100 Filmes de Hong Kong

Comrades, Almost a Love Story, de Peter Chan

Comrades, Almost a Love Story, de Peter Chan

Prometi esta lista ano passado quando o pessoal do LoveHKFilm fez a deles, demorou mas finalmente consegui chegar numa relação de cem filmes (e especialmente escrever sobre todos eles). Como gosto sempre de lembrar nestes casos esta é uma lista de favoritos e não de melhores, sem nenhuma pretensão a autoridade e colocando a satisfação pessoal acima de importância histórica. O recorte é inevitável dos filmes que eu vi, o que explica o baixo número de filmes anteriores a 1970 no qual tem muitas pendencias. Devo dizer que a lista é menos plural do que outras do gênero que eu fiz já que um dos contrapontos de se ter uma industria muito tolerante com diversidade é que não se tem espaços mais genuinamente alternativos (logo nada de documentário ou filmes não-narrativos). Uma última questão importante é de que nem sempre é fácil determinar a nacionalidade dos filmes das três Chinas e eu tentei me concentrar em filmes rodados em ou financiados por Hong Kong, o que atrapalhou sobretudo King Hu que é muito associado ao cinema local, mas fez a maior parte dos seus filmes em Taiwan.

Abaixo a lista:


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Mambo Girl (Wen Yi, 1957)
O primeiro e melhor dos musicais estrelados pela Grace Chang.  Um musical bastante incomum em que o prazer dos números musicais é contraposto a trajetória da garota do título que descobre ser adotada.  Na sequencia mais famosa do filme, o fantasma da mãe morta canta para a filha angustiada.

hk2The Enchanting Shadow (Han Hsiang-Li, 1960)
Adaptado do mesmo conto de horror que seria filmado mais tarde por Tsui Hark e Ching Siu Tang como A Chinese Ghost Story. Prefiro a versão de Han, bem menos frenética e cuja atmosfera lembra bastante os filmes da Hammer do período.

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The Great Devotion (Chor Yuen, 1960)
Escrevi aqui no blog ano passado sobre a muito variada carreira de Yuen. Este é o filme mais antigo dele que conheço, um melodrama familiar em algum lugar entre Ozu e De Sica. Daqueles filmes que como diria Welles fazem uma pedra chorar.

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The Wild Wild Rose (Wang Tian-lin,1960)
O outro filme de Grace Chang na minha lista e provavelmente seu trabalho mais famoso. É uma versão local de Carmen, com muita atmosfera e Chang num dos seus melhores e menos característicos papeis. É o único filme do Wang Tian-lin na lista, mas ele fez outros trabalhos bastante expressivos e segue ativo até hoje como ator (por exemplo com um dos chefes de tríade no Eleição de To).

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The Love Eterne (Han Hsiang-li, 1963)
A melhor das muitas versões da história dos amantes da borboleta (que deve ser filmada nas três Chinas ao menos uma vez por década) é esta bela opereta. A ambiguidade sexual presente na história original (a protagonista se faz passar por homem para poder estudar numa escola e se apaixona por um colega)  é aumentada ainda mais já que como manda as regras da opereta todos os papeis centrais são interpretados por atrizes.

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Golden Swallow (Chang Cheh, 1968)
O primeiro filme de Chang Cheh da lista é esta sequencia de Come Drink With Me do King Hu. O filme de Hu é excelente e poderia facilmente estar na lista, mas Golden Swallow é ainda melhor e contem algumas das sequências de ação mais exuberantes de todo o cinema.

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Have Sword, Will Travel (Chang Cheh, 1968)
Entre 1966 e 1970, Cheh dirigiu cerca de uma dúzia de filmes ótimos num dos maiores surtos de criatividade que conheço, a maior parte deles eram Wu Xias como Have Sword, Will Travel (há exceções como os millenianos Dead End e The Singing Thief) que é provavelmente meu favorito. Os wu xias de Cheh mantém as mesmas características: mesmo estúdio, elencos e intrigas similares, mas suas variações sempre trazem uma pulsão nova.

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The Arch (Cecilia Tong, 1969)
Um paradoxo: este é o primeiro filme local a mostrar uma influência clara dos cinemas novos do período, mas também é um melodrama feminino que traz a memória (e não faz feio quando comparado) o melhor de Mizoguchi.

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Vengeance (Chang Cheh, 1970)
Mais um Wu Xia de Cheh – cuja obra pouco depois teria que migrar junto com o cinema de ação local para o filme de artes marciais e perderia um pouco da força.  O filme faz valer o título com um tom mais neurótico e obsessivo que o habitual e o final sangrento é memorável.

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The Big Boss (Lo Wei, 1971)
O primeiro dos filmes que Bruce Lee realizou no seu retorno a Hong Kong. A trama não poderia ser mais básica, mas Lee segue uma das presenças de cena mais impressionantes de todo o cinema e as sequencias de luta são excelentes.

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Fist of Fury (Lo Wei, 1972)
Depois de o sucesso de The Big Boss, Lee teve a liberdade muito maior para seu filme seguinte e Fist of Fury é o exemplo mais perfeito da filosofia do astro assim como dos seus interesses nacionalistas. Os dois filmes posteriores de Lee são muito bons, mas é nestes primeiros veículos que ele se mostra mais a vontade.

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Intimate Confessions of a Chinese Courtesan (Chor Yuen, 1972)
O melhor filme de Yuen e um dos filmes mais inclassificáveis já feitos. Não deve existir filme mais brutal sobre prostituição. Um filme de imagens suntuosas em que toda a opulência de uma superprodução da Shaw Brothers é usada para representar os mais espúrios sentimentos.

