra familiar tem um peso bem próprio, poucas vezes no cinema a não-comunicação entre pais e filhos foi exibida de forma tão extrema, mas ao mesmo tempo o tom de experiência vivida construído pelo filme garante a ele uma forte credibilidade.

A tristeza sempre durará

Todo o filme deságua no momento do retorno do pai (desaparecido por cerca de uma hora), interrompendo o jantar familiar. Trata-se de uma cena de cerca de quinze minutos, onde o restante da família (Suzanne, o marido, mãe, o irmão com noiva e futuro cunhado, além de um amigo) confraterniza. As variações radicais na parte inicial da cena que sugerem uma progressiva agressão entre irmãos prepara a chegada do pai, assim como instaura a cena como o momento que confirma Aos Nossos Amores como o grande estudo sobre ressentimento na obra de Pialat. No filme, as feridas parecem se multiplicar, cada troca entre personagem por trás do seu discurso parece querer de alguma forma a atingir o outro. Um pequeno exemplo se encontra na descrição que Suzanne faz a uma amiga da conversa que teve com o marinheiro americano logo depois de fazerem sexo. Ele:“Obrigado”, ela :“não tem de que, foi de graça”. A única explicação para tal troca de diálogos nesse momento é o desejo mútuo de ferir um ao outro e a si próprio, desejo esse que se espalha por todo o filme. Pascal Bonitzer, na sua crítica a Aos Nossos Amores, traça um paralelo bastante útil entre o ressentimento em Pialat e Nietzsche, na maneira como em ambos ele reside sem a necessidade de se buscar uma razão inicial.

O clima chega ao ápice justamente instantes antes da chegada do pai. A partir dali tudo se torna nebuloso, muito pela decisão de Pialat de escalar a si próprio na figura do pai. Excelente ator, Pialat antes disso jamais havia colocado a si mesmo em cena. Sua presença na imagem cria uma camada extra de crueldade a seqüência, como se o cineasta tivesse adentrado ao quadro para poder melhor maltratar seus atores, tornando dessa forma o discurso do pai mais ambíguo nas suas implicações. O pai entra como um trator, retomando o espaço que abdicara ao abandonar a família, brigando com a esposa e depois se concentrando em agredir verbalmente o filho – apesar de todas as cenas de ataque físico do filme, esta cena de assalto verbal é de certo a mais violenta – até entrar na sua explicação para as últimas palavras de Van Gogh (a tristeza sempre durará): “vocês são os tristes, tudo o que vocês fazem é triste“. È nesse momento que Pialat finalmente questiona Bonnaire, que até então parecia marginalizada em cena. É importante observar aqui como a seqüência toda é filmada. O pai esta sentado de um lado da mesa enquanto o resto da família se encontra do outro (com exceção da mãe, que está próxima ao pai mas é excluída pelo quadro fechado). A cena quase toda é filmada em plano e contraplano, com o contraplano dando ênfase em quem o pai esta atacando -com exceção dos planos do irmão, onde a disposição no quadro de Bonnaire a ressalta -, mas isto somente até a filha ser invocada e Pialat pela primeira vez optar por fazer a câmera percorrer a mesa. A seguir a situação é levada ao limite, com a família toda sendo puxada para o mesmo plano, com destaque em particular para dois contraplanos, um do marido de Bonnaire e outro dos demais convidados (nenhum dos quais volta a dividir o quadro com os membros da família). São justamente estes dois planos, somados à posição estranha que Sandrine Bonnaire – a protagonista do filme que aparenta sumir no seu clímax –, que nos dão as chaves para compreender o circulo vicioso de dor e ressentimento imposto até ali. Há em Maurice Pialat algo que podemos definir como a ética do contraplano, a ética da testemunha, daquele que observa (que obviamente inclui o espectador). Daí Sandrine Bonnaire – que é ao mesmo tempo presença física marcante em diversos planos da seqüência, mas a primeira vista desimportante para a ação – ser na verdade sua figura central. É a ela que o pai fala, que seu olhar busca, que sua câmera – lembrando que o pai também é o cineasta – vai privilegiar e por fim buscar. A testemunha será aquela que precisará lidar com os efeitos da situação, nunca um júri do que vê, mas uma figura que precisa aprender a se tornar ativa no final do processo. Uma porta de saída. A última imagem do filme é justamente essa, uma porta de saída, ainda que incerta.

