Arquivo da categoria: Filmes

Drug War (Johnnie To,2012)

Uma espécie de filme de golpe no qual Johnnie To e sua equipa da Milkyway viajam a China para tentar realizar um filme policial nos seus termos diante dos olhar austero da censura chinesa e sobrevivem com poucas feridas. A imagem do gangster da China continental solta nas ruas de Hong Kong rebatida muitas vezes desde o The Long Arm of the Law (1984) é revertida com várias figuras carimbadas de To adicionando cor num filme de investigação e procedimento ademais muito sóbrio. É o filme mais hawksiano de To da maneira como personagem é visto através de ação (nenhum dos policiais chineses é permitido qualquer história, existem somente para o trabalho e destinados a desaparecer tão logo sua função no filme seja cumprida) e como de forma bem consciente o filme retoma partes distintas da obra do cineasta dos filmes de grande equipe policial (o fantasma de Expect the Unexpected assombra toda a ação) e da série Eleição. Drug War adia sua ação ao máximo substituindo por umasériede cenas que apostam no acumulo de detalhes para elevar tensão até que a violência finalmente emerge levando consigo cada corpo que passou diante do olhar na câmera na hora anterior. Uma narrativa de infecção, depois que que a guerra do título esta na suas veias não a saída possível mas a da morte violenta. Pode-se até dizer que o filme é um longo pesadelo do condenado a morte (o filme todo se sustenta no fato que o trafico de drogas seja punido na China com a pena de morte). To sucede porque ele e seus atores (e aqui vale uma menção extra ao grande Sun Hong-lei numa das melhores atuações físicas do cinema contemporâneo, o homem literalmente faz de tudo no filme) recém um painel pálido e regido e consegue encontrar nele uma série de espaços e variações inesperadas (há, por exemplo, uma cena muito peculiar em que um personagem quase tem uma overdose que parece existir  somente para puxar ao limite o que um filme como este pode registrar) e também encontram o balanço certo de ambiguidade moral.

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Allan Dwan

Tennessee’s Partner

Tennessee’s Partner

A Lumière publicou ontem um grande dossiê sobre a obra de Allan Dwan. É certamente uma das melhores publicações de cinema do ano.
Ontem quando divulguei nas redes sociais o dossiê mais de um amigo pediu dicas sobre o que ver do cineasta, como Dwan esteve ativo regularmente de 1911 a 1961, e com vários períodos destaque dependendo do gosto do critico é bem difícil se guiar por ela (eu vi mais de 50 filmes dele e ainda assim tenho várias lacunas especialmente no período mudo), então resolvi montar uma lista pessoal de recomendações. Tenham em mente que os filmes de Dwan são bem acima da média então a não presença de um filme na lista abaixo não significa que ele seja fraco (só tem dois filmes de Dwan que eu vi e não curto The Gorilla e Northwest Outpost). Montei três listas para ajudar como guia, mas todos eles valem muito a pena.

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Anos 2000

Vai e Vem, de João Cesar Monteiro

Vai e Vem, de João Cesar Monteiro

A Liga dos Blogues vai fazer uma lista dos melhores da década passada e pediu minha colaboração. Como curto a pratica de organizar listas, especialmente porque me faz pensar e sistematizar os meus favoritos de alguma forma (e também porque se tenho somente uma curiosidade histórica por listas coletivas, adoro explorar listas individuais), gastei mais tempo do que habitual nesta muito porque o período coberto nela é o da minha primeira década como crítico.

Duas coisas me saltaram aos olhos depois do exercício. Primeiro é que a despeito do chorume habitual sobre a pobreza do cinema contemporâneo a quantidade de filmes que deixei de fora mesmo com duas listas de apoio foi enorme. A outra é como a lista se concentrou entre 2000 e 2003, nenhuma ideia se é reflexo de um momento especialmente rico na produção ou simplesmente efeito pessoal de coincidir com o momento em que me mudei para São Paulo e passei a ter acesso mais fácil a um numero maior de filmes.

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Lincoln na Cahiers

O Eduardo Valente estava atrás de um espaço para reproduzir a cobertura do Cahiers para o Lincoln do Spielberg e eu ofereci o blog.  São dois artigos mais uma entrevista com o Tony Kushner em francês. Para aumentar o tamanho das imagens é só clickar nelas.

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Melhores de 2012 (25-1)

Primeiro um pequeno adendo: esqueci de incluir nas menções honrosas Lomge do Afeganistão, filme organizado pelo John Gianvito cujo todo é mais forte do que suas partes irregulares e que inclui um episódio (Fragments of Dissolution do Travis Wilkerson) que estaria fácil bem perto do topo da lista se eu incluisse curtas.

25) O Verão de Giacomo (Alessandro Comodin)
1225

O prazer com que Comodin filma este dia de verão e o sentimento de descoberta presente nele chegam a lembrar o Um Dia no Campo de Renoir e a ecos constantes tanto da segunda parte do Aquele querido Mês de Agosto, quanto do trabalho de alguns outros cineastas italianos recentes com gosto por se localizarem na fronteira entre ficção/documentário (Michelangelo Frammartino, Pietro Marcello). O que realmente torna o filme marcante porém é como a abordagem táctil imposta por Comodin consegue levar este aparente dia banal entre aquelas duas pessoas  e revelar dali todo um sentimento de história pregressa repartida entre aqueles duas figuras, que é algo que se revela ainda mais forte quando da mudança de garotas no último rolo (a única intromissão realmente radical de Comodin sobre seu filme) que reestabelece a ação como um todo como parte da história daquele rapaz.

