Meus Filmes Favoritos de 2022

Dead for a Dollar

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Como sempre algumas regras: a lista inclui filmes que eu vi pela primeira vez em 2022, exibidos pela primeira vez nos últimos três anos e que tenham mais 45 minutos. A ordem como qualquer lista do gênero é bastante aberta e subjetiva, eu certamente prefiro o o #22 ao #42 e este ao #82, mas eles poderiam trocar facilmente de posição com filmes mais próximos deles.

Vi menos curtas este ano do que nos últimos, então fico menos à vontade de fazer uma lista ampla deles, mas meus favoritos foram eathearthearth (Daichi Saito) e Wandering (Tsai Ming-liang).

100) Objectos de Luz (Acácio de Almeida, Marie Carré)
Acácio de Almeida é um dos grandes fotógrafos do cinema português, e logo do mundo, aqui ele e sua co-diretora Marie Carré se lançam numa reflexão sobre iluminar que se desdobra numa história afetiva do cinema português.

99) Baragaki: Unbroken Samurai (Masato Harada)
Filme de samurai classudo, revisionista, mas nem tanto, é sobre os Shinsengumi que nesta versão estão envolvidos em tantas intrigas políticas e traições quanto um filme de yakuza.

98) Aftersun (Charlotte Wells)
Acho o filme um tanto mais dependente das escolhas musicais do que o ideal, mas tem uma especificidade na relação filha/pai e neste vasculhar de memórias que lhe dá uma energia particular.

97) Lingui: les liens sacrés (Mahamat-Saleh Haroun)
Um filme seco e muito controlado sobre rostos resistentes se movendo num espaço social que é punitivo sem que o filme se renda a ele.

96) Quand la maison brûle (Nicolas Klotz, Elisabeth Perceval)
Outro filme sobre rostos e corpos de resistência que o casal Klotz/Perceval colhe pelo mundo todo, incluindo aqui, e organiza como uma pintura ampla que aos poucos se enriquece.

95) Caça Implacavel/Last Seen Alive (Brian Goodman)
Econômica e efetiva variação sobre A Dama Oculta como filme para pai divorciados do Gerald Butler. Seria muito popular na TV a cabo se tal conceito ainda existisse.

94) Dupla Jornada/Day Shift (J.J. Perry)
Um destes filmes que passeiam por vários gêneros e tem um mundo bem delineado, mas que é sobretudo uma oportunidade para o dublê tornado diretor J.J. Perry demonstrar sua facilidade com filmar ação.

93) Overdose (Olivier Marchal)
Olivier Marchal segue na sua missão de manter o polar vivo, como sempre, seu universo de policiais e criminosos tem muita textura e a violência quando chega é bem rápida.

92) Neptune Frost (Saul Williams, Anisia Uzeyman)
Musical afrofuturista. Se este trecho da lista tem muitos bons exercícios de gênero familiares, este surpreende justamente pelas suas imagens serem o oposto disso. Ao mesmo tempo que se destaca pelas boas soluções em meio a poucos recursos.

91) Encurralados em Veneza/Veneciafrenia (Alex de la Iglesia)
Alex de la Iglesia fazendo um giallo em Veneza que ao contrário de outras tentativas de resgatar o gênero passaria como mais um bom exemplar de segunda linha dos anos 70: malvado, estupido e estiloso.

90) Heard She Got Married (Charles Roxburgh)
Não vi os outros, mas aparentemente o cineasta Roxburgh e seu ator/co-roteirista Matt Farley vem fazendo seus filmes regionais há uma década. Este é um thriller paranoico bastante distinto com interlúdios musicais meio como ouvir um álbum de artista emocionalmente desequilibrado com muitos ressentimentos para o mundo à sua volta.

89) A Autopsia/The Autopsy (David Prior)
David Prior tem um olho muito bom e quando este média produzido para antologia de horror recente do Guillermo Del Toro se adentra a autópsia prometida pelo título é um modelo de conto de horror simples e desagradável e ele dá uma ótima oportunidade para F. Murray Abraham usar seus excessos de atuação.

88) It’s a Flickering Life (Yoji Yamada)
Yoji Yamada aos 90 anos se despedindo do cinema com um filme bastante emotivo sobre sua relação com ele que ao mesmo tempo não poderia ser mais convencional e privado. Cinema popular que só pode pertencer ao seu autor.