 

 

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Manoel de Oliveira

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Como Manoel de Oliveira completa hoje 105 anos um pequeno post com os links de todos os seus filmes completos que estão no You Tube:

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Travelling Light (Gina Telaroli, 2011)

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É um filme simples que já se explica muito bem pelo seu título. Há dois elementos de cena que se destacam: movimento e luz. Planos raramente soam estáticos, mesmo quando a câmera se encontra em repouso a ideia de dinamismo da viagem segue sempre em primeiro plano, o trem, os passageiros, a luz, os planos de Travelling Light seguem sempre agitados.  Na outra ponta esta luz verdadeira protagonista cujas alterações ao longo da viagem de trem de Nova York a Pittsburgh acompanhamos. Observando-a no filme há algo de fúnebre que aos poucos tom conta dele, um lembrete de que o cinema esta sempre registrando uma ação que desapareceu que o que vemos é gravação é a impressão digital de uma luz que ficou lá atrás. É bem interessante considerar que Travelling Light nasceu das ruinas de um outro filme, ainda mais que este outro filme fosse uma tentativa de ficção, até como um lembrete de que o espaço que separa como respondemos ao experimental e a ficção é bem menor do que a convenção sugere (algo reforçado pela consciência que o filme revela de toda a longa história de trens no cinema). Este é o segundo filme longo de Gina Telaroli, mas o que ele me trouxe a mente foram dois filmes crepusculares de mestres em fim de carreira Age Is… do Stephen Dowskin e Educação Sentimental do Julio Bressane, o que os três tem em comum é o mesmo testemunho das fragilidades do cinema num momento vital do seu desenvolvimento.

Travelling Light segue em cartaz até domingo no site da Lumiere e recomendo muito que se separe uma hora para ele.

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Festival do Rio

A Filha de Ninguém, de Hong Sang-soo

A Filha de Ninguém, de Hong Sang-soo

De Menor (Caru Alves de Souza)
A Filha de Ninguém/Our Sunhi (Hong Sang-soo)
A Gente (Aly Muritiba)
A Imigrante (James Gray)
Jogo das Decapitações (Sergio Bianchi)
Ouro (Thomas Arslan)
Tatuagem (Hilton Lacerda)
Tip Top (Serge Bozon)

Abuso de Vulnerável (Catherine Breillat)

A sequencia inicial e final estão entre as melhores coisas que Breillat filmou e o filme como um todo é um exercício de auto-ficção sempre intrigante, mas a maior parte do miolo do filme me parece um tanto teórico demais para uma cineasta cujos méritos tendem a ser sempre muito físicos.

Bastardos (Claire Denis)

Um filme resolvido através da textura. Uma imagem adoecida é uma imagem justa. Trouble Every Day reimaginado para uma Europa que já não poupa sequer a encenação de Denis.

Educação Sentimental (Julio Bressane)

Julio Bressane acredita que certas ideias só podem ser sentidas como cinema. Poderia se chamar A Última Película, o que torna mais tocante que fosse a única do festival (ou ao menos parecesse ser).

Estranho no Lago (Alain Guiraudie)

Dos prazeres e riscos do desejo. A dramaturgia aponta justamente os perigos, enquanto a encenação tem o prazer sensual de Renoir de Um Dia no Campo (a sequencia final tem o mérito notável de casa-las). O uso constante de repetição e a forma como Guiraudie aproxima seus corpos nus do espaço campestre é dos mais convidativos do cinema recente. Um filme a se perder nele, mas que te mantém sempre ressabiado e consciente da sua construção.

A Gatinha Esquisita (Ramon Zurcher)

Outro filme dos mais convidativos que reimagina uma cozinha de um apartamento classe média como um palco por onde pessoas, animais e objetos desfilam para serem reconfigurados enquanto passeiam dentro e fora de quadro por uma câmera democratica que pouco os diferencia. Há uma qualidade musical na construção de Zurcher que reforçam este efeito. Os ecos de Jeanne Dielman na dramaturgia não funcionam muito bem, mas sua construção sugere uma versão atualizada e maleável da Akerman dos anos 70.

Meia Sombra (Nicolas Wackerbarth)

Brutal e sutilmente engraçada satira ao filme de ferias burguês, se aproveitando muito bem da atuação física Anne Ratte-Polle e um uso cuidadoso de espaço para arejar material bastante familiar. Como o Olaf Moller bem observou é tanto um filme sobre uma mulher lutando contra ser objetivação por um homem que nunca vemos como a luta de uma atriz para não ser reduzida pela câmera a um objeto de cena.

