Broken Lullaby (Ernst Lubitsch, 1932)

Broken Lullaby é a principio um filme muito improvável na carreira de Ernst Lubitsch, bem distante da comedia sofisticada safada de um Trouble in Paradise ou Design for Living. Trata-se de um melodrama de pós-Guerra: jovem francês segue perseguido pela memoria do soldado alemão que matou vai a procura da família deste e aos poucos toma seu lugar. Há um peso enorme sobre as costas do filme, falamos frequentemente de comedia de recasamento, mais eis aqui mais incomum um drama de recasamento, onde o relacionamento que precisa ser recuperado é de todo um continente. Outro dia mencionei como o cinema de Capra era ligado intimamente aos anos 30 e o mesmo pode ser dito de Broken Lullaby que segue inseparável de um contexto do entre guerras, de uma ideia de continente dilacerado, assombrado pela ideia de que convidou a barbárie para sua própria sala. É um filme anti-guerra com algumas peculiaridades, já que ao mesmo tempo muito especifico no seu retrato e muito expansivo na forma que confronta de frente a ideia do assassinato institucionalizado. O humor em Lubitsch é frequentemente baseado num desejo de conservar as boas maneiras, fazer valer o pacto civilizatório por mais selvagens que sejam as situações, Broken Lullaby é o exato contraponto disso, um filme sobre vida após tal pacto ser quebrado. Não deixa de ser uma articulação do subtexto que assombra muitos dos seus filmes e raramente é sugerido no primeiro plano (as maiores exceções são provavelmente não por acidente as suas duas obras-primas do período da segunda guerra To Be or Not To Be e Heaven Can Wait). Como qualquer articulação do tipo, há momentos em que se flerta com a mão pesada (e não ajuda o protagonista ser Philips Holmes, um dos astros mais fracos do começo dos anos 30), mas o filme se sustenta em parte pela precisão da sua concepção: um filme sobre culpa no qual a única saída disponível é um suicídio simbólico. Lubitsch não encara tal ideia com qualquer subterfúgio, os últimos minutos do filme são quase insuportáveis. Quando a noiva do falecido leva Holmes a um quarto para ler a sua última carta para ela, o espaço é apresentado de forma tão opressiva que é como se Holmes se apresentasse diante de um pelotão de fuzilamento. As imagens finais são assombradas pela fragilidade da reconciliação possível, um dos finais felizes mais sinistros de todo o cinema.

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O Último Chá do General Yen (Frank Capra, 1933)

general yen

Meu amigo David Phelps curou um programa dos mais interessantes chamado Auteurs Gone Wild, atualmente em cartaz em Nova York. Numa troca de mails David sugeriu que eu escrevesse sobre os filmes que ele selecionou aqui para o blog e me pareceu uma ótima ideia para reativar este espaço aqui, além de ser uma excelente desculpa para revisitar alguns favoritos e descobri algumas raridades do catalogo de cineastas favoritos. Parte da ideia de David é buscar filmes nos quais cineastas tiveram liberdade para fugir de formatos nos quais foram consagrados e se aventurar por terrenos desconhecidos. Filmes que paradoxalmente são trabalhos nos quais seus diretores frequentemente tiveram um controle maior do que em seus filmes mais canonizados e se revelam bem mais excêntricos. Como alguém sempre fascinado pela ideia de contra cânone a seleção de Davis não poderia ser mais interessante para além de O Último Chá do General Yen, a serie inclui os dois filmes que Chaplin só dirigiu, A Woman of Paris (1923) e A Condessa de Hong Kong (1967), Sob o Signo de Capricórnio (Hitchcock), Anatahan (Von Sternberg), Peter Ibbetson (Hathaway), Edward, My Son (Cukor), You and Me (Lang) e Broken Lullaby (Lubitsch).

Por uma dessas coincidências eu passei uma parte razoável dos dois primeiros meses do ano assistindo uma série de filmes pré código Heyes com Barbara Stanwyck incluindo os três primeiros filmes que ela fez com Frank Capra (Ladies of Leisure, Miracle Woman e Forbidden), e não deixa de ser interessante retomar O Último Chá do General Yen, que acabou por ser a última colaboração deles,  tendo em vista os filmes anteriores. Apenas Miracle Woman pode ser descrito como um típico Capra e Forbidden tem um pouco da perversidade de General Yen. São também progressivamente melhores (Ladies of Leisure é bem medíocre, Forbidden irregular, mas muito interessante) e se O Último Chá do General Yen permanece o meu Capra favorito, os dois filmes que realizaria na sequência (Dama por um Dia, Aconteceu Naquela Noite), seriam meus outros dois candidatos.

No geral ver Yen pouco depois de uma série de outros filmes do começo da carreira ajuda a contextualiza-lo melhor e torna-lo menos um objeto estranho na carreira do diretor. Capra é um cineasta que só pode pertencer aos anos 30, porque o populismo proto fascista dele não faz muito sentido no pós II Guerra e de certa forma a condição de outro do General Yen permite que Capra lance mão comais liberdade dos impulsos anti-democráticos que permanecem no subtexto de seus filmes posteriores. Yen é o primeiro das grandes figuras que fascinam o diretor, mas sua concepção permanece mais distante e indecifrável de que nos filmes posteriores, muito pela relação estranha que ele mantém pela ideia do outro. Pois General Yen é uma fabula sobre o desejo missionário no qual o orientalismo é menos usado pelo seu fascínio (como em Sternberg), do que para desenvolver um jogo dualidades em que o fracasso do missionarismo é inseparável da constatação de que o estrangeiro não é o general oriental, mas a missionária ocidental.

