Mostra Internacional de São Paulo – Parte 2

Nariz Sangrando, Bolsos Vazios

English version
Primeira parte
Terceira parte
Quarta parte

Segundo post com comentários sobre filmes vistos na Mostra entre a segunda, 26 e a quarta, 28.

#Eagoraoque (Jean-Claude Bernardet, Rubens Rewald)
Se Jean-Claude Bernardet é co-autor que domina quase todos os filmes dos jovens realizadores paulistas com quem colaborou desde Filmefobia, faz sentido que eventualmente ele assumisse a co-direção. O fetiche Bernardet é o interesse e limite de quase todos esses filmes, realizadores cedendo a plataforma para que o crítico-performer trabalhe, neste #Eagoraoque Bernardet e Rewald partem da falência dialogo/discurso do Brasil contemporâneo para chegar em outro exercício-performance de Bernardet. A princípio podemos imaginar que se trata de algum tipo de extensão do Intervenção que Rewald co-dirigiu alguns atrás, dessa vez focado as esquerdas e há rascunhos disso quando os realizadores jogam algumas armadilhas para o Vladimir Safatle que “interpreta” um dos personagens centrais, mas #Eagoraoque é pouco mais que um sintoma do que diagnostica. Um filme travado que na melhor das hipóteses só reproduz a própria falência de diálogo que está no seu centro e no pior a explora para mais jogos estéreis de performance. O espelho está quebrado e o que resta é o narcisismo de todas as partes.  

Continuar lendo

4 Comentários

Arquivado em Filmes

São Paulo International Film Festival – Part 1

Days

Versão em portugues aqui
Part 2
Part 3
Part 4

This is my first post covering the films from the São Paulo International Film Festival with films seen between Friday, 23 and Sunday, 25.

Days (Tsai Ming-liang)
Since announcing his “retirement” around the time of Stray Dogs, Tsai Ming-liang  free from the needs of pretending to deal with narrative has been concentrating more and more in the physical presence and face of his muse Lee Kang-sheng. Days is in such way a culmination of a decade long increasing austere aesthetic investigation. If how Lee Kang-sheng lives in the world is the motif that dominates Tsai’s cinema for three decades now, the manner if which he captures the tactile physicality of this negotiation is even more radical. When I wrote about the earlier Your Face I mentioned how Tsai’s cinema was getting closer to Abbas Kiarostami and Eduardo Coutinho (filmmakers of existence, of acting as a way of being) and Days only reinforces such an idea Lee’s existence negotiates his presence with the camera all the time. It is curious how the most banal of his everyday moments brings to mind the apocalyptical musicals The Hole and Wayward Clouds almost without trying. The long massage sequence is one of the greatest of Tsai’s career.

Continuar lendo

4 Comentários

Arquivado em Filmes

Mostra Internacional de São Paulo – Parte 1

Dias

English version here
Segunda parte
Terceira parte
Quarta parte

Primeiro post com os filmes da Mostra cobrindo os vistos entre sexta, 23 e domingo, 25, alem de dois filmes vistos antes do evento começar.

Casa das Antiguidades (João Paulo Miranda Maria)
Casa das Antiguidades chegou por aqui chancelado por muitos elogios vindos da sua carreira em festivais internacionais, mas a julgar pelas conversas com amigos a recepção nessa estreia brasileira foi bem mais fria. Um filme fantástico com um pé no folclore e outro na assombração sobre a permanência do racismo e exploração na sociedade brasileira como m todo e no sul em particular. As referências são mais próximas as de Apichatpong do que filme de horror apesar da atmosfera constante de paranoia e ameaça. Casa das Antiguidades tem um elemento de força inegável que é a presença do veterano Antônio Pitanga que não fazia um papel central no cinema brasileiro a muito tempo e consegue alguns momentos inegáveis enquanto absorve a sua posição. Como um solo de Pitanga o filme tem seu interesse. A direção de João Paulo Miranda Maria é de um controle sistemático que sufoca Pitanga tanto quanto a sociedade sulista que ele precisa lidar. O filme faz pensar as vezes no cinema do Felipe Bragança, mas meio que vai na direção aposta, se Bragança lida com o mesmo universo de referências internacionais e desejo de carnavalizar a sociedade brasileira, seus filmes tendem a ser extremamente soltos, o filme de Miranda Maria é de um academicismo opressor que termina por eliminar qualquer potência inerente ao materal e a atuação de Pitanga.

