Mais que simplesmente um filme péssimo (e podem ter certeza de que eu preferiria passar um dia trancado numa sala de cinema revendo Austrália do que me sujeitar a uma revisão desta coisa), trata-se de um filme que expõe muito bem o fracasso de Mendes como cineasta. Não pelo mesmo tipo de inépcia que termina afundando um Baz Lhurman, mas por uma completa incapacidade de impor sobre o seu material um ponto de vista. Isto tudo porque a lógica que domina o olhar de Mendes é apresentar cada cena da forma que ele considera mais vendável para o público. O resultado é que a cada escolha Mendes sempre opta pelas saídas mais desinteressantes e óbvias possíveis (e infelizmente empurra seu excelente elenco, que poderia dar alguma credibilidade ao filme, pelo mesmo caminho). Peguemos uma cena próxima ao final do filme como exemplo: um casal recebe seus novos vizinhos e fofoca sobre outro casal de amigos até que o homem se afasta chateado. No livro em que o filme se baseia o sujeito esta irritado com a esposa por seguir revisitando a tal história, na versão de Mendes, esta chateado por conta da sua paixão pela a outra mulher. A questão não é de fidelidade ao material, mas de opções. Mendes sempre opta por realçar a “crítica aos subúrbios” que é afinal muito vendável, mas quando uma cena que se encaixa perfeitamente nesta leitura aparece, mas ele encontra uma outra embalagem ainda mais fácil, não consegue resistir. Termina com um filme bem ao gosto dos seus próprios personagens, o que neste caso não é uma boa idéia.
Arquivo do mês: janeiro 2009
A Fuga da Mulher Gorila
Enquanto aqui em São Paulo a Retrospectiva do Cinema Paulista segue firme (amanhã passa o imperdível Bacalhau), lá em Tiradentes rolou ontem a primeira exibição da estreia do Felipe Bragança e Marina Meliande na direção A Fuga, A Raiva, A Dança, A Bunda, A Boca, A Calma, A Vida da Mulher Gorila. Algumas criticas:
Ainda na Contra
A Contra também publicou um provocante ensaio/diagnostico do Luiz Carlos Oliveira Jr sobre a relação da critica brasileira e o nosso cinema.
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Melhores da Contra
Discretamente a Contracampo publicou suas listas de melhores do ano.
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Austrália (Baz Luhrman,08)
Austrália é um objeto tão excêntrico e disposto a seguir sua própria muito peculiar lógica com tamanho afinco, que é uma pena que tão pouco se salve ao fim do filme. Conceitualmente Luhrman tem algumas boas sacadas especialmente na forma como este suposto épico para Oscar lança mão de alguns elementos de cinema popular australiano. Só que quinze anos e quatro longas depois, Luhrman segue incapaz de ligar dois planos e não existem boas idéias que sobrevivam a tanta inépcia. Algo que se torna ainda mais grave dada as ambições do cineasta já que alguém com tão pouco controle sobre seu filme definitivamente não deveria arriscar as alternâncias de tom que Luhrman tenta aqui. O filme termina por fazer pouco mais que reforçar que Luhrman é uma sensibilidade única completamente desprovida de talento.
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Retrospectiva do Cinema Paulista
Começa oficialmente terça feira no CCBB uma mostra bem legal com curadoria do Sergio que inclui um panorama bem amplo do cinema paulista da Vera Cruz até a primeira exibição aqui em São Paulo do ótimo O Fim da Picada (ganhador do Cinema Esquema Novo do ano passado). A programação é bem plural incluindo desde clássicos estabelicidos como O Grande Momento, São Paulo S/A e O Bandido da Luz Vermelha, passando por produções da Boca como Bacalhau (Adriano Stuart), Excitação (Jean Garrett) e O Gosto do Pecado (Claudio Cunha) , raridades (As Belas da Billings do Candeias) e filmes importantes como A Hora da Estrela, Alma Corsária e O Prisioneiro da Grade de Ferro. Ou seja Sergio e o Francis (que é o produtor) capricharam numa seleção bem plural. Amanhã já rola uma prévia com exibições a partir das 15hrs de São Paulo Poema Cidade (Aloysio Raulino), São Paulo Sinfonia e Cacofonia (Jean-Claude Bernardet) e O Vampiro da Cinemateca (Jairo Ferreira).