As sequencias menos interessantes de O Ultimo Chá são aquelas que reduzem o filme a um jogo ideológico entre Stanwyck e Nils Ashter (ambos extraordinários, e é uma pena que o incomodo da presença politicamente incorreta do dinamarquês Ashter como um general chinês atrapalhe o reconhecimento do trabalho dele aqui), mas elas permanecem graças a concepção geral do filme. O Último Chá do General Yen é um romance inter-racial, previsto nos esforços da mulher branca de negar o seu desejo e na capacidade da imagem cinematográfica de desnuda-lo. Tanto quanto o melhor Sternberg do período, General Yen é na sua essência um filme erótico que esta no seu melhor quando a câmera (um dos melhores trabalhos de Joseph Walker) isola Ashter e Stanwyck no quadro e torna o desejo deles palpável. Yen é um dos raros filmes nos quais a figura objetivada pela câmera é quase sempre o homem, apesar de o filme levar tal ideia em direções curiosas como no pesadelo em que o general faz as vezes tanto de Nosferatu como Valentino.  Não se pode afinal escapar da câmera de cinema.  O tom brutal da perversidade do filme vem do reconhecimento desta ideia.

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Nicolas Klotz no Rio

Paria (2001), de Nicolas Klotz

Paria (2001), de Nicolas Klotz

Acontece de amanhã, 18, até sábado, 22, uma mostra dedicada aos filmes de Nicolas Klotz na Caixa Cultural no Rio. Recomendo bastante já que acho os quatro longas mais recentes dele que compõe o centro da Mostra (que ainda exibe alguns curtas, alguns documentários, um making off divertidíssimo da filha dele sobre as filmagens do A Questão Humana, etc) dos mais ambiciosos e interessantes do cinema francês recentes. Klotz (que trabalha sempre em parceria com sua esposa Elisabeth Perceval) as vezes é um tanto punitivo demais na sua encenação, mas acho que ele vai fundo em alguns elementos da Europa contemporânea como poucos dos seus pares. Recomendo especialmente Paria (2001) que quase nunca passa e conta com uma atuação incrível de Gerald Thomassin, o jovem assassino de Doillon, e é um tanto menos negativo que seus filmes posteriores.

Aproveito para repostar um artigo sobre a chamada Trilogia dos Tempos Modernos da époxca do lançamento comercial de A Questão Humana. Acho que os dois textos meus no catálogo melhores do que este, mas foi uma primeira tentativa valida de tentar tratar do que torna Klotz um cineasta interessante.

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Coutinho na Paisà

O Fim e o Princípio (2005)

O Fim e o Princípio (2005)

Como o arquivo da Paisà segue fora da web reproduzo aqui os três artigos sobre Eduardo Coutinho que foram publicados na revista. O primeiro é a minha crítica para O Fim e o Principio na edição zer0 da revista (que calha em também ser meu único texto sobre ele para além de alguns comentários aqui no blog) . Depois o texto do Francis sobre Peões e Entreatos quando dos seus lançamento em DVD no #6. Por fim, a bela crítica do Francisco Guarnieri para o nosso site quando do lançamento de Jogo de Cena.

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James B. Harris

Some Call It Loving (1973)

Some Call It Loving (1973)

Passei a primeira semana do ano revisitando a obra de James B. Harris. São apenas cinco filmes ao longo de cerca de trinta anos e ele é mais conhecido não por eles, mas por ser sócio-produtor de Stanley Kubrick na década de 50. Os filmes de Harris têm um ritmo bem peculiar e uma tendência a combinar uma atmosfera artificial com detalhes realistas que os torna bem únicos mesmo quando suas sinopses sugerem serem mais convencionais. A única exceção é seu filme de estreia The Bedford Incident, único que Harris não escreveu, um filme de paranoia da Guerra Fria notável basicamente por contar com uma das melhores atuações de Richard Widmark. As muitas tentativas posteriores de levar Capitão Ahab para situações militaristas contemporâneas devem muito a ele (Maré Vermelha do Tony Scott, em particular) e aqueles que preferem ver a carreira de Harris como uma nota do rodapé a de Kubrick podem imagina-lo como uma espécie de resposta a Dr. Fantástico (a parceria acabou supostamente porque Harris não gostou da ideia de tratar Dr. Fantástico como uma comédia), mas o filme é um tanto limitado pela falta de elementos marcantes no entorno de Widmark, é um mundo extremamente estreito definido exclusivamente pela obsessão do protagonista.

A reputação de Harris se sustenta hoje sobretudo nas costas do seu segundo longa Some Call It Loving (1973), apesar de paradoxalmente ser também seu filme mais difícil de achar. Trata-se de uma espécie de versão erótica da Bela Adormecida com um musico de jazz (interpretado para tornar as coisas a posterior ainda mais esquisitas pelo futuro rei do softcore Zalman King) que vive numa mansão assistindo uma serie de jogos sexuais de suas duas namoradas e compra uma bela adormecida, leva-a para casa e a acorda. É um filme inclassificável – chamei-o de erótico, mas é bom dizer que aparte uma importante sequencia de striptease próximo ao final, ele é bastante casto, ao sonhador a ideia será sempre muito mais sedutora  do que o ato, mesmo que sua atmosfera constantemente sugira que algo pervertido acontece no fora de quadro. Parte do que torna Some Call It Loving ao mesmo tempo encantador e perturbador é a maneira como ele varia de tons de forma consistente e desprovida de julgamentos, variando sem grandes alterações de uma dança romântica ao som da versão de Nat King Cole para The Very Thought of You convive lado a lado com preliminares lésbicas de duas freiras.  Há uma subtrama envolvendo o melhor amigo drogado do protagonista (um excelente Richard Pryor), que não deixa de ser outro tipo de sonhador, que é tão crua que assombra todo o resto da ação.  Harris é fascinado pelo díptico inocência/perversão e ele se aproxima da sua bela de forma que quanto menos ela faça, mais sedutora se torna, ela nunca cumpresua função fetche tão bem quando enquanto dorme. King interpreta um voyeur, mas um cujo fascínio se localiza na imaginação e não no olhar. Mais do que qualquer outro filme, Some Call It Loving traz a mente Peeping Tom do Michael Powell, outra fabula perversa sobre o apelo sedutor do cinema.