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Blood Brothers (Chang Cheh,1973)
Entre todos os vários grandes filmes de Chang Cheh, Blood Brothers é não só o mais trágico como provavelmente aquele que apresenta a dramaturgia mais exata.  Este é o último filme do Cheh na lista, mas homem tem uma das filmografias mais extensas e cheia de pontos altos que conheço.

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The Fate of Lee Kahn (King Hu, 1973)
A maior parte dos melhores filmes de Hu (incluindo seu mais famoso A Touch of Zen) foram realizados em Taiwan que é o único motivo pelo qual não há meia dúzia de filmes de Hu nesta lista. Por sorte o meu favorito The Fate of Lee Kahn foi co-financiado com grana de Hong Kong e é elegível para a lista. A carreira de Hu é meio que a oposta de Cheh, ele fez pouquíssimos filmes, mas todos os seus trabalhos das décadas de 60 e 70 são essenciais.

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The House of 72 Tenants (Chor Yuen, 1973)
Na minha experiência é bem difícil interessar cinéfilos ocidentais nas comédias de Hong Kong que tem pouco da sofisticação que geralmente se espera de boa comédia. É uma pena já que o cinema local produziu algumas comédias exemplares como esta The House of 72 Tenants, de um charme contagiante. Outro dia o Sean Gilman do ótimo blog The End of Cinema descreveu o filme perfeitamente como “uma espécie de piloto para uma série de TV imaginária ao qual você gostaria de assistir por anos”. Yuen, de fato, realizou no ano seguinte Hong Kong 73 que serve como uma espécie de sequencia não oficial e quase tão boa quanto.

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The Valiant Ones (King Hu, 1975)
Um encontro de escolas essenciais do filme de ação: a direção é de King Hu e a coreografia de Sammo Hung.  The Valiant Ones é de uma simplicidade que traz a mente um filme de guerra de Raoul Walsh. Não é dos filmes mais famosos do Hu, mas provavelmente é a melhor introdução ao seu cinema.

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The Magic Blade (Chor Yuen, 1976)
A mais famosa das varias fantasias de artes marciais adaptadas de Gu Long que Yuen dirigiu na segunda metade da década de 70 (poderia facilmente escolher  digamos Persuit of Vengeance ou Heaven Sword and Dragon Sabre). Algumas das imagens mais expressivas vindo da Shaw Brothers, excelente intriga e muito bom uso das estrelas Lo Lieh e Ti Lung.

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The Private Eyes (Michael Hui, 1976)
O mais popular dos filmes dos irmãos Hui com o trio trabalhando numa agencia de detetives. Muito engraçado com várias sequencias notáveis (como a do assalto dentro do cinema) e muitíssimo bem observado. Nenhum outro filme de Hui faz tão bom uso de ele ser provavelmente o mais antipático comediante popular desde WC Fields.

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Executioners From Shaolin (Lau Kar Leung, 1977)
Mais do que qualquer outro cineasta que se dedicou ao filme de artes marciais, Lau Kar Leung sempre encarou kung fu menos como uma questão de coreografia (e deve-se dizer que ele foi um dos maiores coreógrafos de ação que o cinema, não só de Hong Kong, viu) e mais como uma forma de estar no mundo. Executioners From Shaolin talez não seja o seu melhor filme, mas é aquele em que esta crença melhor se expressa.

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The Contract (Michael Hui, 1978)
O melhor filme de Michael Hui é esta sátira a televisão. Como um ex-astro de TV, ele conhece o meio muito bem e a acidez do comentário tem mais força que a maioria das sátiras do gênero. É um dos filmes mais frenéticos e engraçados de Hui com as gags mais absurdas (é o tipo de filme em que executivos reagem a queda de audiência se atirando pela janela) e tem a melhor química entre Michael, Ricky e Sam.

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Cops and Robbers (Alex Cheung, 1979)
Um dos primeiros e mais acessíveis filmes do chamado Cinema Novo de Hong Kong. Trata-se de um bem áspero policial sobre como o título sugere a linha tênue entre policiais e criminosos. A ênfase é menos na ação mais num cuidadoso trabalho de observação e o filme se beneficia muito de um uso de locações até então raro no cinema local.

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Dirty Ho (Lau Kar Leung, 1979)
Meu favorito entre os filmes do Lau Kar Leung.  Talvez o mais visualmente expressivo filme realizado na Shaw Brothers e ainda por cima combina ação e humor como poucos.  Gordon Liu tem o seu melhor papel como o homem misterioso que força o ladrão do título a se tornar seu aprendiz. 

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The Butterfly Murders (Tsui Hark, 1979)
A radical estreia de Hark que parte de um misto de suspense e Wu Xia para desconstrui-los. Assim como outros filmes do começo da carreira de Harl, The Butterfly Murders tem um estilo agressivo e utiliza o desejo por uma imagem instável tão comum nos filmes do cineasta como um ataque ao espectador.

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Dangerous Encounters 1st Kind (Tsui Hark, 1980)
O mais radical dos filmes de Hark, banido à época e só lançado num corte amenizado mais tarde. O Cinema Novo de Hing Kong é rico em filmes pessimistas centrados em jovens sem rumo, mas nenhum alcança a agressividade de Dangerous Encounters cujos protagonistas chegam até a colocar uma bomba dentro de um cinema. Talvez o que de mais próximo o cinema chegou de punk rock.

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The Beasts (Dennis Yu, 1980)
Basicamente uma versão muito mais talentosa de The Last House on the Left.
Um casal de irmãos é atacado por uma gang e bem depois o pai vai atrás dos responsáveis e os tortura e mata um a um. Uma descida muito desagradável à pura selvageria retratada com uma crueldade notável. Um dos filmes da lista que eu não recomendaria para qualquer um, mas uma experiência muito forte.

