Figuras Traçadas na Luz

Passando pela vitrine da Livraria Cultura vejo que a Papirus lançou o Figures Traced In Light do David Bordwell. È um lançamento bem acima da média dos livros de cinema que aportam por aqui, usando alguns cineastas (Mizoguchi, Hou, Feillude, Angelopoulos) para discutir mise en scene. O preço é salgado (mais caro do que eu paguei no original uns três anos atras) e tem aquele estilo academico/sistematizador quer é o próprio de Bordwell, mas tem muitas idéias interessantes ali.

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Até amanhã o blog esta de volta a sua programação normal.

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Daniel tem um texto bem interessante meio que em resposta ao artigo do Junior para Contra. Lá no Passarim.

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Cahiers

Como já era esperado a novela da venda da Cahiers foi oficilizada ontem com a Phaidon assumindo a revista. Agora é esperar para ver as mudanças estruturais que serão impostas a revista. Pior dificilmente fica (alias em 2008 a Cahiers espanhola foi bem mais interessante que a francesa).

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O Fim da Picada (Christian Saghaard,08)

O filme do Christian Saghaard é incomum dentro do cenário brasileiro pela forma como mistura o fantástico dentro de um terreno banal. É um filme de terror urbano, mas não exatamente um filme de gênero. A idéia central – São Paulo como parque diversões de horror, que curiosamente acha ecos no clímax de Encarnação do Demônio – é forte o suficiente para conduzir o filme e, além disso, Saghaard tem a seu favor uma montagem muito boa e algumas ótimas sacadas. Saghaard sabe pegar o que a primeira vista seria uma típica situação do inferno paulistano e encontrar algo novo nela seja por algum detalhe ou pelo toque sobrenatural que envolve tudo. Termina lembrando bastante o lado mais pessimista do cinema marginal, mas ao contrário da maior dos filmes brasileiros lida muito bem com sua herança (talvez o filme seja junto com Conceição, os únicos filmes de cineastas da nova geração bem resolvidos com a história do cinema nacional). É verdade que o filme nem sempre se resolve completamente dentro de todo o seu peso e amargura, mas no processo extrai muita força da cidade.

Para os paulistanos fica a dica de que ainda passa no CCBB Sábado as 13h e Domingo as 19h. Vale muito a pena ser visto e até onde eu sei não tem previsão de entrar em cartaz.

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Don’t Make Waves (Alexander Mackendrick,67)

O último filme de Mackendrick coloca o seu bom olhar satírico no que poderia ser mais um veiculo rotineiro para Tony Curtis. O alvo no caso é Califórnia onde Mackencrick à época residia (ele passou boa parte dos 60 e 70 como dando aulas de direção em faculdades de cinema de lá). Não deixa de lembrar alguns dos filmes regionais de Blake Edwards, mas bem menos afetuoso. O filme é menos elegante (e também bem menos pomposo) que A Embriaguez do Sucesso, mas Mackendrick e Curtis se esforçam bastante para trazer a memória da sua parceria anterior na forma como Curtis parece interpretar uma versão mais solta do seu Sidney Falco. O clímax é um exemplar interessante do colapso entre o trabalho de direção de Mackendrick que tenta extrair o máximo da situação apresentada e um texto que parece se esforçar igualmente para se esquivar dos conflitos que havia levantado até ali. Um excelente último filme, apesar de A High Wind in Jamaica seguir sendo meu favorito entre os filmes americanos dele.

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Tiradentes – Os Premiados

E o filme do Felipe e da Marina, A Fuga da Mulher Gorila, ganhou tanto o prêmio da critica quanto o do Juri Jovem. O juri da crítica também ofereceu uma menção honrosa para A Casa de Sandro do Gustavo Beck (que não parece ter empolgado muita gente, mas cujas descrições são bem animadoras). O prêmio popular ficou com o documentário dos Titãs.

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Foi Apenas um Sonho (Sam Mendes,08)

Mais que simplesmente um filme péssimo (e podem ter certeza de que eu preferiria passar um dia trancado numa sala de cinema revendo Austrália do que me sujeitar a uma revisão desta coisa), trata-se de um filme que expõe muito bem o fracasso de Mendes como cineasta. Não pelo mesmo tipo de inépcia que termina afundando um Baz Lhurman, mas por uma completa incapacidade de impor sobre o seu material um ponto de vista. Isto tudo porque a lógica que domina o olhar de Mendes é apresentar cada cena da forma que ele considera mais vendável para o público. O resultado é que a cada escolha Mendes sempre opta pelas saídas mais desinteressantes e óbvias possíveis (e infelizmente empurra seu excelente elenco, que poderia dar alguma credibilidade ao filme, pelo mesmo caminho). Peguemos uma cena próxima ao final do filme como exemplo: um casal recebe seus novos vizinhos e fofoca sobre outro casal de amigos até que o homem se afasta chateado. No livro em que o filme se baseia o sujeito esta irritado com a esposa por seguir revisitando a tal história, na versão de Mendes, esta chateado por conta da sua paixão pela a outra mulher. A questão não é de fidelidade ao material, mas de opções. Mendes sempre opta por realçar a “crítica aos subúrbios” que é afinal muito vendável, mas quando uma cena que se encaixa perfeitamente nesta leitura aparece, mas ele encontra uma outra embalagem ainda mais fácil, não consegue resistir. Termina com um filme bem ao gosto dos seus próprios personagens, o que neste caso não é uma boa idéia.

