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K-19 (Kathryn Bigelow,02)

O mais genérico filme da carreira de Bigelow, K-19 se atem com afinco a formula do filme de submarino tanto nas suas situações como nas opções de direção. Longe de ser um filme memorável, K-19 é muito eficaz (desde que se ignore Harrison Ford que é um problema bem maior aqui do que Keanu Reeves era em Point Break). Bigelow é bem hábil em manipular o espaço fechado de acordo com as intensidades dramáticas do filme. Alem disso há algo muito simpático na forma como filme vai aos poucos acumulando de forma casual situações e personagens típicos do gênero e negociando entre eles. A trama em si é uma relíquia de Guerra Fria e Bigelow trabalha habilmente em sugerir os diferentes significados para ações dentro do contexto da Guerra Fria e filmá-la 40 anos após os fatos.

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O Peso da Água (Kathryn Bigelow,00)

O Peso da Água é de longe a produção mais respeitável que Bigelow comandou e é também fácil a pior. Não que estejamos no terreno de filme para Oscar e similares (a cineasta tem gosto demais pelo pulp para isso), mas nada no filme funciona minimamente bem. São duas tramas um tanto histéricas em tempos diferentes que supostamente deveriam se iluminar, mas o corte entre elas colabora mais para fragilizá-las e revelar seu esquematismo.  Não que sejam grande coisa por si só o filme flashback é competente e rotineiro, o contemporâneo (que toma a maior parte do tempo) só medíocre. Há algumas imagens fortes distribuídas ao longo do filme e conceito geral não é mal, mas o filme desmorona sem um centro.

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Estranhos Prazeres (Kathryn Bigelow,95)

Estranhos Prazeres não deixa de ser o exato oposto de Caçadores de Emoção: dois ótimos atores (Ralph Fiennes e Ângela Bassett) para ancora-lo e um roteiro (de James Cameron e Jay Cocks) que se esforça muito para ser esperto. Estranhos Prazeres cria um mundo próprio muito bem e até consegue usar a seu favor a primeira vista questionável decisão de colocar Fiennes e Bassett no meio de um festival de over actors (Tom Sizemore, Michael Wincott, Vincent d’Onofrio, etc.). Mais importante ele faz aquilo que todo bom sci-fi exploit devia fazer bem que é drenar o seu momento o máximo possível. Eis um filme datado no melhor sentido possível. Por outro lado, Estranhos Prazeres sofre do problema inverso ao de Caçadores de Emoções já que Cameron e Cocks se esforçam tanto para sublinhar suas pretensas idéias que o filme por vezes ameaça desmoronar sobre seu próprio peso. Se a internet tivesse o mesmo peso em 95 do que hoje, este seria um filme muito querido em blogs e fóruns por ai, ou seja dez anos depois ele seria escrito pelo David S. Goyer e isto nunca é algo bom. Eu gosto de Estranhos de Prazeres, assim como gosto de Caçadores de Emoções, mas não deixa de ser curioso como ambos acabam fragilizados por razões similares e opostas.

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Caçadores de Emoção (Kathryn Bigelow,91)

Caçadores de Emoção é de longe o mais genérico dos filmes da primeira parte da carreira de Bigelow, ele também tem o azar de ser protagonizado por Keanu Reeves e Patrick Swayze e contar com um roteiro tão agressivamente idiota que o protagonista se infiltra usando seu nome e passado e isto nunca sequer se torna um ponto da trama. Isto tudo dito Casçadores de Emoções jamais será confundido com Heat, mas como uma série de imagens tiradas do contexto da narrativa não deixa de ser impressionante e não tem como não se admirar como o filme se agarra a suas idéias mais absurdas. A perseguição no centro do filme, em especial, é digna de Friedkin e os dois assaltos são uma aula de montagem.

