Melhores de 2011 20-1

20) Girimunho (Clarissa Campolina e Helvecio Marins)

Num filme como este, a maior questão é encontra a imagem e o tempo certo para seus personagens e isto é algo que Girimunho consegue quase o tempo todo. Num ano com um numero bem alto de bons filmes de jovens cineastas, esta estréia de Campólina e Marins foi o melhor deles.

19) El Sicario: Room 164 (Gianfranco Rosi)

Um homem, um quarto, uma história de horrores. O documentário de Rosi não poderia ser mais simples, cerca de 90 minutos de entrevista com um ex-matador da máfia mexicana. Só que destes poucos elementos, o cineasta extrai algo que geralmente documentários não alcançam. Nos gestos hiper ativos do entrevistado, na forma com que ele segue rabiscando no seu caderno de notas para melhor explanar e sobretudo no capaz preto que permanece sempre sobre seu rosto, Rosi  produz um documentário de uma teatralidade frontal muito em comum. È como se a ficção estivesse ali pronta para adentrar aquele espaço.

18) Kill List (Ben Wheatley)

Muito antes de algo estranho acontecer em Kill List cada plano de Wheatley parece sugerir que há algo de muito errado no universo de seu protagonista, que a qualquer momento a placidez das cenas iniciais (mais próximo de um drama realista de classe média inglesa do que de um filme de horror) dará lugar ao desastre. É um dos filmes de horror mais enervantes dos últimos anos justamente porque traz consigo esta sensação constante de que a Inglaterra que registra é um espaço doente que pode implodir a qualquer momento.

17) O Cavalo de Turim (Bela Tarr)

Bela Tarr filma o fim dos tempos. Uma experiência notável do primeiro ao último plano.

16) Disorder (Weikai Huang)

Uma pequena aula em montagem em documentário. Huang extrai seu filme todo de material da vida pública chinesa filmada por terceiros, cenas que poderiam estar soltas num You Tube, mas que ganham sentido reunidas e organizadas  pelo cineasta. Há uma fluidez na organização do mosaico de Huang que tornam Disorder bem mais do que só uma compilação de uma sociedade tomada pelo absurdo. Continuar lendo

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Melhores de 2011 50-21

Como sempre nas minhas de final de ano, o critério que vale é filmes vistos por mim pela primeira vez em 2011 realizados nos últimos 3 anos.

O top 20 segue amanhã.

Menções Honrosas: 20 Cigarettes (James Benning), Las Acacias (Pablo Giorgelli), Adeus (Mohammad Rasoulof), Aita (José Maria de Orbe), Aterrorizada (John Carpenter), Balada Triste de Trompeta (Alex de la Iglesia), La Belle Endorme (Catherine Breillat), Belle Epine (Rebecca Zlotowski), Chantal, de Cá (Gustavo Beck e Leonardo Luiz Ferreira), Cisne (Teresa Villaverde), Cut (Amir Naderi),  A Doença do Sono (Ulrich Köhler), Era Uma Vez na Anatolia (Nuri Bilge Ceylan), Hoy No Tuve Miedo (Ivan Fund), Inquietos (Gus Van Sant), Os Monstros (Pedro Diogenes, Guto Parente, Luiz e Ricardo Pretti), Os Residentes (Tiago Mata Machado), Secret Reunion (Hun Jang), Sexo Sem Compromisso (Ivan Reitman), Super8 (JJ Abrams), Trabalhar Cansa (Marco Dutra e Juliana Rojas), Twelve (Joel Schumacher), Velozes e Furiosos 5 (Justin Lin), La Vida Util (Federico Veiroj), Vigias (Marcelo Lordello)

50) Slow Action (Ben Rivers)

Uma ilha pós fim do mundo.  O impressionante média de Rivers é uma elegia notável a uma sociedade que decaiu antes de ter começado. Um dos pontos altos do cinema experimental em 2011 e uma das melhores ficções cientificas também.