Vale destacar que domingo e terça quem frequentar o CCBB terá a oportunidade única de assistir em sessão dupla filmes de Jean-Claude Bernardet e Jairo Ferreira, só por este curto-circuito crítico já se trata de um evento histórico.
A seleção completa dos filmes e a programação está disponivel aqui.
Listas
Com a Film Comment em mãos dá para postar uma série de listas individuais bem interessantes.
Thom Andersen
1. O Romance de Ástrea e Celadon (Eric Rohmer)
2. Não Toque no Machado (Jacques Rivette)
3. The Exiles (Kent Mackenzie)
4. A Viagem do Balão Vermelho (Hou Hsiao-Hsien)
5. Hamaca Paraguaya (Paz Encina)
6. Still Life (Jia Zhang-ke)
7. RR (James Benning)
8. Pecados Inocentes (Tom Kalin)
9. Wendy & Lucy (Kelly Reichardt)
10. Profit Motive and the Whispering Wind (John Gianvito)
Frederic Bonnaud
1. Two Lovers (James Gray)
2. Mulher na Praia (Hong Sang-soo)
3. Viagem a Darjeeling (Wes Anerson)
4. Quatro Noites com Anna (Jerzy Skolimowski)
5. O Ultimo Reduto (Rabah Ameur-Zemeiche)
6. A Fronteira da Alvorada (Phillipe Garrel)
7. Waltz with Bashir (Ari Folman)
8. O Silencio de Lorna (Jean-Pierre e Luc Dardenne)
9. A Vida Moderna (Raymond Depardon)
10. Redacted (Brian De Palma)
Shigehiko Hasumi
Alexandra (Alexandr Sokurov)
O Romance de Ástrea e Celadon
Viagem a Darjeeling
Os Donos da Noite (James Gray)
En La Ciudad de Sylvia (José Luis Guerin)
Quatro Noites com Anna
Le Genou d’Artemide e Itinéraire de Jean Bricard (Straub/Huillet)
Sweeney Todd (Tim Burton)
Sonata de Tóquio (Kiyoshi Kurosawa)
Youth Without Youth (Francis Ford Coppola)
+ Merde (Leos Carax)
Alexander Howarth
1. Horas de Verão (Olivier Assayas)
2. Still Walking (Hirozu Kore-Eda)
Um Conto de Natal (Arnaud Desplachin)
Gomorra (Matteo Gorrone)
3. Aquele Querido Mês de Agosto (Miguel Gomes)
Jerichow (Christian Petzold)
Revanche (Gotz Spillman)
Tony Manero (Pablo Larrain)
Synedoche, New York (Charlie Kaufman)
Wendy & Lucy
Kent Jones
1. Horas de Verão
A Mulher Sem Cabeça (Lucrecia Martel)
RR
2. Um Conto de Natal
O Curioso Caso de Benjamin Button (David Fincher)
A Fronteira da Alvorada/Chouga (Darezhan Ormibaiev)
Generation Kill (David Simon/Ed Burns, TV)
Me and Orson Welles (Richard Linklater)
Tokyo Sonata
3. 35 Shots of Rhum (Claire Denis)
Wall-E (Andrew Stanton)
Wendy & Lucy/Rebobine, Por Favor (Michel Gondry)
Olaf Möller
Filme do ano:
Prisioner/Terrorist (Masao Adachi)
A Encarnação do Dêmonio (José Mojica Marins)
The Hurt Locker (Kathryn Bigelow)
Inju (Barbet Schroeder)
Itinéraire de Jean Bricard
Letter to a Child (Vlado Skafar)
Manilla in the Fangs of Darkness (Khavn)
Melancholia (Lav Diaz)
Ten Oxherding Pictures #3 Viewing the Ox in Tibet ((Lee Jisang)
Tonight (Werner Schroeter)
Valkyrie (Brian Singer)
Wild Field (Mikhail Kalatozishvili)
Manuel Yañez-Murillo
24 City (Jia Zhang-ke)
35 Shots of Rhum
El Cant del Ocells (Albert Serra)
Um Conto de Natal
Generation Kill
Ponyo in a Cliff by the Sea (Hayao Miyazaki)
Sangue Negro (Paul Thomas Anderson)
Sonata de Tóquio
Vegas: Based on a True Story (Amir Naderi)
The Wire 5 Temporada (David Simon)