Some Call It Loving teve a carreira típica dos filmes malditos – algum sucesso cult na Europa, carreira invisível fora de lá – e Harris passou quase uma década sem filmar. Seus três últimos longas Fast-Walking (1982), Cop (1988) e Boiling Point (1993), são todos filmes policiais médios cujas tramas banais escondem filmes muito idiossincráticos de pouco urgência narrativa, mas com um grande prazer em deixar se perder na textura dos seu mundos. Este paradoxo é levado ao limite em Boiling Point que é quase o oposto de The Bedford Incident: um filme sem centro, mas cheio de elementos interessantes na periferia. Uma galeria de atores veteranos (Dennis Hopper, Seymour Cassel, Paul Gleason, Jonathan Banks) interpretando criminosos desesperados a beira da exaustão que exceto pelo ex-presidiario de Hopper com a certeza de que vão todos perder no fim. Boiling Point deve ser um dos nomes mais inadequados já dados a um filme, Harris estrutura-o menos como uma série de movimentos progressivos, mas como uma série de rimas visuais sobre a velha ideia da proximidade entre policiais e criminosos, os ocasionais momentos de violência são rápidos e abruptos e tom geral é um misto de nostalgia e resignação. Um policial fatalista da década de 50 travestido de filme de ação do começo dos anos 90.

Os dois filmes de Harris dá década de 80, Fast-Walking e Cop, são ambos veículos para James Woods que merecem ser bem mais conhecidos. Fast-Walking é um filme de prisão, com uma trama conspiratória muito elaborada com diferentes grupos tentando usar um guarda para tirar ou assassinar um dos presos, mas é mesmo um estudo de personagem preocupado em como Woods reage à ação. Seu tom está muito próximo de uma comedia excêntrica de personagens do que de um típico filme de prisão reforçado pelo coro de characters actors incentivados a aumentar o tom por Harris (incluindo uma das últimas atuações do Timothy Carey).  Acompanhamos um sistema fechado, entendemos como ele funciona e depois observamos as diversas maneiras em que sai dos eixos. É um dos tratamentos mais diretos de Harris da sua obsessão com a ideia de inocência.

Cop é ainda melhor. Espécie de Dirty Harry sem filtro com Woods como um policial demente caçando um serial killer. Harris e Woods sabem que fazem um filme sobre uma figura de autoridade violenta e potencialmente desequilibrada, mas no lugar de buscarem a distancia habitual de filmes do tipo se aproximação mais do ponto de vista. O filme é baseado num dos primeiros livros do James Ellroy, Sangue na Lua, que é tão violento que ameaça abandonar o gênero policial pelo horror (John Carpenter esteve conectado a produção antes de Harris) e o diretor parece encarar a adaptação menos como uma questão de manter a linha narrativa e mais incluir o maior numero possível de detalhes grotescos do original (é, de certo, o filme que mais se aproximou do espirito do texto de Ellroy e deve-se dizer que o único crédito de Harris desde Boiling Point foi como produtor executivo de Dália Negra). Uma boa parte do filme consiste em Woods sozinho no quadro, pensando, trabalhando. Cop é grosso, econômico, direto ao ponto culminando num final memorável na sua falta de sutileza, incluindo um dos créditos silenciosos mais incômodos que conheço. Harris dirigiu pouco, mas permanece dono de uma das melhores carreiras subterrâneas do cinema americano, bem mais do que somente  o ex-produtor de Kubrick.

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Meus 50 filmes favoritos de 2013

Como sempre o critério da lista é de filmes vistos pela primeira vez este ano que foram lançados originalmente no máximo em 2011.

Menções honrosas: Antes da Meia Noite (Richard Linklater), Bullet to the Head (Walter Hill), Cortinas Fechadas (Jafar Panahi), Deixe a Luz Acesa (Ira Sachs), Depois da Terra (M. Night Shyamalan), Double Play (Gabe Klinger), Easy Rider (James Benning), A Era Atômica (Helena Klotz), A Gente (Aly Muritiba), Gerhard Richter – Painting (Corinna Belz), Lincoln (Steven Spielberg), Mataram Meu Irmão (Cristiano Burlan), Meia Sombra (Nicolas Wackenbarth), Mouton (Gilles Deroo, Marianne Pistone), Mud (Jeff Nichols), Noite em Claro (Kun-jae Jang), O Mestre (Paul Thomas Anderson), Perret na França e Algeria (Heinz Emigholz), Real (Kiyoshi Kurosawa), Riocorrente (Paulo Sacramento), Rua Aperana 52 (Julio Bressane), Sacro GRA (Gianfranco Rosi), Shield of Straw (Takeshi Miike), Tudo Sobre Você (Alina Marazzi), White House Down (Roland Emmerich).

Uma última nota: caso o corte chinês de O Grande Mestre fosse à única versão existente do filme, ele provavelmente estaria na lista, mas o corte internacional tem tantos problemas e me passa a impressão que Wong subestima de tal modo à capacidade dos seus fãs ocidentais de lidar com um painel histórico chinês que eu me sinto por demais ambivalente para com o projeto como um todo para recomenda-lo aqui.