49) Don’t Go Breaking My Heart (Johnny To e Wai Ka Fai)

Não costumo ser um dos maiores entusiastas dos romances que Johnny To faz para pagar as contas da Milkway, mas Don’t Go Breaking My Heart é um das suas melhores aventuras fora do filme de ação. Raro encontrarmos uma comédia romântica tão formalmente bem cuidada e o filme chega a lembrar Daisy Kanyon de Preminger na forma como apresenta o caso dos dois pretendentes (Louis Koo, Daniel Wu).

48) Detroit, Ville Sauvage (Florent Tillon)

No site de Tillon há um ensaio sobre Robocop e podemos dizer que este filme ensaio sobre Detroit poderia se chamar “e se Robocop fosse um texto profético?”. Mais para filme de terror do que um filme de cidade e certamente um dos filmes mais impressionantes sobre o tamanho da crise econômica americana.

47) One Minute of Darkness (Christoph Hochhäusler)

Belo filme de caçada (há algo muito estranho quando se percebe que o cinema de gênero alemão anda mais saudável que o americano). Hochhäusler conduz sua narrativa bifurcada (o criminoso solta, o detetive em crise de consciência reconstituindo sua própria investigação) com considerável precisão e simplicidade. As seqüências do assassino na floresta são notáveis como se a caçada do Essential Killing de Skolimowski encontrasse a finalidade um Lang.

46) Distinguished Flying Cross (Travis Wilkerson)

Wilkerson, um dos melhores cineastas políticos americanos, fez este ótimo média que se alterna entre a história de como seu pai ganhou uma medalha no Vietnã com cenas de combate rodadas por soldados.

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Algumas leituras de cinema favoritas de 2011

Outro dia o Gabe Klinger perguntou no Facebook quais seriam os textos de cinema favoritos dos amigos. É um bom tema para um post. Não sei porque não se faz mais destes apanhados em fim de ano.

Primeiro, alguns livros/catálogos:

Francisco Algarín Navarro, Fernando Ganzo, Moisés Granda (ed.) Lumiere No.4
Inacio Araujo, Cinema de Boca em Boca (org. Juliano Tosi)
Jonathan Rosenbaum, Goodbye Cinema, Hello Cinephilia
Tatiana Monassa (org), Clint Eastwood

Lumiere é uma revista anual espanhola. Coloca na lista porque tem mais de 400 páginas, então me parece justo coloca-la junto dos livros. A edição lida com o cinema de 2010. Ótimas entrevistas (Skolimowski, Apichatpong, Bellocchio, Guerin, etc), uma atenção especial ao experimental (pautas sobre Hutton, Lockhart, etc). Dá para baixar por pdf no site.

A recente coletânea do Inácio organizada pelo Juliano Tosi saiu no final de 2010, mas só a li este ano. Poderia ser um pouco mais ambiciosa (já quer se limita ao trabalho dele na Folha), mas é material essencial de um dos maiores críticos brasileiros.

Assim como o livro do Inácio já conhecia a maior parte do último livro do Rosenbaum (imagino que quase tudo exista no site dele),  mas uma das razões pelas quais é sempre um prazer ler uma das coletâneas dele é sua habilidade como organizador:  os textos ganham sempre um sentido novo nos seus livros.

Vale destacar também este belíssimo catálogo da recente retrospectiva do Clint Eastwood.  Ótima seleção de textos. Acho que esta disponível para download no site também.

Vale também acrescentar alguns ótimos dossiês:
Alfred Hitchcock, Interlúdio
James Gray, Foco No.3
Monte Hellman, La Furia Umana No.8

Sergio Alpendre colocou de pé uma grande equipe de colaboradores para um dossiê exaustivo que cobre a retrospectiva completa do cineasta que tivemos este ano.

Vi gente inteligente desconsiderar o dossiê Gray da Foco por conta de um editorial (que é mesmo fraco). É tão injusto com os ótimos textos quanto o Editorial.

Por fim La Furia Umana fez um grande numero centrado na figura de Hellman. É uma edição multilíngüe (com artigos em inglês, francês, italiano e português) que vale muito a pena.

Alguns artigos soltos excepcionais que li este ano:
Adrian Martin, “Turn the Page: From Mise en Scene to Dispositif”
Bill Krohn, “Cahiers for Dummies”
Francis Vogner dos Reis, “Das Ruinas:livre reflexão a parir de duas exceções”
Inacio Araujo, “Filmes que Ninguém Compreende”
Shigehiko Hasumi,” Fiction and the ‘Unrepresentable’: All Movies are but Variants on the Silent Film”

O ensaio de Martin sobre mise en scene contemporânea é essencial.