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Eastwood
Sou muito novo para me lembrar dos tempos em que Clint Eastwood não tinha nenhuma reputação, minha cinefilia começa durante o trio Imperdoáveis/Mundo Perfeito/Pontes de Madison que sedimentou parcialmente sua imagem como cineasta de verdade, mas me lembro bem do longo período entre Poder Absoluto e Divida de Sangue quando ser fã de Clint Eastwood era tarefa difícil. Não porque os filmes fossem fracos. Bem longe disso, apesar de que com distancia e sem a necessidade de partir em sua defesa a cada filme é visível que não se trata do mais brilhante dos períodos (exceção feita ao ainda muito subestimado Crime Verdadeiro). E era preciso defendê-lo a cada filme porque o tom derrogatório sempre ressurgia em peso a cada lançamento (“o roteiro tem tantos buracos que parece até filme brasileiro”, a Set sobre Crime Verdadeiro). Acho fascinante como a transformação a partir de Sobre Meninos e Lobos e sobretudo como ela no final das contas foi só cosmética. Todos os últimos seis filmes de Eastwood chegaram até nós com toda pompa, circunstancia e prestigio possíveis. A Troca é um Clint Eastwood legitimo, mas a embalagem não deixa de estar muito distante dos tempos de Crime Verdadeiro quando defender Eastwood era tão trabalhoso quanto defender Carpenter (o Ruy até defendeu ao filme junto com Vampiros nos áureos tempos da Contracampo). Mas de alguma forma ser fã do Eastwood mudou muito pouco. Basta ver o tom um tanto defensivo de muitos sobre o filme. Não por conseqüência de alguns serem incapazes de abandonar velhas posturas outra tolice do tipo. Mas porque de alguma forma por trás de toda pompa em muitos meios permanece um desejo de desmascarar “a farsa Eastwood”, e ao cinéfilo que aprecia o seu trabalho cabe a cada filme recomeçar o mesmo esforço de justificar porque Eastwood é uma figura essencial. Já li barbaridades a respeito de A Troca, espero barbaridades ainda piores a respeito de Gran Torino (um Eastwood muito superior, mas com menos áurea de filme respeitável e uma perspectiva fulleriana muito distante das sensibilidades do bom cinema por volta de 2009). O paradoxo da recepção do Eastwood não tem muitos equivalentes com nenhum outro cineasta em nenhum outro momento.
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Adrian Martin em português
O Adrian deixou o aviso nos comentários, mas é sempre bom reforçar tem uma excelente entrevista exclusiva com ele no Ainda não começamos a pensar, o ótimo blog do português André Dias. Desde já na lista do que de mais relevante foi publicado em português em 2009.
Resnais e outras estreias
Ótimo fim de semana de estreias nos cinemas paulistanos. O grande destaque sem duvidas fica por conta de Na Boca, Não!, o excelente musical do Resnais que finalmente chega aos nossos cinemas com uns bons 4 anos de atraso.
Alem disso tem o Benjamin Button do Fincher sobre o qual já escrevi aqui e Inútil, filme menor do Jia Zhang-ke (que é melhor historiador na ficção do que no documentário), mas que é a mais forte das suas experiências de não-ficção.
