Melhores de 2011 20-1

20) Girimunho (Clarissa Campolina e Helvecio Marins)

Num filme como este, a maior questão é encontra a imagem e o tempo certo para seus personagens e isto é algo que Girimunho consegue quase o tempo todo. Num ano com um numero bem alto de bons filmes de jovens cineastas, esta estréia de Campólina e Marins foi o melhor deles.

19) El Sicario: Room 164 (Gianfranco Rosi)

Um homem, um quarto, uma história de horrores. O documentário de Rosi não poderia ser mais simples, cerca de 90 minutos de entrevista com um ex-matador da máfia mexicana. Só que destes poucos elementos, o cineasta extrai algo que geralmente documentários não alcançam. Nos gestos hiper ativos do entrevistado, na forma com que ele segue rabiscando no seu caderno de notas para melhor explanar e sobretudo no capaz preto que permanece sempre sobre seu rosto, Rosi  produz um documentário de uma teatralidade frontal muito em comum. È como se a ficção estivesse ali pronta para adentrar aquele espaço.

18) Kill List (Ben Wheatley)

Muito antes de algo estranho acontecer em Kill List cada plano de Wheatley parece sugerir que há algo de muito errado no universo de seu protagonista, que a qualquer momento a placidez das cenas iniciais (mais próximo de um drama realista de classe média inglesa do que de um filme de horror) dará lugar ao desastre. É um dos filmes de horror mais enervantes dos últimos anos justamente porque traz consigo esta sensação constante de que a Inglaterra que registra é um espaço doente que pode implodir a qualquer momento.

17) O Cavalo de Turim (Bela Tarr)

Bela Tarr filma o fim dos tempos. Uma experiência notável do primeiro ao último plano.

16) Disorder (Weikai Huang)

Uma pequena aula em montagem em documentário. Huang extrai seu filme todo de material da vida pública chinesa filmada por terceiros, cenas que poderiam estar soltas num You Tube, mas que ganham sentido reunidas e organizadas  pelo cineasta. Há uma fluidez na organização do mosaico de Huang que tornam Disorder bem mais do que só uma compilação de uma sociedade tomada pelo absurdo.

15) In the Shadows (Thomas Arslan)

Uma tese redutora mas que me parece conter certa verdade: a maior parte dos exercícios puros em reanimar gêneros de ação se dividem em “bom Melville” e “mau Meville”.  Os primeiros reconhecem no cineasta francês menos o universo e o gênero e mais certa precisão de olhar.  Usar gênero quase como uma peça descritiva que permite ao cineasta se instalar num meio de vida independente de que lado da lei o personagem central se encontra. Enquanto no “mau Melville” é uma questão de identificar estruturas de gêneros e mitificá-las até o filme perder qualquer vida como se fosse extrair daí algo maior que a memória cinéfila do cineasta localizou. Este filme de roubo de Arslan é um perfeito “bom Melville”.

14) Robinson in Ruins (Patrick Keiller)

É difícil falar de Robinson in Ruins sem colocar-lo no contexto da série de filmes de Keiller “estreladas” por Robinson  (recomendo muito também os anteriores London  e Robinson in Space) da qual este é provavelmente o seu último exemplar  já que parte da força do filme surge justamente de como as suas observações nascem em conjunto com nossa familiaridade com o protagonista invisível. São todos ensaios sobre o espaço britânico. Sobretudo vemos as imagens de Robinson, homem que se dedica este exercício de olhar e ocupar este espaço filtradas por um narrador externo que o conhece.  Só que como o título anuncia no começo de Robinson in Ruins, só resta a ruína. Uma Inglaterra desolada, um Robinson em vias de desaparecer.  Robinson porém segue seu trabalho cataloga lugares, suas histórias, sintetiza-as imagens, mas este processo já não faz o mesmo sentido do que nos dois filmes anteriores (podemos dizer que entre outras coisas Robinson in Ruins é um filme sobre o intervalo de treze anos que o separa de Robinson in Space).

13) Il Villagio Di Cartone (Ermanno Olmi)

Olhando o conjunto dos filmes europeus deste top 20 difícil escapar a sensação de que são todos filmes de trevas (o apocalipse de Bela Tarr é só a sua versão mais explicita).  O último longa de Olmi, que assim como Tarr sempre que filma promete que será seu último trabalho, é uma alegoria sobre o colapso do humanismo europeu. Poderia ser só mais um filme bem intencionado sobre imigração, mas a questão com Olmi é mais complexa e sem enrolações. Reconhece o problema e vai até ele. Pensemos naquela igreja moribunda em que a ação toda se passa e que nunca se sobrecarrega com seu caráter simbólico porque antes de mais nada ela existe ali para a câmera do Olmi. A culpa e as boas intenções Olmi deixa para cineastas menores, o desastre que ele busca é maior.

