Arquivo do mês: janeiro 2010

Inácio como sempre preciso

Nada como ler Inácio Araujo que diz mais numa nota de rodapé do que muitos criticos em 5 mil toques. Sobre Invictus:

(P.S. – Pode-se apontar uma série de fraquezas no filme. Pode-se dizer que existe um “núcleo branco” desenvolvido quase que nem em novela. ou que a cena da distribuição de um ticket para a empregada é frouxíssima (dessa eu não discordo, aliás). Mas a grandeza de Clint está, em parte, em ser alguém muito prático. Faz filmes modernos não porque recorra a técnicas modernas ou acelere absurdamente a duração dos planos. Mas porque tem algo a dizer ao tempo presente, concorde-se ou não, e diz. Seu cinema nunca é um passatempo, embora pareça, de tão agradável que é.)

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Ivan Passer

Uns 2 meses atrás escrevi um artigo sobre Jerzy Skolimowski para a Revista Taturana e me peguei pensando na diáspora dos cineastas do antigo bloco comunista e como isto afetou muitas vezes as carreiras deles. Skolimowski não deixa de ser um bom exemplo disso sobretudo nos anos 70 quando teve grandes problemas para filmar e ele mesmo admitiu que o longo intervalo mais recente na sua produção foi efeito do seu cansaço com o modelo de co-produção internacional que sustentou a segunda fase da sua carreira nos anos 80.

Mas a carreira de Skolimowski é um exemplo de eficiência comparada a de alguém como Ivan Passer. O checo fez um filme no pais natal (Intimate Lighting, não dos mais famosos do período, mas que mais que merece uma olhada) e escreveu os roteiros para Os Amores de uma Loira e O Baile do Bombeiro, antes de se mandar para os EUA na virada década. A carreira ocidental de Passer é o perfeito oposto da de Forman, quase toda passada em pequenos filmes de gênero. Uma olhada rápida na sua pagina do IMDb revela uma série de títulos obscuros e uma trajetória que se desenvolve de maneira muito peculiar. Nem todos os filmes de Passer são bem sucedidos, mas no mínimo costumam se assemelhar a Silver Bears (78), uma bem sólida comédia de golpe que Passer filme na Inglaterra com bom elenco (Michel Caine, David Warner, Stephane Audran). Tenho ótimas memórias do filme visto num VHS de pan & scan terrível (que antes dos downloads era a única forma possível de se assistir a qualquer cópia de seus filmes aqui), revendo alguns trechos numa boa cópia me pareceu provavelmente melhor que minhas lembranças.

De qualquer forma, Ivan Passer teve duas grandes oportunidades e fez o melhor delas. Tanto Born to Win (71) como Cutter’s Way (81) são grandes filmes e entre o que melhor se filmou nos EUA à época. Born to Win é um dos melhores filmes sobre viciados em drogas feitos. Muito menos interessado na condescendência de sempre e mais em usar os hábitos do protagonista (um excelente George Segal) como ponto de partida para um saio sobre desraizamento não muito distante dos filmes que Bob Rafelson fizera à época. Assim como oportunidade para um grande numero de seqüências absurdas muito imaginativas. Independente dos desastres que lhe incorrem, Segal é menos um perdedor patético e mais um homem com uma missão. Para a sorte de Born to Win, o filme tem Robert DeNiro num papel pequeno, o que lhe ajudou a sobreviver ao tempo (me lembro que o antigo VHS em que o vi pela primeira vez vendia o filme como um veículo de DeNiro e o DVD americano que eu tenho faz o mesmo).

Já Cutter’s Way fica a principio no outro extremo do bom cinema americano da época. Um neo noir com óbvios ecos de revisionismo, é um filme mais complexo e interessante do que sua superfície sugere. A trama excessivamente complexa e obtusa e as reverberações de gênero servem como pouco mais que ponto de partida, mesmo o mitológico industrial que talvez cometera o assassinato que serve de gancho ao filme nunca existe como verdadeiro ponto de chegada só um espelho para diversas reações diferentes. Há um pouco de Pynchon no tom de paranóia absurda com que Passer conduz o filme e ele faz uso excelente das locações em Santa Barbara e do seu elenco (Jeff Bridges e John Heard nunca estiveram melhores). O Cutter de Heard é uma espécie de Travis Bickle sem o alivio que a presença de um De Niro traz. Segue um dos melhores filmes sobre o pós-anos 60.

