Brisseau

Os Anjos Exterminadores

Aproveitando que os amigos mineiros recebem a imperdível retrospectiva de Jean-Claude Brisseau no Indie (logo mais em São Paulo), repúblico aqui no blog minha crítica a Os Anjos Exterminadores na Contracampo quando o filme entrou em circuito em 2007.

A moral de um olhar

Jean-Claude Brisseau, ao longo de toda a sua obra, sempre foi um cineasta marcado por desencontros de olhares; entre espectador e obra, o cineasta e seu público – não é a mesma coisa –, o filme e seus objetos. Não é logo muito chocante observar que Os Anjos Exterminadores seja ele próprio todo erguido a partir de um grande desencontro. Trata-se de uma oportunidade rara nos nossos circuitos de encontrar esta figura única do cinema francês contemporâneo e temo que ela esteja fadada a apenas mais um desentendimento. Os Anjos Exterminadores talvez seja um dos filmes mais difíceis a atracar por aqui recentemente, justamente na medida em que é um dos mais profundamente simples. É também talvez o mais potente filme político a chegar a nossos cinemas este ano. Podemos começar fazendo três observações rápidas sobre o cinema de Jean-Claude Brisseau:

I) Todos os seus filmes versam sobre o poder.
II) Ele é o maior cineasta do século XIX
III) Ele é o mais sincero dos cineastas.

Iniciemos pela provocação do século XIX. Não há nenhuma ironia ou crítica nessa observação. Trata-se antes de constatar que mais do que a maioria dos cineastas, há em Brisseau muito do que poderíamos chamar de pré-moderno. O cinema de Brisseau, e mais do que nunca neste Os Anjos Exterminadores, por vezes nos dá a impressão de estar diante de um filme rodado em 1881 e simplesmente perdido no tempo. É questão de reconhecer que a arte de Brisseau tem mais a ver com Balzac ou Flaubert do que com Godard ou Cocteau. Apesar de tudo que existe de confessional e metalingüístico em Os Anjos Exterminadores, nada poderia estar mais distante do tipo de filme-processo que geralmente temos em mente quando fazemos uso desta sempre questionável expressão “cinema moderno”. Os Anjos Exterminadores é um filme de dramaturgia, um filme onde a expressão mise en scène existe para denominar como o cineasta pinta com luz de maneira a criar um espaço cênico que reflete um drama e uma moral.

Drama e moral. Duas palavras algo pesadas que a discussão mais séria do “cinema moderno” procura evitar, mas palavras necessárias quando falamos de um filme como Os Anjos Exterminadores. É aqui que esta herança século XIX de Brisseau fica evidente. Porque Os Anjos Exterminadores acredita no seu potencial dramatúrgico e se entrega a ele, leva ao limite as possibilidades que seus sentimentos e personagens levantam. Eis aqui um pequeno conto sobre um artista destruído por sua curiosidade e estupidez que poderia ser uma novela do século retrasado; como filme contemporâneo, ele dura o tempo exato para explorar as possibilidades materiais que seu drama permite. Porque este cineasta tão fora de moda simplesmente não escreve um livro, o leitor pergunta? Porque é um materialista, oras. Porque acredita no corpo, porque só uma imersão direta neste drama permitirá a ele se expressar. O que não o impede de acreditar numa série de elementos que a maior parte dos cineastas há muito decidiu ignorar.

A questão da moral é mais complicada na medida em que Os Anjos Exterminadores lida com um tema que nossos preconceitos tendem a esperar vir desacompanhado dele (ou então a surgir, como por vezes no cinema americano, com aquela hipocrisia à Cecil B. DeMille). Pois bem, Os Anjos Exterminadores é um filme recheado de longas seqüências onde belas mulheres nuas se masturbam diante das câmeras ou se agarram em gráficas cenas de lesbianismo, que ao mesmo tempo é támbém obra de um cineasta profundamente católico que nos leva numa odisseia moral de genuíno poder redentor. Um filme sobre graça à sua maneira única e demente. E sim, sem nenhum instante puritano. Não é nenhum acidente que Brisseau escale Frederic van den Driessche, que antes fizera o papel do objeto de desejo que se materializa como por milagre no Conto de Inverno (1992) de seu amigo Éric Rohmer. Claro que também encontraremos esta sobreposição, por exemplo, em Rossellini (e na sua contraparte protestante King Vidor), mas este encontro tende a se perder diante do longo entulho em forma de teorização sobre neo-realismo que existe entre nosso olhar e seus filmes. É uma qualidade que também encontramos em certos autores franceses como Louis Ferdinand Céline (com quem Brisseau tem muito em comum). Essa instância religiosa que emana da tela tem muito a ver com o modo como Os Anjos Exterminadores nos encanta e redime, com a experiência única que o filme representa.

