Mikey e Nicky

Lendo a boa – se um tanto quadrada – biografia de John Cassavetes escrita pelo Marshal Fine encontro um longo capitulo sobre Mikey e Nicky da Elaine May. Não surpreende que Fine trate do filme com bem mais detalhes do que outros trabalhos mais famosos dele como ator, já que Mikey and Nicky alem de ser de longe o melhor filme de Cassavetes como ator – a única real competição é da versão de Os Assassinos que Don Siegel fizera em 64 – tem um das mais complicadas produções do período cheio de causos irresistíveis (não há jornalista que resistiria a recontar como May convenceu seu psiquiatra a ajudá-la roubar parte dos negativos da Paramount). É um pequeno conto de gangster, em que um marginal Nicky (Cassavetes) após dar um pequeno golpe nos seus patrões implora a um amigo de infância Mikey (Peter Falk) para ajudá-lo a fugir da cidade, sem saber que Mikey está encarregado de entregá-lo para seus patrões. A maior parte do filme se resume a Mikey e Nicky perambulando pela noite com mais de 30 anos de amizade e ressentimento entre eles. Mikey e Nicky é freqüentemente tratado como um filme menor que se apropria de muitos elementos do cinema de Cassavetes, mas apesar da presença de Cassavetes e Falk e da impressão de que o filme foi improvisado esta bem distante deles até pelo temperamento da cineasta ser quase oposto do seu astro (May certamente esta bem mais para Pialat). Mikey e Nicky tem a superfície de um noir anos 70, mas na verdade é uma farsa amerga sobre o fim de uma amizade tanto Falk como Cassavetes – e Ned Beatty como assassino que passa a noite pegando os rastros que Mikey deixa pelo caminho – tem ótimo timing e o habito de May de inserir um alivio nos momentos menos prováveis garantem muitas risadas nervosas. É sempre bom tomar cuidado com histórias de produção, mas as de Mikey e Nicky (há quem garanta se tratar do filme com maior número de latas de filme gastas na historia de Paramount) refletem o tom intenso e obsessivo do filme. Sabemos com poucos minutos que Mickey e Nicky vai se mover até seu desenlace inevitável não importa o que aconteça. Aqui uma das melhores seqüências do filme com Nicky arrastando Mikey até o cemitério para poder prestar uma última visita a mãe:

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Entre os Muros da Escola (Laurent Cantet,08)

Não deve existir cineasta contemporâneo cuja apreciação é tão prejudicada pelos temas que ele escolhe quanto Laurent Cantet. Há nos seus filmes muitas ótimas idéias (sobretudo no trabalho com atores e na busca da autenticidade dos meios que representa), mas elas pouco parecem no que se escreve sobre o filme. Se A Agenda era um envolvente estudo sobre um sujeito com muito tempo livre e diversos papeis que ele assumia para preenchê-lo, mas um filme sobre o problema do desemprego apenas um tanto acima de outros exemplares recentes, algo similar se dá aqui. Entre os Muros está bem longe de ser A Esquiva, apesar do mesmo gosto pelo teatro, seu interesse esta em outro lugar. A sala de aula vira espaço teatral enquanto vários exercícios de autoficção disputam um jogo de poder pré-demarcado. Cantet tira muito do seu elenco infantil, o que compensa o filme por vezes tropeçar quando lida com Begaudeau; suspeito que para o cineasta é muito mais fácil conceder poder aos seus atores mirins do que colaborar com seu co-autor. Ele também faz maravilhas com linguagem e o trabalho mais relaxado com os garotrtos contrasta bem com a marcação mais exata com os professores. Do seu exercício multiplo de autoficções, Cantet extrai vários mundos. Ele esta mais para Rivette do que Ken Loach. Ainda bem.

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Mais Chantal Akerman

Algumas observações rápidas sobre 4 filmes da Akerman vistos neste final de semana.

Hotel Monterrey (72)

Documentário silencioso sobre o hotel do título me trouxe a memória o Act of Seeing with One’s Own Eyes do Brahkage, talvez pelo silêncio desconfortável na sala, talvez por que a maneira como a câmera da cineasta opera sobre o hotl (especialmente na segunda metade) traga a mente uma autopsia. Me parece sobretudo um filme esboço de muito da relação com lugar que Akerman desenvolve em outros filmes. O mesmo espaço fantasmagórico que já havia mencionado a respeito de La-bàs. Já que mencionei Brahkage, admito que em algumas cenas me veio a mente O Illuminado (Akerman dirigiria um grande filme de.terror se quisesse, se bem que A Prisioneira me dá muito mais medo do que qualquer filme terror recente).

