Confesso meu completo desinteresse pelo último Woody Allen. Creio que num mundo perfeito Allen arranjaria um mecenas disposto a bancar a ida dele para o set de filmagens uma vez por ano sem ter que necessariamente lançar o produto final já que a compulsão por filmar o tempo todo faz muito superou qualquer coisa que aconteça na frente das cameras. De qualquer forma escrevi algumas linhas sobre o filme durante o Festival do Rio.
Arquivo do mês: novembro 2008
Sparrow (Johnnie To,08)
Tão leve que parece pedir para ser encarado como um filme menor de Johnnie To, trata-se de um dos seus mais elaborados e cuidadosos trabalhos já realizados por ele. Um musical sem números musicais visivelmente influenciado por Demy (para muito mais que a trilha à Michel Legrand) sobre ladrões de carteira e uma série de pequenos golpes e trapaças. Para muito mais que a coreografia e o tom de doce melancolia que marca o filme, a influência de Demy se dá na maneira que toda leveza do filme nunca disfarça o que está em jogo em cada troca em que os personagens se envolvem. No meio do caminho To nos apresenta a algumas das mais precisamente coreografadas seqüências do cinema em especial o duelo dos batedores de carteira e o interlúdio entre Simon Yam (perfeito como sempre), Kelly Chen e um cigarro que consegue superar qualquer coisa que Kar-wai tenha feito em termos de cinema fetichista. Mas Sparrow trata-se sobretudo de uma magnífico filme de cidade onde To vai aos poucos catalogando as mudanças de Hong Kong nos últimos anos (razão pela qual ele gastou 3 anos filmando este filme aparentemente muito simples e a ênfase no hobby de Yam ser fotografia). Sparrow respira a cidade e a câmera do cineasta sempre a lerta para descobrir um novo ângulo e uma nova maneira de entregar ação a locação. Seria o melhor filme tanto do Festival como da Mostra caso estivesse na programação.
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Brasília
Para quem esta em busca de coberturas do Festival de Brasília (que este ano sofre o desfalque da Cinética), algumas dicas:
Marcelo Miranda no Filmes Polvo
E para quem quer uma cobertura em tom mais oficial tem sempre o blog do Zanin
Atualizando: O Blog da Ilustrada também esta fazendo uma cobertura, apesar de aparentemente não cobrirem todos os filmes.
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No Moving Image Source um belo artigo do Chris Fujiwara sobre Jerry Lewis. Aparentemente faz pasrte do livro sobre Lewis que Fujiwara esta escrevendo já há alguns bons anos.
A tradução inglês de um pequeno artigo que Serge Daney escreveu sobre John Ford em sua coluna de TV do liberação. Muito preciso.
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Quantum of Solace (Marc Forster,08)
Foster pega tudo que havia de menos bem resolvido no exemplar anterior da serie e amplifica aqui com muito pouca da força física que era o que Cassino Royale tinha de melhor. Trata-se de um dos piores filmes da serie (e digo isso como alguém que sofreu vendo todos os filmes com Roger Moore). Se Cassino Royale se beneficiava de um bom diretor de filmes de ação (Martin Campbell) e um excelente montador (Stuart Baird), Quantum of Solace tem algumas das piores seqüências de ação e algum infeliz ligado a produção teve a idéia de incluir no filme uma genuína trama de espionagem tornada quase incompreensível por Foster (o diretor merece os parabéns por realizar um filme curto que ainda assim soa tão interminável como os mais gordos da serie). Quantum of Solace não é ajudado em nada pela esquizofrenia de ter que seguir como pode a formula da serie (e incluir o máximo de cenas de ação possíveis). Isto tudo dito já vi vários comentários sobre a abordagem realista o filme ser o grande problema dele que me parecem muito injustos já que a serie costuma ser bem mais palatável quanto mais ancorado os filmes forem (não é por nada que os únicos filmes aceitáveis com Moore sejam Somente para seus Olhos e O Espião que me Amava), o problema é a idéia de realismo bem tola que a última atualização a serie adotou. Os dois filmes com Timothy Dalton realizam tudo que Cassino Royale e Quantum of Solace pretendem de forma muito melhor.
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Christoph Huber sobre Jean-Claude Van Damme
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Quando Eu Era uma Criança Lá Fora (John Torres,08)
Partindo da relação dele com o pai (que mantinha uma segunda família) nos apresenta uma série de fragmentos de possíveis filmes que vão os poucos formando um diário muito particular. Há no filme uma facilidade de se encontrar imagens que parecem estar ali desde sempre – pequenos momentos que visivelmente há muito estavam cristalizados na cabeça do cineasta – assim como impressiona como sua estrutura (que inclui um peso enorme dado a narração em off do cineasta e uma consciência muito grande da sua existência como filme) nunca entra no caminho destas imagens existirem por elas mesmas. A outra arma de Torres é sua montagem tanto no ritmo interna das seqüências, como na maneira que as diversas situações enriquecem umas as outras. Trata-se de um filme muito digressivo (o que certamente irrita muita gente), Torres parece falar de tudo, apesar de nunca perder o foco do peso da figura paterna sobre ele; sobretudo Torres nos abre um sem numero de mundos diferentes, todos no mínimo muito interessantes. Um caderno de anotações de um cineasta poucas vezes é tão instigante e emocionante.