49) Avanti Popolo (Michael Warhman) e A Cidade é uma Só? (Adirley Queiroz)
13501349Dois belos filmes que lidam cada um a sua maneira com a questão de como encontrar uma representação viável para a herança do governo militar hoje. São dois filmes bastante inventivos que quebram com a passividade com o qual o cinema brasileiro costuma abordar o assunto e procuram novas formas de agir sobre ele. Avanti Popolo tem uma permanência de memória muito particular (apesar de eu ter uma dúvida se o efeito dela ser reforçado por eu conhecer ambos os atores centrais).A sequência próxima ao fim de A Cidade é uma Só? na qual o protagonista cruza a pé com a carreata da Dilma segue a mais memorável sequencia política do cinema brasileiro recente.

48) Unbeatable (Dante Lam)
1348Provavelmente o filme mais convencional da lista, qualquer descrição do filme de MMA de Dante Lam não fara com que ele soe diferente de dezenas de outros filmes de luta, mas é um exemplar dos mais bem-acabados do domínio de Lam do seu desejo de reduzir o filme de ação a melodrama masculino com uma nudez emocional que este tipo de material raramente alcança e Nick Cheung tem uma das melhores atuações do ano.

47) Lesson of the Evil (Takeshi Miike)
1347Um dos filmes mais controlados de Miike e como frequentemente acontece no seu cinema, quando ele corta os excessos é para reforçar a sua crueldade. Um dos grandes filmes de horror recentes e se torna ainda melhor na segunda metade quando vira um slasher sobre um professor psicopata fuzilando uma série interminável de alunos. Um amigo descreveu como Elefante repensado pelo Eli Roth, mas isto exclui tanto o cuidado com o qual Miike filma o massacre como a forma com ele pensa cada elemento de cena (a propensão do gênero em retirar prazer na morte de adolescentes irritantes raramente postas para tom bom uso, por exemplo).

46) Django Livre (Quentin Tarantino)
1346Não tenho muito a acrescentar ao texto que escrevi na Cinética no começo do ano. Segue um filme dos mais complicados, e fascinante muito por conto disso. É mais desequilibrado do que a maioria dos filmes do Tarantino, mas nos seus acertos e erros termina mais distante do academicismo pop que por vezes ele flerta com.
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Alguns pontos altos do meu ano cinéfilo

Alguns favoritos vistos este ano:

apa01A Modern Musketeer (Allan Dwan, 1917)

apa02Manhandled (Allan Dwan, 1925)

apa03Lucky Star (Frank Borzage, 1929)

apa04Hell’s Heroes (William Wyler, 1930)

apa05Blessed Event (Roy Del Ruth, 1932) Continuar lendo

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Algumas leituras de 2013

The Canyons, de Paul Schrader

The Canyons, de Paul Schrader

Uma pequena seleção de leituras favoritas de 2013. Nem de longe das mais inclusivas já que tentei me limita a línguas que tenho mais fluência (português, inglês e espanhol) e dei preferencia a artigos que poderiam ser linkados, além de evitar entrevistas.

Antes queria aproveitar para indicar dois PDFs nos quais eu tive pequeno envolvimento. Allan Dwan: a dossier (que já indiquei aqui antes) é uma coletânea preciosa sobre o cineasta com muitos ótimos colaboradores e eu destacaria em especial o ótimo artigo visual da Gina Telaroli sobre Cattle Queen of Montana que me fez parar tudo que fazia pra rever o filme. O outro é o catalogo da Mostra Samuel Fuller no CCBB não pelo que tem de novo, e sim por incluir traduções preciosas do próprio Fuller (além do que acredito ser a primeira tradução brasileira de Manny Farber).

David Bordwell, Mixing Business with Pleasure
Johnnie To serve perfeitamente a analise de sequencia que Bordwell faz tão bem como atesta este artigo sobre Drug War para o blog dele.

Nicole Brenez, Political Cinema Today – The New Exigencies: For a Republic of Images
Traduzi uma parte no meu texto sobre Rumo a Madri como sempre em Brenez muito o quese pensar sobre representação e política.

Phil Codirion, Pretending That Life Has no Meaning
Entre os muitos textos sobre The Canyons, um filme que convida a se escrever sobre ele, o que me parece mais justo e equilibrado.

Toni D’Angela, The Immigrant
Faz a minha crítica parecer totalmente insuficiente.

Marie-Pierre Duhamel, Consistency in a Filmmaker’s World e Tony Rayns, Heard It Through the Grapevine
Dois textos que ajudam a enriquecer muito Um Toque de Pecado que é um destes filmes cujas decisões são iluminadas bastante pelo contexto.

David Ehrlich, Kung Foolish: The American Cut of The Grandmaster Ruins a Masterpiece
Apesar de ignorar o corte internacional (o mesmo que sera lançado aqui e especie de meio termo entre os dois cortes comparados por ele), é uma analise próxima que ajuda a dar uma ideia do que se perdeu na tradução do filme de Wong para as platweias não chinesas.

Francisco Ferreira, A Truck Full of Turkeys
Um texto tão generoso quanto o filme, E Agora? Lembra-me, que lhe inspira.

Victor Guimarães, Anatomia de um Milagre
Evitei listar textos da Cinética por me sentir muito próximos deles, então esta bela crítica do Victor Guimarães ao The Deep Blue Sea fica aqui como representante da nova fase da revista.

Kent Jones, Intolerance e Zach Campbell, A Matter of Conquest
Vários amigos elogiaram a excelente resposta de Kent Jones a s críticas de Tarantino sobre Ford, mas a discussão se torna ainda mais rica quando se acrescenta a ela a critica de Zach Campbell a resposta do Jones.

Roger Alan Koza, Ontologia de la Sospecha
Texto breve mais muito bem observado sobre o documentário contemporâneo.