87) The Munsters (Rob Zombie)
Filme de amor sobre a sua forma, os seus personagens, sua breguice.

86) Nana/Before Now & Then (Kamila Andini)
Um melodrama contido mas bastante direto sobre os sacrifícios práticos para sobreviver a história.

85) We’re All Going to the World’s Fair (Jane Schoenbrun)
Sobre desaparecer numa tela de laptop não como uma imagem de fim do mundo, mas um status quo dado e aceito.

84) After Blue (Paradis sale) (Bertrand Mandico)
Acreditar e sustentar uma forma de ficção muito particular.

83) Boa Mãe/Bonne Mère (Hafsia Herzi)
Sobrevive-se a um país que te olha sempre com pé atrás, com uma mão dada que nem de longe é das mais fáceis. Podia ser só mais um exemplar de realismo social francês, mas Herzi tem um olho muito bom e uma parceria das mais expressivas com sua protagonista Halima Benhamed.

82) Treze Vidas/Thirteen Lives (Ron Howard)
É um filme do Ron Howard perdido no Amazon Prime então ninguém deu bola, mas Treze Vidas pega o resgaste do time juvenil de futebol tailandês de alguns anos atrás e transforma num daqueles filmes sobre a precisão e engenharia do artesanato Hollywoodiano e um bastante bom. Astro Viggo Mortensen e o fotógrafo Sayombhu Mukdeeprom em especial entregam excelentes contribuições.

81) Bem-Vindos de Novo (Marcos Yoshi)
Drama familiar fraturado e completamente não reconciliado sobre a imigração no Brasil. Um filme violento composto quase toda de imagens de casa.

80) L’Été l’éternité (Emilie Aussel)
Duas tradições do cinema francês o filme de férias e o filme adolescente desaparecendo numa interioridade assombrada.

79) Beleza/Wunderschön (Karoline Herfurth)
Encontrando a força da intimidade dentro dos cenários dramáticos mais reconhecíveis. Belíssimo elenco que tem a oportunidade de levar cada um dos pequenos dramas a sério e Herfuth segue localizando momentos de escape ali no meio.

78) Great Freedom (Sebastian Meise)
Os rituais da prisão e a distância do tempo não só o do arco do personagem principal, mas sobretudo a nossa distância para com ele e uma ideia de desejo como algo subversivo e libertário pronto a ser castigado. Franz Ragowski segue um dos melhores atores do mundo.

77) History of Ha (Lav Diaz)
Como todo o filme do Diaz é uma investigação sobre como uma paisagem pode incluir toda uma história nacional de violência.

76) Living In Your Sky (Shinji Aoyama)
A morte do Shinji Ayoama no começo do ano segue uma das maiores tristezas do cinema em 2022. Living in Your Sky foi o único filme que Ayoama fez nos últimos nove anos da sua vida e é justamente sobre este conflito nada resolvido entre as possibilidades escapistas do cinema e a presença inevitável da morte.

75) The Harbinger (Andy Mitton)
Um dos poucos filmes que souberam encontrar a desolação e horror do isolamento dos últimos anos.

74) Extremo Ocidente (João Pedro Faro)
Um soldado e um canibal vão jantar. Meio George Romero, meio Pedro Costa, 100% cinema underground carioca com sua inventividade e humor desesperados. Um filme sobre a devastação da cidade e o imaginário que ela produziu.

72) The Battle at Lake Changjin (Chen Kaige, Tsui Hark, Dante Lam) (co-direção: Jianxin Huang, Halqlang Ning, Ju-chun Park) e Top Gun: Maverick (Joseph Kasinski)
Dois grandes espetáculos e modelos de kitsch nacionalista.

71) Esperando Bojangles/En attendant Bojangles (Régis Roinsard)
O segundo melhor orgulhosamente artificial romance desesperado protagonizado por Virginie Efira. Que ele se passe num mundo privado completamente ficcional só ressalta a dor que ele carrega.

70) Ressurrection (Andy Semans)
Dois grandes atores, Rebecca Hall e Tim Roth, trancados numa relação de poder doentia.

69) Deadstream (Joseph Winter, Vanessa Winter)
Uma longa homenagem idiota a Evil Dead em forma de filme de streaming/found footage. Inventivo e com ótimos efeitos grosseiros de baixo orçamento e nenhum simples pensamento elevado.