11) O Gerente (Paulo Cezar Saraceni) e Sorelle Mai (Marco Bellocchio)


Assim como Olmi, dois mestres que fazem o que querem e realizam aqui belos filmes fora do tempo.  Bellocchio parte de uma série de workshops que realizou na sua cidade ao longo de uma década para menos retomar o drama familiar que tanto lhe interessa e mais para pelo acumulo do tempo reconstituir a relação de atração e repulso que este espaço e toda a história ali representada significa para ele. Saraceni retoma ao Rio da sua juventude e precisa lidar com a sua impossibilidade de existir como algo que não seja cinema.  É um filme de terror sobre cinema brasileiro (até porque como o Jairo Ferreira bem observou esta é uma condição inicial de todo filme sobre o cinema brasileiro),  uma afirmação diante de própria insignificância. Amarga, mas muito viva.

10) Mafrouza (Emanuelle Demoris)

Durante quatro anos Emanuelle Demoris foi até o subúrbio de Alexandria do título e filmou a comunidade local. Dali extraiu 5 filmes (e cerca de 12 horas de material) é um retrato daquele espaço, das pequenas ficções que ele acumula e das relações que a própria cineasta vai aos poucos acumulando (e é um dado central que não exista equipe somente a própria Demoris com quem todos os seus personagens freqüentemente estão a interagir). O projeto todo de Demoris – e o conjunto dos filmes certamente é maior que eles individualmente apesar deles serem muito bem construídos como blocos independentes – conhece muito bem o próprio limite e ao mesmo muito bem como chegar até um retrato possível e dividi-lo com cada uma das suas personagens.

9) Oki’s Movie (Hong Sang-soo)

Toda vez que eu escrevo sobre Hong termino me repetindo tanto ou mais do que ele mesmo, é difícil até colocar seus filmes a esta altura numa perspectiva mais ampla (é útil dizer que prefiro Oki’s Movie a Ha Ha Ha e The Day He Arrives a Oki’s Movie como todos simplesmente retornam a este longuíssimo filme que é a obra toda de Hong?). Dentro da tendência mais estruturalista dos filmes de Hong Oki’s Movie se não é o melhor é, sem dúvidas, o ponto mais avançado.

8) Let the Bullets Fly (Jiang Wen)

Jiang Wen se dedica a fazer um grande espetáculo neste quase spaghetti western chinês. Grande cinema popular de uma verve teatral que servi de veiculo para alguns dos melhores atores a industria local a começar pelo próprio Wen e Choiw Yun Fat (que não recebia material tão bom em anos).

7) Isto Não é um Filme (Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb)

Se Isto Não é um Filme é um grande filme político isto não se dá a principio pela situação de Jafar Panahi que lhe serve de evento, mas da sua concepção construída numa tensão constante de uma troca que reafirma justamente em como a sua política se baseia sobretudo no desacordo entre os dois autores (e afinal não há política saudável sem um mínimo de desentendimento).

6) The Day He Arrives  (Hong Sang-soo)

Hong não só segue fase quase o mesmo filme só que melhor, ele segue fazendo-o cada vez mais depressa. Tudo que disse para Oki’s Movie vale aqui também. É certamente um dos melhores e mais fechados exercícios em retrato do seu protagonista típico que Hong realizou.

4) Low Life (Nicolas Klotz e Elizabeth Perceval) e Qu’ils Reposent en Revolte (des Figures de Guerre) (Sylvain George)


Dois grandes filmes que de certa forma se apresentam como um campo/contracampo um do outro. Dois filmes que não só partem da figura do imigrante ilegal na Europa, mas que sobretudo dão conta do mesmo mal estar diante do que o tratamento delkes revela num mergulho fascista numa idéia de estado policial do governo francês . A única forma possível para Low Life lidar com as questões que propõe é mergulhando no conceito de horror. Dentro de um universo de precisão e certezas cientificas, da eficiência a qualquer custo, nada mais justo do que o artista buscar o sobrenatural para equilibrar as coisas. É como se, ao chegar à conclusão lúcida de que apontavam suas câmeras para uma sociedade que reduz todas a condição de mortos vivos, o casal Klotz e Perceval não visse nenhuma outra saída que não fosse aceitar que lidavam com um tipo próprio de filme de horror. Não surpreende que a grande peça de resistência política proposta por Low Life traga justamente um grupo de imigrantes envolvidos em cerimônias de voodoo contra autoridades. Se somos todos zumbis, logo não há forma mais própria de insurgir, o filme parece nos sugerir. De certa forma é um filme que se encerra numa desmaterialização completa (não a toa seu final se constrói sobre a chave do desaparecimento).  Já o filme de George é o exato oposto, tudo nele é pura matéria. Um catalogo de violência. Se a resistência de Low Life é sobrenatural, aqui ela se encerra nas próprias figuras que filma, estes corpos estranhos, o outro que a sociedade rejeita, mas que insistem em existir. A cena mais poderosa do filme é justamente quando vemos o ritual pela qual as digitais (objeto policial por natureza) de vários imigrantes são apagadas.