Aproveitando, Born to Win está disponivel integralmente no You Tube num streamind bem decente. É longe do ideal, mas como o filme é raro fico o link.

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Falando em revistas importadas

Recomendo muito o numero novo da Cinema Scope que está a venda em algumas bancas na região da Paulista (e na Fnac). Pelo menos 3 artigos imperdiveis:

Christoph Huber sobre Joe Dante

Olaf Moller sobre Lino Brocka

Critica do Serge Bozon ao novo Rivette

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Listas e mais listas

Quando postei a lista da Film Comment mencionei que mais interessante do que ela seriam as listas individuais. Pois bem, revista em mão segue ai cerca de 50 das listas mais interessantes: Continuar lendo

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Melhores de 2009 V

10) Histórias Extraordinárias (Mariano Lliñas)

Lliñas recupera um espírito de aventura e curiosidade. Poucos filmes exibem tamanho prazer com a arte de contar histórias.

9) Singularidades de uma Rapariga Loira (Manoel de Oliveira)

8 ) Bellamy (Claude Chabrol)

Bellamy é composto quase exclusivamente de ações que acontecem lateralmente a sua trama. Seu personagem titulo parece estar sempre pausando para algo. É a mise en scene de Chabrol na sua versão mais depurada.

7) Let Each One Go Where He May (Ben Russell)

Russell lança mão de dois dos procedimentos mais utilizados da década: o semi documental colaborativo à Costa/Alonso e o plano seqüência e consegue arejá-los. Russell pouco nos informa (pesquisando descobrimos que os dois protagonistas são irmãos e que a ação transcorre no Suriname), mas apresenta um dos espetáculos formais mais impressionantes do ano e uma jornada que é sempre instigante.

6) The Hurt Locker (Kathryn Bigelow)

Filme impressionante justamente na forma como existe exclusivamente por conta da ação. Não existe nada em cena que não envolva os três personagens centrais lidando com seu trabalho. Tudo que nos podemos compreender dos personagens surge exclusivamente de como estes homens se portam diante do seu trabalho (há uma sequência de cerca de quinze minutos envolvendo uma bomba num carro que é uma aula de como usar ação para melhor estabelecer personagens). Desde que escrevi sobre ele no começo de Março, o filme da Bigelow gerou tanto hype que se tornou o primeiro filme a ser lançado nos cinemas por aqui depois de chegar direto em DVD, como era inevitável os comentários de “não é tão bom assim” começaram a surgir, mas é um raro caso onde todo o hype é mais que justificado.

5) 35 Doses de Rum (Claire Denis)

Um aspecto curioso dos filmes de Denis é como seus filmes passados em Paris costumam ser bem mais narrativos que os demais. Talvez pela soma disso com a superstimada conexão com Ozu, 35 Doses de Rum não recebeu tanta atenção quanto merece, mas é dos melhores trabalhos de Denis.

4) A Religiosa Portuguesa (Eugene Green)

Eugene Green filma Lisboa. Filme de viagem na melhor acepção da palavra. Cinema do eterno.

3) A Familia Wolberg (Axelle Ropert)

Ropert escrevera os dois longas de Serge Bozon e seu filme divide com os dele o mesmo gosto pela estilização e construção de um universo particular e pela literatura e dramaturgia. A Familia Wolberg é uma compacta reconstrução dramática do melodrama familiar. É um filme de tom exato, algo raro de encontrar.

2) Um Lago (Philippe Grandrieux)

Mais do que um filme simples, Grandrieux faz um filme essencial. Quase como se sua câmera chegasse antes tudo. Há uma força primordial envolvida em quase tudo aqui das tensões do núcleo familiar, aos gestos, a natureza que envolve tudo, ao sons que envolvem toda a ação. Gosto dos outros filmes do Grandrieux, mas Um Lago é de uma força muito maior.

Estranho intervalo: acabo de observar que 3 dos 5 primeiros filmes da lista poderia receber a mesma sinopse de uma linha.

1) RR (James Benning)

Um grande filme de ação. Espécie de expansão épica de 10 Skies e 13 Lakes 43 trens em movimento das mais diversas formas, cores e terrenos possíveis (e é incrível como os trens são variados). Talvez seja o único dos filmes de Benning em que a câmera se sujeita ao objeto filmado. É um filme experimental de 2 horas sem diálogos ou pessoas, mas é um dos filmes mais essencialmente americanos da lista.

