Ivan Passer

Uns 2 meses atrás escrevi um artigo sobre Jerzy Skolimowski para a Revista Taturana e me peguei pensando na diáspora dos cineastas do antigo bloco comunista e como isto afetou muitas vezes as carreiras deles. Skolimowski não deixa de ser um bom exemplo disso sobretudo nos anos 70 quando teve grandes problemas para filmar e ele mesmo admitiu que o longo intervalo mais recente na sua produção foi efeito do seu cansaso com o modelo de co-produção internacional que sustentou a segunda fase da sua carreira nos anos 80.

Mas a carreira de Skolimowski é um exemplo de eficiência comparada a de alguém como Ivan Passer. O checo fez um filme no pais natal (Intimate Lighting, não dos mais famosos do período, mas que mais que merece uma olhada) e escreveu os roteiros para Os Amores de uma Loira e O Baile do Bombeiro, antes de se mandar para os EUA na virada década. A carreira ocidental de Passer é o perfeito oposto da de Forman, quase toda passada em pequenos filmes de gênero. Uma olhada rápida na sua pagina do IMDb revela uma série de títulos obscuros e uma trajetória que se desenvolve de maneira muito peculiar. Nem todos os filmes de Passer são bem sucedidos, mas no mínimo costumam se assemelhar a Silver Bears (78), uma bem sólida comédia de golpe que Passer filme na Inglaterra com bom elenco (Michel Caine, David Warner, Stephane Audran). Tenho ótimas memórias do filme visto num VHS de pan & scan terrível (que antes dos downloads era a única forma possível de se assistir a qualquer cópia de seus filmes aqui), revendo alguns trechos numa boa cópia me pareceu provavelmente melhor que minhas lembranças.

De qualquer forma, Ivan Passer teve duas grandes oportunidades e fez o melhor delas. Tanto Born to Win (71) como Cutter’s Way (81) são grandes filmes e entre o que melhor se filmou nos EUA à época. Born to Win é um dos melhores filmes sobre viciados em drogas feitos. Muito menos interessado na condescendência de sempre e mais em usar os hábitos do protagonista (um excelente George Segal) como ponto de partida para um saio sobre desraizamento não muito distante dos filmes que Bob Rafelson fizera à época. Assim como oportunidade para um grande numero de seqüências absurdas muito imaginativas. Independente dos desastres que lhe incorrem, Segal é menos um perdedor patético e mais um homem com uma missão. Para a sorte de Born to Win, o filme tem Robert DeNiro num papel pequeno, o que lhe ajudou a sobreviver ao tempo (me lembro que o antigo VHS em que o vi pela primeira vez vendia o filme como um veículo de DeNiro e o DVD americano que eu tenho faz o mesmo).

Já Cutter’s Way fica a principio no outro extremo do bom cinema americano da época. Um neo noir com óbvios ecos de revisionismo, é um filme mais complexo e interessante do que sua superfície sugere. A trama excessivamente complexa e obtusa e as reverberações de gênero servem como pouco mais que ponto de partida, mesmo o mitológico industrial que talvez cometera o assassinato que serve de gancho ao filme nunca existe como verdadeiro ponto de chegada só um espelho para diversas reações diferentes. Há um pouco de Pynchon no tom de paranóia absurda com que Passer conduz o filme e ele faz uso excelente das locações em Santa Barbara e do seu elenco (Jeff Bridges e John Heard nunca estiveram melhores). O Cutter de Heard é uma espécie de Travis Bickle sem o alivio que a presença de um De Niro traz. Segue um dos melhores filmes sobre o pós-anos 60.

Aproveitando, Born to Win está disponivel integralmente no You Tube num streamind bem decente. É longe do ideal, mas como o filme é raro fico o link.

2 Comentários

Arquivado em Filmes

2 Respostas para “Ivan Passer

  1. Guilherme

    Cutter’s way eh obrigatório.

    Ainda não vi esse born to win nem silver bears, vou correr atrás.

  2. Leonardo Bomfim

    Entre o pessoal do cinema tchecoslovaco dos anos 60, o Ivan Passer era uma espécie de mentor intelectual. Acho o “Intimate Lighting” um filme menor da czech new wave, mas é bem interessante mesmo assim. Era um cara que tinha uma leitura bem interessante do cinema. Não é à toa que, ao contrário da maioria dos cineastas de lá, conseguiu pelo menos manter uma carreira fora do país.

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