3) Road to Nowhere (Monte Hellman)

Confesso que Road to Nowhere desperta em mim um grande sentimento protetor, não lido bem com críticas a ele. Não é porque Hellman é desde muito tempo um favorito (ok, já escrevi textos defendendo Silent Night, Deadly Night 3) e que este é seu primeiro filme em 21 anos, mas porque há algo de essencial na minha imersão no cinema que Hellman toca aqui. Há aquele momento notável, em que o diretor do filme dentro do filme aponta a câmera e o que chega até nós é a própria equipe de filmagem a trabalhar. Não há quebra de quarta parede possível, não há jogo de quebra cabeças, ou filme sobre cinema, nenhuma verdade do processo, mas também nenhuma mentira, apenas isto que chamamos de cinema que flui constantemente a cada imagem cuidadosamente elaborada por Hellman.  Colocando de outra maneira, é como se todo filme não fosse só ele, mas uma série de traços que ele deixa, uma impressão fantasmagórica própria ao cinema, só que ninguém nunca fez um filme sobre isso antes deste longa de Hellman.

2) Foreign Parts (J.P. Sniadecki e Verena Paravel)

Há uma profunda fragilidade nas imagens de Foreign Parts que provem do nosso conhecimento que tudo ali filmado (entre 2008 e 2009) está no processo de desaparecer. É um fantasma material que esta ali diante de nós e justo num filme tão dedicado a captar de forma menos intrusiva possível a comunidade que cerca (no caso a área de Nova York em que se localizavam os ferros velhos e lojas mecânicas que estava prestes a ser desapropriada em função de um desses projetos de “reurbanização” que nossos prefeitos tanto gostam).  Sniadecki e Paravel não se incomodam com nada do supérfluo que esperamos encontrar num documentário (informação, contexto), mesmo seu ponto político gasta a duração toda do filme para se articular (até porque ninguém ali tem tempo para protestar nada).  De certa forma a comunidade filmada em Foreign Parts representa um duplo fantasma, um lugar intencionalmente esquecido (a não ser que possa ser render dinheiro na reurbanização) que agora esta prestes a ver este esquecimento ser tornar literal.

1) Crazy Horse (Frederick Wiseman)

Provavelmente Wiseman nunca voltou sua câmera para uma instituição “menor”, o clube de strip tease parisiense do mesmo nome. Crazy Horse porém esta bem longe de ser um pequeno descanso entre projetos maiores, pelo contrario este deve ser meu Wiseman favorito numas boas três décadas.  É um filme sobre criação artística (e um que não poderia ser mais francês no seu processo, até o cabaré erótico afinal precisa se validar artisticamente), mas é também um filme sobre o ato de olhar. A maior parte de Crazy Horse é ocupada por Wiseman filmando dançarinas desempenhando e/ou ensaiando velhos e novos números da casa e somos confrontados com a idéia de erotismo e vulgaridade e como eles se articulam sobretudo a partir de um olhar posterior.

14 Comentários

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14 Respostas para “Melhores de 2011 20-1

  1. Pô, Filipe, o pior filme de sempre do Wiseman dá melhor do ano?! Isso diz quão grande é o Wiseman… ou quão mau foi o ano cinematográfico 😉 Abraço

  2. Roberto Cotta

    Filipe, você chegou a assistir o “L’Apollonide”, do Bonello?

  3. Zé Luiz

    “A Árvore da Vida” não entrou nem nas menções honrosas. Não gostou do filme, Filipe?

  4. daniel

    Muitos poucos filmes comercias americanos esse ano na lista. Nenhuma comédia? Viu Bridesmaids?
    Fico Impressionado com o número de documentarios alternativos que você assiste.

    • Filipe Furtado

      Cara, eu achei este ano terrivel para cinema americano de grande circuito, terrivel mesmo. Acho que nunca fiz uma lista dessas sem um filme desses.

      Vi o Bridesmaids, achei legal, mas não me pegou como fez com muitos amigos.

  5. daniel

    Eu percebi… Porque pra por Reitman, Schumacher e Fast 5 nas menções deve ter algo errado….

    • Filipe Furtado

      Mas estes são os filmes bons! Definitivamente não é nenhuma quota de filmes americanos ou algo do gênero, estão lá porque me deram prazer o suficiente para merecerem alguma menção.

  6. RD

    ué, em algum lugar vi Unstoppable listado por vc e agora nem nos 50 e nem nas menções honrosas, eu vi errado?

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