Melhores de 2011 50-21

Como sempre nas minhas de final de ano, o critério que vale é filmes vistos por mim pela primeira vez em 2011 realizados nos últimos 3 anos.

O top 20 segue amanhã.

Menções Honrosas: 20 Cigarettes (James Benning), Las Acacias (Pablo Giorgelli), Adeus (Mohammad Rasoulof), Aita (José Maria de Orbe), Aterrorizada (John Carpenter), Balada Triste de Trompeta (Alex de la Iglesia), La Belle Endorme (Catherine Breillat), Belle Epine (Rebecca Zlotowski), Chantal, de Cá (Gustavo Beck e Leonardo Luiz Ferreira), Cisne (Teresa Villaverde), Cut (Amir Naderi),  A Doença do Sono (Ulrich Köhler), Era Uma Vez na Anatolia (Nuri Bilge Ceylan), Hoy No Tuve Miedo (Ivan Fund), Inquietos (Gus Van Sant), Os Monstros (Pedro Diogenes, Guto Parente, Luiz e Ricardo Pretti), Os Residentes (Tiago Mata Machado), Secret Reunion (Hun Jang), Sexo Sem Compromisso (Ivan Reitman), Super8 (JJ Abrams), Trabalhar Cansa (Marco Dutra e Juliana Rojas), Twelve (Joel Schumacher), Velozes e Furiosos 5 (Justin Lin), La Vida Util (Federico Veiroj), Vigias (Marcelo Lordello)

50) Slow Action (Ben Rivers)

Uma ilha pós fim do mundo.  O impressionante média de Rivers é uma elegia notável a uma sociedade que decaiu antes de ter começado. Um dos pontos altos do cinema experimental em 2011 e uma das melhores ficções cientificas também.

49) Don’t Go Breaking My Heart (Johnny To e Wai Ka Fai)

Não costumo ser um dos maiores entusiastas dos romances que Johnny To faz para pagar as contas da Milkway, mas Don’t Go Breaking My Heart é um das suas melhores aventuras fora do filme de ação. Raro encontrarmos uma comédia romântica tão formalmente bem cuidada e o filme chega a lembrar Daisy Kanyon de Preminger na forma como apresenta o caso dos dois pretendentes (Louis Koo, Daniel Wu).

48) Detroit, Ville Sauvage (Florent Tillon)

No site de Tillon há um ensaio sobre Robocop e podemos dizer que este filme ensaio sobre Detroit poderia se chamar “e se Robocop fosse um texto profético?”. Mais para filme de terror do que um filme de cidade e certamente um dos filmes mais impressionantes sobre o tamanho da crise econômica americana.

47) One Minute of Darkness (Christoph Hochhäusler)

Belo filme de caçada (há algo muito estranho quando se percebe que o cinema de gênero alemão anda mais saudável que o americano). Hochhäusler conduz sua narrativa bifurcada (o criminoso solta, o detetive em crise de consciência reconstituindo sua própria investigação) com considerável precisão e simplicidade. As seqüências do assassino na floresta são notáveis como se a caçada do Essential Killing de Skolimowski encontrasse a finalidade um Lang.

46) Distinguished Flying Cross (Travis Wilkerson)

Wilkerson, um dos melhores cineastas políticos americanos, fez este ótimo média que se alterna entre a história de como seu pai ganhou uma medalha no Vietnã com cenas de combate rodadas por soldados.

45) La Vida Sublime (Daniel V. Villamediana)

Outro filme a trabalhar muito bem a relação de história pessoal/nacional, ou no caso um filme sobre história e ficção de uma disposição enorme de  reimaginar a sua Espanha na hora que a história oficial engasga. Um belíssimo filme sobretudo quanto Villamediana (que foi critico da Letras Del Cine) para tudo e simplesmente se entrega a filmar a paisagem espanhola.

44) Histórias da Insônia (Jonas Mekas)

Como o Gilberto Silva Jr comentou durante a mostra poderia se chamar “historias da cachaça”, como toda história de bêbado às vezes se perde dentro de si mesma, como todos os diários de Mekas tem alguns momentos fortíssimos.