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Rohmer

Quando um cineasta como Rohmer falece vem sempre aquela frase do Inacio Araujo na ocasião da morte do Samuel Fuller “é um pouco como perder o pai, ele pode ter 120 anos que nada nos consola”. Minha grande lembrança de Rohmer é de quando o Cinesesc fez a retrospectiva dele em 2002, coincidiu com o Festival do Rio e eu infelizmente só tive como acompanhar 3 dias, mas eu acampei dentro do Sesc durante aquelas 3 tardes e noites (12 sessões, 11 filmes diferentes já que O Joelho de Claire passou duas vezes naquelas datas). Dos pontos altos dos meus 10 anos vivendo em São Paulo com certeza. Outro dia num sábado de madrugada escrevia no PC com a TV ligada quando vi que Astrea e Celadon começava na TV5, a TV estava lá só de fundo, mas cada vez que eu olhava para tela passava longos minutos ignorando o trabalho. O que mais impressiona em Rohmer é a consistência da sua obra: 50 anos de cinema e ele foi figura essencial ao longo de todos eles. Pensando por exemplo em cineastas franceses que começaram na mesma época que ele, eu creio que só Godard pode ser descrito como essenciais nos anos 60, 70, 80, 90 e 00. Se me perguntarei quais filmes são essenciais ou melhores portas de entrada, ficaria perdido sobre o que responder, não é por nada que pensamos a obra de Rohmer pelos conjuntos de filmes mais que por títulos específicos: são os contos morais mais do que Maud ou Claire, as Comedias e Provérbios mais que Pauline, os Contos das Estações mais que Verão ou Outono, etc.

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Melhores de 2009 IV

20) Ruhr (James Benning)

Primeiro filme do Benning filmado fora dos EUA se propõe a um retrato da região homônima um dos principais centros industriais da Alemanha. São só 7 planos de durações variadas (aviso: o último dura uma hora) cada um com um peso especifico e voltado para um aspecto diferente da região.

19) O Pai dos Meus Filhos (Mia Hansen-Love)

Escrevi sobre este na Cinética e não tenho muito a acrescentar, mas é um filme muito potente sobre presença.

18) Entre os Muros da Escola (Laurent Cantet)

Pobre Cantet sofre sempre porque seus “temas sociais” dominam terminam por dominar as discussões sobre seus filmes, Entre os Muros da Escola está muito mais para Rivette do que Tavernier, mas ninguém diria isso pelas críticas que o filme recebeu (elogiosas, inclusas). Como uma série de auto-ficções o filme é exemplar no trato com seu jovem elenco.

17) Inimigos Públicos (Michael Mann)

Para Mann a idéia de filme histórico pouco tem a ver com o “baseado em fatos reais”. Todos os fatos de Inimigos Públicos são da ordem material (lugares, roupas, objetos) e existem para serem devolvidos ao mito e ao melodrama. É como se Mann estivesse fascinado pela idéia de dissolver o concreto no abstrato e dali extrair outra representação que só possa existir eternizada na imagem. Não surpreende que um dos elementos mais memoráveis do filme seja a luz dos disparos de metralhadora e o som que os acompanha.

16) Amantes (James Gray)

Talvez o que de mais gratificante ocorreu no cinema americano narrativo nos últimos anos seja a reabilitação de Gray como cineasta essencial (lembro-me no começo da década de ficar possesso com um dos críticos do Estadão, creio que o Zanin, por escrever que a única justificativa para The Yards estar em Cannes era o dinheiro dos Weinstein). Amantes tem um mundo mais estreito do que os de The Yards e We Own the Night a despeito de ser o primeiro filme não gênero de Gray (parte por ser mais interiorizado parte pelo universo dos imigrantes russos dos trabalhos anteriores dele ser registrado com mais riqueza que a família judia aqui) , mas o que importa aqui como sempre é a forma como Gray vai ao coração do drama central, a sinceridade com que ele capta Leonard e seu meio.

15) Vengeance (Johnnie To)

Comentado aqui dez dias atrás, sem me estender mais trata-se de outro filme notável de To cujo trabalho nos últimos 5 anos é irrepreensível.