24) Nuit Blanche (Frederic Jardin)
1224

Um dos filmes de ação mais excitantes da safra recente. Jardin parte da mais essenciais premissas (policial corrupta vai a uma boate devolver uma maleta com drogas) e encontra nela um sem  numero de novas possibilidades (geográficas, emocionais, narrativas) que vão se acumulando enquanto mais e mais portas de entrada se abrem.  A última meia hora é basicamente uma longa sequencia de ação sustentada que segue encontrada novas formas de elevar tensão.  Alguns momentos muito criativos de ação (a uma sequencia que não ficaria deslocada num filme de Jackie Chan dos fim dos anos 80) e um trabalho muito cuidadoso com câmera na mão (a fotografia é do Tom Stern, fotografo do Eastwood). Lançado por aqui erm DVD pela California sob o super genérico titulo Pura Adrenalina, mas é melhor que todo o catalogo para cinema que eles lançaram em cinema este ano. Por curiosidade o filme foi co-escrito pelo Nicolas Saada, um dos melhores críticos da Cahiers nos anos 80.

23) Outrage Beyond (Takeshi Kitano)
1223

Sustentando no espaço entre Brother  e os dois Eleição de Johnnie To, é o melhor filme de Kitano em alguns anos (e isto vindo de alguém que defende a maior parte dos filmes dele dos últimos dez anos). Se Outrage era um slasher com Yakuzas, Outrage Beyond muito rapidamente se revela uma comédia de maneiras de gangsters que ao mesmo tempo celebra o código que supostamente os rege e faz troça de todos os rituais e traições que os dominam. Se o filme anterior era um banho de sangue com a disposição de um Mario Bava, este é uma questão de um plano a mais, seja da câmera segurar por um segundo a mais sobre uma ação ou um contraplano perfeitamente executado.

22) In Another Country (Hong Sang-soo)
1222

Um tanto fácil na sua estrutura se comparado a outros filmes recentes de Hong, mas ainda assim carregado por uma série de achados de situações e locações que o aproximam muito de alguns dos filmes mais relaxados de Rohmer dos anos 80. E somente Hong poderia pegar Isabelle Huppert e despoja-la de todo os excessos de grande atriz, ela não esteve tão relaxada e bem num filme em anos.

21) The Great Cinema Party (Raya Martin)
1221

Um dos grandes filmes políticos do ano. Perfeitamente estruturado na maneira que consegue estabelecer um estado de violência histórica e depois procede em esvazia-lo e por fim preenchê-lo com seus amigos. É um filme construído sobre a presença da história das Filipinas, mas sobretudo dos amigos de Martin que relaxadas a jogar conversa fora servem como contraponto essencial a mesma. Fazer uma festa também pode ser um ato político.
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Melhores de 2012 (50-26)

Como nos últimos anos o critério da lista é a de filmes lançados nos últimos três anos vistos por mim pela primeira vez em 2012.

Menções honrosas: 21 Jump Street (Phil Lord e Chris Miller), Abendland (Nikolaus Geyrhalter), Abrir Puertas y Ventanas (Milagros Mumenthaler), Aprés Mai (Olivier Assayas), Argo (Ben Affleck), Boa Sorte, Meu Amor (Daniel Aragão), Buenas Noches España (Raya Martin), Djailoh (Ricardo Miranda), Dredd (Pete Travis), Eden (Bruno Safadi), Flying Swords of Dragon Gate (Tsui Hark), A Guerra Esta Declarada (Valerie Donzelli), Hotel Mekong (Apichatpong Weerasethakul), The Inkeepers (Ti West), J Edgar (Clint Eastwood), Killer Joe (William Friedkin), Margaret (Kenneth Lonergan), Mientras Duermes (Jaume Balagueró), Missão Impossivel 4 (Brad Bird), La Noche de Enfrente (Raul Ruiz), O que se move (Caetano Gotardo), Pa Negre (Augustin Villaronga), The Raid (Gareth Evans), White – The Melody of a Curse (Got Kim e Sun Kim), The Woman Knight of Mirror Lake (Herman Yau)

50) Ballet Aquatique (Raul Ruiz)
1250
O penúltimo filme de Ruiz não poderia ser mais simples construindo-se a partir de material alheio e alguns poucos elementos de cena e atores. É uma homenagem a Jean Painlevé, mas é sobretudo um filme de Ruiz que na sua simplicidade não deixa de ser uma declaração de princípios:  tudo no cinema permite um novo mergulho no imaginário. Ruiz é um maluco do qual sentiremos muita falta.

49) Lockout (James Mather e Stephen St. Leger)
1249

Entre os filmes desta lista Lockout deve ser de longe o menos ambicioso. Basicamente uma desculpa para os diretores estreantes Mather e Leger e o produtor Luc Besson reimaginar Fuga de Nova York numa estação espacial. Tudo aqui é perfeitamente genérico e dispensável, mas Lockout possui algo que uma bomba inflada como Skyfall jamais terá: uma compreensão total do seu material e dedicação a ele que evita trata-lo como mais ou menos do que é. Nenhuma tentativa envergonhada de se justificar ou tentar soar espertinho e irônico (para um filme que procura tanto se aproximar do cinema de ação dos anos 80, Lockout não demonstrar nenhum fetiche auto referencial).  Alem disso o filme se beneficia muito da presença de Guy Pearce (apesar de duas sessões do filme depois eu ainda não ter certeza se ele estava a se divertir horrores ou horrorizado que seu agente lhe colocou num filme como este).