A crítica do Krohn é uma aula de como conduzir uma demolição crítica com argumentos  (o que infelizmente não é muito comum).

Este texto do Francis (sobre Os Residentes e Santos Dumont, pré Cineasta?) é o melhor artigo sobre cinema brasileiro que li este ano.

Uma grande reflexão do Inácio sobre a preguiça do espectador contemporâneo a partir de um comentário mal educado de blog.

Uma ótima provocação de Hasumi, ponto alto do excelente primeiro numero da Lola.

Ressalto também no ambito do cinema brasileiro que todos os vinte debates da mostra “Cinema Brasileiro ano 2000, 10 questões” estão disponiveis no seu site em vídeo e pdf.

Por fim vale destacar 4 belas revistas que seguiram publicando material de primeira regularmente ao longo do ano: Cahiers Du Cinema España, Cinema Scope, La Furia Umana e Miradas del Cine.

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Tudo Pelo Poder (George Clooney)

Eu teria muito mais respeito por Tudo Pelo Poder se eu acreditasse por um instante que George Clooney votará ano que vem num dos candidatos independentes americanos à esquerda dos Democratas, no lugar disso não só votará no Obama como provavelmente contribuirá mais grana a sua campanha do que a maior parte dos fãs do filme ganham num ano. Claro que Clooney faz o que bem entender, mas é um dado curioso porque reforça o quanto Tudo Pelo Poder é pouco mais que um exercício em cinismo. Espanta-me ver pessoas inteligentes apontando-o como um grande filme político quando na verdade é um dos filmes mais apolíticos do ano. Entendo plenamente a antipatia pela figura do político que leva a popularidade filmes como este (ou Tropa de Elite 2, para pegarmos um similar brasileiro), mas são raros os filmes como estes que tenham alguma idéia sobre política para além de propor um “não vote” ou “vote nulo” (e existe algo menos político do que isso?). Por todas as suas boas intenções (e eu até acredito nelas), o filme do Clooney tem o apelo e a contundência de um Reinaldo Azevedo.

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2011 no circuito

Minha lista de melhores do ano vai ao ar dia primeiro, mas resolvi fazer diferente este ano e soltar uma lista preliminar com os filmes que entraram em cartaz, já que sempre alguém reclama dos títulos que entraram em cartaz mas eram da minha lista do ano anterior.

(em ordem alfabética)

Adeus, Primeiro Amor (Mia Hansen-Løve)
Alem da Vida (Clint Eastwood)
Caminho para o Nada (Monte Hellman)
Copia Fiel (Abbas Kiarostami)
Deuses e Homens (Xavier Beauvois)
O Garoto da Bicicleta (Jeam-Pierre e Luc Dardenne)
Incontrolavel (Tony Scott)
Isto Não é um Filme (Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb)
Singularidades de uma Rapariga Loira (Manoel de Oliveira)
Tio Boonmee que Pode Recordar suas Vidas Passadas (Apichatpong Weerasetakhul)

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A Better Tomorrow (Song Hae-sung)/A Chinese Ghost Story (Wilson Wip)