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A Fuga da Mulher Gorila

Enquanto aqui em São Paulo a Retrospectiva do Cinema Paulista segue firme (amanhã passa o imperdível Bacalhau), lá em Tiradentes rolou ontem a primeira exibição da estreia do Felipe Bragança e Marina Meliande na direção A Fuga, A Raiva, A Dança, A Bunda, A Boca, A Calma, A Vida da Mulher Gorila. Algumas criticas:

Cinequanon
Filmes Polvo
Moviola

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Ainda na Contra

A Contra também publicou um provocante ensaio/diagnostico do Luiz Carlos Oliveira Jr sobre a relação da critica brasileira e o nosso cinema.

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Melhores da Contra

Discretamente a Contracampo publicou suas listas de melhores do ano.

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Austrália (Baz Luhrman,08)

Austrália é um objeto tão excêntrico e disposto a seguir sua própria muito peculiar lógica com tamanho afinco, que é uma pena que tão pouco se salve ao fim do filme. Conceitualmente Luhrman tem algumas boas sacadas especialmente na forma como este suposto épico para Oscar lança mão de alguns elementos de cinema popular australiano. Só que quinze anos e quatro longas depois, Luhrman segue incapaz de ligar dois planos e não existem boas idéias que sobrevivam a tanta inépcia. Algo que se torna ainda mais grave dada as ambições do cineasta já que alguém com tão pouco controle sobre seu filme definitivamente não deveria arriscar as alternâncias de tom que Luhrman tenta aqui. O filme termina por fazer pouco mais que reforçar que Luhrman é uma sensibilidade única completamente desprovida de talento.

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Retrospectiva do Cinema Paulista

Começa oficialmente terça feira no CCBB uma mostra bem legal com curadoria do Sergio que inclui um panorama bem amplo do cinema paulista da Vera Cruz até a primeira exibição aqui em São Paulo do ótimo O Fim da Picada (ganhador do Cinema Esquema Novo do ano passado). A programação é bem plural incluindo desde clássicos estabelicidos como O Grande Momento, São Paulo S/A e O Bandido da Luz Vermelha, passando por produções da Boca como Bacalhau (Adriano Stuart), Excitação (Jean Garrett) e O Gosto do Pecado (Claudio Cunha) , raridades (As Belas da Billings do Candeias) e filmes importantes como A Hora da Estrela, Alma Corsária e O Prisioneiro da Grade de Ferro. Ou seja Sergio e o Francis (que é o produtor) capricharam numa seleção bem plural. Amanhã já rola uma prévia com exibições a partir das 15hrs de São Paulo Poema Cidade (Aloysio Raulino), São Paulo Sinfonia e Cacofonia (Jean-Claude Bernardet) e O Vampiro da Cinemateca (Jairo Ferreira).

Vale destacar que domingo e terça quem frequentar o CCBB terá a oportunidade única de assistir em sessão dupla filmes de Jean-Claude Bernardet e Jairo Ferreira, só por este curto-circuito crítico já se trata de um evento histórico.

A seleção completa dos filmes e a programação está disponivel aqui.

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Listas

Com a Film Comment em mãos dá para postar uma série de listas individuais bem interessantes.

Thom Andersen
1. O Romance de Ástrea e Celadon (Eric Rohmer)
2. Não Toque no Machado (Jacques Rivette)
3. The Exiles (Kent Mackenzie)
4. A Viagem do Balão Vermelho (Hou Hsiao-Hsien)
5. Hamaca Paraguaya (Paz Encina)
6. Still Life (Jia Zhang-ke)
7. RR (James Benning)
8. Pecados Inocentes (Tom Kalin)
9. Wendy & Lucy (Kelly Reichardt)
10. Profit Motive and the Whispering Wind (John Gianvito)

Frederic Bonnaud
1. Two Lovers (James Gray)
2. Mulher na Praia (Hong Sang-soo)
3. Viagem a Darjeeling (Wes Anerson)
4. Quatro Noites com Anna (Jerzy Skolimowski)
5. O Ultimo Reduto (Rabah Ameur-Zemeiche)
6. A Fronteira da Alvorada (Phillipe Garrel)
7. Waltz with Bashir (Ari Folman)
8. O Silencio de Lorna (Jean-Pierre e Luc Dardenne)
9. A Vida Moderna (Raymond Depardon)
10. Redacted (Brian De Palma)