43) Sábado Inocente (Aleksandr Mindatze)

Mindatze em parceria com Oleg Mutu pega o surrado recurso da câmera na mão como registro de autenticidade e extrai dali algo muito mais forte que uma simples mimese de uma experiência autêntica, usando-a para se aproximar muito mais de uma idéia de horror impressionista e abstrato.

42) As Canções (Eduardo Coutinho)

Coutinho reduzido ao seu essencial: ao mesmo tempo filme-processo e melodrama puro.

40) Get Out of the Car (Thom Andersen) e L.A. Zombie (Bruce LaBruce)


Dois belos filmes sobre o espaço urbano de Los Angeles. Tanto o pornô gay de guerrilha de LaBruce  como o pequeno ensaio crítico de Anderson são filmes políticos sobre como chegar a este espaço. LaBruce confraga uma imagem expressionista de filme de horror  com outra imagem dura de um quase documentário sobre mendigos da cidade. Já Andersen vai até os sons (sobretudo de origem latina) para realizar um epílogo para o trabalho que começara com Los Angeles Plays Itself.

39) Habemus Papam (Nanni Moretti)

A crise de palco do ator político. Mais desigual que outros Morettis, talvez por sentir a necessidade de também ser um filme sobre a Igreja no lugar de apenas usar-la, mas sempre que se concentra na figura do Piccolli é notável.

38) Cold Weather (Aaron Katz)

Entre jovens cineastas americanos provavelmente nenhum tem um olho e ouvido tão apurados quanto Katz (ele é especialmente bom filmando conversas a dois). Este Cold Weather não chega a ser tão forte quanto sua estréia Dance Party USA, mas certamente é o mais seguro dos seus três longas até aqui.

37) Wu Xia (Peter Chan)

Longe do que o titulo genérico pode sugerir o novo filme de Chan procura caminhos para quebrar com a mesmice das superproduções de artes marciais chinesas recentes. Uma espécie de One Armed Swordsman reimaginado como história de detetive é o melhor filme de Chan desde que voltou a filmar em 2005 e um dos melhores veículos para Donnie Yen apesar do relativo baixo numero de cenas de ação.

36) Beats Being Dead (Christian Petzold)

Petzold segue um dos melhores olhos sociológicos do cinema a sua mise en scene cada vez mais simples e direta só melhora.

35) Festival (Jean-Claude Rousseau)

O homem esta em Turim para um festival de cinema. Lá ele espera, filma, conversa, produz mise en scene, 80 minutos notáveis de um dos maiores construtores de planos do cinema contemporâneo.

34) Fora de Satã (Bruno Dumont)

Fora de Satã é um filme de horror teológico, drama sobre o duelo entre luz e trevas cuidadosamente trabalhando plano a plano por Dumont. É um embate que se dá na imagem, a cada cuidadoso recorte de luz e cada sutil movimento desempenhado por seus atores.

33) Pacific (Marcelo Pedroso)

Pacific não é o melhor filme brasileiro dos últimos anos, mas é talvez o mais importante. Toma para si um trabalho imenso que nenhum outro filme fez. A maior parte dos artigos sobre o filme – pró e contra – se detém quase exclusivamente no dispositivo, o que me parece ser perder o filme em si que é bem maior do que isso. É um filme sobre uma impossibilidade: um mergulho direto sobre imagem da classe média brasileira. Impossível, pois é uma imagem que não aceitamos de nenhuma forma que não seja extremamente mediada.

32) Ichimei (Takashi Miike)

Assim como seu ótimo remake de 13 Assassinos, esta versão de Miike para Hara-kiri coloca-o numa surpreendente posição de cultor de uma imagem clássica. Um filme sobre espaço, com uso preciso da profundidade do 3D, transpõe o filme do Kobayashi para um teatro do melodrama.

31) Petition (Zhao Liang)

Realizado ao longo de uma década, Zhao Liang nos instala na vila dos pedintes, chineses que vem a Pequim reclamarem de decisões dos governos locais e vem suas reclamações se arrastarem burocraticamente sem jamais serem julgados. As imagens de Liang se constroem entre pesadelo burocrático e a pura paranóia. Outro grande documentário chinês.