A Chinese Ghost Story, de Wilson Wip

É sempre estranho quando você se coloca a frente de um objeto com qual você tem alguma afeição nostálgica. Esta semana assisti os remakes recentes do A Better Tomorrow do John Woo e A Chinese Ghost Story do Ching Siu-Tang, dois filmes bem significativos da minha adolescência. Curioso que pensando obre eles, eu não sabia disso à época, mas ambos eram também remakes. Nunca vi The Story of a Discharged Prisoner de Kong Lung que Woo refilmou (o filme até existe em DVD lá fora, mas inexplicavelmente sem nenhuma legenda) do qual sempre li comentários muito positivos, mas creio que The Enchanting Shadow seja um filme até melhor que A Chinese Ghost Story. Logo não existe muita justificativa para preciosismos da minha parte, mas não muda que refilmar estes filmes invade a minha memória afetiva.
Ver estes remakes torna impossível não ver um contraste de épocas. A Better Tomorrow e A Chinese Ghost Story (ambos não por acidente produzidos pelo Tsui Hark) são filmes bem significativos na afirmação da indústria de Hong Kong na segunda metade dos anos 80, estes remakes não deixam de ser exemplares do cinema industrial asiático contemporaneio. A Better Tomorrow (produzido por Woo) é um remake coreano que reimagina os irmãos do filme original como imigrantes norte coreanos.  O diretor Song Hae-sung (cujos filmes anteriores, eu desconheço) aumenta consideravelmente o tom de melodrama da ação e parece bem incerto sobre como se relacionar com o filme antigo alternando tentativas claras de não retomar certas cenas com imitações pálidas. É um típico filme de gênero coreano eficiente, mas bem desinteressante e há momentos em que desconfio o penteado dos atores é a maior preocupação estética do diretor. Ao menos, Jo Han Sun se diverte muito como o vilão.
O remake de A Chinese Ghost Story tem a principio um atrativo maior por ser dirigido pelo Wilson Wip, a quem sempre tive muito interesse apesar de uma filmografia bem irregular. Infelizmente este filme novo está bem mais para mau Wip do que bom Wip. Se o filme dos anos 80 era uma tentativa de fazer uma versão espetáculo do filme do Han Hsiang Li, este novo quer fazer o mesmo com o filme anterior. Só que se o filme de 87 era um exemplo de uso criativo dos recursos disponíveis, o do Wip se afunda nos efeitos digitais óbvios.  É também um filme bem típico de 2011 na sua decisão de complicar a própria mitologia e curiosamente perder no processo a força do gancho romântico que servia de base para o filme anterior. É génerico e comum em todas as maneiras que o filme de 87 era  encantador.

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As Canções (Eduardo Coutinho)

Toda vez que Eduardo Coutinho estréia filme novo relembro uma entrevista que ele deu a Contracampo a época do lançamento do Edifício Master (é uma das 5 melhores coisas que a Contra publicou, deveria ser relida por todos a cada novo filme dele) onde a certa altura ele fala da angustia sobre seus filmes futuros. A questão é que assim como Wiseman, Coutinho não tem tema, mas um método, e isto certamente é angustiante para o realizador diante de um novo trabalho. Edifício Master é meio que o ideal do cinema de Coutinho sequer finge que tem um assunto, só um espaço para unir as entrevistas. Todos os longas dele desde então meio que são a procura por desvios que destoem da pureza do Master: a história e mitologia dos metalúrgicos no Peões, a procura pelo filme em O Fim e o Princípio, as atrizes que expõe o dispositivo em Jogo de Cena, até Moscou que é mesmo uma interrupção completa no método apesar de ser uma extensão de idéias (Um Dia na Vida já e um outro objeto estranho). As Canções não tem nada disso. É o filme mais puro do Coutinho desde o Master, o uso das canções não deixa de ser um dispositivo aparentado as atrizes de Jogo de Cena, mas enquanto elas interrompiam radicalmente o documentário, as canções fluem muito mais naturalmente. A ausência da chacoalhada dada pelos desvios causa esta sensação de desgaste, expõe o processo como nenhum outro dele. Se Jogo de Cena era um filme que deixava explicito o como o cinema de Coutinho era sobretudo sobre o próprio processo, em As Canções só resta o processo.  Daí certo cansaço que o filme sugere, mas daí também a sua segurança.

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Melhores do ano – Film Comment