Os Encontros de Anna (78)

Boa idéia de quem programou este filme logo depois de Hotel Monterrey já que muito da sensação de desconforto que a cineasta levantava sobre aquele hotel é transportado aqui para toda a Europa. Primeiro filme com orçamento de Akerman (e por conseqüência um roteiro mais narrativo), é bem mais fácil de ver que outros filmes dela (até porque permite encaixá-lo facilmente como um sub-Antonioni, olhar que limita bastante o filme). No lugar de Antonioni talvez seja melhor aproximá-lo de alguns filmes de mal-estar que estavam em voga no cinema europeu da época (o Rivette mais paranóico, alguns dos filmes alegóricos de Garrel, Claro do Glauber). A parte do filme passada no trem é especialmente forte na maneira como transborda esta impressão de desacerto, assim como toda a seqüência com a mãe no que ela tem de mais aberta e acalorada tanto contrasta como aprofunda o conceito do filme.

Jeanne Dielman, 23 Quai Du Commerce, 1080 Bruxelles (75)

Um filme ao qual certamente retornarei, mas ficam duas observações sobre paradoxo do suposto minimalismo realista de Jeanne Dielman: 1) trata-se de um filme de ação. Não só tudo no filme é uma questão de tarefas executadas, com Jeanne em constante movimento e sempre realizando algo, mas o filme é editado com um controle muito grande de ritmo. A última hora (ao menos para quem sabe como o filme termina) funciona como um thriller. 2) é um verdadeiro filme de estrela. Jeanne não existiria sem Delphine Seyrig e a presença que ela impõe sobre cada sequência. Por vezes parecemos estar diante do que seria um filme de Warhol caso ele tivesse uma grande estrela a sua disposição. Eu poderia passar 6 horas vendo Seyrig lustrar sapatos ou dobrar panos.

Noite e Dia (91)

Chega a ser um choque seguir de Jeanne Dielman para este filme. De longe o filme mais tranqüilo que vi da diretora até hoje, com muito pouco do clima carregado que tende a marcar seus filmes. Fabula romântica que a primeira vista parece se propor uma homensgem a Demy, mas que depois segue por outros caminhos (e provavelmente foi ponto de referencia para Rivette no Haut Bas Fragile). O uso de cores é ótimo e entre Paris e o apartamento do casal de protagonistas percebemos que Akerman não precisa de sentimento de mal estar para fazer grande uso de suas locações.

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Teenage Hooker Become Killing Machine in Daehakno (Nam Gee-woong,00)

Ms. 45 encontra Robocop ou um remake avant exploit de Le Femme Nikita. Tanto faz. Dos filmes mais estranhos produzidos na década. Tão grosseiro e direto quanto o título sugere e ao mesmo tempo cheio de contornos inesperados. O filme é de uma exatidão conceitual digna de Larry Cohen (especialmente na forma como sampleia outros filmes). Um dos seus prazeres reside em descobrir de quais maneiras o diretor Nam Gee-wong vai encontrar para prolonga-lo (já que se trata basicamente de uma situação de um curta de 15 minutos estendido para uma hora) resultando em alguns tempos mortos geniais. Teenager Hooker transborda soluções criativas, seja de situações, ritmo, trilha sonora e fotografia. Esta por sinal é um digital tosco brilhante explorando muito bem as limitações de captação de luz, não chega a ser No Quarto de Vanda, mas esta entre os melhores usos de digital daquela primeira onda de filmes no formato. Não é para todos os gostos (até por ser um destes filmes que caem no limbo de serem explotaition demais para uns e experimental demais para outros), mas é de uma demência delirante e encantadora. Verdadeiro exemplar de cinema de invenção. Tudo isso com um orçamento menor que uma diária de filme do Bruno Barreto.

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Film Comment/Rouge

A Rouge está com uma edição especial em parceria com festival de Las Palmas de Gran Canária feita sobre medida para o Luiz Carlos Oliveira Jr. Trata-se de uma coleção de artigos (mais curtos que o habitual da revista) sobre filmes que lidam com adolescentes. A seleção passa por alguns filmes manjados e outros nem tanto (Skolimowski, Jacquot, Clark, etc.).

