Auto Focus

auto-focus

Aproveitando que The Canyons apareceu em algumas listas de melhores do ano e caiu nas graças de alguns amigos que respeito muito, reproduzo um texto meu de 2003 de outro filme de Schrader que me parecer ter vários pontos de contato com ele e que me interessa bem mais.

A imagem reproduzida

Bob Crane, o trágico protagonista deste filme de Schrader, é um cara sem talento mas legal – ele nos informa na sua narração logo nas primeiras cenas. Alguém cujo único talento é projetar uma imagem simpática e automaticamente apreciável. A vida verídica de Crane é uma destas desgraceiras que freqüentemente viram filme: pai de família exemplar que vira astro de popular seriado de TV (Hogan’s Heroes, adaptação cômica de Inferno Nº 17, de Billy Wilder), se vicia em sexo e no pós-sucesso desce a ladeira até ser assassinado em situação nunca esclarecida. Não parece muito promissor e logo se desconfia que o material tende a despertar o pior do lado calvinista do cineasta (e sendo honesto, o filme por vezes ameaça descambar para moralismo do tipo “veja o que acontece quando você começa a pular a cerca”).

Só que como esta auto-apresentação de Crane já nos indica, não é sobre sexo que Auto Focus fala. Crane é um clichê raso que – logo o filme nos mostra – vive numa família clichê numa casa classe média clichê. Nada em sua vida vai além da superfície e o tom que Schrader rapidamente nos impõe é exatamente este jogo de superfície onde cenários e figurinos funcionam para evocar um fim de anos 60 superficial e agradável quase inocente (onde o mal familiar é a coleção de Playboys que Crane esconde na garagem), as semelhanças aqui com o trabalho similar de evocação de época que Steven Spielberg fez em Prenda-me se for Capaz (outro filme sobre aparências, se bem que muito diferente deste).

Tudo que Crane conseguiu depende da capacidade deste mundo de projetar tal imagem afável. Um diretor menos talentoso partiria daí para denunciar este mundo, o que não é o caso. Crane é uma superfície vazia e assim permanecerá e não há nenhum julgamento negativo de Schrader em relação a isso. Vale aqui ressaltar o excepcional trabalho de Greg Kinnear, o que à primeira vista pode parecer uma piada de casting, um simpático ator limitado interpretando outro. Mas a impressão logo se desmancha quando Kinnear constrói sua atuação no limite entre um personagem vazio, que não é nada alem da imagem que projeta, e um generoso investimento pessoal que o impede de soar patético, por mais que sua situação piore.

Logo descobriremos que não é pelo sexo que o Crane de Schrader se vicia. O amigo do diabo (William Dafoe) que o leva para a gandaia é um dos primeiros operadores de vídeo e sempre filma as suas orgias. Crane se vicia no vídeo (e pode-se se ressaltar que a mise-en-scène de Schrader é uma que nitidamente pede pelas possibilidades da película). Ou melhor, na possibilidade de ver a sua imagem fazendo sexo. Alguns críticos do filme acusaram Schrader de não mostrar prazer nenhum no sexo: perderam o ponto, porque em Auto Focus não há mesmo nenhum, o prazer só existe depois ao se ver as imagens. A vida de Crane, que já era composta só de imagens, ganha mais uma, e logo ele pára de se preocupar em construir a primeira para se dedicar à segunda. A paleta de cores do filme passa por um lento processo de mudança das alegres cores pastéis do início para um tom cinza. A principio pode soar como uma solução simplista para indicar que o personagem entra em tempos difíceis, mas ela está ligada mesmo à imagem que ele gera. Simplesmente, Bob Crane já não parece um cara legal.

Replay. Sempre quando se discute os méritos do vídeo a expressão costuma ser mencionada. A idéia de replay traspassa por toda a segunda parte de Auto Focus. Porque se Crane vivia a construção de uma imagem, ele passará a ver a reprodução de uma imagem. Ele só existe em replays. As reexibições do seriado na TV; a peça de teatro de um ato que ele monta durante anos (veremos sempre o mesmo trecho dela); seus vídeos pornográficos constantemente reexibidos em sua TV privada. A tragédia de Crane se revela na sua posição de espectador de si mesmo.Ele já não vi, só vê. O seriado está pronto. Sua presença na peça se torna logo mecânica. Suas trepadas também. O prazer só começa no momento que ele está assistindo (diz muito que neste filme, onde sexo é recorrente, a cena mais intima é a de dois homens se masturbando diante de uma televisão). As opções de direção de Schrader procuram quase sempre valorizar quem vê: Dafoe filmando as orgias, a equipe de Hogan’s Heroes, o público do teatro.

De certa forma Auto Focus é a completa inversão do trabalho anterior de Schrader, o excepcional Forever Mine, um romance em scope vivo, quente, colorido, feito porque se parecia acreditar (sem nenhum sinal de cinismo ou ironia) em todos os excessos da trama que mostrava (e que ironicamente acabou indo direto para vídeo nos EUA, e não circulou de forma alguma por aqui). Estamos aqui diante de um trabalho triste, frio, contido, desagradável. Forever Mine acaba de forma tão trágica quanto Auto Focus, mas é o tipo de filme que desperta no espectador a vontade de fazer algo, enquanto que ao final de Auto Focus estamos exaustos, sem saber bem o que pensar; o filme de certa forma não parece ter sido feito para a correria dos festivais e para os julgamentos rápidos a que nos habituamos todos, mas ele cresce na memória (vi meses atrás). Estamos no fundo diante de um lamento, diante de um cineasta que olha para o seu oficio de criador de imagens e não gosta muito do que vê. Auto Focus parece crer que nós já não vivemos ou criamos imagens, só as reproduzimos.

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