30) The Ballad of Genesis and Lady Jaye (Marie Losier)

O filme da Marie Losier é um retrato afetivo de um casal, o ex Throbbing Gristle Genesis Breyer P-Orridge e sua esposa Lady Jaye uma artista performática, envolvido num projeto em que buscam alteram os próprios corpos para melhor se aproximarem um do outro. É levar uma idéia materialista ao extremo, mas não há nada de extremo, pois o olhar de Pisier o desloca, Genesis e Lady Jaye só mais um casal tão estranho e único quanto comum dentro das suas peculiaridades.

29) Love History (Klub Zwei)

O documentário do duo austriaco parte de um tema complexo – o colaboracionismo nazista na Áustria – a partir de uma porta bem incomum (as lembranças dos herdeiros que descobriram mais tardes que pais ou avós eram nazistas) e traça dali um painel bem duro da dificuldade de lidar com o tema e o uso político desta limpeza histórica.

28) Meek’s Cutoff (Kelly Reichardt)

É muito estranho que o melhor filme de gênero americano que vi este ano seja um faroeste revisionista absurdo dirigido pela Kelly Reichardt.

27) O Garoto da Bicicleta (Jean-Pierre e Luc Dardenne)

Como todos os filmes dos Dardenne se trata de um filme de ação, assim como A Criança trata-sede um thriller moral. Se naquele filme a questão era responsabilidade, aqui ela é a conseqüência. Os Dardenne seguem dos melhores moduladores de drama dentro de um plano e também dos nossos melhores construtores de um universo. Fala-se muito, para o bem e para o mal, do tal humanismo, mas seu cinema é uma questão de crença profundo no valor da ficção para alcançá-lo.

25) O Homem que Não Dormia (Edgard Navarro) e Historias que Só Existem Quando Lembradas (Julia Murat)


Navarro faz um filme que faz valer seus curtas e médias.  Cinema fantástico de primeira. Apaixonante no seu desejo de tudo abraçar. Popular na sua democracia. Já o filme da Julia Murat  é outra coisa, se Navarro é inclassificável, Histórias que só Existem se inscreve definitivamente dentro de uma idéia de cinema contemporâneo. Mas estamos longe das generalizações, tem um pé muito bem resolvido no filme fantástico e outro no relato cotidiano, sobretudo uma curiosidade imensa sobre o que filma.

24) Boxing Gym (Frederick Wiseman)

Vários dos filmes recentes do Wiseman parecem trocar o tom mais incisivo dos seus retratos por uma observação apaixonada do ritual, isto estava no balé de La Danse, no boxe de Boxing Gym e talvez ainda mais nos números eróticos do recente Crazy Horse.Claro que podemos dizer que a violência ritualizada tão bem captada por Boxing Gym é uma instituição americana tão essencial quanto às exibidas em muitos dos seus filmes anteriores, mas Wiseman parece sobretudo interessado em nos instalar e nos saturar nela.

23) Agrarian Utopia (Uruphong Raksasad)

Agrarian Utopia tem certo contato com Sweetgrass que estava na minha lista do ano passado. Registros crepusculares de um modo de vida desaparecendo diante da câmera, no caso dos camponeses tailandeses. Filmes como estes dois (ou para pensarmos em dois com ganchos narrativos mais fortes ,Tulpan e Alamar, que tiveram alguma carreira por aqui) representam uma das correntes mais consistentemente interessantes do cinema contemporâneo, um quase documental de profunda curiosidade antropológica por universos descobertos pelos seus cineastas.

22) The Robber (Benjamin Heisenberg)

The Robber daria uma bela sessão dupla com O Garoto da Bicicleta, outro filme de ação em que o protagonista esta em constante movimento. Heisenberg pega um ótimo fait divers sobre um famoso ladrão de bancos austríaco dos anos 80 que era também um excelente maratonista e constrói uma ficção simples e direta sobre procedimento onde só há espaço para dois elementos: movimento e trabalho. Grande cinema físico.