68) La Abuela (Paco Plaza)
Horror de apartamento muito bem conduzido peki veterano Plaza a partir de um cenário alegórico simples mas ressonante de uma inevitabilidade muito eficaz.

67) Public Toilet Africa (Kofi Ofosu-Yeboah)
Viagem por um espaço de múltiplas violências e ressentimentos. É Touki Bouki, mas no lugar da liberdade de um Pierrot Le Fou a imaginação de primeiro mundo reapropriada é de thriller de vingança, mas o que segue em jogo é dar conta de uma exploração colonial impossível de resolver que inclui o próprio mercado de “world cinema” que o filme insiste em confundir.

66) Bala Perdida 2/Balle perdue 2 (Guillaume Pierret)
O Netflix teve um pequeno sucesso dois anos atrás com o primeiro Bala Perdida de Pierret, uma boa variação sobre filme de ação de perseguição de carro e cenas de ações físicas e por consequência ele recebeu bem mais recursos para esta parte 2 e ele faz muito bom uso deles.

65) Era Uma Vez um Gênio/Three Thousand Years of Longing (George Miller)
Um tanto discursivo talvez, quase um exercício acadêmico que aos poucos se deixa tomar pela sua fábula sobre os prazeres e horrores da ficção.

63) Eternally Younger Than Those Idiots (Ryûhei Yoshino) e We Made a Beautiful Bouquet (Nobuhiro Doi)
O cinema comercial japonês segue fazendo os melhores filmes jovens do mundo. São dois filmes sobre descobertas e perdas nos anos de faculdade, Eternally Younger Than Those Idiots é sobre reconhecer a dor dos outros e We Made a Beautiful Bouquet sobre deixar o ciclo da paixão se completar e são ambos muito bem observados e imaginados.

62) Le monde après nous (Louda Ben Salah-Cazanas)
O que aconteceria se um romance de Garrel existisse no nosso mundo e não no dele. Não sei se funciona de todo, mas fico muito feliz que exista.

61) It’s a Summer Film! (Soushi Matsumoto)
O cinema é este espaço de descobertas maravilhoso em que tudo se pode.

60) Marte Um (Gabriel Martins)
 Viver e sobreviver no Brasil atrás daquela eterna promessa não importa quantos tombos as coisas trazem. Gabriel Martins e seus quatro atores localizam tantos sentimentos contraditórios naquele espaço caseiro para muito além da ternura que o filme exprime.

59) Incroyable mais vrai (Quentin Dupieux)
Quentin Dupieux fez a carreira toda filmando com a maior naturalidade os conceitos cômicos mais absurdos e estúpidos imagináveis e acho que até por este confrontar a ideia de forma muito direta é o que eu mais gosto desde Steak.

58) Detectives. Vs. Sleuths (Wai Ka-fai)
O parceiro criativo de longa data de Johnnie To mergulha Hong Kong num delírio policialesco de uma cidade assombrada pela própria história de violência.

57) Tromperie (Arnaud Desplechin)
Arnaud Desplechin sempre foi um dos mais literários cineastas e ele transformou sua adaptação de Philip Roth numa investigação do ato de transformar texto em cinema.

56) Adeus Capitão (Vincent Carelli) (co-diretora: Tita)
A guerra cultural contra as tribos indígenas e sua violência não violenta. A grandeza do cinema do Carelli passa por entender o próprio lugar nada apaziguado da sua câmera como mediadora deste processo.

55) The Tragedy of MacBeth (Joel Coen)
Um filme sobre o poder do cineasta de fazer o que bem entender no caso paradoxalmente reduzir Shakespeare ao drama mais seco e visualmente excessivo possível.

54) Saloum (Jean-Luc Herbulot)
Híbrido de filme de horror e ação vindo do Senegal. Uma violência mítica localizada naquele espaço, muito contido até que explode.

53) Pinóquio (Guillermo del Toro, Mark Gustafson)
De certa maneira esta animação alcança muitos dos desejos de Del Toro de lidar com o fascínio do horror. Ele ama as imagens e a ficção, mas nunca teve muito estômago para as consequências delas, então animação e uma história infantil clássica oferecem a distância exata e as suas variações sobre o conto são muito inspiradas.  