Only Lovers Left Alive (Jim Jamursch)

Depois de um dos seus filmes mais interessantes e arejados (The Limits of Control) foi recebido de forma tão fria pouco surpreende que Jamursch jogue tão seguro aqui. Um compêndio de afetações manjadas do seu cinema que no geral jogam com o que ele tem de menos interessante. O mundo do filme é tão morto que é como se Jamursch decidisse que não valesse a pena se esforçar em anima-lo. Não é o pior filme que vi no Rio (páreo duro entre A Grande Beleza e Um Castelo na Itália), mas sem dúvidas o mais decepcionante.

Quando a Noite Cai em Bucareste (Corneliu Poromboiu)

Sugere uma versão sedada de um filme do Hong Sang-soo. Poromboiu tem várias ideias intrigantes sobre filme e algumas soluções estruturais para acompanha-las. Vai para pasta filmes que eu adoraria de ter gostado mais junto com A Imagem que Falta do Pahn, apesar deste me manter mais constantemente interessado.

Real (Kiyoshi Kurosawa)

Dado que Kiyoshi Kurosawa passou cinco anos sem filmar para cinema, é uma pena que Real não seja um filme mais forte.  A primeira metade tem um sentimento de fragilidade de mundo muito forte, mas após a reviravolta inevitável Real se torna bem menos envolvente ilustrando com competência, mas sem frescor uma série de ideias fáceis.  O longo final funciona graças a sua pura convicção não importa o quão literal ele se torne.

Sacro GRA (Gianfranco Rosi)

Traz a mente os filmes do Eduardo Coutinho na medida que os personagens do qual o filme se aproximo são ligados menos por uma conexão temática do que por um recorte geográfico pré-determinado (reclamar que o filme não tem foco faz tanto sentido quanto dizer que Edifício Master não diz nada sobre o prédio). O mérito do filme não se encontra em alguma grande tapeçaria social, mas na forma com que acha um olhar exato para cada um dos seus protagonistas. Este era também o mérito do El Scicario Quarto 164, mas ali Rosi tinha um só personagem, ao fragmentar a abordagem ele dilui um pouco o efeito.

O Último dos Injustos (Claude Lanzmann)

A entrevista com Benjamin Murmelstein, último administrador do gueto judeu modelo que os nazistas mantiveram até o fim da II Guerra, que está no centro deste filme novo de Lanzmann é de 1975, portanto está mais distante de nós do que dos eventos que ela relembra. Lanzmann tem consciência disso, tem consciência de como todo seu longo projeto de entrevistas pertence ele próprio a um outro tempo, de que é necessário agora construí duas pontes de ressonância histórica entre o período nazista e 75 e entre 75 e hoje.  O Último dos Injustos lança um olhar sobre todo um amplo processo de passagem da história (o próprio Lanzmann é não por acidente alavancado a co-protagonista). Certamente um dos melhores filmes do festival.

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Fim de cinema

 

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Festival do Rio

Blind Detective, de Johnnie To e Wai Ka Fai

Blind Detective, de Johnnie To e Wai Ka Fai

A pedidos um post com recomendações para o Festival do Rio. Dividido em dois blocos. Os filmes já vistos vem acompanhado de asterisco. Resolvi excluir os filmes da Premiere Brasil já que ela funciona quase como um festival à parte.

Lista A
*O Ato de Matar, de Joshua Oppenheimer
Até que a loucura nos Separe, de Wang Bing
Bastardos, de Claire Denis
Blind Detective, de Johnnie To e Wai Ka Fai
Em Berkeley, de Frederick Wiseman
Um Estranho no Lago, de Alan Guiraudie
A Filha de Ninguem, de Hong Sang-soo
A Garota de Lugar Nenhum, de Jean-Claude Brisseau
*A Gatinha Esquisita, de Ramon Zürcher
O Imigrante, de James Gray
Night Moves, de Kelly Reichardt
Our Sunhi, de Hong Sang-soo
*Outrage Beyond, de Takeshi Kitano
Real, de Kiyoshi Kurosawa
Tip Top, de Serge Bozon
O Ultimo dos Injustos, de Claude Lanzmann