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Tiradentes
Finalmente saiu a seleção de longas de Tiradentes:
Filme de Abertura:
Se nada mais der certo, de José Eduardo Belmonte (DF/SP)
Aurora (mostra competitiva de jovens diretores):
A casa de Sandro, de Gustavo Beck (RJ)
O fim da picada, de Christian Saghaard (SP)
A fuga da mulher gorila, de Felipe Bragança e Marina Meliande (RJ)
Histórias de morar e de demolições, de André Costa (SP)
As Iracemas, de Alexandre Pires Cavalcanti (MG)
Praça Saens Peña, de Vinícius Reis (RJ)
Sistema de animação, de Guilherme Ledoux e Alan Langdon (SC)
Olhares:
A festa da menina morta, de Matheus Nachtergale (RJ)
Estrada Real da Cachaça, de Pedro Urano (RJ)
Filmefobia, de Kiko Goifman (SP)
Mistéryos, de Beto Carminatti e Pedro Merege (PA)
No meu lugar, de Eduardo Valente (RJ)
Titãs – A vida até parece uma festa, de Branco Mello e Oscar Rodrigues (SP)
Vertentes:
Acácio, de Marília Rocha (MG)
Canção de Baal, de Helena Ignez (SP)
Contratempo, de Malu Mader e Mini Kerti (RJ)
Hotxuá, de Letícia Sabatella e Gringo Cárdia (RJ)
Jards Macalé – Um morcego na porta principal, de Marco Abujamra (RJ)
KFZ 1348, de Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso (PE)
Nos olhos de Mariquinha, de Cláudia Mesquita e Júnia Torres (MG)
Vida, de Paula Gaitán (RJ)
Filme de Encerramento:
LOKI – Arnaldo Baptista, de Paulo Henrique Fontenelle (RJ)
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Listinha do Ruy
Estava lá vendo no antigo blog de música do Ruy Gardnier que ele postou duas listas de melhores filmes de 2008 e já que não sei se a Contra produzirá lista de melhores do ano reproduzo aqui:
melhores filmes exibidos pela primeira vez no brasil em 2008:
1. noite e dia, de hong sang-soo
2. aquele querido mês de agosto, de miguel gomes
3. les amours d’astrée et de céladon, de eric rohmer
4. sweeney todd, de tim burton
5. o canto dos pássaros, de albert serra
6. sad vacation, de shinji aoyama
7. a mulher sem cabeça, de lucrecia martel
8. encarnação do demônio, de josé mojica marins
9. fim dos tempos, de m. night shyamalan
10. um conto de natal, de arnaud desplechin
melhores filmes lançados comercialmente no rio de janeiro em 2008
1. não estou lá, de todd haynes
2. paranoid park, de gus van sant
3. serras da desordem, de andrea tonacci
4. sweeney todd, de tim burton
5. onde os fracos não têm vez, de ethan e joel coen
6. encarnação do demônio, de josé mojica marins
7. uma garota dividida em dois, de claude chabrol
8. fim dos tempos, de m. night shyamalan
9. a espiã, de paul verhoeven
10. a questão humana, de nicolas klotz
11. o sol, de aleksandr sokurov
12. antes que o diabo saiba que você está morto, de sidney lumet
13. trovão tropical, de ben stiller
14. luz silenciosa, de carlos reygadas
15. leonera, de pablo trapero
16. meu nome é dindi, de bruno safadi
17. cleópatra, de julio bressane
18. queime depois de ler, de ethan e joel coen
19. shortbus, de john cameron mitchell
20. gomorra, de matteo garrone
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Claude Berri
Imagino que a grande maioria dos obtuários vão se focar nos filmes que Claude Berri dirigiu, mas vale dizer que ele foi bem mais relevante como produtor ajudando cineastas então novatos como Garrel e Pialat e mais recente Naomie Lvovsky e Abdelatif Kechiche (sem contar ter produzido Demy no fim de carreira quando arranjar financiamento para o cara não era propriamente fácil).
Antes que eu me esqueça, Berri também serviu de inspiração para o personagem do irmão no Aos Nossos Amores do Pialat que é só o segundo maior filme da história do cinema.
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A Troca (Clint Eastwood,08)
Eastwood menor e talvez por isso mesmo exponha de forma tão clara a falácia da idéia de que ele é alguma espécie de ultimo mestre do cinema clássico. Como exemplar de cinema narrativo à antiga A Troca seria um desastre até por ter tentar abarcar tanto material diferente que termine tendo seus problemas de foco e tom, mas como sempre não é isto que interessa a Eastwood. Agora como uma coleção de relações de poder cruéis e brutais o filme é bem expressivo. O filme todo parece existir em algum espaço entre Aldrich e Pialat, desequilibrado, mas impressionante. Eastwood faz excelente uso dos maneirismos de John Malkovich para balancear o filme, e os ecos do próprio Eastwood em algumas das inflexões de Jeffrey Donovan é uma ótima sacada.
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O Dia em que a Terra Parou (Scott Derrickson,08)
Pelo menos depois desta mediocridade vão parar de reclamar tanto de Fim dos Tempos, né? Ok, isto é pedir demais, mas é engraçado que a Fox tenha produzido ambos os filmes já que eles são muito parecidos se você desconsiderar que um deles é completamente desprovido de um olhar. O filme é anódino e medíocre demais para ofender (apesar de não ter visto o filme do Robert Wise deve ajudar nisso) e pelo menos garante a piada inevitável de que trata-se do papel da vida do Keanu Reeves.
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