52) The Killer (Choi Jae-hoon)
O diretor Choi Jae-hoon e a estrela coreana Jang Hyuk se reúnem novamente após ótimo The Swordsman para encontrar o máximo de maneiras diferentes de filmar Jang matando um exército interminável de capangas.

51) Seguindo Todos os Protocolos (Fabio Leal)
Quando você quer trepar, mas também seguir cada possível regra. O único filme de pandemia necessário, transformando cada fobia em algo terrivelmente engraçado e desesperado.

50) Une jeune fille qui va bien (Sandrine Kiberlain)
Um dos muitos filmes fortes feitos este ano sobre as distâncias doidas entre a juventude e o mundo adulto. E tem algo muito ressonante neste desencontro sobre a vivacidade de cada momento e o peso da história.

49) The Battle at Lake Changjin: Water Gate Bridge (Tsui Hark) (co-direção: Jianxin Huang, Ju-chun Park)
O primeiro filme do Lago Changjin era como uma grande operação militar, esta sequência também, mas um pouco menos, então os excessos de Tsui transparecem mais. É um grande espetáculo patriótico, mas é assombrado pela morte e compreende que se sacrificar pelo país ainda significa isso mesmo.

48) Licorice Pizza (Paul Thomas Anderson)
Anderson é um cineasta muito ansioso para fazer um filme plenamente relaxado, mas tem metade desta aqui que é uma maravilha e tem algo ali na ideia do cinema como mediador desta relação que permanece em constante performance e como o próprio filme nunca resolve seus sentimentos para com retorno ao passado.

47) The Souvenir Part II (Joanna Hogg)
E agora algo essencialmente sobre transformar este desejo de retorno ao passado em cinema nas suas complicações e o que tem de expressivo. O cinema e seu espelho, e é muito mordaz, lúdico e engraçado.

46) Earwig (Lucile Hadzihalilovic)
Horror de arte de se perder nas texturas. nos rostos cuidadosamente iluminados e imagens sempre um tom acima, puro sentimento ruim no melhor sentido.

45) Cantochão (Vinicius Romero)
A iminência da luz e do mundo natural e o peso às vezes assustador deles.

44) Watcher (Chloe Okuno)
Filme de horror se voltando a si mesmo e seus mecanismos. Medo de lugares desconhecidos, da ausência de poder, da ideia de que a vida foi reimaginada em termos cinematográficos. Muito bem controlado por Okuno sobretudo na sua compreensão da sua terra estrangeira.

43) Briga entre irmãos/Frere et Soeur (Arnaud Desplechin)
Se neurose familiar é uma das maiores constantes na obra de Desplechin, este aqui é tão um retorno ao terreno conhecido que a família tem o mesmo nome da de Um Conto de Natal. Como sempre, é uma questão de encontrar formas ficcionais no caso construir um mundo particular do ressentimento mútuo daquele casal de irmãos que é mais forte porque impenetrável.

42) Shin Ultraman (Shinji Higuchi)
Se muito do cinema pop atual quer desesperadamente tornar o absurdo crível, esta recente série japonesa trata de como a estrutura do mundo real absorve este absurdo. Shin Ultraman tem um estilo seco bem direto que não ancora a ação num realismo, mas realça as suas qualidades inverossímeis. Como se a sua imaginação fosse por demais avassaladora para ser contida, por mais estritas quanto às estruturas à sua volta fossem.

41) Matter Out of Place (Nikolaus Geyrhalter)
Como todos os documentários de Geyrhalter é um filme sobre chegar às coisas e torná-las materiais. Neste caso, todo o lixo que a sociedade não sabe o que fazer.

40) Vikram (Lokesh Kanagaraj)
Um trem desgovernado mais impressionante justamente quanto mais grandiloquente e excessivo se revela.

39) Inu-Oh (Masaaki Yuasa)
Transcendência musical pelo viés da mais expressiva animação.

38) La Pièce rapportée (Antonin Peretjatko)
“Quando alguém que anda de Rolls Royce se casa com alguém que anda de metrô, quem ganha?” Uma deliciosa comédia de guerra de classes sobre roubar dinheiro das piores pessoas do mundo.