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Meu Nome é Dindi
Lembro-me de encontrar com o Cléber Eduardo um dia após ver Meu Nome é Dindi durante o Festival do Rio e ele como curador interessado em longas de estréia quis saber o que eu tinha achado, respondi que não achava bom não, mas que acharia bem importante que Tiradentes exibisse o filme. Pouco mais de um ano depois minha opinião não mudou muito. O filme é irregular e desajeitado, mas tem algo no seu trabalho de câmera e na relação que o Bruno Safadi com Djin Sganzerla que garantem a ele uma vitalidade não muito comum no cinema brasileiro. Deve ficar pouco tempo em cartaz, mas independente de se gostar ou não, é um filme que acredito vale muito a pena se dar uma chance.
Alguns olhares mais entusiasmados sobre o filme:
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Inacio pegando pesado
Inacio Araujo sacaneando o 007 novo ontem na Folha:
“A verdade, no entanto, é que Hal Hartley deu conta em “Fay Grimm”, com mais desenvoltura, do destino do filme de espionagem em nossos dias”
Difícil supera-lo.
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Indie 2008
Começa hoje no Cinesesc o Indie, festival de BH que tem um braço paulistano desde o ano passado. O legal do Indie é que a curadoria do festival é bem diferenciada e trás alguns filmes bem menos óbvios. Para além da retrospectiva do Koji Wakamatsu que se não é um Hong Sang-soo (homenageado do ano passado) não deixa de ser um cineasta interessante (atenção especial para seu último filme United Red Army que foi bem elogiado ano passado), ficam algumas dicas:
Hannah Takes the Stairs (Joe Swanberg,07) – Domingo, 15h15
Não vi, mas o filme tem seus defensores lá fora e fez sucesso com a redação do Filmes Polvo.
Tudo Perdoado (Mia Hansen-Love,07) – Domingo, 18h50
Confesso que não sou muito fã desta estreia da ex-crítica do Cahiers. Um filme um bom tanto derivativo dos primeiro longas do Assayas e dos filmes do Garrel do final dos anos 80/começo dos 90, mas acho a segunda parte bem boa e o filme tem alguns fãs de respeito como o Eduardo Valente.
Quando Eu Era Uma Criança Lá Fora (John Torres,08) – Segunda, 17h10
O primeiro longa de Torres, Todo Todo Teros, foi muito elogiado quando foi exibido em festivais em 2006. Tem um artigo bem interessante sobre o filme aqui.
Pegando Fogo (Claire Simon,06) – Quarta, 17h20
O filme de Simon dividiu opniões quando foi exibido na Quinzena dos Realizadores, mas teve gente boa que se entusiasmou com ele.
Para quem quer mais dicas recomendo a cobertura do Filmes Polvo.
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Hubert Bals Fund
Saiu hoje a lista de filmes apoiados pelo fundo do Festival de Roterdã que é sempre um dos mais interessentes do mundo. Além de trabalhos novos de dois belos cineastas (Apichatpong Weerasethakul, Raya Martin), tem várias apostas de cinema latino-americano (Rodrigo Moreno, Pablo Larrain) incluindo dois brasileiros: o filme novo do Philippe Barcinski e o primeiro longa de ficção do Kléber Mendonça Filho. Grande notícia para quem como eu tem os curtas do Kléber Mendonça em alta conta. Para além do apoio financeiro, o selo do Hubert Bals Fund ajuda muito na circulação em festivais dos filmes selecionados.
A relação completa dos selecionados pode ser encontrada aqui.
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Rouge #12
Depois de muito tempo a Rouge finalmente lançou uma edição nova. Destaque para homenagem a Manny Farber. O resto da edição também está ótima (o texto do Kent Jones, em especial, é excelente).
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Mostra – Final
KFZ – 1348 (Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso,08) – ***
Bom documentário pernambucano. Bem hábil na sua construção e sem nunca pesar a mão para reforçar a idéia central (encontrar todos os donos de um Fusca 65 específico) simplesmente deixando ela naturalmente estabelecer sua força.
24 City (Jia Zhang-ke,08) – ***
Jia menor. Na Paisà.