14) Moscou (Eduardo Coutinho)

Coutinho realizou o único grande filme brasileiro de 2009 (apesar de eu ser fã de alguns outros como imenso número de brasileiros nas menções honrosas desta lista atestam) ao retomar seu processo de forma ainda mais essencial. É com se a cada filme Coutinho elimina-se mais e mais elementos em busca do seu filme perfeito.

13) Ervas Daninhas (Alain Resnais)

Resnais entre a encenação mais artificial e a observação mais realista.

12) Like You Know It All (Hong Song-soo)


Hong Song-soo passou a década realizando anualmente o mesmíssimo filme, variando e depurando seu mesmo conto eustachiano de tipos artísticos coreanos perdidos entre mulheres, bebida, amigos. Cedo ou tarde irá começar a receber as inevitáveis críticas à Tsai/Dardenne de que faz exatamente o mesmo filme, será tão injusto com ele como com estes cineastas. Like You Know It All parece exatamente o mesmo filme que Mulher na Praia, mas diante dele isto nunca importa.

11) Independência (Raya Martin)

A força da presença contra a beleza do picturalismo. O artifício do estúdio e as convenções do “cinema de arte”. Cinema social via o mais completo anti-naturalismo. Um pouco como Sternberg mergulhado na abstração invés do melodrama. Bem mais aparentado de algo como Inimigos Públicos do que alguns fãs de ambos gostariam. Longe de um filme de festival pois Martin confunde sempre.

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Melhores de 2009 III

30) The Limits of Control (Jim Jamursch)

O melhor filme de Jamursch desde Dead Man é também uma espécie de complemento do seu melhor filme. Outra grande jornada anti-naturalista até a morte. Incluindo algumas das seqüências mais imaginativas de Jamursch e a presença impressionante de Isaach de Bankolé conduzindo o filme.

29) Vincere (Marco Bellochio)

Plano a plano poucos filmes tiveram o impacto do último trabalho do Bellochio, especilmente na primeira metade. É também um grande filme sobre como imagens e discursos são construídos.

28) Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino)

Escrevi quase tudo que tinha a dizer sobre o filme do Tarantino na minha critica na Cinetica, mas creio que a esta altura um desses casos estranhos de filmes ao mesmo tempo superestimados por alguns fãs e que recebe criticas pesadas de outros sem nenhuma justificativa. Me fascina também como o projeto do Tarantino neste ponto parece se encaixar perfeitamente em espaços dispares, é ao mesmo tempo um filme de arte estrutural parafestivais bem marcante e uma perfeita matinê.

27) A Bela Junie (Christophe Honoré)

Quase empatei Honoré com Tarantino já que é outro filme que causa reações extremas que não consigo compreender. Honoré tem suas limitações claras (algumas citações embrulha estômago como a ponta da Mastraionni, uma tendência em tentar neutralizar os conflitos com uma doçura forçada), mas ele as compensa com um tom romanesco e uma sensibilidade que me interessam. Nem sempre faz bons filmes (o novo é muito fraco), mas A Bela Junie me parece uma bela adaptação de A Princesa de Claves.

26) Shirin (Abbas Kiarostami)

Como parte da radicalização recente do cinema de Kiarostami me interessa mais que Cinco (apesar da ausência dos patos). Tanto a ênfase nos rostos como no fora de campo me parece usos mais consistentes dos interesses recentes de Kiarostami. Isto dito, fico muito excitado em imaginar o que flerte com avant garde dos últimos anos irá significar num projeto mais narrativo como o do seu próximo filme.

25) Todos os Outros (Maren Ade)

Ade trabalha o tempo todo em função de isolar o casal dentro da sua dinâmica própria. Parte da força de Todos os Outros reside justamente em como o filme é apto em captar a maneira como seu casal se comunica de forma própria, e todos os pequenos gestos que pertencem exclusivamente a eles. É um dos melhores filmes de linguagem corporal que vemos em muito tempo (e certamente não seria o mesmo sem o trabalho preciso dos seus dois atores centrais, Birgit Minichmayr e Lars Eidinger). É um filme sobre como uma relação vai se fragilizando num período especifico, mas sobretudo como este processo é escrito naqueles dois corpos – e só por isto já seria um filme notável.

24) Invictus (Clint Eastwood)

De Eastwood esperamos sempre pela precisão do olhar. Invictus não é um filme de esporte, mas um dos mais práticos filmes sobre política em muito tempo.