Lista B
Abuso de Vuneravel, de Catherine Breillat
Backwater, de Shinji Ayoama
*Behind the Candelabra, de Steven Soderbergh
Computer Chess, de Andrew Bujalski
O Conhecido Desconhecido, de Errol Morris
Corredor da Morte: Retratos, de Werner Herzog
A Dança da Realidade, de Alejandro Jodorowsky
A Estação de Rádio, Nicolas Philibert
Gerantophilia, de Bruce La Bruce
O Gigante Egoista, de Clio Barnard
A Imagem que Falta, de Rithy Pahn
Joe, de David Gordon Green
Jovem e Bela, de François Ozon
Lacrau, de João Vladimiro
Layla Fourie, de Pia Marais
Manuscritos Não Queimam, Mohammad Rasoulof
Meia Sombra, de Nicolas Wackerbarth
Nós Somos os Melhores, de Lukas Moodysson
Only Lovers Left Alive, de Jim Jamursch
Ouro, de Thomas Arslan
Porque Você não vai brincar no Inferno?, de Sion Sono
Quando a noite cai em Bucareste, Corneliu Paramboiu
Quando Eu Era Sombrio, de Matthw Porterfield
Sacro Gra, de Gianfranco Rosi
Sapi, de Brillante Mendoza
Sonhos Americanos na China, de Peter Chan
Sozinha, de Wang Bing
*Spring Breakers, de Harmony Korine
Terra Prometida, de Gus Van Sant
Vic + Flo viram um Urso, de Denis Coté
Vosso Ventre, de Brillante Mendoza

Resolvi excluir os filmes da Premiere Brasil já que ela funciona quase como um festival à parte. O Bressane estaria na Lista A e tem mais uns oito títulos que me interessam bastante (metade deles no Novos Rumos, quase inacessíveis, já que Festival desistiu de tentar programar a seção).

Também recomendo a retrospectiva de Alain Guiraudie que é um grande cineasta e a muito bem curada Mostra a Escola de Berlim que incluí um bom número de filmes fortes (meus favoritos:  Yella, Nas Sombras, Todos os Outros e Algo Melhor do que a Morte).

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Brisseau

Os Anjos Exterminadores

Aproveitando que os amigos mineiros recebem a imperdível retrospectiva de Jean-Claude Brisseau no Indie (logo mais em São Paulo), repúblico aqui no blog minha crítica a Os Anjos Exterminadores na Contracampo quando o filme entrou em circuito em 2007.

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The Next Voice You Hear… (William Wellman, 1950)

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Um dos lados bons de assistir muitos filmes antigos é que você ocasionalmente cruza com alguns filmes esquecidos pela história que se revelam por vezes muito mais interessantes do que títulos mais canônicos. Eu não diria que The Next Voice You Hear… é alguma obra prima esquecida, mas é um dos filmes mais peculiares que vejo em muito tempo. No centro do filme esta o rádio (não deixa de ser uma parábola sobre comunicação de massa), certo dia a programação de todas as estações é interrompida por uma voz que declara ser de Deus e promete manter-se em contato. O filme acompanha os efeitos das transmissões de rádio (ao qual nunca ouvimos) numa família ao longo de uma semana. É bem um filme de sua época, é fácil, por exemplo, fazer um paralelo entre ele e ficções-cientificas como O Dia em que a Terra Parou. O que o torna fascinante hoje é a forma opressora com que William Wellman filma tal material. A mensagem do filme se quer afirmativa, mas da experiência dele o que resiste é a ideia de um Deus de velho testamento assustando seus fiéis e o sentimento de paranoia frente ao desconhecido. É como se uma sitcom fosse infectada por um filme de horror de Val Lewton.

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100 Filmes de Hong Kong

Comrades, Almost a Love Story, de Peter Chan

Comrades, Almost a Love Story, de Peter Chan

Prometi esta lista ano passado quando o pessoal do LoveHKFilm fez a deles, demorou mas finalmente consegui chegar numa relação de cem filmes (e especialmente escrever sobre todos eles). Como gosto sempre de lembrar nestes casos esta é uma lista de favoritos e não de melhores, sem nenhuma pretensão a autoridade e colocando a satisfação pessoal acima de importância histórica. O recorte é inevitável dos filmes que eu vi, o que explica o baixo número de filmes anteriores a 1970 no qual tem muitas pendencias. Devo dizer que a lista é menos plural do que outras do gênero que eu fiz já que um dos contrapontos de se ter uma industria muito tolerante com diversidade é que não se tem espaços mais genuinamente alternativos (logo nada de documentário ou filmes não-narrativos). Uma última questão importante é de que nem sempre é fácil determinar a nacionalidade dos filmes das três Chinas e eu tentei me concentrar em filmes rodados em ou financiados por Hong Kong, o que atrapalhou sobretudo King Hu que é muito associado ao cinema local, mas fez a maior parte dos seus filmes em Taiwan.

