Allan Dwan

Tennessee’s Partner

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A Lumière publicou ontem um grande dossiê sobre a obra de Allan Dwan. É certamente uma das melhores publicações de cinema do ano.
Ontem quando divulguei nas redes sociais o dossiê mais de um amigo pediu dicas sobre o que ver do cineasta, como Dwan esteve ativo regularmente de 1911 a 1961, e com vários períodos destaque dependendo do gosto do critico é bem difícil se guiar por ela (eu vi mais de 50 filmes dele e ainda assim tenho várias lacunas especialmente no período mudo), então resolvi montar uma lista pessoal de recomendações. Tenham em mente que os filmes de Dwan são bem acima da média então a não presença de um filme na lista abaixo não significa que ele seja fraco (só tem dois filmes de Dwan que eu vi e não curto The Gorilla e Northwest Outpost). Montei três listas para ajudar como guia, mas todos eles valem muito a pena.

Most Dangerous Man Alive (1961)

Lista A:
A Modern Musketeer (1917)
Quando se fala da capacidade de invenção do cinema mudo é a um filme como A Modern Musketeer que se referem. Não há um momento aqui que não soe absolutamente fresco. Certamente o melhor filme de Douglas Fairbanks que eu vi.

While Paris Sleeps (1932)
Uma das coisas mais fascinantes da carreira de Dwan é justamente como ele se adapta a cada período ao longo de 50 anos de cinema americano. Este é um exemplar perfeito do porque o começo dos anos 30 segue a época mais subestimada do cinema americano. Victor McGlen foge da cadeia para tentar impedir a filha de ser vendida a prostituição, só que não pode revelar a ela quem é. Simples e direto e com uma textura e sentimento de desespero que a maior parte do cinema de pretensão realistas não chega nem perto de esboçar.

Black Sheep (1935)
Mais cinema americano dos anos 30, desta vez em chave de comédia elegante, há ecos visíveis de filmes como The Thin Man, mas num tom mais amargo e duro (e com uma condução muito mais segura). Um cruzeiro sobre civilização, grana e boas maneiras. E Edmund Lowe nunca foi colocado para tão bom uso.

Frontier Marshal (1939)
Escrevi sobre ele para o dossiê da Lumière. Wyatt Earp revisto como uma comédia anárquica e soturna.

Brewster’s Millions (1945)
Imagino que muitos conhecem o remake medíocre do Walter Hill de presença constante na TV, mas este é uma das melhores farsas, grande achado de principio cômico, executadas com um timing perfeito e o toque exato de angústia pós guerra para lhe dar um peso especial.

Randezvous with Annie (1946)
Outra comédia com principio brilhante: o soldado Eddie Albert retorna escondido aos EUA para encontrar a esposa e ela engravida e quando ele finalmente retorna oficialmente da guerra, eles não tem como provar que ele é o pai da criança. A maior parte das comédias de Dwan no período foram protagonizadas pelo Dennis O’Keefe sempre muito sólido, mas aqui ele conta com a sorte de ter Eddie Albert numa das performances mais entusiasmadas e abertas do cinema. Um pequeno adorável filme.

Silver Lode (1954)
A carreira de Dwan ganhou um novo fôlego nos anos 50 com uma longa parceria com o produtor Benedict Bogeaus. Silver Lode é talvez o mais elogiado deles muito pelo óbvio subtexto anti-macartista (é um dos principais filmes que Scorsese usa para explicar o conceito de contrabandistas no documentário sobre cinema americano dele). Pensem em Bringing Up Baby em que Cary Grant é substituído por Gary Cooper em High Noon e Katherine Hepburn é Joseph McCarthy pronto para arranjar novas formas de destrui-lo.

Tennessee’s Partner (1955)
Provavelmente meu Dwan favorito. Algo como uma extensão natural de Frontier Marshal e o melhor faroeste hawksiano que Howard Hawks não fez.

Slightly Scarlet (1956)
Aquela raridade: o filme noir em cores. A superfície vibrante torna o conto de danação no seu centro ainda mais potente.

Most Dangerous Man Alive (1961)
Ùltimo filme de Dawn é um dos mais secos e austeros filmes pulp delirantes já feitos. Metade filme de gangster, metade sci-fi absurdo, e todo ele acompanha de um sentimento trágico de insignificância do homem perante o inexplicável. Daria uma excelente sessão tripla com O Incrível Homem que Encolheu e O Homem dos Olhos de Raio X.

Getting Gertie’s Garter (1945)

Lista B:
Manhandled (1924) e Stage Struck (1925)
Dois excelentes veículos para Gloria Swanson, totalmente pensados para fazerem melhor uso possível da atriz e é um prazer ver Dwan localizando tantos pequenos achados ao longo deles. São ambos menos narrativas do que um grupo de pequenas grandes sequências cuja engenharia individual é nunca menos que notável. Como curiosidade Stage Struck é um dos primeiros filmes com sequencias rodadas em cores e Billy Wilder tirou o momento em que Swanson imita Chaplin em Crepúsculo dos Deuses de Manhandled (apesar de misteriosamente a sequencia estar ausente da maioria das cópias).