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Jogo Perverso (Kathryn Bigelow,90)

Trata-se do filme mais frustrante da cineasta na medida que seu méritos e defeitos são tão intimamente ligados. Na altura dos últimos vinte minutos quando Ron Silver se transforma no Michael Meyers yuppie munido de uma 44, Jogo Perverso abandona qualquer pretensão a narrativa, realismo e mais puro bom senso para se transformar num dos mais impressionantes delírios filmados do período. Poucas vezes se vê um filme dos últimos vinte anos que se relaciona tão perfeitamente com o que Raoul Ruiz descreve no seu Poéticas do Cinema como o filme B americano não-narrativo que lhe interessava na infância. Há de se respeitar o comprometimento do filme com sua visão e disposição de leva-la ao extremo. O problema é que em boa parte da primeira hora Jogo Perverso é pouco mais que um filme policia genérico com alguns elementos intrigantes, um tom perverso e uma inevitável impressão de que se trata de um filme muito burro feito por gente qualificada para material melhor. O filme todo está bem representado na atuação de Silver, durante uma boa hora se tem certeza que ele está pagando mico e depois tudo se justifica. Só que não importa quantas vezes se reviste o filme, sabe-se que os primeiros dois terços dele vão irritar.

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Quando Chega a Escuridão (Kathryn Bigelow,87)

Este exercício de ver os filmes diariamente e em ordem cronológica ajuda a jogar luz sobre muita coisa. Na sua base este Quando Chega a Escuridão parte de um conceito simples executado de forma exemplar: pegar a dramaturgia típica de um filme de vampiros e substituir todos os significantes por outros tipicamente americanos (já mencionei que Bigelow editava uma revista de semiótica na faculdade?). A família de vampiros do filme poderia sair de um filme anos 70 de Tobe Hooper ou Wes Craven. A narrativa do filme é reduzida ao essencial com todos os adereços associados ao subgênero substituídos por ação simples e direta (tanto o tiroteio no motel quanto a seqüência do bar são primorosas). Ao mesmo tempo ele está muito distante de híbridos como Vampiros ou Um Drink no Inferno. E daí percebe-se o grande salto desde The Loveless, Quando Chega a Escuridão nunca sugere um exercício cinéfilo. Bigelow encontra o seu tom de melancolia romântica e a paisagem noturna do oeste americano para acompanhá-la e leva até o fim. É notável também que a despeito de vários elementos dispares o filme seja tão coeso.

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Enquanto o circuito não colabora

Descobri ontem que o filme da Kathryn Bigelow já saiu em DVD por aqui. Pena, contava em assistir-lo numa tela grande. E o nosso circuito segue de mal a pior. De qualquer forma fica a dica.

Por sinal, A Viagem do Balão Vermelho também chega por agora as locadoras. Pelo menos vi o belo filme do Hou duas vezes em cinema.

Alias, os dois filmes são melhores do que qualquer filme não dirigido por Clint Eastwood a chegar aos cinemas nacionais este ano.

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The Hurt Locker (Kathryn Bigelow,08)

Kathryn Bigelow certamente fez o melhor sci-fi hawksiano sobre a guerra do Iraque. Filme impressionante justamente na forma como existe exclusivamente por conta da ação. Não existe nada em cena que não envolva os três personagens centrais (uma unidade de desarmadores de bomba do exercito americano) lidando com seu trabalho. As 3 ou 4 cenas que escapam deste foco são filmadas de forma a destacar como o interesse de Bigelow esta bem distante delas. Tudo que nos podemos compreender dos personagens surge exclusivamente de como estes homens se portam diante do seu trabalho (há uma sequência de cerca de quinze minutos envolvendo uma bomba num carro que é uma aula de como usar ação para melhor estabelecer personagens). O filme se estrutura como uma série de trabalhos variados que os três soldados têm de se submeter (bem diferentes entre eles e evitando as ações óbvias com bombas que o espectador já está acostumado). Trata-se fácil do mais autentico filme sobre a guerra do Iraque lançado até agora com uma atenção para detalhes do trabalho de soldados que sugerem um trabalho extenso de pesquisa, mas ao mesmo tempo impressiona como a Bigelow faz bom uso da sua longa experiência em filmes de gênero para estabelecer a atmosfera do filme. Pois apesar de toda sua autenticidade, The Hurt Locker parece-nos sempre uma experiência fantástica com homens colocados num universo paralelo tanto para o espectador – e o filme certamente reforça sempre o estranhamento do que esta em cena – como para eles mesmos. A idéia central – a guerra como um vício – recebe um tratamento que se assemelha mais de como este tipo de metáfora costuma surgir nos filmes de horror ou ficção cientifica, é quase um vírus cronenbergiano que existe ali em meio aos personagens. Tudo isto com o contraponto desta enfâse em trabalho/ação e um pragmatismo/estoicismo hawksiano na maneira com que cada personagem se relaciona com as tarefas que recebem.

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