Já a Film Comment disponibiliza como sempre alguns artigos da sua edição nova, destaques para entrevista com Jia Zhang-ke, um texto sobre o Os Amigos de Eddie Coyle (o melhor filme do Peter Yates), um artigo do Kent Jones sobre Robert Mulligan e uma excelente crítica do Frederic Bonnaud para o último Assayas.

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Là-bas (Chantal Akerman,06)

Muito curioso ver este filme alguns dias depois do filme da Kathryn Bigelow. Há em comum entre eles o mesmo paradoxo: uma imagem clara e objetiva que vai ganhando aos poucos um peso de abstração e estranhamento, como se mesmo a mais límpida das câmeras depositasse sobre elas todo um peso do desconhecido. Não deixam de ser exercícios em cinema fantástico. Akerman esta deslocada em Israel e foca sua câmera sobre as janelas dos vizinhos para evitar sair de casa ou para evitar ter de filmar Israel. Ocasionalmente ouvimos algum off da diretora que pouco explicam para alem de um contexto mínimo. Là-bas não é um filme minimalista tanto quanto é um filme escorregadio. Há uma força nos pequenos momentos da vizinhança ali capturados que encontram complemento no contra plano sugerido mas sempre negado do movimento dentro do próprio apartamento da cineasta. É um filme de sala tanto quanto de janela (desta forma próximo de outros filmes da diretora em que o cômodo existe como espaço privilegiado), não é por nada que a janela é quase sempre filmada com as cortinas baixadas. Akerman permanece ali em suspenso no meio destas imagens banais, mais fantasmagóricas. Grande filme.

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Só gênios

Inácio Araujo está de blog novo.

Enquanto isso Guilherme Martins, Chiko Guarnieri, Fernando Watanabe, Allan Peterson e Renan Fogaça lançaram um blog. Por enquanto só tem um post por lá, mas trata-se de um time de peso.

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Watchmen (Zach Snyder,09)

Bem mais próximo do remake que Snyder fizera de Romero que do aborto de 300. Trata-se de um xerox muito competente e completamente desprovido de um olhar. Seu O Despertar dos Mortos era mais bem sucedido por conta do material que servia melhor um longa-metragem do que HQ de Moore/Gibbons. O filme também expõe como os fetiches de Snyder limitam o seu projeto. Os excessos de gore, o slow-motion, etc. – ou seja, essencialmente o que pode ser descrito como toque pessoal do diretor – sempre travam a fluência do filme. Por outro lado, a seqüência dos créditos é ótima e capta o espírito do original do que todas as cenas “fiéis” que seguem e o Rorschach de Jackie Earle Haley é mesmo uma grande presença. O que é o filme tem de mais interessante é como exemplifica tão bem um elemento cada vez mais freqüente entre a relação cinema e cultura pop. De um lado, não há como não se impressiona com os extremos do desejo de Snyder em colocar a HQ na tela. O filme por vezes extrai sua força exclusivamente de como exala prazer de Snyder por realizar seu filme. No outro extremo, uma completa incapacidade de pensar por um instante no que se esta filmando para alem desta obsessão por transpor tudo para tela. Fica, por exemplo, a impressão de que não passou pela cabeça de Snyder que talvez fosse possível arranjar alguma forma de toda a trama sobre corrida nuclear ressonasse como mais que uma relíquia de guerra fria. Não há no filme nada para além do desejo de prestar homenagem ao material original e depois de uma meia hora este tom único se torna sufocante.

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Mais Dillinger

Descobri que o filme todo esta no Youtube. Definitivamente não recomendo ver assim (inclusive saiu em DVD por aqui pela Aurora). Mas para quem tem alguma curiosidade ficam os primeiros 9 minutos:

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Dillinger e Milius

Vendo o trailer do filme novo do Michael Mann finalmente atentei de que Mann está narrando a mesma versão da história de John Dillinger que John Milius contara em 1973. O Dillinger de Milius permanece um dos melhores, e menos vistos, filmes narrativos saídos dos EUA no começo dos anos 70, a começar pela sempre magnífica presença de cena de Warren Oates (no que talvez seja seu melhor momento longe de Monte Hellman). A verdade é que de todos os cineastas da sua geração, Milius foi quem melhor dialogou com a história do cinema americano (Dillinger é John Ford feito na AIP sem nenhum pouco da pompa cinéfila que outros emprestariam para tal idéia) e quem melhor lidou, a partir do seu ponto de vista bem própria, com uma idéia de EUA que parece tão importante a seus contemporâneos. Escrevi sobre Milius para a Contracampo e reproduzo os dois parágrafos sobre Dillinger:

Há dentro do cinema de Milius um desejo pelo herói, por construir o mito de um grande herói americano. Mito este que parece só poder se completar na guerra. Mesmo em alguns dos seus roteiros anteriores a passagem para direção (Perseguidor Implacável, Apocalypse Now), este esforço já está de certa forma se esboçando. A partir de sua passagem para a direção este processo de mitificação fica mais claro. Vejamos a cena de abertura de Dillinger. O famoso ladrão (Warren Oates) invade um banco gritando “Vocês estão sendo assaltados por John Dillinger. Os poucos dólares que vou roubar vão te comprar várias histórias para contar para seus netos. Este pode ser um dos grandes momentos da sua vida, não faça com que seja o último”. Tanto Dillinger quanto o policial que o persegue, Marvin Purvis (Ben Johnson) parecem ter a consciência de que a guerra que travam também é uma guerra de manchetes, onde a suas respectivas imagens diante da opinião pública contam tanto quanto a caçada que um empreende ao outro.

Se Dillinger é o melhor dos filmes de Milius, isto talvez se dê justamente por ser aquele onde estes objetivos fiquem melhor traçados e equilibrados, além de ser aquele onde a sua visão de mundo e talvez em especial a parte dela que nem ele mesmo parece ter controle, melhor se apresenta. Primeiro, o diretor toma um ponto de partido raro, se não único no gênero, para narrar a história do mais famoso ladrão de bancos americano, ele adota o ponto de vista de Purvis, o homem que o caçou impiedosamente. E é assim que se dá o início do filme, nossa posição diante de Dillinger é sempre estranha, vemos um homem falastrão, violento e distante. Como se Milius partiu para o projeto para fazer um revisionismo na figura habitual do gangster carismático. Então algo acontece e Dillinger começa a se tornar progressivamente mais humano, envolvente e por fim, carismático. O filme nunca abandona o ponto de vista de Purvis que segue sendo nosso primeiro olhar sobre a história, mas Dillinger deixa de ser o vilão para ser um anti-herói. E o filme deixa de ser a construção do mito do grande policial Purvis que caçou vários dos bandidos mais perigosos do seu tempo — além de Dillinger, ele arranjou tempo de perseguir quase toda a lista dos 10 mais procurados da época e o filme quebra sua narrativa há todo momento para mostrar a sempre heróica captura ou execução de um deles –, e se torna também a construção de um outro mito, o do grande anti-herói John Dillinger. Quase como se Milius tivesse partido para detonar o seu biografado e no meio do projeto se apaixonado pela figura dele. No final não só Purvis admite que passou a nutrir um grande respeito por ele (respeito este não estendido aos outros gangsters, em especial a um demente Baby Face Nelson, não só morto por Purvis, mas antes humilhado pelo próprio Dillinger) como a posição entre a policia e os gangsters começa a se confundir (o gerente do cinema de onde Dillinger sairá para a morte e o mito, confunde os policiais que o esperam a paisana com bandidos).

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Watson Macedo

Na correria não trive tempo de comentar, mas vale destacar para os meus três leitores de Brasilia que no CCBB de lá está acontecendo uma retrospectiva do Watson Macedo cuja curadoria é minha. A programação conta com 14 filmes, alguns dos quais passam bem pouco, incluindo um amplo destaque para a fase pós-Atlantida dele.

A programação está aqui.

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Chantal Akerman no CCBB

Começa quarta-feira a retrospectiva da Chantal Akerman no CCBB-SP. Com exceção da prometida retrospectiva do Garrel, é difícil que o cinéfilo paulistano encontre um evento tão importante este ano (sei que vai para o Rio também mas não tenho certeza das datas). A própria Akerman deve vir participar de um bate-papo. No mínimo Jeanne Dielman, Eu Tu Ele Ela, Encontros com Anna, Noticias de Casa, Toda uma Noite, Noite e Dia e A Prisioneira são filmes obrigatórios. Não se trata de uma mostra completa, mas ela conta com todos os filmes mais elogiados da cineasta. A programação está aqui.