Miguel Marias, Repelling Rejection, or: The Disappearance of Jerry Lewis, and Some Side-Effects
Tecnicamente de dezembro do ano passado, mas li este ano e logo me pertence a ele. Sobre o ocaso do Jerry Lewis e, sobretudo, Which Way to the Front? (1970).

Sabrina D. Marques, Richard C. Sarafian: como é que os filmes acabam?
Na ocasião da morte de Richard C. Sarafian, Sabrina D. Marques recupera Man in the Wilderness, um filme menos famoso dele.

Adrian Martin, Pasado, presente y futuro de la “teen movie”
Um olhar amplo sobre a relação de Adrian Martin com o filme adolescente que serviu de introdução a um ótimo dossiê da Transit sobre o gênero.

Ricardo Adalia Martin, La Cuestion Humana. Cinco apuntés sobre Pásion
Passion é um filme que despertou muito bons texto (este por exemplo faz parte de um ótimo dossiê na última La Furia Umana, este do Ricardo Adalia Martin tem uma construção de alusões e citações depalmiana e acrescenta questões preciosas a respeito dele.

Boris Nelepo, sem título
Reflexão do Boris Nelepo sobre o ano cinematográfico de 2012 para a Lumiére, assombrado pela permanência/desaparecimento. Acho que o reli mais do que qualquer outro texto deste ano.

David Phelps, The Second Hand Illusion
Extensivo texto de Phelps sobre a obra de George Cukor.

Dan Sallit, Rio Bravo
Na ocasião da retrospectiva americana do Howard Hawks, Dan Sallitt produziu alguns textos muito perceptivos no seu blog, o melhor este sobre Rio Bravo.

Steve Shaviro, Accelerationist Aesthetics: Necessary Inefficiency in Times of Real Subsumption
As conexões que Shaviro produz sempre acrescentam novas ideias para pensarmos o papel da produção de imagens hoje. Teve algumas sequencias no seu blog.

Ignatiy Vishnevestsky, What is the 21st Century?: Revising the Dictionary
A série What is the 21st Century? que Ignatiy Vishnevestsky vem produzindo nos últimos dois anos no MUBI Notebook é dos mais fascinantes trabalhos críticos recentes e este é meu favorito até aqui.

Não poderia deixar de fazer uma menção A Mise en Scene no Cinema: do clássico ao cinema de fluxo, do Luiz Carlos Oliveira Jr. Um trabalho de historiografia precioso que se debruça sobre o termo muito usado e pouco conceituado, além de proporcionar uma das melhores discussões sobre a evolução da ideia de encenação em cinema da década de 60 até hoje.

Por fim, uma menção mais que especial para usuário do Karagarga chamado jjbudbaxter que deu upload em 15 livros do Raymond Durgnat este ano, vários dos quais estavam a muito fora de circulação, um dos trabalhos de recuperação de memória crítica dos mais valiosos dos últimos anos.

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Auto Focus

auto-focus

Aproveitando que The Canyons apareceu em algumas listas de melhores do ano e caiu nas graças de alguns amigos que respeito muito, reproduzo um texto meu de 2003 de outro filme de Schrader que me parecer ter vários pontos de contato com ele e que me interessa bem mais.

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Azul é a Cor Mais Quente (Abdellatif Kechiche, 2013)

la-vie-de-adele

Chegar por último em filmes que recebem discussões acaloradas como Azul é a Cor Mais Quente tem por vezes o efeito de te deixar completamente fora dela. Inevitável depois de que o filme acaba ficar com a impressão de que nada ali justifica as reações passionais. Me pareceu um filme de passagem de adolescência bem competente, mas bastante limitado. Centrado numa atuação principal muito forte e alguns momentos muito bem observados, mas diluído por um excesso de esquematismo (sobretudo na segunda metade) e na crença excessiva do Kechiche de que o estilo closes tremidos que sempre lhe agradou emprestasse uma espécie de força que não esta ali (apesar de aquela concentração de closes ter um interesse perverso). O filme é bem mais forte quando visto como uma experiência subjetiva do que naturalista algo que fãs e detratores parecem igualmente distantes. É território no qual a Catherine Breillat já minou com muito mais competência várias vezes, mas não consigo ver ali nenhum grande crime para além de ganhar a pior competição da história de Cannes (quão abismal foi à seleção de Cannes este ano? meu terceiro filme favorito dela foi também meu terceiro filme favorito do Takashi Miike este ano).

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Maurice Pialat

Aos Nossos Amores

Aos Nossos Amores

Aproveitando o começo da retrospectiva imperdível do Maurice Pialat no CCBB de São Paulo, reproduzo o meu texto sobre Aos Nossos Amores para o Cineclube da Contracampo.

A Matéria Prima

Maurice Pialat é geralmente descrito como um cineasta realista – o que não é uma descrição de toda errada, mas que diz muito pouco. Talvez seja melhor apontar que, ao lado de Jean-Marie Straub, Pialat é o mais materialista dos cineastas. O que se vê em seus filmes é o que se obtém. Quando vemos a jovem Sandrine Bonnaire flertando com um marinheiro americano, as imagens do filme revelam apenas o que têm de mais planas: o prazer que esta adolescente tem com o flerte e a segurança com que se relaciona com a própria sexualidade. Pialat está bem longe de ser algum tipo de cineasta descritivo, mas seu trabalho com freqüência é antes de mais nada derrubar a parede que distancia o espectador da ação, colocá-lo no meio do combate. O que temos na maior parte do tempo é uma imagem bruta e tão neutra quanto o cineasta consegue deixa-lá. Muito da dificuldade de um filme como Aos Nossos Amores vem dele deixar boa parte do trabalho para o espectador – que é quem é chamado para se decidir neste panorama de guerra familiar. É preciso saber lidar com as imagens no que elas têm de mais plano e bruto para realmente se apreciar Pialat.