23) Policia Adjetivo (Corneliu Porumboiu)


Outro filme simples e prático dotado de um olhar dos mais precisos. As sequencias em que Porumboiu só acompanha seu policial a trabalhar/observar por si só valem o filme.

22) Morrer como um Homem (João Pedro Rodrigues)


No Ano de 13 Luas reimaginado por Jacques Nolot.

21) Barba Azul (Catherine Breillat)


As coisas no mundo de Barba Azul são exatamente o que aparentam ser. O casamento entre a jovem e o ogro é firmado no primeiro encontro entre eles justamente por reconhecerem-se pelo que são: o ogro quer a jovem pela sua inocência, ela não o teme pois seu mal não é dissimulado. Cada imagem do filme obedece à mesma lógica plana e clara. Se o cinema de Catherine Breillat é explicito, não é pela falta de pudor em filmar o sexo, mas pela frontalidade dessas imagens. Cada plano leva ao seguinte de forma exata e inevitável. A clareza com que seus personagens buscam, e fracassam em conseguir, é a maior qualidade de Barba Azul.

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Melhores de 2009 II

40) Gamer (Mark Neveldine/Brian Taylor)

Há uma considerável grosseria em Gamer a começar pelo montagem ADD que caracteriza todos os filmes da dupla Neveldine/Taylor. São duas coisas porém que tornam este de longe o melhor filme B do ano: primeiro os cineastas tem aquele talento à Tashlin/Verhoeven de observar as vulgaridades do seu tempo sem nenhum sinal de superioridade (pelo contrário Gamer é precisamente o filme que Neveldine e Taylor assistiam aos seus 13 anos no VCR entre sessões de filmes pornô e videogame). Segundo o filme tem o futuro sci-fi mais ricamente imaginado em muito tempo e não simplesmente na direção de arte/efeitos mas sobretudo em pensar como cada elemento deste futuro funciona. Eu iria fechar dizendo que se trata da melhor mistura de Paul Verhoeven, Takashi Miike e Tony Scott imaginável, mas eu fiz esta comparação numa outra discussão ontem e o Ignaty Vishnevetsky melhorou ela muito respondendo que “se Miike é Ruiz sem óbvias inclinações artísticas, Neveldine e Taylor são Miike com o coração de Verhoeven e o olho do Scott”. Qualquer filme que faça um cara inteligente soltar uma frase dessas mais que merece um olhar atento.

39) Accident (Soi Cheang)

A Milkway de Johnnie To segue a melhor fabrica de thrillers ambiciosos do mundo. Este Accident dirigido por Soi Cheang que nos últimos anos fez alguns filmes de baixo orçamento bem interessantes parte do seu superconceito (grupo de assassinos especializados em disfarçar seus crimes como acidentes se vê as voltas com a possibilidade de que alguém planeja eliminá-los do mesmo jeito) para criar um filme sempre intenso e criativoseja imaginando os diversos assassinatos, seja se perdendo na paranóia do seu protagonista.

38) Kinatay (Brillante Mendoza)

Todo o cinema de Brillante Mendoza é baseado num único talento: uma grande capacidade de instalar o espectador num ambiente e traduzir todo o peso de presenciá-lo. Kinatay se beneficia disso mais do que qualquer um dos seus filmes anteriores, no que pese sua sociologia boba (e as legendas que aos poucos revelam os dizeres irônicos da camisa da academia de policia devem ser a pior idéia de um bom filme em 2009) trata-se de uma experiência muito forte e a afirmação vale por exemplo tanto para as cenas do assassinato do titulo como para a longa viagem do protagonista até a casa afastada.

37) Irene (Alain Cavalier)

Outro filme capaz de conjurar um peso enorme. O último dos filmes em primeira pessoa que Cavalier vem realizando nos últimos 10 anos é na verdade um filme de fantasmas assombrado tanto pela primeira esposa morta muitos anos atrás, pela mãe recém falecida como pelo fragilidade que o cineasta vetarano localiza em si mesmo.

36) Casting a Glance (James Benning)

Um filme complexo justamente pela diferença do que ele aparenta ser e o que ele é. Trata-se da biografia da Spiral Jetty escultura natural que Robert Smithson criou em um lago em Utah que passou boa parte dos anos 80/90 submersa. Da série de planos da escultura no lago Benning constrói toda uma ficção de passagem do tempo. Ficção mesmo já que o filme se apresenta como material colhido deste o começo dos anos 70 quando na verdade foi todo filmado nos últimos anos.