Ficam aqui também os links para os três ótimos textos que a Contra publicou sobre A Prisioneira quando o filme passou no Festival do Rio de 2001:
Eduardo Valente
Fernando Verissimo
Ruy Gardnier

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The Hurt Locker (Kathryn Bigelow,08)

Kathryn Bigelow certamente fez o melhor sci-fi hawksiano sobre a guerra do Iraque. Filme impressionante justamente na forma como existe exclusivamente por conta da ação. Não existe nada em cena que não envolva os três personagens centrais (uma unidade de desarmadores de bomba do exercito americano) lidando com seu trabalho. As 3 ou 4 cenas que escapam deste foco são filmadas de forma a destacar como o interesse de Bigelow esta bem distante delas. Tudo que nos podemos compreender dos personagens surge exclusivamente de como estes homens se portam diante do seu trabalho (há uma sequência de cerca de quinze minutos envolvendo uma bomba num carro que é uma aula de como usar ação para melhor estabelecer personagens). O filme se estrutura como uma série de trabalhos variados que os três soldados têm de se submeter (bem diferentes entre eles e evitando as ações óbvias com bombas que o espectador já está acostumado). Trata-se fácil do mais autentico filme sobre a guerra do Iraque lançado até agora com uma atenção para detalhes do trabalho de soldados que sugerem um trabalho extenso de pesquisa, mas ao mesmo tempo impressiona como a Bigelow faz bom uso da sua longa experiência em filmes de gênero para estabelecer a atmosfera do filme. Pois apesar de toda sua autenticidade, The Hurt Locker parece-nos sempre uma experiência fantástica com homens colocados num universo paralelo tanto para o espectador – e o filme certamente reforça sempre o estranhamento do que esta em cena – como para eles mesmos. A idéia central – a guerra como um vício – recebe um tratamento que se assemelha mais de como este tipo de metáfora costuma surgir nos filmes de horror ou ficção cientifica, é quase um vírus cronenbergiano que existe ali em meio aos personagens. Tudo isto com o contraponto desta enfâse em trabalho/ação e um pragmatismo/estoicismo hawksiano na maneira com que cada personagem se relaciona com as tarefas que recebem.

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Operação Valquiria (Bryan Singer,08)

Bryan Singer é um cineasta de virtudes modestas, mas elas lhe servem bem neste eficiente thriller histórico. Há um tom solene por vezes excessivo, mas que também sugere uma contenção bastante funcional. Singer é especialmente eficaz ao sugerir as diferentes maneiras com que o fluxo de informações trabalha a favor e contra o golpe. Por exemplo como o golpe depende do fato de Hitler acreditar que o personagem de Cruise seja algum oficial-modelo ajudado certamente por informações filtrados (que Singer nunca se esforce em por grande ênfase nisso colabora com o filme). No geral Operação Valquíria esta mais ocupado em desenvolver a mecânica da ação e a de gerar suspense a partir de ações pré determinadas (o filme por vezes se assemelha a um filme desastre na sua lógica). Como disse é um filme modesto e funcional e não há nenhum demérito nisso.

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Inacio Araujo e as bobagens do Boyle

Como sempre é um prazer ler o Inacio Araujo quando um filme lhe ofende. Neste caso o filme indiano do Danny Boyle que é mesmo uma grande tolice. Um trecho:

Daí sabemos que é bom ficar preparado: a cada resposta corresponderá um episódio do tipo -e a coisa vai a 20 milhões de rúpias ou, pior, duas longas horas de filme. Nesse intervalo veremos a mãe de Jamal pegar fogo; Jamal, o irmão e a amiguinha serem recolhidos por um gângster, que faz crianças pedirem esmola; um desses meninos ter os olhos arrancados para comover os passantes. Vista por Boyle, a Índia é um esgoto a céu aberto, moralmente inclusive. Nesse lodo viceja a alma pura de Jamal, uma mistura do estoicismo do dr. Kimble de “O Fugitivo” com a ingenuidade de Forrest Gump. Com ele entramos no terreno do prodígio. Jamal é puro, bom e forte o bastante para sobreviver. O que o torna assim? Algo de sua natureza, ou da ordem do destino. Ou seja, embora use a mão pesada para os problemas indianos, a explicação do caráter de seu herói é metafísica. Jamal passa incólume por tudo, como esse mundo infame em que vive não o afetasse. Para fechar esse abacaxi, ocorreu a alguém transformar tudo em musical (é como o filme termina -e não há problema em saber, não tem nada a ver com a história): é como se a inconsequência final livrasse o filme da infâmia. Não livra.

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