As primeiras imagens de Aos Nossos Amores nos apresentam Sandrine Bonnaire – este foi seu primeiro filme – num ensaio de uma peça amadora. Ela é aqui um tanto desajeitada a ouvir as instruções do irmão (você tem 16 anos, é incapaz de amar), que de certa forma adiantam os eventos posteriores. Pialat põe as cartas na mesa e entrega para o espectador a matéria prima do filme: Bonnaire. Aos Nossos Amores é um dos casos mais impressionantes de parceria diretor/atriz: todo o filme é construído a partir dos ritmos da atriz, existe a partir dela. Mesmo na famosa cena do jantar, onde sua participação parece discreta, Bonnaire permanece central. Não é uma questão de um quadro composto para valorizar a atriz, pelo contrario, ela nem sempre tem espaço privilegiado na imagem. Trata-se de focar o filme na relação entre a atriz e a câmera, da atriz com os outros atores. Pialat sempre gostou de construir situações em que atores deixassem cair a máscara da interpretação – não surpreende portanto sua atração por atores infantis ou adolescentes, mas no seu trabalho com Bonnaire levou o processo ainda mais longe. Um dos prazeres de Aos Nossos Amores é justamente observar uma atriz descobrindo sua arte. Há um senso de novidade a cada gesto, a cada interação, mesmo nas mais desagradáveis cenas de violência, em que não temos muitas dúvidas de que os atores estão mesmo a trocar tapas.

A pintura

Maurice Pialat começou a carreira como pintor, e é uma pena que seja tão raro encontrar reproduções desta sua obra inicial, já que ela diz muito sobre sua estética particular. Pode-se dizer que Pialat tem, junto com Robert Bresson, o melhor olhar de pintor de todo o cinema. Seus filmes à primeira vista não têm nada em comum, e é bem provável que eles (Bresson, ao menos) não gostassem muito de ser colocados juntos, mas as semelhanças são consideráveis. Quando se pensa na relação cinema/pintura, geralmente vem à mente filmes cujas imagens estáticas fiquem bonitas numa reprodução em livro ou revista (praticamente qualquer filme fotografado por Vittorio Storaro) – não é dessa idéia de aproximação cinema/pintura que falamos aqui. Considerem esta passagem de uma entrevista de Bresson dada à época do lançamento de O Dinheiro: “Já fui chamado de janseísta, o que é loucura. Sou o oposto. Estou interessado em impressões. Darei um exemplo de O Dinheiro. Quando estou nos Grands Boulevards, a primeira coisa que penso é: como eles me impressionam? E a resposta é que eles me impressionam como uma massa de pernas e sons de pisadas sobre o pavimento. Eu tentei comunicar esta imagem através de imagem e som… É preciso haver um choque no momento de faze-lo, é preciso haver a sensação de que os humanos e as coisas a ser filmadas são novos, você precisa jogar surpresas no filme. É isto que acontece na cena no Grands Boulevards. Eu podia sentir os passos, me foquei nas pernas do protagonista, e na maneira que eu podia propeli-lo pela multidão até onde ele precisava chegar. Estes são os Grands Boulevards até onde me interessam, todo o movimento.”

Esta descrição (que poderia tranqüilamente ter vindo de Pialat, apesar de que a solução por ele encontrada certamente seria outra) se parece muito mais com a que se espera de um pintor do que a de um cineasta, mas ela pode ser uma boa porta de entrada para obra de ambos os cineastas em questão. Ela também aponta uma clara distância tanto de uma imagem bela (e elas são bem raras em Pialat) quando do realismo fotográfico com o qual ele é freqüentemente associado. Sua associação com o último será de uma profunda radicalização do processo. A pergunta-chave que guia Aos Nossos Amores é: como representar a experiência desta adolescente? È isto que Pialat fará seguindo-a pelas noitadas com as amigas, pelo mal-estar dentro de casa ou no desconforto com que testa um vestido de noiva. O filme procurará sempre a imagem mais adequada para isso. Podemos sentir na pele as pinceladas de Pialat, a forma como se trabalha por acumulação dentro do plano. É um filme de radicais alterações de tom, indo dos momentos mais alegres aos mais desconfortáveis. Muito se fala da vida promíscua de Suzanne, mas pouco a vemos. Geralmente apenas uma preliminar ou alguma troca de dialogo pós-sexo, na verdade sexo aqui – como em alguns outros filmes que cineasta fez à época como Loulou e Policia – é mais um desejo, uma urgência do que um prazer – e o filme deixa-o quase todo nas suas elipses, se concentrando mais nas suas conseqüências. Aos Nossos Amores vai mesmo a estratosfera nas cenas entre pais e filhos (o próprio Pialat interpreta o pai e Evelyne Ker faz a mãe). Aqui a forma como o cineasta consegue captar o clima do set é usada ao máximo em favor do filme. É notório que Aos Nossos Amores teve o que talvez seja o set mais caótico da carreira de Pialat, com grandes desentendimentos – possivelmente incentivados – entre o elenco, em especial entre Evelyne Ker e Sandrine Bonnaire. As cenas entre Bonnaire, Ker e Dominique Besnehard (o irmão que assume a condição de figura paterna pela maior parte do filme) são de um peso e concentração raro em todo o cinema. O clima de que o apartamento-ateliê (um grande achado cênico, por sinal) está prestes a explodir e que animosidade toma conta do ar é latente. A guerra familiar tem um peso bem próprio, poucas vezes no cinema a não-comunicação entre pais e filhos foi exibida de forma tão extrema, mas ao mesmo tempo o tom de experiência vivida construído pelo filme garante a ele uma forte credibilidade.