Continuar lendo

4 Comentários

Arquivado em Filmes

When Brazilian cinema imagined a human Pelé

Versão em português aqui

With all the attention Brazilian media has given to Pelé’s 80th birthday, it is useful to look back to 1963, when Brazilian cinema dedicated a docudrama for him. O Rei Pelé (The King Pelé) was directed by the great Argentinian filmmaker Carlos Hugo Christensen (who stayed a quarter of century around here), with dialogues by Nelson Rodrigues (Brazil’s most celebrated playwright) e and Pele himself on screen in the adult scenes.

Continuar lendo

1 comentário

Arquivado em Filmes

Quando o cinema brasileiro imaginou um Pelé humano

English version here

Com toda a atenção dada pela mídia brasileira aos 80 anos de Pelé, é justa apontar que lá atrás em 1963, o cinema brasileiro dedicou-lhe um docudrama no calor do momento. O Rei Pelé foi dirigido pelo ótimo cineasta argentino Carlos Hugo Christensen (que passou um quarto de século por aqui), com diálogos do Nelson Rodrigues (o argumento é do Benedito Ruy Barbosa) e o próprio Pele em cena na vida adulta.

Continuar lendo

1 comentário

Arquivado em Filmes

A Novel of 20th Century

Versão em portugues aqui

originally published in Portuguese at Revista Cinetica in March, 2020

Martin Eden, the character, is a sailor who wants to be a writer in Italy. Martin Eden, the film, is a meeting between Pietro Marcello, a filmmaker with one foot in the experimental and non-fiction scenes and Jack London, the famous adventure writer from the 20th century early decades – writing here a semiautobiographical in which London and Eden histories have many things in common. It is a large bildusroman, but one might ask what is being formed. It is a sentimental education that is part bourgeois, part Marxist. It is in the particularities of this meeting that Marcello’s attention to documentary detail and the dramatic arc of London’s epic are tensioned.

Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Filmes

Mostra 2020: Recomendações

City Hall

A Mostra de Cinema de São Paulo este ano vai transcorrer este ano em edição online do dia 22/10 a 4/11. Uma seleção menor que a habitual com cerca de 200 títulos e talvez menos grandes detaques do que outros anos, mas para quem quer se arriscar muita coisa menos badalada interessante. Segue abaixo minha lista de recomendados nos moldes dos últimos anos são 3 blocos de 10 títulos de mais ao menos prioritários e um último com outros filmes de interesse.  Para além desses filmes, vale destacar também a retrospectiva cm os três títulos mais famosos do Fernando Coni Campos, cineasta que merecia ser bem mais visto e discutido. É uma pena que a parte histórica da Mostra se resuma este ano a esta retrospectiva, mas vale muito a pena.

Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Filmes

The great downfall of Japanese cinema and the pitfalls of film history

Versão em português aqui

I was watching a couple of lesser known 90s Japanese classics this morning, Shniji Somai’s The Friends (1994) and Gakuryû “Sogo” Ishii’s Labyrinth of Dreams (1997) it got me to think about film history myths and the way canon building can help in the west.  A major false myth: the downfall of Japanese cinema around 1980. It more or less proposes the lack of new blood on Japanese cinema from this period until more or less large arrival of Takeshi Kitano in the mid-90s (with the talented and mostly very accessible Juzo Itami as the only name to break out all in the middle term) besides some smaller cult corners (anime, horror) that would blow up in the late 90s.  It also goes along with the near death of interest in most late work from veteran Japanese masters that were not named Akira Kurosawa, Shohei Imamura or Nagisa Oshima. How many cinephiles are aware Kaneto Shindo’s last movie is from 2010?  That Masahiro Shinoda was working as long as 2003 or Ichikawa by 2007?