48) Les Mains en l’air (Romain Goupil)
1248

Um filme sobre a política de imigração francesa do ponto de vista de um grupo de crianças que trata o olhar infantil com respeito e sem nenhuma condescendência ou exploração.  Les Mains em L’air faz um trabalho notável de combinar história nos rituais infantis (incomporavelmente melhor do que a maioria dos filmes sobre olhar infantil sobre história). Goupil é um ótimo diretor que merecia ser mais conhecido.

47) Vamps (Amy Heckerling)
1247

Bem longe da sátira sobre vampiros  que inevitavelmente será vendida/vista, mas uma muito pessoal e agradável comédia sobre passagem do tempo.  Tem uma série de ótimas ideias e sobretudo um olhar muito claro e forte sobre seu tema central. Alem disso os últimos dez minutos são consideravelmente mais envolventes do que uma comédia ligeira sobre vampiros lançada direta em vídeo deveria ser.

46) Sightseers (Ben Wheatley)
1246

Wheatley segue seu tour pelo ficção cinematográfica inglesa com sua contribuição para o mais inglês dos gêneros: a comedia de humor negro de serial killer. Se há algo terrível na Inglaterra de Sightseers é que o mal dela é um dado que o filme reconhece como existindo antes dele, só um fato a mais dentro da sua construção, com o qual simplesmente se deve conviver.  É um filme a principio muito mais ligeiro do que Kill List, mas que faz o mesmo movimento de naturalismo para um mal estar assustador.
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O Jerry Lewis oculto

Na correria da Mostra não tiove como mencionar antes, mas o sempre muito atento Jaime Christley localizou no You Tube alguns trabalhos que Jerry Lewis dirigiu para a TV após seu último longa em 83. Dois episódios para TV, um para uma sitcom chamada Brothers em 85 e outro de uma série de ação juvenil chamada Superforce (há um terceiro episódio televisivo da mesma época, mas este não parece ter caido na rede até hoje). Para os interessados em pesquisar este periodo oibscuro do Lewis diretor seguem os videos.

Brothers:

Super Force:

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Festival do Rio


Deixo aqui links para todas as críticas que escrevi para o Festival do Rio e depois delas algumas observações sobre outros filmes que vi, não todos, mas daqueles que queria fazer algum comentário mais especifico.

Abrir Puertas y Ventanas, de Milagros Mumenthaler e Viola, de Matias Piñeiro
Diário da França, de Raymond Depardon e Claudine Nougaret
Dores de Amores, de Raphael Vieira
Éden, de Bruno Safadi
Elefante Branco, de Pablo Trapero
Escola Secundária, de Celina Murga
Fantasia Lusitana, de João Canijo
O Gosto do Dinheiro, de Im Sang-soo
Hoje, de Alain Gomis
A Negociação, de Nicholas Jarecki
Reconversão, de Thom Andersen
O Segredo da Cabana, de Drew Goddard
Shokuzai, de Kiyoshi Kurosawa
Simon Killer, de Antonio Campos
Starlet, de Sean Baker
Tabu, de Miguel Gomes
Turistas, de Ben Wheatley
A Última Vez que Vi Macau, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata

Argo (Ben Affleck)
Os dois primeiros filmes de Affleck eram sustentados no pendulo de um ótimo uso das locações em Boston com uma direção segura de atores, o que torna abandonar casa para fazer um filme cuja ação é essencialmente de estúdio e muito distante de Boston um risco (a cidade sempre servia com rede de apoio nos momentos que Gone Baby Gone e The Town fraquejavam).  Felizmente o outro elemento que sustentava estes filmes, o bom gosto do diretor para material, o carrega aqui novamente, Argo é baseado num excelente caso real e Affleck inteligentemente constrói a partir dele um filme sobre a arte de fabular. O filme existe entre dois modos de artifício hollywoodiano: a sátira inofensiva das sequencias em Los Angeles e a tensão de thriller nas passagens em Teerã. A confluência destas duas imagens artificiais e a convicções com que ambas são apresentadas garante energia constante que sustenta o filme.

Foxfire (Laurent Cantet)
Se Argo é o sucesso da fabulação, este novo longa do Cantet é o exato oposto, um filme que assusta justamente pela forma como fracassa em se articular minimamente. Diante de Foxfire, pensei em alguns filmes brasileiros que deram errados e que você topa com em festivais nos quais da para imaginar o cineasta e o montador olhando para o material na frente da ilha de montagem trocando aquele olhar cúmplice desesperado de quem reconhece que não tem filme nenhum ali. Não é nem que o filme é péssimo, ele simplesmente é tão frágil tão incapaz de se impor, que ele é destinado a jamais escapar da inconsequência.  Diante do filme você entende como Cantet foi de ganhar Cannes para no longa seguinte não ser selecionado em nenhum dos festivais de porte europeus.