A tristeza sempre durará

Todo o filme deságua no momento do retorno do pai (desaparecido por cerca de uma hora), interrompendo o jantar familiar. Trata-se de uma cena de cerca de quinze minutos, onde o restante da família (Suzanne, o marido, mãe, o irmão com noiva e futuro cunhado, além de um amigo) confraterniza. As variações radicais na parte inicial da cena que sugerem uma progressiva agressão entre irmãos prepara a chegada do pai, assim como instaura a cena como o momento que confirma Aos Nossos Amores como o grande estudo sobre ressentimento na obra de Pialat. No filme, as feridas parecem se multiplicar, cada troca entre personagem por trás do seu discurso parece querer de alguma forma a atingir o outro. Um pequeno exemplo se encontra na descrição que Suzanne faz a uma amiga da conversa que teve com o marinheiro americano logo depois de fazerem sexo. Ele:“Obrigado”, ela :“não tem de que, foi de graça”. A única explicação para tal troca de diálogos nesse momento é o desejo mútuo de ferir um ao outro e a si próprio, desejo esse que se espalha por todo o filme. Pascal Bonitzer, na sua crítica a Aos Nossos Amores, traça um paralelo bastante útil entre o ressentimento em Pialat e Nietzsche, na maneira como em ambos ele reside sem a necessidade de se buscar uma razão inicial.

O clima chega ao ápice justamente instantes antes da chegada do pai. A partir dali tudo se torna nebuloso, muito pela decisão de Pialat de escalar a si próprio na figura do pai. Excelente ator, Pialat antes disso jamais havia colocado a si mesmo em cena. Sua presença na imagem cria uma camada extra de crueldade a seqüência, como se o cineasta tivesse adentrado ao quadro para poder melhor maltratar seus atores, tornando dessa forma o discurso do pai mais ambíguo nas suas implicações. O pai entra como um trator, retomando o espaço que abdicara ao abandonar a família, brigando com a esposa e depois se concentrando em agredir verbalmente o filho – apesar de todas as cenas de ataque físico do filme, esta cena de assalto verbal é de certo a mais violenta – até entrar na sua explicação para as últimas palavras de Van Gogh (a tristeza sempre durará): “vocês são os tristes, tudo o que vocês fazem é triste“. È nesse momento que Pialat finalmente questiona Bonnaire, que até então parecia marginalizada em cena. É importante observar aqui como a seqüência toda é filmada. O pai esta sentado de um lado da mesa enquanto o resto da família se encontra do outro (com exceção da mãe, que está próxima ao pai mas é excluída pelo quadro fechado). A cena quase toda é filmada em plano e contraplano, com o contraplano dando ênfase em quem o pai esta atacando -com exceção dos planos do irmão, onde a disposição no quadro de Bonnaire a ressalta -, mas isto somente até a filha ser invocada e Pialat pela primeira vez optar por fazer a câmera percorrer a mesa. A seguir a situação é levada ao limite, com a família toda sendo puxada para o mesmo plano, com destaque em particular para dois contraplanos, um do marido de Bonnaire e outro dos demais convidados (nenhum dos quais volta a dividir o quadro com os membros da família). São justamente estes dois planos, somados à posição estranha que Sandrine Bonnaire – a protagonista do filme que aparenta sumir no seu clímax –, que nos dão as chaves para compreender o circulo vicioso de dor e ressentimento imposto até ali. Há em Maurice Pialat algo que podemos definir como a ética do contraplano, a ética da testemunha, daquele que observa (que obviamente inclui o espectador). Daí Sandrine Bonnaire – que é ao mesmo tempo presença física marcante em diversos planos da seqüência, mas a primeira vista desimportante para a ação – ser na verdade sua figura central. É a ela que o pai fala, que seu olhar busca, que sua câmera – lembrando que o pai também é o cineasta – vai privilegiar e por fim buscar. A testemunha será aquela que precisará lidar com os efeitos da situação, nunca um júri do que vê, mas uma figura que precisa aprender a se tornar ativa no final do processo. Uma porta de saída. A última imagem do filme é justamente essa, uma porta de saída, ainda que incerta.

 

 

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Manoel de Oliveira

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Como Manoel de Oliveira completa hoje 105 anos um pequeno post com os links de todos os seus filmes completos que estão no You Tube:

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Travelling Light (Gina Telaroli, 2011)

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É um filme simples que já se explica muito bem pelo seu título. Há dois elementos de cena que se destacam: movimento e luz. Planos raramente soam estáticos, mesmo quando a câmera se encontra em repouso a ideia de dinamismo da viagem segue sempre em primeiro plano, o trem, os passageiros, a luz, os planos de Travelling Light seguem sempre agitados.  Na outra ponta esta luz verdadeira protagonista cujas alterações ao longo da viagem de trem de Nova York a Pittsburgh acompanhamos. Observando-a no filme há algo de fúnebre que aos poucos tom conta dele, um lembrete de que o cinema esta sempre registrando uma ação que desapareceu que o que vemos é gravação é a impressão digital de uma luz que ficou lá atrás. É bem interessante considerar que Travelling Light nasceu das ruinas de um outro filme, ainda mais que este outro filme fosse uma tentativa de ficção, até como um lembrete de que o espaço que separa como respondemos ao experimental e a ficção é bem menor do que a convenção sugere (algo reforçado pela consciência que o filme revela de toda a longa história de trens no cinema). Este é o segundo filme longo de Gina Telaroli, mas o que ele me trouxe a mente foram dois filmes crepusculares de mestres em fim de carreira Age Is… do Stephen Dowskin e Educação Sentimental do Julio Bressane, o que os três tem em comum é o mesmo testemunho das fragilidades do cinema num momento vital do seu desenvolvimento.

Travelling Light segue em cartaz até domingo no site da Lumiere e recomendo muito que se separe uma hora para ele.