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The Happenings (Yim Ho, 1980)
Outro da lista de retratos cruéis da juventude local realizados no período com a noitada de um grupo de jovens saindo do controle e se tornando progressivamente violenta. Uma das melhores expressões da amargura e aspereza típicas do cinema novo de HK. Foi o primeiro longa do muito talentoso Yim Ho, mais conhecido no ocidente pelo ótimo The Day the Sun Turned Cold.

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Love Massacre (Patrick Tam, 1981)
Um exemplar dos mais bem acabados daquele subgênero paradoxal: o slasher de arte. A parte Bava, nenhum filme usou o sangue jorrando de forma tão expressiva. Tam trabalha cuidadosamente a combinação de arquitetura e cores para narrar como um sentimento tédio e alienação vai aos poucos desembocando numa explosão de violência.

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Man on the Brink (Alex Cheung, 1981)
O melhor dos filmes de Cheung é este muito autêntico trabalho sobre as dificuldades de um policial infilitrado. Man on the Brink retira toda a potencia dramática possível da situação do seu protagonista. É uma pena que após dois ótimos filmes a carreira de Cheung se perdeu em meio a alguns filmes só ocasionalmente interessantes, ele se aposentou no fim da década e desde então trabalha no órgão do governo de Hong Kong que supervisiona a policia local reforçando o interesse genuíno no tema demonstrado em Cops and Robbers e neste filme.

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Security Unlimited (Michael Hui, 1981)
Este foi o último filme que os irmãos Hui fizeram juntos por mais de década e provavelmente o mais convencional deles repetindo a dinâmica de Private Eyes com Michael como supervisor de Sam e Ricky numa firma de segurança. Muitas gags inspiradas.

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The Club (Kirk Wong, 1981)
Kirk Wong se especializou em filmes de ação mais crus e pretensamente realistas do que esperamos da produção local. Este filme de gangster sobre as luta pelo controle de um clube noturno flerta com o Cinema Novo, mas sem o comentário social para além da constatação de que no seu universo todos estão condenados ao mesmo jogo de sobrevivência selvagem. É o seu melhor filme, apesar de eu também adorar Gunmen, sua versão local para Os Intocáveis.

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The Imp (Dennis Yu, 1981)
Um dos meus filmes de horror favoritos.  Homem arranja emprego de segurança num shopping center assombrado por um espirito maligno disposto a reencarnar no seu futuro filho. Perturbador e enervante. A eficácia do filme ligada muito a forma como o horror aqui é ligado a algo tão fácil de se identificar como as pressões de estar começando uma família e precisar sustenta-la.

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Boat People (Ann Hui, 1982)
A Terceira parte da trilogia de Hui sobre o Vietnã e seu filme mais famoso. É um filme denuncia sobre as novas zonas de economia do regime local, muito detalhado, fazendo bom uso do gosto de Hui pelo drama seco.  Um filme quase fulleriano sobre sobreviver.

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Nomad (Patrick Tam, 1982)
– “Nós não estamos fazendo nada pela sociedade”
– “Que sociedade? Nós somos a sociedade”
Um dos mais expressivos filmes já feitos sobre juventude, ao mesmo tempo libertário e niilista. Dotado de uma franqueza rara que se completa bem com a mise en scene de Tam cujo formalismo nunca se revelou tão livre. Eu quase votei em Nomad na lista da Sight and Sound ano passado.

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The Dead and the Deadly (Wu Ma, 1982)
Wu Ma e Sammo Hung colaboram nesta belíssima comédia de fantasmas que se beneficia muito da seriedade com que a ideia de espirito é confrontada na cultura chinesa. The Dead and the Deadly passeia por uma multiplicidade de estilos e sentimentos notável e confronta a ideia da morte como uma força rara.

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Ah Ying (Allen Fong, 1983)
Allen Fong permanece um grande mistério para a maior parte dos cinefilos ocidentais, a parte Ah Ying (que foi lançado em Laser Disc no começo dos anos 90) nenhum dos seus filmes jamais se tornou disponível em formatos de home vídeo e permanecem inacessíveis salvo pela rara retrospectiva. A julgar por Ah Ying, que lida com a amizade entre um diretor de cinema e uma aspirante a atriz num tom que traz a memória o charme e sabedoria calma do primeiro Kiarostami, Fong é um grande artista.

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Last Affair (Tony Au, 1983)
L’amour fou em Paris cortesia do subestimado Tony Au. Melodrama dos mais expressivos com tintas sirkianas e um dos melhores exemplares do curioso gênero dos romances expatriados muito frequentes na produção local nos anos 80. Carol Cheng e Chow Yun Fat são ambos excelentes aqui.

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Project A (Jackie Chan, 1983)
O momento em que as ambições de Jackie Chan como realizador dão um grande salto. É um dos seus filmes mais inventivos e talvez aquele que melhor se sustente de começo ao fim. Han mais tarde dirigiria uma sequência tão boa quanto.

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Cherie (Patrick Tam, 1984)
Uma das grandes ironias de Hong Kong nos anos 80/90 é de que se tratava ao mesmo tempo de uma indústria muito saudável e com bastante espaço para filmes “excêntricos” e uma indústria que existia no meio de um parque de exibição sem nada que se assemelhasse a um circuito “de arte”. Algo que por vezes limita o universo do cinema local (a tradição de documentários é mínima por exemplo). A carreira de Tam é uma das mais curiosas neste sentido justamente por ser um diretor que em outros lugares faria carreira fora da indústria, mas em HK passou a década de 80 inteira negociando de forma frustrante com ela. Cherie é seu filme mais curioso neste sentido já que se quer uma comédia romântica relativamente convencional, mas filmada com um formalismo e um trabalho de cor e exploração de espaço que existe completamente a parte quase como se dois filmes acontecessem em paralelo.