Holy Motors (Leos Carax)
Daria uma grande seção dupla com o derradeiro filme do Saraceni, O Gerente.  Notável como Carax consegue ao mesmo tempo ser de uma melancolia muito dolorosa e de uma vitalidade imensa. Não é meu favorito dele, mas é certamente a melhor atuação de Denis Lavant ou as onze melhores, não tenho certeza. Vale dizer que o filme talvez seja ainda mais impressionante nas sequencias discretas como na que o pai vai buscar a filha do que nas passagens mais chamativas.

Hotel Mekong (Apichatpong Weerasethakul)
Menos um filme menor do que um sedutor trabalho “entre filmes”.  Sempre notável como Apichatpong lança mão de alguns poucos elementos de cena e conjura deles um encantamento, um desejo no espectador de se perder neles sempre muito envolvente.  Da para traçar um bom paralelo entre ele e o média do Raul Ruiz que passou na Mostra, que tem principio semelhante, mas é mais bem resolvido.  Haverá quem preguiçosamente vai usar aquela saída preguiçosa e descartar o filme como videoarte, mas Hotel Mekong me parece fazer mais sentido numa sala de cinema e esta mais próximo de Griffith que Bill Viola.

Jards (Eryk Rocha)
O filme anterior do Eryk Rocha Transeunte era um filme de personagem que só me parecia negociar com sucesso sua relação com a figura que se propunha observar nas suas sequencias musicais. Este seu novo documentário sobre Jards Macalé, não deixa de funcionar como uma extensão natural dos momentos mais fortes do filme anterior; inserindo o musico num projeto estético com muito pontos de contato com o de Transeunte. Jards transforma os duetos que Macalé grava ao longo do filme uma extensão natural da dança que a câmera de Rocha realiza com o arredio musico.

Killer Joe (William Friedkin)
De um modo geral tedo a preferir hillbillyexplotation em country rock do que em filme, mas Friedkin se aproveita bem do encontro entre a misantropia do texto e a sua própria sensibilidade. Não haverá aqui espaço para o trabalho de exploração formal sofisticado que o cineasta usara em Bug adaptado do mesmo dramaturgo, mas há uma intensidade na histeria do filme que lhe serve com força.  Há também um grande Matthew McChougney que carrega o filme por muito dos seus momentos mais frágeis.

Moonrise Kingdom (Wes Anderson)
Já estreou e muita gente já viu, mas aproveito a oportunidade para indicar o texto do Fabio e para dizer que é o meu Wes Anderson favorito em uma década.

Primeiro Dia de um Ano Qualquer (Domingos de Oliveira)
Não vi o outro filme de Domingos de Oliveira deste ano (Paixão e Acaso) que me disseram ser ainda mais desleixado, mas este Primeiro Dia de um Ano Qualquer segue o processo desta ultima década dele em direção ao completa preguiça na hora de transformar seus textos em filmes.  Se Domingos fosse capaz de encontrar alguma vitalidade no meio da pobreza o processo se justificaria, mas a parte um par de cenas em que os atores conseguem salvar não há nada aqui, e para piorar este é um dos piores e menos interessantes textos que ele filmou desde o seu retorno ao cinema em 98.

O Verão de Giacomo (Alessandro Comodin)
Deveria ter escrito um texto sobre O Verão de Giacomo para a Cinetica, mas na correria no retorno a São Paulo acabei sem tempo, o que é uma pena já que se trata de um dos melhores filmes que passaram no festival.  É um filme muiro em como gestos e sentimentos permanecem na história de cada um. É um dos mais bem resolvidos filmes de dispositivo recentes, no caso, os problemas de audição do Giacomo do titulo, um adolescente surdo que o cineasta conhece. O prazer com que Comodin filma este dia de verão e o sentimento de descoberta presente nele chegam a lembrar o Um Dia no Campo de Renoir e a ecos constantes tanto da segunda parte do Aquele querido Mês de Agosto, mas do trabalho de alguns outros cineastas italianos recentes com gosto por se localizarem na fronteira entre ficção/documentário (Michelangelo Frammartino, Pietro Marcello). O que realmente torna o filme marcante porém é como a abordagem táctil imposta por Comodin consegue levar este aparente dia banal entre aquelas duas pessoas (Giacomo e a irmã do cineasta Stefania, que serve de uma guia paciente para o protagonista) e revelar dali todo um sentimento de história pregressa repartida entre aqueles duas figuras, que é algo que se revela ainda mais forte quando da mudança de garotas no último rola (a única intromissão realmente radical de Comodin sobre seu filme) que reestabelece a ação como um todo como parte da história daquele rapaz.

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Carlão

Escrevi três textos sobre o Carlão ao longo dos anos, um deles para a Cine Imperfeito em 2004 sobre O Império do Desejo que eu infelizmente não tenho cópia, os outros dois, sobre os filmes mais recentes dele (Bens Confiscados para a Contracampo em 2005 e Falsa Loura para a Paisá em 2008), eu reproduzo aqui neste post. Alem disso, participei (na verdade essencialmente escutei e transcrevi) um bate papo entre ele e o Inácio Araujo para edição de 5 anos da Contracampo em 2003 que esta disponivel aqui.