34 ) A L’Aventure (Jean-Claude Brisseau)/ O Rei da Fuga (Alain Guiraudie)

Talvez nenhum filme este ano tenha um título tão apto quanto este de Guiraudie de um grande frescor e liberdade a cada novo plano. Faz com que nos lembremos de alguns dos melhores filmes anárquicos do Carlão Reichenbach. A L’Aventure me parece um tanto mais abstrato do que a dupla Coisas Secretas/Anjos Exterminadores, mas estão ali a mesma dedicação ao drama, a mesma crença século XIX no romanesco e a mesma preocupação com desejo que marca o cinema recente de Brisseau. Não conheço outros filmes do Guiraudie e L’Aventure provavelmente é um Brisseau menor, mas são ambos filmes de grande vitalidade.

33) Montanha do Abandono (Soo Yong-Kim)

Pode-se dizer que não existe à primeira vista nada demais num filme como este, o que da força ao trabalho de Soo Yong-Kim é a precisão do seu olhar. De um lado a uma riqueza de detalhe (a informação de que o filme é semi autobiográfico não surpreende em nada), mas sobretudo uma aproximação com olhar infantil raro, tanto no trabalho com as duas atrizes mirins como em como o filme sabe por a camera onde melhor valorizar o ponto de vista delas.

32) By Comparison (Harun Farocki)

Na superfície um documentário sobre a construção de tijolos, na prática um ensaio fascinante sobre industrialização e suas aplicações. Farocki viaja o mundo localizando os mais diferentes modelos de produção dos mais artesanais até os 100% mecanizados e depois os redimensiona em termos práticos. Só tem uma hora de duração, mas apresenta mais idéias do que toda a seleção do É Tudo Verdade não dirigida pelo Coutinho.

31) Coal Money (Wang Bing)

Outro documentário de uma hora, este sobre os hábitos dos caminhoneiros chineses que transportam carvão. Feito sobre encomenda para televisão francesa, mas jamais um trabalho menor. Como sempre no cinema de Wang Bing não há “informações”, mas um mundo inteiro que ele nos apresenta.

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Melhores de 2009 I

Como no ano passado minha lista segue um critério bem pessoal de incluir filmes que eu vi pela primeira vez este ano realizados nos ultimos 3 anos. Vai seguir em 5 partes basicamente porque sou muito preguiçoso para escrever todos os textos de uma vez.

Menções Honrosas: Adrenalina 2 (Mark Nedevine/Brian Taylor), Avatar (James Cameron), Belair (Bruno Safadi), The Box (Richard Kelly), O Curioso Caso de Benjamin Button (David Fincher), Duplicidade (Tony Gilroy), Eldorado (Olivier Assayas), Faça-me Feliz (Emmanuel Mouret), O Fantastico Sr. Raposo (Wes Anderson), Filmefobia (Kiko Goifman), O Fim da Picada (Christian Saghard), Funny People (Judd Apatow), GI Joe (Stephen Sommers), Harry Potter e o Príncipe Mestiço (David Yates), Inimigo Público No.1 Parte I e II (Jean François Richet), Jogo Duplo (Johan Grimonprez), Material (Thomas Heise)*, No Meu Lugar (Eduardo Valente), Parable (Jon Jost), Porco Cego Quer Voar (Edwin), Ricky (François Ozon), Seguindo em Frente (Hirozu Kore-Eda), Traga-me Alecrim (Josh e Benny Safdie), Up (Peter Docter), Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (Karim Ainouz e Marcelo Gomes)

*Este é um filme ensaio fascinante sobre os efeitos a longo prazo da unificação das Alemanhas, iria quase certamente estar entre os 50, infelizmente minha copia fica sem legendas nos últimos 40 minutos e eu não me sinto a vontade para comentá-lo sem entender nada que é dito nos últimos 40 minutos. Mesmo assim deixo a recomendação, só verifiquem se tem legendas na parte final.