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Eight Diagram Pole Fighter (Lau Kar Leung, 1984)
Eight Diagram Pole Fighter foi um dos últimos filmes produzidos pela Shaw Brothers e o filme de Lau Kar Leung funciona como uma espécie de último suspiro tardio do filme de artes marciais da década de 70. Não poderia ser uma mais bela despedida.

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Shanghai Blues (Tsui Hark, 1984)
Homenagem de Tsui Hark ao cinema chinês clássico (e o belo Crossroads em especial). É um dos seus filmes mais envolventes e controlados sem o tom frenético que esperamos dele. É também um dos seus melhores.

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Teppanyaki (Michael Hui, 1984)
O ultimo dos filmes que Michael Hui dirigiu antes de passar a entregar seus veículos para uma série de artesões como Clifton Ko. A esta altura Hui esta mais relaxado do que nos anos 70, o que no seu caso significa fazer uma comédia sobre um sujeito que só gostaria de cometer adultério em paz. Vale a inclusão nem que fosse pela sequencia com Hui na discoteca.

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Police Story (Jackie Chan, 1985)
Police Story tem as melhores e mais elaboradas sequencias de ação dos filmes de Chan. Para quem aprecia a precisão geométrica com a qual pode-se coreografar o caos não a muitos filmes tão bons quanto este. Faz também excelente uso de Chan comediante, não só na graça dos seus movimentos, mas nas suas reações a anarquia a sua volta.

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The Millionaire’s Express (Sammo Hung, 1985)
Uma das várias tentativas de Sammo Hung de conjugar a maior pluralidade possível de narrativas populares: comédia, faroeste, artes marciais, etc.  Mais do que qualquer outro cineasta local, Sammo era o mestre desta arte de se mover entre tons diferentes. A trama é um achado (Sammo é um trambiqueiro que retorna cidade natal compra a maior parte dos pontos comerciais e depois sabota o trem do título para obrigar os passageiros a servirem de consumidores) e o elenco é excelente.

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A Better Tomorrow (John Woo, 1986)
O filme que transformou John Woo e Chow Yun Fat nas figuras que conhecemos hoje segue essencial e é provavelmente o clássico de Woo que melhor envelheceu. A Better Tomorrow reconhece o quanto o filme de ação frequentemente é pouco mais que “melodrama masculino” e reduz ele a sua essência: pura emoção. Por curiosidade, The Story of a Discharged Prisioner, o filme que Woo refilmou aqui foi um dos últimos cortes da minha lista.

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Peking Opera Blues (Tsui Hark, 1986)
Velocidade chega na poesia. Politica se torna espetáculo. Sexo é algo em constante transformação. Revolução é teatro. Cinema é uma questão de corpo em movimento constante. O melhor filme de Hark.

An Autumn’s Tale (Mabel Cheung, 1987)hk46
Se poucos atores das últimas três décadas tem a presença de cena de Chow Yun Fat, é possível que nem um filme use esta presença tão bem quanto este romance melancólico. É um filme quieto, somente duas figuras solitárias e a possibilidade de alguma conexão afetiva.

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Eastern Condors (Sammo Hung, 1987)
Sammo faz Os Doze Condenados. Assim como os seus melhores filmes ele alterna todos com grande facilidade e o material serve muito bem aos desvios excêntricos que ele tanto aprecia. Sammo e Yao Biao poucas vezes estiveram melhor.

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Final Victory (Patrick Tam, 1987)
O único filme de Tam a alcançar sucesso à época do lançamento foi este filme de tríades sobre um gangster que precisa tomar conta das duas namoradas do irmão enquanto ele cumpre uma passagem pela cadeia. Uma excelente desconstrução de gênero. Eric Tsang é excelente e Tsui Hark faz o irmão com todos os seus maneirismos. Escrito por um tal de Wong Kar wai.

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Rouge (Stanley Kwan, 1988)
Assim como Tam, Stanley Kwan é um cineasta que sempre esteve em certo descompasso com a indústria local, mas Rouge sempre foi um filme muito popular. Um filme de fantasmas romântico conduzido com uma sensibilidade muito particular. Sempre acho curioso pensar como no começo dos anos 90, Kwan parecia destinado a ser o principal nome da geração da segunda metade dos anos 80, mas a carreira dele esfriou na mesma altura que a de Kar-wai decolou, mas assim os primeiros filmes dele (em especial Love Unto Waste, Rouge e Centre Stage) são muito marcantes.

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School on Fire (Ringo Lam, 1988)
Este filme sobre a presença das tríades nos colégios de Hong Kong é o que melhor justifica o estilo sensacionalista de Ringo Lam. Não um plano sútil em todo o filme, mas a raiva que ele transmite não poderia ser mais genuína.

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A Better Tomorrow 3: Love and Death in Saigon (Tsui Hark, 1989)
Tsui Hark essencialmente roubou a série de seu amigo de John Woo para poder usa-la como veiculo para este filme sobre Saigon durante a ocupação americano. É um dos melhores filmes feitos sobre a Guerra do Vietnã conjugando muito bem algumas obsessões de Hark com a descrição de vida civil no pais na época. Rodado logo após o massacre da Praça da Paz Celestial e assombrado por ele, é possivelmente o filme mais subestimado do diretor.