The Iron Mask (1929)
A última grande produção muda e um filme muito consciente da sua própria posição. Ainda mais que os posteriores filmes anacrônicos de Chaplin, The Iron Mask funciona como uma etapa final de toda uma era do cinema americano e cumpre o seu papel. Um funeral alegre com a vivacidade de um bom capa e espada de Fairbanks.

Tide of the Empire (1929)
Um objeto incomum: um faroeste anti expansionista sobre a colonização da California. Não consigo pensar em muitos tratamentos tão duros e diretos sobre o tema.

High Tension (1936)
Um destes filmes invisíveis e obscuros do período que descrevem seus méritos como poucos: Brian Donlevy é um engenheiro de obras de risco vislumbrando a aposentadoria mas incapaz de abandonar o perigo.   Um filme a principio ordinário mas exemplar no seu pendulo trabalho, aventura e carpintaria de cenas.

Up in Mabel’s Room (1944) e Getting Gertie’s Garter (1945)
Essencialmente o mesmo filme, com o mesmo ator (Dennis O’Keefe), situação (uma ex-amante informa um homem que tem um velho presente intimo que ela pretende informar a sua esposa se ele não revelar o antigo caso e suas tentativas de reaverás provas) e a infinita variedade de esquetes cômicos que eles possibilitam. Um primor de ritmo.

The Inside Story (1948)
Ùltima e menos famosa das varias farsas do Dwan no período, mas tão boa quanto. Mais do que qualquer outra destas comédias o filme tem um sentimento de desespero bem próprio e faz muito bom uso do seu elenco de figuras quase conhecidas. È um raro filme pratico sobre ter-se ou não dinheiro.

Angel in Exile (1949)
Pequeno grande filme B que demonstra novamente o tato de Dwan para com comunidades. Um criminoso monta um esquema para lavar uma fortuna roubada em ouro usando uma mina abandonada e no processo reanima a comunidade no entorno dele. O filme foi co-dirigido pelo especialista em westerns B Philip Ford e não sei exatamente quanto cada um foi responsável, mas é um belíssimo filme pouco visto.

Woman They Almost Lynched (1953)
Faroeste com um pé no revisionismo e ecos de Fuller e Ray. Algo como um pré Johnny Guitar com as mulheres em primeiro plano e uma histeria amarga muito própria.

Cattle Queen of Montana (1954)
Barbara Stanwick solta no campo de Montana. A intriga deste western não poderia ser mais genérica, mas a algo de Renoir na forma como Dwan se aplica a ela e é um dos melhores papeis de Stanwick do período.

Hold Back the Night (1956)
Filme da guerra da Coreia. Aparentemente tudo aqui é surrado até percebermos que é um filme sobre um soldado de oficio e a garrafa de uísque que a esposa lhe deu na segunda guerra e que ele carrega consigo a espera de um momento que justifique abri-la. A relação redimensiona todos os personagens genéricos e manobras militares básicas no entorno dele. Guerra como algo repetitivo e dispensável como em poucos outros filmes.

Robin Hood (1922)

Robin Hood (1922)

Lista C:
Manhattan Madness (1916)
Mais Farbanks e outro exemplar perfeito da sincronia entre o astro e Dwan. É curioso como os filmes contemporâneos da dupla tem uma exuberância um tanto maior que os capa e espada que trazem consigo sempre uma melancolia insuspeita.

Robin Hood (1922)
Falando nisso, um dos poucos filmes de Dwan que sempre foram fáceis de achar (saiu até em VHS por aqui), um desses filmes que frequentemente aparecem em retrospectivas de cinema mudo por conta da sua popularidade à época. Com a possível exceção de Robin & Marian do Lester, segue a melhor versão da história.

That I May Live (1937)
Espécie de versão B do Vive-se só uma Vez do Lang.

Suez (1938)
Uma das raras produções sonoras grandes de Dwan. É um dos seus vários filmes que revelam fascinação pela engenharia, no caso a construção do canal de Suez. Costumava passar o tempo todo no Telecine Classic quando o canal prestava.

Young People (1940)
O último e melhor dos três filmes que Dwan fez com Shirley Temple

Sands of Iwo Jima (1949)
Provavelmente o filme mais conhecido de Dwan hoje. É o protótipo de todo o subgênero do pelotão de garotos liderados por um sargento durão, não é um The Big Red One, mas tem muitas sequencias fortes. Por curiosidade este foi o filme que realmente transformou John Wayne numa grande estrela.

Montana Belle (1952)
Basta jogar Jane Russel no meio de um bando de pistoleiros durões que eles se atracam por conta dela num misto de ansiedade e ciúme doentios. Eis um verdadeiro faroeste revisionista.

Passion (1954)
Amargo faroeste de vingança em que os elementos mais surrados são entre cortados por um ponto de vista dos mais secos.

The River’s Edge (1957)
Um dos filmes mais minimalistas e secos de Dwan a ponta de que não fossem a presença de Anthony Quinn e Ray Milland nos papeis principais poderia se passar por um pequeno conta de ganancia de Ulmer.

Enchanted Island (1958)
Adaptação bastante livre, mas muito inventiva do Typee de Melville.

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