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Festival do Rio

A Filha de Ninguém, de Hong Sang-soo

A Filha de Ninguém, de Hong Sang-soo

De Menor (Caru Alves de Souza)
A Filha de Ninguém/Our Sunhi (Hong Sang-soo)
A Gente (Aly Muritiba)
A Imigrante (James Gray)
Jogo das Decapitações (Sergio Bianchi)
Ouro (Thomas Arslan)
Tatuagem (Hilton Lacerda)
Tip Top (Serge Bozon)

Abuso de Vulnerável (Catherine Breillat)

A sequencia inicial e final estão entre as melhores coisas que Breillat filmou e o filme como um todo é um exercício de auto-ficção sempre intrigante, mas a maior parte do miolo do filme me parece um tanto teórico demais para uma cineasta cujos méritos tendem a ser sempre muito físicos.

Bastardos (Claire Denis)

Um filme resolvido através da textura. Uma imagem adoecida é uma imagem justa. Trouble Every Day reimaginado para uma Europa que já não poupa sequer a encenação de Denis.

Educação Sentimental (Julio Bressane)

Julio Bressane acredita que certas ideias só podem ser sentidas como cinema. Poderia se chamar A Última Película, o que torna mais tocante que fosse a única do festival (ou ao menos parecesse ser).

Estranho no Lago (Alain Guiraudie)

Dos prazeres e riscos do desejo. A dramaturgia aponta justamente os perigos, enquanto a encenação tem o prazer sensual de Renoir de Um Dia no Campo (a sequencia final tem o mérito notável de casa-las). O uso constante de repetição e a forma como Guiraudie aproxima seus corpos nus do espaço campestre é dos mais convidativos do cinema recente. Um filme a se perder nele, mas que te mantém sempre ressabiado e consciente da sua construção.

A Gatinha Esquisita (Ramon Zurcher)

Outro filme dos mais convidativos que reimagina uma cozinha de um apartamento classe média como um palco por onde pessoas, animais e objetos desfilam para serem reconfigurados enquanto passeiam dentro e fora de quadro por uma câmera democratica que pouco os diferencia. Há uma qualidade musical na construção de Zurcher que reforçam este efeito. Os ecos de Jeanne Dielman na dramaturgia não funcionam muito bem, mas sua construção sugere uma versão atualizada e maleável da Akerman dos anos 70.

Meia Sombra (Nicolas Wackerbarth)

Brutal e sutilmente engraçada satira ao filme de ferias burguês, se aproveitando muito bem da atuação física Anne Ratte-Polle e um uso cuidadoso de espaço para arejar material bastante familiar. Como o Olaf Moller bem observou é tanto um filme sobre uma mulher lutando contra ser objetivação por um homem que nunca vemos como a luta de uma atriz para não ser reduzida pela câmera a um objeto de cena.

Only Lovers Left Alive (Jim Jamursch)

Depois de um dos seus filmes mais interessantes e arejados (The Limits of Control) foi recebido de forma tão fria pouco surpreende que Jamursch jogue tão seguro aqui. Um compêndio de afetações manjadas do seu cinema que no geral jogam com o que ele tem de menos interessante. O mundo do filme é tão morto que é como se Jamursch decidisse que não valesse a pena se esforçar em anima-lo. Não é o pior filme que vi no Rio (páreo duro entre A Grande Beleza e Um Castelo na Itália), mas sem dúvidas o mais decepcionante.

Quando a Noite Cai em Bucareste (Corneliu Poromboiu)

Sugere uma versão sedada de um filme do Hong Sang-soo. Poromboiu tem várias ideias intrigantes sobre filme e algumas soluções estruturais para acompanha-las. Vai para pasta filmes que eu adoraria de ter gostado mais junto com A Imagem que Falta do Pahn, apesar deste me manter mais constantemente interessado.

Real (Kiyoshi Kurosawa)

Dado que Kiyoshi Kurosawa passou cinco anos sem filmar para cinema, é uma pena que Real não seja um filme mais forte.  A primeira metade tem um sentimento de fragilidade de mundo muito forte, mas após a reviravolta inevitável Real se torna bem menos envolvente ilustrando com competência, mas sem frescor uma série de ideias fáceis.  O longo final funciona graças a sua pura convicção não importa o quão literal ele se torne.

Sacro GRA (Gianfranco Rosi)

Traz a mente os filmes do Eduardo Coutinho na medida que os personagens do qual o filme se aproximo são ligados menos por uma conexão temática do que por um recorte geográfico pré-determinado (reclamar que o filme não tem foco faz tanto sentido quanto dizer que Edifício Master não diz nada sobre o prédio). O mérito do filme não se encontra em alguma grande tapeçaria social, mas na forma com que acha um olhar exato para cada um dos seus protagonistas. Este era também o mérito do El Scicario Quarto 164, mas ali Rosi tinha um só personagem, ao fragmentar a abordagem ele dilui um pouco o efeito.

O Último dos Injustos (Claude Lanzmann)

A entrevista com Benjamin Murmelstein, último administrador do gueto judeu modelo que os nazistas mantiveram até o fim da II Guerra, que está no centro deste filme novo de Lanzmann é de 1975, portanto está mais distante de nós do que dos eventos que ela relembra. Lanzmann tem consciência disso, tem consciência de como todo seu longo projeto de entrevistas pertence ele próprio a um outro tempo, de que é necessário agora construí duas pontes de ressonância histórica entre o período nazista e 75 e entre 75 e hoje.  O Último dos Injustos lança um olhar sobre todo um amplo processo de passagem da história (o próprio Lanzmann é não por acidente alavancado a co-protagonista). Certamente um dos melhores filmes do festival.

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Fim de cinema

 

caes3

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