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A Fishy Story (Anthony Chan, 1989)
The Iceman Cometh (Clarence Fok, 1989)
1989 talvez seja o ponto máximo da indústria local quando toda semana lançavam 2-3 filmes e uma quantidade alta deles de ao menos algum interesse (é bom lembrar que falamos da produção de uma única cidade). Bons exemplos disso são estes dois filmes nenhum dos quais vindos de cineasta especialmente consagrados, muito pelo contrario, mas que se beneficiam bem do momento (eles também contam com duas das melhores atuações de Maggie Cheung).  A Fishy Story é m romance passado nos anos 60 entre uma atriz arrivista e um motorista de taxi que balança o tom exato de sinceridade, nostalgia e melancolia. Já The Iceman Cometh é um frenético filme de ação cômico sobre dois guerreiros deslocados no tempo (apesar de metade do filme ser dedicado a prostituta Cheung explorando a inocência do Yuen Biao). Um é um filme de prestigio e outro não poderia ser mais vulgar, mas são ambos excelentes.

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I Am Sorry (Tony Au, 1989)
O melhor trabalho de Tony Au e um dos melhores filmes locais que jamais recebem qualquer atenção.  Em algum ponto entre Mizoguchi e Fassbinder, certamente um dos retratos mais compassivos já feitos sobre a outra.

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Miracles (Jackie Chan, 1989)
Miracles é o filme mais ambicioso e pessoal que Jackie Chan dirigiu. Um remake de Dama por um Dia de Frank Capra que a inventividade da coreografia de Chan se transfere para o prazer com que Chan homenageia Capra.

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Pedicab Driver (Sammo Hung, 1989)
No liquidificador habitual de interesses de Sammo Hung nenhum filme é tão plural quanto Pedicab Driver: há doses consideraveisde ação, romance, comédia e tragédia por vezes na mesma sequencia. Praticamente tudo que se pode esperar de um perfeito exemplar de cinema popular se encontrar aqui. Sempre que me pergunta sobre o prazer de descoberta que o cinema de Hong Kong da écada de 80 proporciona aponto para Pedicab Driver.

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The Killer (John Woo, 1989)
Acho que não preciso escrever muito sobre este mais icônico entre as parcerias de Woo e Chow Yun Fat. Provavelmente se tornou um tanto superestimado com o passar do tempo, mas é excelente de qualquer forma.

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A Moment of Romance (Benny Chan, 1990)
Parte filme de gangster trágico, parte romance adolescente. Não deve haver um único plano aqui que não seja completamente manipulativo, mas há um motivo pelo qual Johnnie To, que produziu, sempre clamou por sua autoria. A Moment of Romance sabe que para fazer um filme como este funcionar precisa-se comprometer com cada excesso e acreditar neles, o filme não sossega até transformar o espectador numa adolescente de 14 anos.

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Bullet in the Head (John Woo, 1990)
Depois de brigar com Tsui Hark e ser demitido de A Better Tomorrow 3, Woo pegou o seu roteiro e transformou-o em Bullet in the Head, sua própria versão de heroic blodshed na Guerra do Vietnã. Mais intenso e melodramático que o filme de Hark, se menos bem observado.

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Days of Being Wild (Wong Kar Wai, 1990)
A elipse é uma ferramenta cinematográfica cruel. Escrevi sobre ele na Contracampo anos atrás.

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Once Upon  a Time in China 2 (Tsui Hark, 1991)
Toda a série de Hark sobre Wong Fei-hung é ótima, mas meu favorito é o segundo filme que tem o melhor  equlibrio entre as preocupações de identidade da série e as sequencias de ação e é certamente o que tem maior ressonância histórica. Alem disso não é todo filme que nos oferece Jet Li e Donnie Yen lutando com coreografia de Yuen Woo-ping.

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Centre Stage (Stanley Kwan, 1992)
O filme de Kwan sobre Maggie Cheung revivendo Ruan Ling-Yu, uma das primeiras estrelas do cinema chinês. Parte ficção, parte documentário e um dos filmes mais sofisticados já feitos sobre performance e representação histórica. Se possível assistam o corte do diretor.

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Hard Boiled (John Woo, 1992)
Mais excessivo e raso que outros filmes de Woo do período, mas aquele que tem a mais cuidadosa arquitetura de situações. A última hora é praticamente uma única sequencia de ação em que o filme segue encontrando novas formas de sustentar. Alguns cínicos dizem qu o filme foi pensado por Woo e seu empresário como uma grande demo de duas horas para os estúdios americanos, se for o caso é o melhor filme portfolio da história do cinema.

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Shogun & Little Kitchen (Ronny Yu, 1992)
Ronny Yu é um cineasta que geralmente é associado a intensidade e excesso e se é verdade que ele é um dos melhores metteur en scenes de Hong Kong e que eu sou capaz de assistir Yu filmar cor e movimento independente da pobreza do material, meu favorito entre seus filmes é esta pequena comédia culinária. É um filme bem simples, mas tem um envolvente sentimento de comunidade e Yu e Yuen Biao transformam cozinhar na mais dinâmica e acrobática das atividades.

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Swordsman II (Ching Siu-Tung/Tsui Hark, 1992)
Evidencia #475 de que a indústria de cinema de Hong Kong na virada dos anos 80/90 era um espaço muito incomum: este blockbuster sobre a terna relação entre Jet Li e o vilão transexual interpretado por Brigitte Lin. Swordsman II tem algumas cenas de ação espetaculares, mas o que sustenta o filme é o romance trágico no seu centro.

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The Wicked City (Tai Kit Mak, 1992)
Tai Kit Mal dirige, mas The Wicked City é mesmo um filme do produtor Tsui Hark que usa esta adaptação de anime para construir uma potente alegoria sobre a iminente devolução de Hong Kong a China (para tirar qualquer dúvida sobre os significados, Hark, nunca o mais sútil dos cineastas, faz o herói a certa altura lutar com um relógio gigante). Não muito coerente como narrativa, mas as imagens e sentimentos permanecem bem depois que o filme acaba.