Shigehiko Hasumi
Alexandra (Alexandr Sokurov)
O Romance de Ástrea e Celadon
Viagem a Darjeeling
Os Donos da Noite (James Gray)
En La Ciudad de Sylvia (José Luis Guerin)
Quatro Noites com Anna
Le Genou d’Artemide e Itinéraire de Jean Bricard (Straub/Huillet)
Sweeney Todd (Tim Burton)
Sonata de Tóquio (Kiyoshi Kurosawa)
Youth Without Youth (Francis Ford Coppola)
+ Merde (Leos Carax)

Alexander Howarth
1. Horas de Verão (Olivier Assayas)
2. Still Walking (Hirozu Kore-Eda)
Um Conto de Natal (Arnaud Desplachin)
Gomorra (Matteo Gorrone)
3. Aquele Querido Mês de Agosto (Miguel Gomes)
Jerichow (Christian Petzold)
Revanche (Gotz Spillman)
Tony Manero (Pablo Larrain)
Synedoche, New York (Charlie Kaufman)
Wendy & Lucy

Kent Jones
1. Horas de Verão
A Mulher Sem Cabeça (Lucrecia Martel)
RR
2. Um Conto de Natal
O Curioso Caso de Benjamin Button (David Fincher)
A Fronteira da Alvorada/Chouga (Darezhan Ormibaiev)
Generation Kill (David Simon/Ed Burns, TV)
Me and Orson Welles (Richard Linklater)
Tokyo Sonata
3. 35 Shots of Rhum (Claire Denis)
Wall-E (Andrew Stanton)
Wendy & Lucy/Rebobine, Por Favor (Michel Gondry)

Olaf Möller
Filme do ano:
Prisioner/Terrorist (Masao Adachi)

A Encarnação do Dêmonio (José Mojica Marins)
The Hurt Locker (Kathryn Bigelow)
Inju (Barbet Schroeder)
Itinéraire de Jean Bricard
Letter to a Child (Vlado Skafar)
Manilla in the Fangs of Darkness (Khavn)
Melancholia (Lav Diaz)
Ten Oxherding Pictures #3 Viewing the Ox in Tibet ((Lee Jisang)
Tonight (Werner Schroeter)
Valkyrie (Brian Singer)
Wild Field (Mikhail Kalatozishvili)

Manuel Yañez-Murillo
24 City (Jia Zhang-ke)
35 Shots of Rhum
El Cant del Ocells (Albert Serra)
Um Conto de Natal
Generation Kill
Ponyo in a Cliff by the Sea (Hayao Miyazaki)
Sangue Negro (Paul Thomas Anderson)
Sonata de Tóquio
Vegas: Based on a True Story (Amir Naderi)
The Wire 5 Temporada (David Simon)

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Eastwood

Sou muito novo para me lembrar dos tempos em que Clint Eastwood não tinha nenhuma reputação, minha cinefilia começa durante o trio Imperdoáveis/Mundo Perfeito/Pontes de Madison que sedimentou parcialmente sua imagem como cineasta de verdade, mas me lembro bem do longo período entre Poder Absoluto e Divida de Sangue quando ser fã de Clint Eastwood era tarefa difícil. Não porque os filmes fossem fracos. Bem longe disso, apesar de que com distancia e sem a necessidade de partir em sua defesa a cada filme é visível que não se trata do mais brilhante dos períodos (exceção feita ao ainda muito subestimado Crime Verdadeiro). E era preciso defendê-lo a cada filme porque o tom derrogatório sempre ressurgia em peso a cada lançamento (“o roteiro tem tantos buracos que parece até filme brasileiro”, a Set sobre Crime Verdadeiro). Acho fascinante como a transformação a partir de Sobre Meninos e Lobos e sobretudo como ela no final das contas foi só cosmética. Todos os últimos seis filmes de Eastwood chegaram até nós com toda pompa, circunstancia e prestigio possíveis. A Troca é um Clint Eastwood legitimo, mas a embalagem não deixa de estar muito distante dos tempos de Crime Verdadeiro quando defender Eastwood era tão trabalhoso quanto defender Carpenter (o Ruy até defendeu ao filme junto com Vampiros nos áureos tempos da Contracampo). Mas de alguma forma ser fã do Eastwood mudou muito pouco. Basta ver o tom um tanto defensivo de muitos sobre o filme. Não por conseqüência de alguns serem incapazes de abandonar velhas posturas outra tolice do tipo. Mas porque de alguma forma por trás de toda pompa em muitos meios permanece um desejo de desmascarar “a farsa Eastwood”, e ao cinéfilo que aprecia o seu trabalho cabe a cada filme recomeçar o mesmo esforço de justificar porque Eastwood é uma figura essencial. Já li barbaridades a respeito de A Troca, espero barbaridades ainda piores a respeito de Gran Torino (um Eastwood muito superior, mas com menos áurea de filme respeitável e uma perspectiva fulleriana muito distante das sensibilidades do bom cinema por volta de 2009). O paradoxo da recepção do Eastwood não tem muitos equivalentes com nenhum outro cineasta em nenhum outro momento.

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