21) Adeus Primeiro Amor (Mia Hansen-Løve)
Duas coisas resistem na memória a cerca deste terceiro longa de Hansen- Løve, a presença de cena de Lola Creton e o tempo. Um filme todo de elipses muito fortes que retoma  uma idéia de pressão do tempo muito cara a Maurice Pialat que a cineasta sugeria com menos força nos seus dois longas anteriores. Tudo em Adeus Primeiro Amor se move em função deste tempo e da impossibilidade de realmente controlar-lo.

14 Comentários

Arquivado em Filmes, Listas

14 Respostas para “Melhores de 2011 50-21

  1. Você chegou a escrever sobre o Velozes 5,Filipe? E curte os outros da franquia?

  2. Filipe Furtado

    Não escrevi não. Gosto do segundo filme e acho o quarto simpático.

  3. Pingback: Melhores de 2011 50-21 | Anotacões de um Cinéfilo | iComentários

  4. daniel

    Ótima lista….. Muito surpreso com a presença de Reitman e Schumacher nas menções.
    Agora como faz pra assisitir a maioria desses filmes? Principalmente os documentários?

    • Filipe Furtado

      A maior parte da para encontrtar pela internet (creio que exceto por Detroit Ville Sauvage, Hostorias da Insonia, Genesis e Lady Jaye e Love History).

      • Filipe Furtado

        Claro os brasileiros mais recenters não tem ainda, mas estes você provavelmente terá chance de ver.

  5. Muito bom seu parágrafo sobre “Pacific”, ainda pretendo escrever sobre o filme de fato, como acho que não consegui plenamente (ao menos não como gostaria, e como acho que faria mais sentido hoje) na cobertura de Tiradentes. De resto, engraçado ver o Aaron Katz ali. Não vi o “Cold Weather”, mas acho os dois anteriores dele a expressão mais acabada e, não surpreedentemente, enfadonha do tal mumblecore. De resto, muita coisa pra eu ver dessa lista aí, valeu pelas dicas, como sempre.

  6. daniel

    O do Wiseman também tá difícil…

  7. Caraca, Filipe… Finalmente achei uma pessoa cinéfila de verdade 😀
    Muito legal seu blog, gosto de filmes e cinema mas não chego a ser cinéfila.
    Tipo, todos os filmes que vc listou nesse post, não conheço nada, hahaha! Da onde vc fica sabendo da existência deles? Rs.. Parabéns e Feliz Ano Novo!

    Beijos!

  8. O cinema não é mesmo uma fábrica de sonhos? Muito legal este seu blog. Não conheço todos os filmes que relacionou, mas já tenho alguns anotados para assistir. Obrigada pelas dicas… Também sou uma cinéfila, não vivo sem o escurinho do cinema, mas nem sempre consigo todos os filmes que anseio por assistir. Juiz de Fora, onde moro, não é uma metrópole cheia de oportunidades, mas tem algumas; então é agarrar o que chega, recorrer à Internet uma vez ou outra e ir em frente, encontrando esses espaços legais como o seu. Parabéns!

  9. vlademir

    Não sei se é o caso, mas talvez o Pacific se converta numa experiência diferente visto no cinema (como dizem sobre Um Dia na Vida do Coutinho), vi no Canal Brasil e não me passou muita coisa não (admito que só enxerguei nele o dispositivo). Aquele outro nacional que foi bastante elogiado recentemente, o Santos Dumont Pré-Cineasta (o qual me interessou bastante e depois nunca mais ouvi menção alguma), não entraria em sua lista ou é do ano passado?
    Vou pegar os Wiseman mais antigos e depois chegar nos recentes dele.

  10. Filipe Furtado

    Eu vi o Santos Dumont no Festival do Rio de 2010. Muito bom filme..

  11. gabriel

    hola! la película de iván fund, el nombre en español es “hoy no tuve miedo”. Seria muy importante que corrijan el nombre para que aparezca en los buscadores de internet, estamos muy contentos de que hayan tenido esta película entre sus preferidas.

    desde Argentina les mando un gran abrazo

    gabriel

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