Continuar lendo

1 comentário

Arquivado em Filmes

A grande derrocada do cinema japonês e as armadilhas da história do cinema

English version here

Eu assisti hoje pela manhã um par de clássicos menos conhecidos do cinema japonês dos anos 90, Os Amigos (1994) de Shniji Somai e  Labirinto dos Sonhos (1997) de Gakuryû “Sogo” Ishii, e me coloquei a pensar nos mitos da história de cinema e das formas como a formação de cânone podem transcorrer no ocidente. Um grande falso mito: a derrocada do cinema japonês por volta de 1980. Ele mais ou menos propõe uma ausencia de sangue novo renovador no cinema japonês a partir deste momento até mais ou menos a descoberta do Takeshi Kitano em meados dos anos 90 (com o talentoso e de um modo0 geral bastante acessível Juzo Itami como único nome a se estabelecer neste meio termo) para além de alguns espaços de interesse cult (anime, horror) que viriam a explodir com mais força mainstream na parte final dos anos 90.  Ela acompanha uma morte quase complete de interesse pela obra tardia de vários veteranos japoneses que não se chamavam Akira Kurosawa, Shohei Imamura ou Nagisa Oshima. Quantos cinéfilos sabem que o último filme de Kaneto Shindo é de 2010?  Ou que Masahiro Shinoda trabalhava tão tarde quanto 2003 ou Ichikawa em 2007?

Continuar lendo

1 comentário

Arquivado em Filmes

Vanda at Twenty

vanda

(Versão em português aqui)

From Vanda’s room, one doesn’t leave anymore. As been said: the 21st century was opened with In Vanda’s Room. “There’s no drug: we can’t stop seeing”. “We will ever be able to stop seeing”. – João Bénard da Costa in 2000

As a rule, I’m not a big fan of anniversary essays, particularly now that so much of cultural journalism seems to have decide older movies should only be deal with every 5 years. Yet, last Friday the very good Portuguese newspaper Publico gave the cover of its weakly arts magazine Ipsilon to the 20th anniversary of the first public screening at the Locarno film festival of Pedro Costa’s In Vanda’s Room and that felt like an occasion worth celebrating. It is not simple that Vanda is a great movie, but that Vanda feels like a genuine turning point, the start of something and not only an exciting new period on an important filmmaker career. There’s a certain idea of filmmaking as it developed through the past two decades that feel fully indebted to In Vanda’s Room, some of it is good, some of it is bad, almost all of it misrepresents Costa’s achievement in a way or another, because like most greats Pedro Costa creates a specific gaze that feels far too unique to belong to anyone else, yet the shadow of Vanda remains lurking large.

Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Filmes

Vanda aos Vinte

vanda

(English version here)

Do quarto da Vanda não se sai mais. Como já disse: o século XXI foi aberto com No Quarto da Vanda. “Não há remédio: não podemos deixar de ver”. “Jamais poderemos deixar de ver”. – João Bénard da Costa em 2000

Por via de regra não sou um grande fã de ensaios de aniversario, ainda mais agora no qual o jornalismo cultural parece ter decidido que só pode-se tratar de filmes antigos a cada cinco anos. Mesmo assim, na última sexta o Público muito bom jornal português deu a capa da sua revista de artes semanais Ipsilon ao aniversário de 20 anos da primeira exibição pública no festival de Locarno de No Quarto da Vanda do Pedro Costa e essa me apareceu sim uma ocasião que merece ser celebrada. Não é simplesmente que Vanda seja um grande filme, mas que Vanda pareça um genuíno ponto de virada, o começo de algo e não só de uma nova fase excitante de um cineasta importante. Há uma certa ideia de cinema tal qual desenvolvida nas últimas duas décadas que parece profundamente em dívida para com No Quarto da Vanda, parte dela boa, parte má, quase toda em desrepresentando o feito de Costa de uma maneira ou outra, já que como a maioria dos grandes, Pedro Costa cria um olhar especifico que é por demais único para pertencer a quem mais for, ainda assim a sombra de Vanda permanece a espreita.

Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Filmes

The Wreckages of European Civilization

aportuguesa

(versão em português aqui)

Rita Azevedo Gomes’ The Portuguese Woman is now screening on Mubi in most territories, it is very possible the best movie that will get any sort of release in these streaming-only days and I’m taken the opportunity to publish here the article I wrote for Cinetica after it get its first Brazilian screenings around a year ago.

The Portuguese Woman is Rita Azevedo Gomes’ seventh feature, a filmmaker on the frontlines of Portuguese cinema who despite three decades of rich production, has only start receiving deserved attention in the last few years. Her new film played recently at Olhar de Cinema in Curitiba and later in a small retrospective of her work in São Paulo. Gomes cinema brings with it some traditional elements of Portuguese cinema, above all in its relationship with literature and aristocracy, with some taste for nostalgic decadentism of the sebastianista variety.

Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Filmes

Os destroços da civilização europeia

aportuguesa

(English version here)

A Portuguesa da Rita Azevedo Gomes está em cartaz no Mubi pelo próximo mês e aproveito para republicar aqui a crítica que escrevi para a Cinética ano passado.

A Portuguesa é o sétimo longa-metragem de Rita Azevedo Gomes, cineasta da linha de frente do cinema português que apesar de três décadas de uma produção rica, só nos últimos anos veem recebendo timidamente um pouco da atenção merecida. Recentemente o filme circulou pelo Brasil, primeiro no Olhar de Cinema e depois numa pequena retrospectiva dos seus filmes em São Paulo. O cinema de Gomes traz à frente alguns elementos da tradição do cinema português, sobretudo na sua relação com a literatura e aristocracia, com um gosto por certo decadentismo nostálgico sebastianista.

Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Filmes

Melodrama as process

harry-&-son

(versão em português aqui)

Paul Newman was a film star for five decades, he also was a great film director for a couple of those. A fact that doesn’t get talk much nowadays, probably because Newman’s films don’t circulate as often as they should (a boutique label like Criterion should put out a collection of Newman’s work to get the ball on a reappraisal going, it is just six features after all). It is not like Newman’s directing career received no attention when it was an ongoing event, his debut feature Rachel, Rachel (1968) was Oscar nominated, his last one, an adaptation of The Glass Menagerie (1987) that is probably the best Tennessee Williams put on film, was in the Cannes competition. The first time I was aware of Newman as a director was reading a Serge Daney 1977 interview when asked about which American cinema Cahiers du Cinema was interested at the time the then magazine editor come out with a short list “Robert Kramer, John Cassavetes, Paul Newman, Stephen Dwoskin, Monte Hellman”. That is a lofty list and one that gives a very specific non-Hollywood entry point for his work.

Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Filmes

Melodrama como Processo

harry-&-son

(English version here)

Paul Newman foi uma estrela de cinema por cinco décadas, ele foi também um grande diretor por um par delas. Algo que não é mencionado muito nos dias de hoje, provavelmente porque os filmes de Newman não circulam tanto quanto podiam (um desses selos de lixo como Criterion bem que poderia lançar uma coleção com esses longas para colocar este processo de redescoberta em movimento, são só seis filmes afinal). Não é como se a carreira de diretor de Newman recebera nenhuma atenção à época, seu filme de estreia Raquel, Raquel (1968) foi indicado ao Oscar, seu último, uma adaptação de The Glass Menagerie (1987) que é provável a melhor filmagem de Tennessee Williams para cinema, esteve na competição de Cannes. A primeira vez que tomei consciência de Newman como diretor foi ao ler uma entrevista de 1977 de Serge Daney, quando perguntado sobre o cinema americano que interessava a Cahiers du Cinema à época seu então editor respondeu com uma pequena lista “Robert Kramer, John Cassavetes, Paul Newman, Stephen Dwoskin, Monte Hellman”. É uma lista de peso e uma que sugere um ponto de entrada bem distante de Hollywood para seu trabalho.

Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Filmes