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To Liv(e) (Evans Chan, 1992)
O critico Evans Chan realizou este belo misto de ficção e ensaio como uma carta filmada em resposta a Liv Ullman pelo país recusar um grupo de refugiados vietnamitas dois anos antes. É uma reflexão dura sobre a complicada identidade chinesa, a posição histórica de Hong Kong como porto oriental do ocidente e aflição pelo retorno a China.

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Green Snake (Tsui Hark, 1993)
Tsui Hark faz sua versão revisionist da clássica lenda das irmãs Cobra. É o melhor entre os vários filmes que Hark dedicou a repaginar clássicos da cultura chinesa e inclua algumas das suas imagens mais fortes além de fazer ótimo uso da crueldade latente dos seus filmes.

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The Untold Story (Herman Yau, 1993)
Nem todos os filmes da lista são filmes que recomendo para qualquer um, mas provavelmente nenhum outro vem acompanhado de um asterisco tão grande quanto The Untold Story. Baseado num caso verídico de um homem que assassinou a família do patrão e depois se livrou dos corpos moendo-os e produzindo bolinhos de carne que vendia na sua lanchonete, The Untold Story é impressionante justamente por pegar uma das situações mais repelentes já postas num filme e trata-las da forma mais franca e direta possível.

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He’s A Woman, She’s a Man (Peter Chan, 1994)
Em 1993, um grupo de jovens diretores fundou uma produtora chamada UFO com a intenção de produzir filmes de “qualidade” em oposição aos filmes médios locais, eu provavelmente deveria desgostar do elitismo da UFO por principio, mas como as coisas tendem a ser complicadas muita gente boa trabalhou lá (sobretudo Peter Chan e Chi-Ngai Lee). He’s A Woman, She’s a Man é o perfeito filme da UFO: excelente elenco (Leslie Cheung, Anita Yuen), a pretensa sofisticação e um olhar bem observado e sincero. É a mesma farsa de travestismo já vista outras tantas vezes, mas raramente com a mesma graça. E numa nota pessoal, eu devo dizer que é bem fácil de se identificar com alguém ficando sexualmente confuso por conta Anita Yuen por volta de 1994 se passando por um rapaz.

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Love on Delivery (Stephen Chow/Lik-Chi Lee, 1994)
No outro extremo da comédia local, o primeiro filme do Stephen Chow na lista. Eu não tenho nenhuma grande defesa de Love on Delivery para além de dizer que o filme tem uma das melhores relações de boas piadas por minuto que eu conheço.

hk72

Dr. Mack (Chi-Ngai Lee, 1995)
Se eu trabalhasse numa das nossas pequenas distribuidoras eu tentaria convencer os chefes a tentar comprar Dr. Mack depois do sucesso do In the Mood for Love e 2046. Tony Leung nunca foi tão charmoso quanto aqui e o filme é todo construído sobre o carisma dele. Leung faz o doutor do título, o melhor cirurgião de Hong Kong, só que sem licença médica ele trabalha numa clinica ilegal no subúrbio da cidade e passa a maior parte do tempo bebendo, seduzindo mulheres comprometidas e sendo genial sempre que as coisas conspirar para ele praticar medicina.

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The Blade (Tsui Hark, 1995)
Tsui Hark refilma One Armed Swordsman, ou talvez seja melhor dizer o desconstrói já que para além de revisionista é um dos filmes mais fragmentados dele, se memória não falha foi The Blade que incentivou a Cahiers a descrever Tsui como um cineasta cubista.

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Comrades, Almost a Love Story (Peter Chan, 1996)
A parte Nomad, meu filme de HK favorito é este romance dirigido com uma entrega e franqueza insuspeitas por Peter Chan. Parte do que torna Comrades encantador é que o filme é ao mesmo tempo romântico e construído sobre uma série de situações praticas e por vezes cruéis nada românticas. As necessidades matérias do mundo podem conspirar para manter Leon Lai e Maggie Cheung separadas, mas a mise en scene de Comrades vai fazer tudo para mantê-los conectados. O único filme dos últimos vinte anos que poderia ser dirigido pelo Frank Borzage.

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God of Cookery (Stephen Chow/Lik-Chi Lee, 1996)
Stephen Chow como o mais egocêntrico chef chinês. Muito engraçada sátira as comédias culinários bastante populares no cinema local na época fazendo muito bom uso do lado mais antipático da persona de Chow. Karen Mok  é a melhor co-protagonista que ele teve.

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Lost and Found (Chi-Ngai Lee, 1996)
O melhor entre os vários melodramas sobre belas moças com doenças terminais que se multiplicaram em Hong Kong no meio da década de 90. Kelly Chen tem leucemia e procura um maranheiro escocês que ela quer rever uma última vez antes de morrer e contrato um detetive excêntrico (Takeshi Kaneshiro) especializada em localizar desaparecidos. Sugere uma versão menos agressiva de um dos filmes de Wong Kar-wai do período. Lee é muito hábil em adicionar detalhes as margens da ação e a sua fascinação mórbida com a morte mantém o filme bem menos sentimental do que poderia ser.

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Happy Together (Wong Kar Wai, 1997)
Não podemos jamais recapturar o mesmo sentimento outra vez. Todas as obsessões de Wong expostas como em poucos filmes. Como nos seus melhores trabalhos a crueldade dá o tom. Provavelmente a expressão mais bem acabada do sentimento de deslocamento frequente na produção local à época.

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Made in Hong Kong (Fruit Chan, 1997)
Claro que como Made in Hong Kong nos lembra não é precisa fugir para Buenos Aires para se sentir deslocado e miserável. O raro filme independente local feito com baixíssimo orçamento (e negativo vencido) e uma vontade e energia contagiantes a despeito do material desesperançoso.