Abaixo a lista:

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Passion (Brian De Palma,2013)

Passion

O primeiro plano é de um laptop da Apple anunciando que estamos no terreno das imagens mercantilizadas e dispensáveis. Ainda mais que na maioria dos De Palmas é um filme de imagens desgastadas (até a trilha de Donnagio soa cansada) que se contrapõe a série de manequins prontos a aceitar seus papeis ensaiados (que Rachel McAdams essencialmente sugira sua personagem de Meninas Malvadas se fingindo adulta só reforça esta impressão), todas as relações desaguam na mesma farsa seja corporativo seja sexual.  É uma co-produção europeia tão apátrida quanto Femme Fatale, mas a sua falta de raiz revela aqui uma melancolia, o filme se agarra as suas locações em Berlim como se buscasse uma autenticidade que lhe ilude, como se o cinema lhe deixasse para trás.  É duro ser o mestre das imagens dispensáveis quando estas se tornam tão saturadas e casuais que se perdem em meio ao trivial. A segunda metade é menos um compêndio de greatest hits do diretor, do que o pesadelo do mesmo. Um filme cuja força emerge menos da sua triste familiaridade, mas da forma como em seus melhores momentos DePalma parece disposto a abraçar o último Lang e reduzir tudo a uma série de composições geométricas, todo a opulência do seu maneirismo reduzido a depuração dos filmes finais de mestre.

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The Act of Killing (Joshua Oppenheimer,2012)

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The Act of Killing tem tema dos mais espinhosos: o assassinato de mais de um milhão de “comunistas” na Indonésia em meados dos anos 60 por milícias oficiais que cinquenta anos depois permanecem não só não punidos, mas celebrados e em posição de poder o suficiente para que uma visita rápida aos créditos do filme no IMDb revelarem que todos os indonésios que trabalharam nele serem creditados como anônimo. A forma que o diretor Joshua Oppenheimer encontra para confronta-lo é convidar alguns dos carrascos para que colaborem com seu filme e reencenem para a sua câmera alguns destes assassinatos. O resultado é um filme como nenhum outro não só porque as encenações propostas pelos protagonistas são frequentemente acompanhadas de referencias cinéfilas que acrescentam um elemento extra de absurdo a suas imagens, mas porque ele produz um canal direto ao genocídio sem muitos equivalentes (é algo como se Jean Rouch pudesse produzir um filme em parceria com os bandeirantes portugueses). O resultado é um filme sobre a violência da linguagem, linguagem da história, mas também a linguagem do cinema, e as formas como ambas terminam cumplices do discurso oficial não importa o quão demente este seja. A ideia central de que culpa sobre assassinato em massa pode existir, mas no conceito do genocídio indonésio que ele retrata, mas não expressa porque o discurso oficial reprimiu-a, negou-lhe  qualquer articulação genuína. Poderia se argumentar que o filme nos permite uma escapatória ao racionalizar o material como apenas um país de terceiro mundo se perdendo na própria psicose, mas Oppenheimer encontra no seu cenário de banalidade do mal, um material realmente perturbador sobre como a linguagem retrata a história (e assassinato legalizado, em particular) e o lugar do cinema – e mídia em geral – como intermediários dele que é ao mesmo tempo muito especifico e expansivo de maneira aterradora.

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Rio Lobo

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Em homenagem a retrospectiva integral de Howard Hawks no CSSP, republico aqui uma versão ligeiramente revisada do meu artigo sobre Rio Lobo que saiu na Contracampo em 2004. Da meia dúzia de textos que escrevi sobre Hawks ao longo dos anos este é certamente o mais ambicioso (e longo). Se memória não falha quando escrevi a intenção era usar o lançamento de Rio Lobo em DVD para defender toda a fase     final de Hawks da acusação do Robin Wood de que ela seria decadentista.

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Billy Wilder

Avanti (1972)

Avanti (1972)

Com a retrospectiva do Billy Wilder acontecendo no Cinesesc me parece útil repostar aqui este texto escrito para o site da Paisà em 2007 me aproveitando do lançamento de uma série de filmes dele em DVD à época. O tom é um tanto mais ácido do que eu escreveria hoje, mas assino embaixo de tudo com a possível exceção do que falo sobre A Mundana que é um tanto melhor do que o texto da a entender.

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