Notas sobre Bacurau

bacurau

(English version here)

— Vamos falar da música brasileira e da escolha estratégica de canções. Bacarau começa com a versão de Gal Costa’s para Não Identificado de Caetano Veloso e termina com Réquiem para Matraga de Geraldo Vandré. Ambas canções conhecidas dos anos 60 e ambas identificadas com filmes conhecidos do período, a primeira com a alegoria musical de ficção cientifica Brasil Ano 2000 de Walter Lima Jr e a outra com o faroeste social A Hora e a Vez de Augusto Matraga de Roberto Santos. Dois completos opostos do imaginário do Cinema Novo tanto com os tropicalistas (e Gilberto Gil compôs a trilha sonora de Brasil Ano 2000) e Vandré. Os dois filmes e as duas canções são pontos de abertura fascinantes sobre Bacurau porque o filme deseja passear entre esses registros. Tem um forte sentimento de alegoria pop e muito como os tropicalistas tira várias lições da antropofagia de Oswald de Andrade. Ele também permanece bem enraizado no seu povoado ficcional com tempo e lugar bem definidos e um desejo de descrever a ele e seu povo (vale apontar que a maior parte da figuração que preenche as cenas do filme vem da população Barra onde filmaram Bacurau). O desejo é de apresentar essas descrições numa embalagem política clara e sentida. Então boa parte das superfícies e operações seguem bem próximas de Caetano mas os sentidos mais para Vandré (estou simplificando aqui, mas digamos que a forma com que Bacurau se refere à “o povo” está bem mais próximo da arte do segundo que do primeiro).  Não é um casamento fácil, mas é de grande interesse.

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Zapata Westerns: Different Ways to Blow-up the Mexican Revolution

companeros

Sergio Corbucci’s Companeros

(versão em português aqui)

I republish here an article originally written for the catalogue of the retrospective “Faroeste Spaghetti – Bangue bangue à Italiana” in 2010.

The man walks through a valley dragging a coffin while a singer on the soundtrack describes his achievements. He watches from a distance while two rival groups – one white, the other Mexican – vie for the right to torture and kill a woman, and act with coolness and precision to eliminate them without exposing any emotion. It’s a series of strong images (Franco Nero dragging his coffin achieves an automatic iconic value) that powerfully introduce Django’s hero. In these few minutes, Sergio Corbucci’s film also accurately shows us much of what makes the Italian western diferente from its American counterpart.

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Zapata Westerns: Diferentes formas de explodir a revolução mexicana

companeros

Vamos Matar Companheiros, de Sergio Corbucci

(English version here)

Republico aqui um artigo escrito originalmente para o catálogo da mostra “Faroeste Spaghetti – O Bangue Bangue à Italiana” em 2010.

O homem caminha por um vale arrastando um caixão, enquanto um cantor na trilha sonora nos descreve seus feitos. Ele observa a distancia enquanto dois grupos rivais – um de brancos, o outro de mexicanos – disputam pelo direito de torturar e matar uma mulher, e age com frieza e precisão para eliminá-los sem expor qualquer emoção. É uma série de imagens fortes (Franco Nero arrastando seu caixão alcança um valor icônico automático) que introduzem com enorme poder o herói de Django. Nestes poucos minutos, o filme de Sergio Corbucci também nos apresenta com precisão boa parte do que torna o faroeste italiano diferenciado dentro do gênero.

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Ang Lee and the visible

gemini

(versão em português aqui)

Since the beginning of the decade Ang Lee’s concerns have moved towards the visible. An unusual decision for a filmmaker mainly associated with drama and a supposed eclecticity of themes and approaches. It is not a particular well-received decision, especially when considering the focus on new technologies and observing the reception for a film like Gemini Man I notice a tendency to think of its existence almost as a demo for future films, a flawed experiment, if not in the face of such.a pulp material, a mere for hire assignment animated by the possibility of experimenting with new toys. For my part, I would say that Gemini Man’s drama only interests Lee to some extent, but the most useful question is what is the uses behind the film’s technological breakthroughs, rather than their value in themselves.

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Ang Lee e o vísivel

gemini

(english version here)

Desde o começo da década as preocupações de Ang Lee se moveram em direção do visível. Decisão inusitada para um cineasta associado sobretudo a dramaturgia e a uma suposta ecleticidade de temas e abordagens. Não é um movimento dos mais bem recebidos, sobretudo quando se considera o foco em novas tecnologias e diante de um filme como Projeto Gemini percebo uma tendência a pensar sua existência quase como um demo para filmes futuros, um experimento falho, quando não diante de tal material pulp, uma mera encomenda animada pela possibilidade de experimentar com brinquedos novos. Da minha parte, diria que o drama de Projeto Gemini só interessa a Lee até certo ponto, mas que a pergunta mais útil é qual o uso por trás das apostas tecnológicas do filme, mais do que valor delas por si mesmas.

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Parasite’s theatrical games

parasita

(versão em português disponivel aqui)

Much has been written about how Parasite positions itself as a class struggle movie. In fact, it is very refreshing to see a film that assumes our social abyss so clearly, directly and didactically. The leftist imagination can sometimes forget these simple truths, and to observe the obvious can be essential in a political setting like ours (and I don’t speak only of Brazil here). The biggest quality and the biggest limitation of Bong Joon-ho’s film is its transparency. It is impossible in the face of his allegory not to understand what it is about and when the pressure cooker narrative bursts into violence to have any doubts as to which side the film is on. Everything is resolved too neatly, and there are times when the drama suggests a system as oppressive as capitalism with characters being moved around the stage to better serve the film’s ruthless project. Continuar lendo

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Os jogos de cena de Parasita

parasita
(English version here)

Muito já se escreveu sobre como Parasita se posiciona como um filme sobre luta de classes. De fato, é muito refrescante ver um filme que assume o nosso abismo social de forma tão clara, direta e didática. A imaginação de esquerda as vezes parece se esquecer dessas verdades tão simples e constatar o óbvio pode ser essencial num cenário político como o nosso (e não falo aqui só do Brasil). A maior qualidade e a maior limitação do filme do Bong Joon-ho é a sua transparência. É impossível diante de sua alegoria não entender do que ele trata e quando a panela de pressão explode em violência ter quaisquer dúvidas sobre de que o lado o filme está. As coisas se fecham até além das contas e há momentos que a dramaturgia dele sugere um sistema tão opressivo quanto o do capital com os personagens sendo movidos pelo palco para poderem de melhor forma servir o projeto impiedoso do filme. Continuar lendo

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