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Walk In (Herman Yau, 1997)
Herman Yau é um dos meus diretores favoritos que recebem menos atenção.  Parte por ele ser o único cineasta mais prolifico que Takeshi Miike (IMDb lista-o com 59 longas desde 91), parte porque parte da graça de Yau é justamente o quão modesto e fincado em Hong Kong seus filmes costumam ser. Ele é um grande cineasta regional que não é algo que inefilia contemporânea tem grandes interesses sobre. Walk In é um filme pequeno e inclassificável, uma comédia sobre reencarnação que move-se por múltiplos registros e encara suas situações e sentimentos com proposito e seriedade raros.  Não sei vai longe fazendo filmes como Walk In, não que Yau liga para isso já que ele dirigiu mais dois naquele ano.

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Beast Cops (Gordon Chan/Dante Lam, 1998)
O final da década viu a popularidade de uma série de filmes policiais em que a ação era deslocada menos para crime do que para dramas pessoais.  Beast Cops deve ser o mais popular entre eles, muito suspeito porque Michael Wong e Anthony Wong fazem um par dos mais dinâmicos no seu centro.

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Expect the Unexpected (Patrick Yau, 1998)
Creditado a Patrick Yau, mas todo mundo sabe que dirigido pelo Johnnie To.  O melhor filme do ciclo de policiais dramáticos do período e entre os primeiros filmes da Milkyway. Como frequentemente acontecia nos primeiros filmes da produtora concebido de forma excessivamente conceitual, mas a direção de To/Yau é das mais precisas e o elenco acha frescor em meioa rigidez da construção.

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The Longest Summer (Fruit Chan, 1998)
Grande filme de Fruit Chan sobre o longo verão que marcou a passagem de Hong Kong da Inglaterra para China.  O tom do filme é descrito com perfeição por este pôster:
longest summer

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Bullets Over Summer (Wilson Wip, 1999)
Muito antes de virar o diretor favorito de Donnie Yen e de fanboys em geral, Wilson Wip realizou alguns excelentes pequenos filmes (recomendo muito também Bio Zombie e Juliet in Love) como este peculiar filme sobre dois policiais que alugam um quarto para vigiar o apartamento da frente onde talvez uma transação criminosa venha a acontecer e não conseguem evitarse envolver com as mulheres da vizinhança.

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The King of Comedy (Stephen Chow, 1999)
O primeiro filme que Stephen Chow assinou sozinho sobre um ator tão intense e dedicado que ele segue arruinando as próprias oportunidades. Talvez seja o seu melhor e certamente é o mais pessoal. Tão engraçado como de costume e visível o quanto exposto Chow se sente aqui.

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The Mission (Johnnie To, 1999)
A tensão neste filme de ação é sempre uma questão do que ainda esta para acontecer como pede um filme estrelado por um grupo de guarda costas. The Mission tem um excelente elenco em perfeita sinfonia e a sequencia de ação (o tiroteio no shopping) mais famosa do cinema do To. Durante muitos anos foi o filme que mais se associou o ocidente a ele.

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Jiang Hu: The Triad Zone (Dante Lam, 2000)
É sempre curioso como o tempo funciona, lembro-me de detestar Jiang Hu quando o filme saiu, o tom irônico e as derivações tarantinescas eram o oposto do que me interessava nos filmes de ação locais. Uns dois anos atrás resolvi revê-lo depois de ficar bastante impressionado com alguns filmes recentes do Lam e tudo que me irritava se revelou fora do contexto da época moldura desimportante e o norte dramático do filme – as negociações o casamento do Tony Leung Ka Fai e Sandra Ng, ambos impecáveis – tão efetivo e bem observado.

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Needing You (Johnnie To/Wai Ka Fai, 2000)
Um filme chave no desenvolvimento de To, articulando muito dos seus interesses num registro distante dos filmes de ação que fizeram seu nome, além de ser o filme que permitiu a Milkyway finalmente se provar sustentável comercialmente. Andy Lau e, especialmente, Sammi Cheng são excelentes aqui. Permanece o seu filme mais popular em Hong Kong.

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Time and Tide (Tsui Hark, 2000)
Tsui Hark retornou da sua aventura americana com um dos seus filmes mais frescos e inventivos. Aproximando o espirito radical dos seus primeiros filmes, com o controle dos seus sucessos e atitude de vale tudo dos seus filmes americanos Time and Tide tem tudo o que se espera do melhor Hark.

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From the Queen to the Chief Executive (Herman Yau, 2001)
Um dos grandes filmes políticos dos anos 2000. Yau pega um caso verídico, a situação de uma série de homens que cometeram crimes graves na sua adolescência e seguiam presos por um período indeterminado com base num dispositivo da lei britânica e as vésperas do retorno a domínio chinês se encontravam desesperados por penas definitivas, para construir um ensaio potente sobre responsabilidade. O que afinal significa a lei, ainda mais num universo em que a lei que rege as ações (a britânica) podese tornar outra (a chinesa).

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July Rhapsody (Ann Hui, 2002)
Meu favorito entre os filmes da Ann Hui sobre a crise de meia idade de um professor quarentão e o fim de seu casamento. A maior parte do filme se resume a uma série de longas conversas entre Jacky Cheung e uma aluna que agressivamente flerta com ele e o filme tem um foco concentrado muito forte.

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New Blood (Soi Cheang, 2002)
Escrevi longamente sobre Cheang e New Blood na Cinética ano passado. Este deve ser o meu favorito entre os filmes de horror asiáticos do começo da década passada com uma premissa malvada perfeita (sobre uma fantasma que assombra o trio cuja doação de sangue salvou a vida do namorado com quem planejara um pacto suicida)  e uma descida ao barbarismo como poucos.

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PTU (Johnnie To, 2003)
Johnnie To filma Hong Kong a noite. Um travelogo muito pessoal por uma série de locações da cidade rodado ao longo de três anos disfarçado de um filme policial multiplot. O tiroteio final é uma das grandes sequencias de To, mas o filme todo é imbuído de um sentimento encantador.