1. A Arvore da Vida (Terrence Malick)
2. Tio Boonmee que se Recorda das Vidas Passadas (Apichatpong Weerasethakul)
3. Melancolia (Lars von Trier)
4. Uma Separação (Asghar Farhadi)
5. A Dangerous Method (David Cronenberg)
6. Mistérios de Lisboa (Raúl Ruiz)
7. A Copia Fiel (Abbas Kiarostami)
8. Meek’s Cutoff (Kelly Reichardt)
9. Hugo (Martin Scorsese)
10. Poesia (Lee Chang-dong)
11. Filme Socialismo (Jean-Luc Godard)
12. O Porto (Aki Kaurismäki)
13. A Autobiografia de Nicolae Ceausescu (Andrei Ujica
14. As Quatro Voltas (Michelangelo Frammartino)
15. The Descendants (Alexander Payne)
16. Nostalgia da Luz (Patricio Guzmán)
17. A Brighter Summer Day (Edward Yang)
18. Meia Noite em Paris (Woody Allen)
19. Take Shelter (Jeff Nichols)
20. Margaret (Kenneth Lonergan)
21. Shame (Steve McQueen)
22. Drive (
Nicolas Winding Refn)
23. Cave of Forgotten Dreams (Werner Herzog)
24. O Espião que Sabia Demais (Tomas Alfredson)
25. Morrer como um Homem (João Pedro Rodrigues)
26. The Interrupters (Steve James)
27. The Artist (Michel Hazanavicius)
28. Terça, Depois do Natal (Radu Muntean)
29. Aurora (Cristi Puiu)
30. Weekend (Andrew Haigh)
31. A Pele que Habito (Pedro Almodóvar)
32. City of Life and Death (Lu Chuan)
33. Contágio (Steven Soderbergh)
34. Deuses e Homens (Xavier Beauvois)
35. Martha Marcy May Marlene (Sean Durkin)
36. Bridesmaids (Paul Feig)
37. The Trip (Michael Winterbottom)
38. Moneyball (Bennett Miller)
39. The Arbor (Clio Barnard)
40. O Futuro (Miranda July)
41. Incendies
 (Denis Villeneuve)
42. Super 8 (J.J. Abrams)
43. United Red Army (Koji Wakamatsu)
44. Road to Nowhere (Monte Hellman)
45. Tabloid (Errol Morris)
46. Rise of the Planet of the Apes (Rupert Wyatt)
47. Terri
 (Azazel Jacobs)
48. J. Edgar (Clint Eastwood)
49. Jane Eyre (Cary Joji Fukunaga)
50. Pina
 (Wim Wenders)

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Top 10 Cahiers


1. Habemus Papam (Nanni Moretti)
2. O Estranho Caso de Angelica (Manoel de Oliveira) e A Arvore da Vida (Terrence Mallick)
4. Fora de Satã (Bruno Dumont) e Essential Killing (Jerzy Skolimowski)
6. Melancolia (Lars Von Trier)  e Un Eté Brulant (Philippe Garrel)
8. Super 8 (JJ Abraams), L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância (Bertrand Bonello) & Meek’s Cutoff (Kelly Reichardt)

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O Belas Artes, o Gemini e a crueldade do capital cultural

Esta semana confirmou-se que a prefeitura arquivaria o tombamento do Belas Artes como esperado (o prédio afinal não tinha nenhum valor histórico-arquitetônico). Logo o dono do imóvel deve alugar o espaço para alguma loja e o Belas Artes oficialmente será só história. Moro ali do lado e passo em frente do prédio abandonado quase todos os dias, fico ali parado a olhar para ele enquanto o sinal entre a Paulista e a Consolação não abre, sempre me choca muito o prédio abandonado; mas não exatamente ele ou as pichações, mas aquele “Desde 1952” na fachada. Com o prédio fechado aquilo ganhou um peso diferente um grito agressivo que parece dizer “vejam só o que vocês vão abandonar”.

Aquela marca de “Desde 1952” representa todo o capital cultural ali investido. Agora que a noticia de quem a intervenção estatal naufragou certamente ouviremos novos lamentos. São quase 60 anos de história, um nome bonito, bela localização ali em frente ao também fechado (e até hoje vazio) Riviera.  È bonito lamentar o fim dos Belas Artes, checo pelo Facebook e vejo que a comunidade contra seu fechamento tem 115 mil adesões! É sempre bom chorar a substituição de um espaço de troca cultural por alguma loja de conveniência genérica.