Alem disso gostaria de fazer um parêntese sobre a nota infeliz do Ministério da Cultura (que eu não vou reproduzir aqui porque não vale a pena), ela é só mais um lembrete que nós não temos mais um Ministério da Cultura, mas sim um ministério de comércio de exploração cultural.

BENS CONFISCADOS

Há dois fluxos constantes na obra de Carlos Reichenbach: de um lado há os filmes celebratórios e do outro os lamentos amargos (que geralmente tomam a forma de intensos melodramas). Isto talvez fique bem representado pela oposição da dupla O Império do Desejo (80) e Amor, Palavra Prostituta (81): no primeiro filme, pela forma como se constrói num clima de “tudo pode acontecer”, enquanto o segundo mantém uma estrutura extremamente fechada (um prólogo, um epílogo e quatro capítulos dedicados a cada protagonista).

Bens Confiscados é talvez o mais duro filme do cineasta desde Amor, Palavra Prostituta, um filme quase todo na negativa cujos momentos de alento surgem pela inabalável crença do cineasta na força do cinema. Assim como no filme anterior, Bens Confiscados é desenvolvido a partir de um formato dramático bastante rígido, com três atos demarcados por três espaços específicos (a metrópole, a chácara de interior e o hotel de litoral), cujo tom é ditado por um coadjuvante (o assessor político, o caseiro chucro, o húngaro). Ao optar por trabalhar o filme a partir deste princípio, Reichenbach – um cineasta que tendemos a associar com uma liberdade de filmar – não deixa de abrir mão de parte do que torna seu cinema especial. Só que esta limitação termina por se revelar um benefício a longo prazo, na maneira com que um certo desespero formal por parte do cineasta espelha o que se vê na tela.

Ao escalar Beth Goulart como a ex-esposa do senador corrupto cujas denúncias são o ponto de partida da ação do filme, Reichenbach torna inevitável uma aproximação com Dois Córregos, onde a atriz também era usada nas cenas que serviam de moldura para o drama de sentimentos que estava no cerne do filme. Mas aqui, ao dar tom de chanchada a estas cenas, Reichenbach foi especialmente feliz. Não deixa de valer a pena apontar que, desde que Bens Confiscados foi exibido pela primeira vez, a forma de representação que o cineasta encontrou para este material de moldura ganhou ainda mais força. Há algo de profundamente político em Bens Confiscados, mas isso reside para bem além das cenas com Goulart ou mesmo na constatação mais didática do filme de que a figura mais destrutiva não é o peão violento, mas a do assessor de bons modos. O que há de político em Bens Confiscados é mais direto, atinge o espectador como um soco bem dado na cabeça do estômago.

Serena (Betty Faria) detém uma rara passividade para uma protagonista de Reichenbach. À primeira vista ela parece quase existir como testemunha para os dramas ao seu redor (o da garota, da mulher do caseiro). Até o momento em que aceita sair com Miklos (Eduardo Dusek) podemos mesmo afirmar que ela nada faz. Betty Faria – que, como produtora, de certa forma divide com o cineasta a condição de dona do filme – plana sobre Bens Confiscados como uma musa intocável (trata-se do raro verdadeiro exemplar de veículo para estrela no cinema brasileiro contemporâneo), ou ao menos é o que filme nos leva a crer, enquanto sutilmente vai trabalhando sobre ela desde seu primeiro plano. Quando se escreve sobre Reichenbach costuma-se usar o substantivo “generosidade”, que decerto é bastante correto, mas vale também observar que ocasionalmente esta generosidade vem complementada por um grande senso de crueldade. O que é Bens Confiscados se não um lentamente organizado estupro emocional? O que mais podemos tirar do rosto de Serena nas imagens finais? As certezas de Serena – que de certa forma espelham as do espectador diante de um material à primeira vista bastante convencional – vão sendo discretamente dissolvidas. A rigidez da mise en scène de Reichenbach – talvez a mais clássica do cineasta – revela algo de sufocante que permanece no ar. Se Serena termina por se revelar a grande vitima de Bens Confiscados, é justamente por, ao contrário do garoto ou da mulher do caseiro, crer que tudo sabe – quando pouco compreende da cadeia de eventos à sua volta. É justamente a sua posição de testemunha complacente que precisa aos poucos ruir. Bens Confiscados, um perfeito exemplar de parceria bem sucedida entre diretor/atriz, poderia ser descrito como um filme sobre um cineasta que aos poucos conduz sua atriz a uma armadilha, não fosse este comentário soar como a subvalorização da inteligência do trabalho de Betty Faria no filme.

Não podemos deixar de mencionar as diferentes maneiras com que o cineasta encontra camadas de manobra dentro da rigidez da forma que se auto-impôs. Basta observar a figura de Eduardo Dusek, que parece existir para além do filme, injetando em cada uma das suas cenas uma vitalidade bem particular; ou a seqüência em que o garoto passeia na praia com as duas pedagogas. Bens Confiscados reafirma a crença do cineasta em seu universo particular, na sua capacidade de trabalhar a partir de tipos (Antonio Grassi, excepcional), no artifício das suas imagens. Carlos Reichenbach acredita no cinema, algo que a maior parte dos nossos diretores apenas finge crer. Suas imagens significam e comentam a si mesmas, em vez de nos serem simplesmente dadas. Só por isso qualquer filme seu, mesmo os menores, é sempre um acontecimento no cenário do cinema brasileiro. Logo, Bens Confiscados – seu melhor trabalho desde Alma Corsária – não deixa de se afirmar como um dos grandes filmes que chegaram a nós em 2005.