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Running on Karma (Johnnie To/Wai Ka Fai, 2003)
Meio filme policial, meio comedia romântica, meio tratado budista sobre os significados do Karma, certamente um dos filmes mais inclassificáveis e inventivos de To e o ponto alto da suas parcerias com Wai Ka Fai.

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2046 (Wong Kar Wai, 2004)
Uma espécie de meio ponto necessário entre Days of Being Wild e In the Mood for Love. Wong trabalhando no que tem de melhor. Um épico sobre perda que é bem mais expansivo do que pode sugerir num primeiro momento.

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Kung Fu Hustle (Stephen Chow, 2004)
Stephen Chow numa chave mais grandiosa e acessiva do que seu registro habitual. Um sem numero de grandes gags visuais e muita coisa escondida para quem conhece história do cinema local.  Um dos mais inventivos e inclusivos filmes da década passada.

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Throw Down (Johnnie To, 2004)
A melancólica comédia de judô de To é uma homenagem a Akira Kurosawa e provavelmente o mais pessoal dos seus filmes. Realizado no final de um espasmo notável de criatividade no qual To dirigiu cerca de dez filmes em três anos com incrível consistência, mas que segue subestimado no ocidente possivelmente porque a maior parte deles não se conforma muito as expectativas de mestre de filme de ação que se faz dele. Throw Down tem um uso dos mais expressivos de espaço cênico e se a matriz é Kurosawa por caminhos tortuosos que pertencem somente a To, se revela um dos filmes mais afirmativos que conheço.

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After This Our Exile (Patrick Tam, 2006)
Patrick Tam retornou a filmar após dezesseis anos com este drama familiar passado na Malasia em qual Aaron Kwok interpreta o provável pior pai da história do cinema. Um filme bem duro e áspero que se beneficia muito do sedutor formalismo de Tam e leva a sua premissa de dissenso familiar até o extremo. É o ponto final de toda uma história de ficção chinesa sobre pai e filho.

Election 2 (Johnnie To, 2006)hk98
O filme mais politico de Johnnie To, não vale sequer descreve-lo como uma alegoria já que não há sequer uma tentativa de esconder a relação China-Hong Kong como subtexto. Um filme de raiva palpável e horror concreto.

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Whispers and Moans (Herman Yau, 2007)
Parte um do díptico que Herman Yau realizou sobre prostituição em Hong Kong (parte 2, True Women for Sale é igualmente notável).  Dez dias (e especialmente) noites com um grupo de prostitutas locais filmados de forma seca por Yau, um muito fulleriano olhar sobre capitalismo em ação.

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Sparrow (Johnnie To, 2008)
Uma sequencia estético temática para PTU.  Outro travelogo pela arquitetura de Hong Kong desta vez com uma superfície de encantamento mais explicita.  Suas inflexões agridoces a Jacques Demy escondem um sério inquérito sobre uma cidade em constante transformação.

17 Comentários

Arquivado em Filmes, Listas

17 Respostas para “100 Filmes de Hong Kong

  1. João Paulo

    ótimo trabalho.

    Agora que já fez lista da Itália, dos EUA e de HK podemos esperar mais no futuro, já pensou em fazer um do cinema francês?

  2. AM

    Muito bom! Sugiro pelo menos mais dois filmes: Ip Man (2008) e The Grandmasters (2013).

  3. “João Paulo
    agosto 14, 2013 às 12:21 am

    ótimo trabalho.

    Agora que já fez lista da Itália, dos EUA e de HK podemos esperar mais no futuro, já pensou em fazer um do cinema francês?”

    onde está a dos eua???

  4. poxa,alguma chance de atualizá-la?

  5. Filipe Furtado

    Não sei, mas todos os filmes daquela lista seguem muito recomendáveis.

  6. Jorge

    Filipe Furtado,por que acha o diretor Tony Au subestimado?

    • Filipe Furtado

      Porque entre os diretores mais interessantes surgidos no auge da indústria local, ele segue o menos comentado no ocidente. Ele é um estilista com gosto por melodrama e personagens femininos fortes, o que no geral não é algo que se associe com força com cinema de Hong Kong.

  7. Filipe Furtado, minha mãe é fã de filmes chinês, eu assisti um acidentalmente há muitos anos atrás e não lembro o título. Era uma comédia onde tanto a mãe quanto o filho lutavam. Depois deste filme passei a assistir clássicos inclusive alguns que estão na sua lista. Será que com estes pequenos dados você poderia me sugerir algum título? Na verdade eram mais de um filme.

  8. luiz soares

    falto Kung Fu Cult Master, melhor filme que ja vi

  9. Talvez este nem seja o lugar mas assim mesmo quero saber se alguem conhece um filme chines da decada de 70 ‘acho’ traduzido no Brasil para “Karate Sangrento”

  10. Gosto d filmes chineses, principalmente os d Donny yen

  11. Oi. Muito boa sua lista. Vou até assistir alguns dos filmes recomendados. Mas eu li sua lista na esperança de achar um filme que eu havia assistido na tv quando eu era criança. Eu acho que ele era chinês e pelo pouco que me recordo era de uma moça que era feia e vivia num vilarejo e no meio da história tinha uma guerra e por um feitiço ou algo do gênero se tornou bonita e com muitos poderes pra acabar com os vilões e tbm era apaixonada por um cara (Nuss, lendo agr o q escrevi o filme eh bizarro kkkk fazer o q eu gosto) enfim, no fim ambos (o homem que ela era apaixonado e a Cinderela asiática) vão parar num deserto e a moça se torna um cavalo branco! Ufa, eh isso e espero q possa me ajudar 🙂

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