Fico porém pensado naquele “Desde 1952” e a idéia de capital cultural. O outro lado nunca mencionado nestas vigílias, é que o Belas Artes era sobre certos aspectos a pior sala de cinema de São Paulo. Muito bem programada sem dúvidas, mas com péssima projeção, péssimo som (vi filme lá com um canal inteiro a desaparecer), péssimas poltronas, etc. Tudo isso pelo preço de outros espaços “de arte” como o Unibanco ou Reserva Cultural. Depois de muito chorar seu risco de fechar e mobilizar a sociedade paulistana, arranjou-se um patrocinio do HSBC e os administradores pegaram ele e investiram em algumas mudanças cosméticas no saguão. Afinal, é isto que importa, não os filmes. A despeito de toda a sua história o Belas Artes como diria um amigo cineasta aqui de São Paulo é só mais um “cine bistrô neoliberal”, com a diferença que estas outras salas todas te entregam  um produto que prometem melhor.

Toda vez que alguém toca no assunto Belas Artes me vêm sempre a cabeça o Gemini. É impossível separá-los. Quando Gemini fechou ano passado fiz um post aqui no blog e mencionei na época que para mim era algo mais trágico que um possível fim do Belas Artes. Meu apego ao Gemini tem certamente um valor nostálgico tanto quanto o de muita gente ao Belas Artes, era uma sala de cinema velha que me lembrava as salas de cinema que eu ia na infância e na adolescência, antes do Cinemark iniciar o processo de pasteurizar todas as salas de cinema. O que mais eu gostava no Gemini porém era outra coisa: sua curiosa democracia. Explico Gemini nunca foi uma sala de cinema programada, passava-se lá o que sobrava, fosse esta sobra Bressane, fosse Harry Potter. O que unia os filmes que passavam no Gemini era que eram filmes para qual aquela altura o mercado já não se interessava (quando um filme como o Bug do Friedkin estreava lá na sua primeira semana, você sabia que aquele filme estava em apuros com o mercado exibidor paulistano). Era uma sala pobre, mas honesta, passava sempre uns 4 filmes, dos quais geralmente só um era bom, mas fazia aquele serviço que ninguém mais prestava de postergar a carreira comercial de todo e qualquer tipo de filme. O que evidentemente o Gemini não tinha é que sobra ao Belas Artes, a história, o nome, a associação com uma outra São Paulo, em suma o capital cultural do “Desde 1952”.

O Gemini fechou a mais de um ano, não houve passeatas ou abaixo-assinados não existe sequer uma comunidade do Facebook do tipo “Gemini – passei por lá”. A sala está lá  esquecida numa galeria da Paulista.  O mercado é cruel sempre. Me chateia o fim do Belas Artes, me sinto mal passando ali na frente quase todas as noites, certamente era melhor para a cidade que o espaço ao menos existisse por mais mau administrado que ele fosse. Mas também me sinto incomodado quando vejo as manifestações a seu respeito e me lembro de todas as outras salas aqui de São Paulo que eu vi fechar e as quais a sociedade nada fez (pensemos, por exemplo, no Studio Alvorada e no Astor substituidos por este monstrengo de consumismo elegante chamado Livraria Cultura, que vamos todos visitar regularmente). É cruel a lógica do capital cultural, muito porque a sua palavra mais importante não é cultura.

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Isto não é um Filme (Jafar Panahi/Mojtaba Mirtahmasb)

É um tanto inevitável que Isto Não é Um Filme receba o valor de um evento, mas há duas características contraditórias muito interessantes na sua recepção. Primeira há a supressão quase completa de Mojtaba Mirtahmasb, o amigo documentarista de Jafar Panahi que co-dirigiu o filme com ele. Muitos anos atrás escrevi para um site americano um artigo (sobre McG e Kiarostami) chamado autorismo na era do supermercado; quando se nota que na crítica do Ricardo Calil na Folha de hoje não se menciona a existência de Mirtahmasb (inclusive vale dizer nas informações de serviço no pé do texto!) percebe-se exatamente como uma idéia de autorismo é sutilmente cooptada por uma lógica de mercado. De Isto Não é Um Filme importa sobretudo a figura de Panahi cineasta algo conhecido no ocidente cuja situação atual desperta nas platéias do circuito de arte uma grande curiosidade. O que é muito interessante nisso é justamente o outro dado que me parecer merecer destaque: o filme que é vendido até nos numa lógica em que é natural suprimir a co-autoria de Mirtahmasb, é muito mais o filme que interessa ao próprio Mirtahmasb do que ao Panahi.É o amigo que procuro o tempo todo guiar Isto Não é um Filme na direção da denuncia enquanto o próprio Panahi tem outras preocupações. A grande força de Isto Não é um Filme é justamente de que ele não é um filme de Jafar Panahi ou de Mojtaba Mirtahmasb, mas uma obra conjunto em que ambas as partes o tempo inteiro estão em troca de olhares e concessões. A potência política do filme vem justamente de que sua denuncia existe não como lamento de uma situação, mas em meio a uma troca de diálogos de dois artistas que concorda sobre muita coisa, mas não tem necessariamente a mesma idéia de qual filme fazer sobre aquele tema. Panahi não é só um artista desafiando um regime autoritário quando pega sua câmera, mas um que esta no processo nos mostrando o exato oposto deste regime. A lógica do do nosso circuitinho como supermercado porém não tem nenhum interesse disso a sua maneira ela não deixa de ser extremamente autoritária. Nada surpreendente já que ao mercado, qualquer mercado, nunca interessa a política.