FALSA LOURA

Falsa Loura começa e se encerra com a protagonista Silmara sendo sobreposta a cidade. Muito do projeto cinematográfico de Carlos Reichenbach fica claro nestes dois planos: o corpo de Silmara, com controle completo no começo e devastado ao final, se diluindo sobre todo este espaço da cidade. Falsa Loura existe neste intervalo entre um mergulho no materialismo e outro no imaginário dessa mulher. Logo, todas as fusões que se multiplicam ao longo do filme servem como pontes para que nos movimentemos de um extremo ao outro deste jogo estético. Carlão mistura registros com uma liberdade raramente vista no cinema brasileiro recente criando uma fábula musical concreta sem muitos equivalentes seja na sua obra seja de mais ninguém. Se seus filmes pós-Alma Corsária vinham se encaminhando para um certo classicismo – que se revelou de forma cristalina em Bens Confiscados, – Falsa Loura retoma uma liberdade maior, sem com isso abrir mão do melodrama zurliniano que tanto interessa ao cineasta e todo um cuidado com dramaturgia que o acompanha. Trata-se de um equilíbrio encontrado antes somente no grande Anjos do Arrabalde.

Mais do que nunca neste filme de intervalos temos contato com a generosidade que tanto marca os filmes de Carlão. Falsa Loura é Nelson Ayres e Paulo Ricardo, é Sócrates e um musical brega, é o mistério contido no rosto de João Borbonnais e a transparência do rosto de Maurício Mattar. Não surpreende que o filme incomode a tantos (basta vermos o tratamento vergonhoso que os juris do Festival de Brasília e do Cine Ceará dispensaram a ele). Este é talvez o grande ato político de Carlão; numa era onde filmes – mesmo aqueles de proposta mais radical – são sempre codificados, nos entregar um filme que se recusa veementemente a sê-lo. Falsa Loura abraça a tudo, menos a ser produto. Não é um caminho fácil e a recusa se torna por vezes inevitável, mas o filme segue de pé com a mesma dignidade de sua protagonista.

O cineasta usa desta generosidade para compor seu universo como um painel onde o mínimo detalhe conta. Impressiona como cada operária, mesmo com só duas ou três falas, ficam registradas diante de nosso olhar com sua personalidade; ou a maneira como pequenos momentos se sobressaem – Cauã Raymond dando uma última olhada na casa de Silmara, o espetáculo de um segurança rígido a acompanhar a movimentação no Clube Alvorada, o rosto sempre iluminado de Silmara enquanto ela reage às mais diversas situações -, ou a transparência límpida com que tudo é encenado, sem segredos, mas confiante que se achou naquele espaço, nessas personagens e sobretudo nesses atores algo especial.

Falsa Loura se instala em sua São Paulo periférica quase abandonada pelas câmeras do cinema brasileiro, ao menos no registro proposto por Carlão (só Ricardo Elias vem tentando algo similar). O bloco passado no Clube Alvorada é exemplar na maneira que este processo se realiza. São imagens de uma fluidez, de uma troca de experiências e de uma riqueza narrativa impressionantes. É o espaço do conto de fadas cotidiano onde o imaginário das operárias é realmente tangível, onde cada drama individual não só pode ganhar corpo, mas é celebrado. Mais que um espaço, um palco, para cada uma daquelas mulheres. Onde até mesmo o cantor e sua banda podem se afirmar dentro da sua própria fábula. O momento onde a banda entra em cena e Carlão a revela em todo um esplendor que faz justiça ao espaço que ocupam no imaginário de Silmara e suas amigas, ao mesmo tempo em que o cineasta dobra todo o seu projeto e permite reconhecermos aquele outro imaginário que por uma hora é confirmado. Igualmente privilegiadas, num sentido oposto, são as seqüências da fábrica, onde se pratica uma verdadeira ontologia espacial do trabalho, com cada movimento cuidadosamente pensado, mas repousado de maneira com que o filme jamais se perca numa mão pesada sobre a brutalização do capital (Reichenbach sabe que é tudo é muito mais complicado). Seqüências como estas (ou todo o bloco final no interior) nos relembram daquela palavra meio assustadora chamada mise-en-scène que os burocratas do nosso cinema adorariam que esquecessemos enquanto celebram seus filmes geriátricos, mas que sempre se reafirma diante da camera de Carlão.

Como Inácio Araujo bem observou, Falsa Loura é o primeiro filme de fato sobre o proletariado pós-marxista. Um filme que desloca todo o nosso olhar habitual sobre o tema. Construído sobre relações de poder, mas onde elas se instalam numa chave entre o imaginário e o comportamental. A Silmara cabe no máximo reconstruir o guarda-roupa da amiga mais simples ou se afirmar diante das companheiras seja pela firmeza de sua presença, valorizando seu encontro com o músico popular, ou pelos seus cabelos loiros. Carlão sabe delinear a maneira como hoje o verdadeiro palco político se constrói através das relações de comportamento. É marca da grandeza de Falsa Loura que o filme possa se construir através de todo um imaginário afetivo popular, mas nunca deixa de ser um filme sobre esta operária específica, que o filme se recuse sempre a generalizar aquela experiência quando a tentação é de certo muito grande.