Como muitos dos livros de Céline, Os Anjos Exterminadores será visto como um filme rísivel por platéias que se crêem sofisticadas. A piada, como habitual, será sobre elas.  Brisseau é simplesmente um cineasta que acredita sinceramente em cada imagem e sentimento que produz. Não há um momento de cinismo em sua obra. Ele é mais sofisticado que este espectador, porque sabe que pela força de suas habilidades de encenador pode dar forma a toda a experiência dramática que seu material exigir; e se isto significa se afundar em sequências que o senso comum denomina ridículas, que seja; porque em suas mãos elas serão sempre sublimes. E é aqui que o lado literário e o religioso de Brisseau casam com essa entrega sincera. Os Anjos Exterminadores assusta porque é um filme que acredita em dar corpo àquilo que preferimos manter à margem, porque ao fazer isso é capaz de nos oferecer o transcedental. Para vê-lo, somente precisamos de olhos inocentes. Com todo o peso que o cineasta coloca sobre cada uma das suas imagens belamente construídas (e raramente vemos um filme onde cada quadro, cada feixe de luz seja controlado com tamanho cuidado), elas nos atingem com sua pureza, com o que elas têm de imaculadas.

Os Anjos Exterminadores é um potente filme político na medida em que, como toda a obra de seu autor, é um filme sobre o poder. O poder do corpo feminino sobre o olhar, o poder do cineasta como figura de autoridade diante de suas atrizes, e a crônica do desentedimento dessas duas esferas de poder, que resulta numa mútua brutalização, onde nenhum dos participantes sai impune. Se algo diferencia Os Anjos Exterminadores do seu já excepcional filme anterior Coisas Secretas, é que naquele filme ainda tínhamos uma estrutura de gênero onde o encontro do drama de formação à Balzac com o mais vagabundo thriller softcore permitia as suas cenas de sexo serem consideravelmente excitantes, antes que o cineasta puxasse o espectador para seu lado mais sombrio, em que a dinâmica do poder é dissecada. Não temos tanta sorte em Os Anjos Exterminadores (o maior dos dois filmes), onde o peso do olhar de Brisseau já esta estabelecido desde o primeiro plano. O que está em jogo nas suas longas cenas de sexo é uma mise en scène de projeções, um colapso entre corpo e olhar, entre atriz e cineasta. Brisseau pode até estar usando o filme como oportunidade para tocar em algo que se tornou ainda mais caro para ele desde que enfrentou longas complicações legais não tão diferentes das de seu alterego em Os Anjos Exterminadores, mas o que está no cerne das cenas de sexo tem pouquíssima relação com pornografia ou mesmo desejo. É algo mais direto e inerente ao processo cinematográfico como um todo, mas também algo que se reproduz de maneira muito mais ampla em nossa experiência moderna. Os Anjos Exterminadores está todo contido neste duplo olhar de van den Driessche, olhar que comanda e absorve, ao mesmo tempo produtor e consumidor, assim como estas cenas de sexo existem como elas mesmas e seu próprio documentário. A tragédia de Os Anjos Exterminadores reside justamente na impossibilidade de equilibrar estas duas projeções, estas duas formas de poder, estes dois estatutos da modernidade. Não se pode ser consumidor e produtor impunimente; cedo ou tarde se pagará um preço, mesmo que Deus ou a criação artística possam redimir o cineasta, e para aqueles que acreditam que o filme não passa de uma elaborada apologia, vale apontar que o mesmo não poderá se dizer das suas atrizes, que não só são aquelas que a imagem expõe, mas também aquelas que no fim pagarão o preço maior.

A força das imagens de Brisseau se localiza justamente na sua capacidade de redimir este dilema: na maneira que consegue dar corpo a estas duas esferas (o olhar e o corpo).  Dar corpo a um olhar, eis um desafio a que apenas os maiores cineastas se lançam. E Jean-Claude Brisseau o vence com sobras. Os Anjos Exterminadores nos encanta por isso, pela sua ambição, pela sua simplicidade, visão e perspicácia; um filme maldito talvez, condenado ao escárnio pela maioria dos cinéfilos, mas no escuro da sala de cinema diante do poder de suas imagens, só podemos celebrá-lo como mais do que um filme, uma experiência única.

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3 Respostas para “Brisseau

  1. Off Topic: Filipe Furtado,qual é o seu filme favorito da filmografia de Eric Rohmer?

  2. Filipe Furtado

    O Joelho de Claire.

  3. Filipe Furtado,Quais Longas De Melodrama São Seus Favoritos?

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