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Mostra e Festival – resumo

Segue ai embaixo links para todos os meus textos das coberturas do Festival do Rio e da Mostra de São Paulo
Attenberg, de Athina Rachel Tsangari
A Doença do Sono, de Ulrich Khöeler
Finisterrae, de Sergio Caballero
Fora de Satã, de Bruno Dumont
O Garoto da Bicicleta, de Jean Pierre e Luc Dardenne
Hanezu, de Naomi Kawase
Homem no Banho. de Cristophe Honoré
Irmãs Jamais, de Marco Bellocchio
L.A. Zombie, de Bruce LaBruce
Low Life, de Nicolas Klotz e Elizabeth Perceval
Um Mundo Misterioso, de Rodrigo Moreno
Pater, de Alain Cavalier
Sábado Inocente, de Aleksandr Mindatze

Pilulas para Cartas Para Kuluene (Pedro Novaes), O Dominador (Kim min-suk) e A Ilusão Cômica (Mattieu Amalric)

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100 Filmes Italianos

Dois Destinos, de Valerio Zurlini

A idéia desta lista é fazer um recorte histórico dos meus filmes italianos favoritos. Ela logo é limitada pelo meu conhecimento (por isso mesmo exclui os filmes anteriores a 45 já que conheço o período muito mal, esta é intencionalmente uma lista de Roma Cidade Aberta aos dias atuais) e pelo meu gosto pessoal. Acho o cinema italiano junto ao americano o mais rico do mundo e o que me fascina na sua história é o quão diverso ele é, algo que acredito esta lista representa bem. Não é, bom dizer uma lista pensada como cânone ou contra-cânone ou qualquer coisa do tipo. O único critério foi tentar não repetir cineastas em demasiado (e acreditem versão A da lista tinha um numero absurdo de Rossellinis). Vale dizer que eu poderia fazer fácil uma lista B com “outros 100 filmes italianos”, o fato de um filme não estar na lista certamente não é um julgamento automático sobre ele, existem dezenas de filmes excelentes de todos os tipos que não entraram ai embaixo. Limitei a lista a filmes superiores a 30 minutos o que teve o efeito ruim de limitar a presença de cinema experimental. Um dado positivo e que apesar do período entre 60 e 79 dominar mais da metade da lista, as últimas 3 décadas tiveram uma representação bem melhor do que suas reputações sugeririam.

Um último adendo eu passei os últimos dez dias trabalhando neste post e os filmes estão em ordem cronológica, mas os textos foram escritos sem nenhuma ordem enquanto eu depurava a lista aos poucos, explico para pedir desculpas pelo fato de ser mesmo um post bem caótico e deve por vezes soar repetitivo.

A lista segue dentro do post:

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De Seta

Péssima a notícia da morte de Vittorio De Seta. Grande cineasta que merece ser mais conhecido.

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Inquietos

Não sei se aprecio a direção dos Gus Van Sant ou se me irrito com a forma como o filme por vezes se assemelha a uma paródia de filme indie excêntrico.  Perto de outros filmes similares é ótimo, mas estamos muito longe de um Paranoid Park.

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