Por fim, Falsa Loura melhor do que qualquer outro filme do cinema brasileiro, registra a maneira como a história diária se escreve no corpo; como toda uma jornada de brutalização – ainda mais impressionante na medida que o filme se recusa a encarar Silmara como vítima – se revela ali na superfície daquela mulher. Em seu movimento final, com a fábula completa e o corpo brutalizado – em último plano digno de antologia – cabe a ela simplesmente se dissolver diante de nós.

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Chor Yuen e o fracasso do cânone ocidental

Intimate Confessions of a Chinese Courtesan

Formação de cânone é um assunto que sempre me interessa muito e este dia me peguei pensando  na figura de Chor Yuen. Para quem começa a se interessar pelo cinema de Hong Kong pré-1980. Geralmente a porta de entrada oficial é pelos filmes de King Hu e Chang Cheh e depois Lau Kar Leung, se o cinéfilo realmente quiser passar muito tempo sobre o assunto ele terminara vendo alguns dos filmes de Yuen.  E por conta da lógica euro-americanocêntrica da maioria da cinefilia geralmente é isto que acontece.

O que é interessante é que não me parece muito difícil fazer argumento de que Yuen como igual e/ou superior a estes outros nomes (não que o ache necessariamente superior, meu ponto aqui tem pouco a ver com rankings), só que algumas das razões para isso tem muito a ver com o porque Yuen não é um nome tão mencionado.

Yuen não tem propriamente um ponto de pico claro como Hu entre 66 e 75 e Cheh entre 66-70. Pelo contrário, enquanto os grandes nomes do auge de Shaw Brothers tiveram consideráveis dificuldades a partir dos anos 80 (eu argumentaria que a decadência de Cheh é evidente depois que o cinema de artes marciais local se moveu do Wu Xia para o kung fu ainda no coimeço dos anos 70 apesar de alguns belos filmes como Five Deadly Venoms), Yuen seguiu bastante produtivo e se adaptou bem a indústria do período e até começou uma segunda  carreira como ator (ele é o vilão de Police Story, por exemplo). Yuen é junto do Lau Kar Leung, os únicos nomes do cinema “clássico” de Hong Kong a dirigir filmes de relevância no boom da segunda metade dos anos 80, em 88 por exemplo ambos fizeram dois do melhores veículos de Chow Yun Fat do período (o homem filmava quase um filme por mês no fim dos anos 80 então não falta concorrência), Tiger on the Beat (Leung) e The Diary of a Big Man (Yuen). O ultimo filme de Yuen como diretor foi uma das primeiras comedias de Stephen Chow.

Sex, Love and Hate

A grande dificuldade para público ocidental chegar Yuen é menos a longevidade (apesar de ser sempre mais fácil quando existe um ponto alto claro), e mais a versatilidade do cineasta. Ele começou a carreira com dramas contemporâneos na década de 60 como The Great Devotion. Não são fáceis de achar ( filmes contemporâneos de HK dos anos 60 disponíveis tendem a ser musicais, comedias leves ou os sub Bonds da Shaw Brothers), a não ser que você seja maluco como eu e encare melôs chineses sem legenda no You Tube (por sinal, vale o esforço).  No seu período mais acessível da década de 70/80, Yuen dirigiu seus clássicos de artes marciais (The Magic Blade, Clans of Intrigue, The Sentimental Swordsmen), mas ele também fez trabalhos de ponta em gêneros como a comedia social (The House of 72 Tenants, Hong Kong 73) ou o melodrama (Sex, Love & Hate, The Forbidden Past). Mesmo vários dos seus filmes de artes marciais tendem a ser muito mais híbridos, como o neurótico quase noir The Convict Killer.

O melhor filme de Yuen provavelmente é o inclassificável Intimate Confessions of a Chinese Courtesan, a história singela da moça que é raptada e vendida a um bordel que aos poucos prepara sua vingança contra seus clientes poderosos e sua cafetina lésbica.  É o mais elegante filme de explotation imaginável com um grande controle formal e um primeiro ato que realmente se esforça para ser desagradável. Yuen tem um prazer enorme em trabalhar com mudanças radicais de tom e a despeito dos vários registros sustenta a mesma intensidade.  É um filme de vingança da Shaw Brothers, mas está mais próximo de Carlos Reichenbach do que Chang Cheh.

Diary of a Big Man

Claro que Yuen tenha grandes filmes separados por quase quatro décadas e nos mais diversas gêneros não o torna necessariamente um cineasta maior do que Hu ou Cheh, mas ajuda explicar porque ele não merece ser uma nota de rodapé do período (assim como é um crime reduzir Naruse a um cineasta a se visitar depois de se explorar a fundo Ozu-Mizoguchi-Kurosawa). Um pouco como Tsui Hark nas ultimas três décadas, Chor Yuen encompassa o cinema local no período entre 1960 e 1990 como nenhum dos seus contemporâneos e isto não deixa de ser muito representativo.  Que ele siga tão pouco conhecido e não seja uma porta de entrada habitual deste cinema diz mais sobre fragilidade com que a cinefilia ocidental lida com qualquer cinematografia fora do eixo dos 4 ou 5 cinemas nacionais mais habituais do que sobre seus filmes.