Melancholia (Lav Diaz,08) – ****
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E fácil tratar a longa duração dos filmes de Lav Diaz como um fait divers, mas a verdade é que ela é essencial para o projeto de cinema dele. Melancholia é uma lenta escavação sobre as feridas recentes da política filipina que vai aos poucos acumulando seu poder. A últimas das 3 partes do filme – um longuíssimo flashback com umas boas duas horas de duração mostrando os últimos dias de um grupo de guerrilheiros – tem um acumulo de detalhes impressionante.
O Canto dos Pássaros (Albert Serra,08) – *****
Já escrevi antes aqui e na Paisà. Agora devo dizer que entre ele, Diaz, o Deixa Ela Entrar e uma cópia de verdade do Deplaschin não vejo porque a Mostra tenha ficado tão abaixo do Rio como disseram.
Eu Quero Ver (Khalil Joreige e Joana Hadjithomas,08) – ***
O filme nunca vai alem da idéia inicial (Catherine Deneuve é levada por uma equipe de filmagem libanesa para visitar as ruínas da última guerra local), mas trabalha de forma muito eficaz dentro dela.
Um Conto de Natal (Arnaud Desplechin,08) – *****
Dos 34 filmes que Desplechin esta fazendo uns 23 são geniais e uma outra meia dúzia é boa. Agora para quem tem pouca paciência para hiperatividade do Reis e Rainha são duas horas e meia no inferno hehe.
Serbis (Brillante Mendoza,08) – ***
O encontro entre a câmera fluída de Mendoza e a relação do filme com o seu cinema decrépito é muito forte.
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Mostra Dias 4 a 7
Sonata de Tóquio (Kiyoshi Kurosawa,08) – *****
Primeira das muitas revisões desta semana e se confirma como um dos grandes filmes do ano.
A Fronteira da Alvorada (Phillipe Garrel,08) – *****
Devo escrever mais sobre na Paisà quando o filme for lançado mês que vem, mas faz uma bela dupla com O Canto dos Pássaros, dois filmes que fazem a busca por uma imagem essencial que parece ter estado sempre ali tão simples.
Acne (Federico Velloj,08) – ****
Filme uruguaio muito bom sobre um moleque de 13 anos tentando conseguir um primeiro beijo. Das boas surpresas da Mostra até aqui, simples, mas muito bem observado.
Depois da Escola (Antonio Campos,08) – *
Amanhã na Paisà.
Aquele Querido Mês de Agosto (Miguel Gomes,08) – *****
Ainda maior na revisão. Incrivel como cada sequencia da parte “documental” é retomada de alguma forma na parte de “ficção”.
Fronteira (Rafael Conde,08) – ***
Conde tira um peso histórico das suas imagens muito marcante, apesar de eu não e interessar muito pela dramaturgia que ele esta construindo.
Horas de Verão (Olivier Assayas,08) – *****
Cresce na revisão, apesar de eu não ter certeza se é mesmo um filme maior (apesar de eu desconfiar que isto tenha algo a ver com o filme entre muitas outras coisas seja um filme de Assayas para quem não gosta de Assayas).
Lições Particulares (Joachim Lafosse,08) – ***
Até amanhã na paisà. Curioso que faz um bom contraponto ao Afterschool.
Deixe Ela Entrar (Tomas Alfredson,07) – ****
Belo terror/romance sobre horrores de se ter 12 anos.
Verônica (Mauricio Farias,08) – *
Na Paisà.
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A Film Comment lançou sua edição de Novembro/Dezembro e incluiu alguns materiais bem interessantes de extra no seu site: duas entrevistas com Manny Farber, uma de 77 (incluída na versão atual do Negative Space) e outra de 2000 (que está na coletânea do Kent Jones) e a transcrição de mais um debate sobre crítica que é longo repete alguns dos mesmos pontos que ouvimos sempre neste eventos, mas tem algumas intervenções interessantes (e para quem tem interesse na situação dos Cahiers, o Emmanuel Bourdeau fala bastante sobre a revista). Do conteúdo da revista em si, destaque para ó artigo do Nathan Lee sobre o novo filme do Van Sant.
Já no sempre essencial Moving Image Source, Adrian Martin escreve sobre a divisão de capítulos em DVDs. No período em que este blog só teve tempo para o Festival do Rio e a Mostra de São Paulo, o site colocou no ar também um excelente artigo do Chris Fujiwara sobre Vicente Minnelli e uma belissímo texto do Miguel Maria sobre a muito subestimada carreira de diretor do Paul Newman.
Falando em Chris Fujiwara, Undercurrent revista que o Fujiwara edita para a FIPRESCI finalmente lançou uma edição nova (estes estrangeiros fazem a Contracampo parecer uma publicação regular).
Para fechar um excelente ensaio da Nicole Brenez com versões em inglês e francês.
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Marcado como Film Comment, Manny Farber