50) A Trilha (David Twohy)



Filmes B raramente são tão perfeitamente executados hoje. Twohy pega um roteiro todo baseado numa reviravolta e consegue torná-lo um exercício formidável sobre os prazeres do mecanismo do thriller (seja para personagens, realizador ou espectador). A primeira hora transforma exposição interminável em matéria de tensão permanente e a última meia hora deve ser inclui a seqüência de cenas de ação convencional mais bem sustentados. É dirigido pelo diretor de Eclipse Mortal e protagonizado por Steve Zahn e Timothy Olyplhant portanto está destinado a ficar perdido nas prateleiras de locadoras, mas merece muito um olhar atento.

49) Adventureland (Greg Motolla)



Muito de Adventureland é excessivamente calcado, mas Motolla consegue capturar o sentimento de deslocamento do seu protagonista perfeitamente. É experiência privada redimensionada pela memória coletiva, o qu torna ao mesmo tempo um filme exato sobre 1987 e 2009.

47) Kobe Doin’ Work (Spike Lee)/Tyson (James Toback)



O filme de Lee tem uma proposta mais atrativa (seguir Kobe por todo um jogo) comparado ao talking head do Toback mas são filmes extremamente semelhantes duas auto narrações em tom de apologia que na verdade são de considerável frontalidade e muito reveladora nos detalhes que seus protagonistas esperam. São filmes paradoxais extremamente honestos justamente pelo seu caráter oficialesco. Tanto Bryant como Tyson fazem grandes performances de purgação para a câmera dos seus cineastas amigos e é no esforço deles que reside a grande verdade que ambos os filmes atingem.

46) O Seqüestro do Metro (Tony Scott)



Há duas formas de olhar o cinema de Tony Scott: numa delas ele é o problema, na outra Scott tem um olhar de dentro sobre ele (por sinal, podemos dizer o mesmo de Brian De Palma). O Seqüestro do Metro é menos um remake de um eficiente filme de gênero esquecido do que um filme sobre o intervalo de 35 anos entre eles e como nossa percepção da grande cidade se alterou neste meio tempo.

45) Merde (Leos Carax)



No terreno de obras-primas produzidas por cineasta bisextos para coletâneas Merde não chega a ser Alumbramento do Victor Erice, mas mesmo assim tem uma força própria muito grande. Ao mesmo tempo muito convidativo graças a presença de cena impressionante de Denis Lavant e distante na sua apresentação por Carax, Merde nos mantem em ambivalente o tempo todo com a irritação nada contida do seu cineasta que merecia filmar com muito mais freqüência. A abertura com os ataquesdo “monstro” é extremamente envolvente, mas é quando Carax chega ao teatral julgamento de nosso anti-herói misantropo que o filme se revela por completo.

44) Ponyo on the Cliff by the Sea (Hayao Myazaki)



Não tenho muito a dizer sobre Ponyo para alem de apontar que Myazaki segue impressionando nosso olhar com suas imagens. É impossível não amar um filme como Ponyo desde que se tenha um mínimo de imaginação.

43) Jericó (Christian Petzold)



Petzold parte de um projeto fassbinderiano (atualizar O Destino Bate a Sua Porta para a Alemanha atual e no processo jogar com nossas expectativas), mas o faz com consciência de que para tal projeto funcionar ele precisa encontrar o equilíbrio entre melodrama aberto e a economia. Jericó é despojado na encenação mas principalmente muito honesto nos seus sentimentos, faz diálogos como “você não pode amar sem dinheiro” soarem essenciais e não slogans de roteiro.

42) Mother (Bong Jong-ho)



Os filmes de Bong Jong-ho são como um cruzamento bizarro de Shohei Imamura e John Carpenter. Ele ama o ato de contar histórias e toda a potência narrativa do meio, mas ao mesmo tempo se entrega completamente a cada desvio que encontra a sua frente. Este conto demente da mãe que fará de tudo para provar a inocência do filho se perde com prazer por múltiplos caminhos e ao mesmo tempo mantém sempre o mesmo pulso firme.

41) A Troca (Clint Eastwood)



A Troca tem pouca relação com sua superfície de filme para Oscar, no seu centro está uma das obsessões mais antigas do seu cineasta (abuso de poder) que nos é apresentada tanto no seu arco narrativo principal, mas, sobretudo por via de uma coleção de gestos e posturas que o filme cataloga com precisão. Qualquer um pode fazer um filme onde a policia impõe seus interesses sobre uma cidadã, mas apenas alguns se interessariam sobretudo sobre como um capitão de policia, um médico, juiz ou mesmo um patrão se comportam enquanto exercem seu poder.

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