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A Invenção de Hugo Cabret (Martin Scorsese)

O melhor Scorsese em cerca de uma década se longe de um filme perfeito.  A primeira metade em particular é muito forte e alcança uma imersão que os filmes dele muito procuraram sem sucesso. É um tanto inflado demais (a esta altura mau vale apena reclamar disso) e por vezes na segunda metade o tratado sobre preservação atropela a dramaturgia. Talvez este seja o elemento mais interessante do filme (junto da perversidade de fazer um filme 3D sobre preservação), de certa forma mais do que qualquer filme pensei  no Southern Rock Opera do Drive By Truckers um álbum conceitual sobre rock sulista e Lynyrd Skynard que por vezes sugere uma peça de critica musical mais do que álbum exatamente.  Nunca restam duvidas de que Hugo tenha uma idéia bem clara do cinema que retoma, mas as vezes tem dificuldades enormes de se expressar sobre elas. Muito do Scorsese recente tem uma relação de camisa de força doentia com história do cinema (de certa forma é do que Shutter Island trata, mas até hoje tenho duvidas se não termina só um filme doente) e agrada aqui justamente como o filme é sincero nos pontos em que um O Aviador por vezes soava calculado em excesso. Talvez porque Scorsese artista hoje seja escravo da idéia “Scorsese” e único elemento positivo disso seja justamente o quanto isso beneficia os esforços dele para preservação, um  filme sobre o assunto termine natural no lugar de outro passeio forçado no museu que ele construiu para si mesmo.

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O Artista (Michel Hazanavicius)

O Artista não é especialmente melhor ou pior que os dois OSS, pastiches/parodias de filmes de espionagem que Hazanavicius realizou antes deste O Artista, nem mesmo especialmente mais ambicioso a parte tecnicamente. Como naqueles filmes tudo depende do charme de Jean Dujardin e de 3 ou 4 seqüências mais elaboradas que Hazanavicius prepara com cuidado.  É como aqueles filmes uma mediocridade agradável. O que por sinal significa que é melhor que a maioria dos filmes da temporada do Oscar, eu definitivamente tenho muito mais chances de parar e ver uns 15 minutos dele na TV numa madrugada do que 15 segundos de Os Descendentes. Dito isso, me impressiona muito como trata-se de um triunfo de um maneirismo técnico completamente desprovido de um olhar. Não é que O Artista seja um filme mudo para pessoas que nunca viram um filme mudo, é que o filme sugere que o próprio Hazanavicius nunca assistiu um antes de para por uns dois dias para estudá-los superficialmente para seu filme. Não há um plano aqui que sugira uma compreensão básica do apelo destes filmes.  Não surpreende que aqui não existam cinemas mudos, mas uma massa genérica chamada cinema mudo ou que o filme como um todo só consiga sugerir uma idéia de nostalgia completamente deslocada dos filmes que supostamente homenageia (Hazanavicius é de certa forma o anti-Peter Bogdanovich).   Sua precisão no recriar parece querer substituir a intimidade que lhe falta.

Para quem se interessou por este O Artista, recomendo checar Juha do Aki Kaurismäki.

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Ben Gazzara

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The Deep Blue Sea (Terence Davies)

 

Primeiro longa de ficção do Terence Davies em onze anos, o que deve ser pelo menos nove a mais do que deveria, e um dos melhores também. Li muita gente sugerindo que o filme usava estratégias similares aos dos seus dois primeiros longas autobiográficos para material bem distante deles (no caso um melodrama sobre mulher que abandona o marido por um romance auto-destrutivo no pós segunda guerra). O que me veio a cabeça, porém foram as adaptações teatrais de Alain Resnais, sobretudo Melo, e a disposição delas de buscar drama em material antiquada e dispô-lo na tela da forma mais cinematográfica possível. Uma questão de achar a mise en scene certa para traduzir em cinema os sentimentos das três personagens centrais. Assim como estes filmes do Resnais, são filmes de um maneirismo ao mesmo tempo muito teatral e único do cinema. Não surpreende que o filme reduza todo o primeiro ato da peça a a cerca de seis minutos em que música substitui por toda os diálogos expositórios necessários para situar o espectador no drama ou que ele resolva o dilema da personagem no clímax num movimento de câmera. Davies afinal esta ali interessando tão somente em encontar uma verdade no drama mais antiquado que a principio este possa parecer.

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Os Homens que Não Amavam as Mulheres (David Fincher)

Fincher em modo decorador de cenas. Tão competente quanto esquecível (provavelmente lembra Alien3 mais do que qualquer outro longa dele). Dito isso confesso que me impressiona as repetidas vezes que ouvi esta semana que o filme sueco era melhor, o que me leva a concluir que:  a) fobia contra filmes americanos é maior do que imaginava B) muita gente realmente  supervaloriza atores quando não se entende o que eles dizem c) nossos padrões para apreciar artesanato básico são cada vez piores. Fincher faz montagens de pesquisa melhores do que qualquer outro cineasta, mas nunca consegue animar as coisas para mais do que um marco tempo que sirva para manter a grife Fincher viva entre projetos maiores. Pior é perceber que Fincher parece tão preocupado com sua novas posição de cineasta de prestigio para abraçar a verve pulp do material. È competente demais para ser ruim e envergonhado demais para ser interessante.

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