37) Down with the King (Diego Ongaro)
Eu não sabia que precisava de um filme sobre um rapper perdido num conto pastoral lidando com trabalho, físico e criativo, mas não teve muitos filmes recentes mais recompensadores.

36) Kind Hearts (Gerard-Jan Claes, Olivia Rochette)
Cinema etnográfico de onde menos se espera de uma paciência e respeito enorme pelos seus jovens, seus mundos e desejos e uma grande consciência de como olhamos para ele.

35) Dark Glasses/Occhiali Neri (Dario Argento)
Muito depois que todos desistiram dele, eis que ressurge Dario Argento com um pequeno giallo sobre todas as mortes que ele encenou ao longo de cinco décadas e destruição que elas deixaram para trás.

34) Poeta (Darezhan Omirbayev)
Do peso e da consequência de extrair um olhar para com um mundo.  Um filme de traços perdidos na tela de um mundo que trabalha para apagá-los.

33) Aristocrats (Yukiko Sode)
Uma comédia de maneiras do século XIX é a melhor maneira para lidar com a estratificação social japonesa. A incongruência me lembra muito Whit Stillman, mas a diretora Sode encontra este desencontro absurdo e suspenso no tempo de uma maneira bem própria. As protagonistas Mugi Kadowaki e Kiko Mizuhara estão entre as melhores que vi este ano.

32) RRR (S. S. Rajamouli)
Um pouco como Top Gun e The Battle at Lake Changjin um triunfo de kitsch nacionalista com todo o cuidado do melhor aparato industrial e possíveis complicações políticas que isto significa. A primeira metade é um pouco do que mais prazeroso o cinema produziu este ano.  Rajamouli tem um domínio da imagem digital artificiosa que poucos dos seus pares alcançaram.  

31) Apollo 10 e Meio: Aventura na Era Espacial/Apollo 10½: A Space Age Childhood (Richard Linklater)
Menos um filme nostálgico quanto um discurso sobre o mesmo e o apelo deste eterno retorno a partir do tipo de observação bastante específica que Linklater se especializou.

30) Confess, Fletch (Greg Motolla)
Greg Motolla e Jon Hamn fizeram uma comédia comercial acessível e sem gorduras e ninguém tirando uma dúzia de críticos viu e passamos todos os últimos reclamando “e é por isso que o cinema popular americano morreu” e bem é verdade. Muito engraçado com uma atuação ótima do Hamn e elenco de apoio idem, filmado com cuidado e levando sua trama de mistério a sério suficiente sem pesar a mão. Lembro que o Kent Jones disse uns vinte e cinco anos atrás que Hollywood regrediu do gênio do sistema para o gênio contra o sistema e este filme expressa isto muito bem.

29) Crimes do Futuro (David Cronenberg)
No lado oposto da prateleira dos autores, David Cronenberg regressa após uma década com um filme sobre como é difícil para o artista chegar ao mundo quando mesmo nos supostos círculos mais respeitáveis está preso a um purgatório de considerações comerciais. De alguma maneira, é tão engraçado quanto amargo.

28) Até Sexta, Robinson/À vendredi, Robinson (Mitra Farahani)
O século XX se corresponde por mensagens tecnológicas, perdidas em enigmas em meio um mundo cada vez mais distante dele. Farahani faz um filme muito bonito através destes dois artistas mais que veteranos, Golestan e Godard, cada um muito grande a sua maneira e claro o filme acaba ganhando um outro sentido após a morte do segundo, mas não devia ser limitado a este.  

27) Marx Pode Esperar/Marx può aspettare (Marco Bellocchio)
Uma reunião familiar em torno de um fantasma. O cinema de Bellocchio sempre foi tomado por esta ideia das mitologias familiares e as suas dores escondidas e ao abandonar a camada de ficção e lidar bem diretamente com a sua, ele torna isto ainda mais sentido.

26) Septet (Yuen Woo-ping, Johnnie To, Tsui Hark, Ringo Lam, Sammo Hung, Patrick Tam, Ann Hui)
Johnnie To trabalhou por anos nesta antologia no qual uma série de cineastas da maior geração do cinema de Hong Kong retoma a vida da cidade dos anos 50 até hoje. É quase um filme de despedida de um cinema que sabe chegou ao fim e é o raro filme em episódios cujo conjunto importa mais que as partes.  

25) Onoda: 10 Mil Noites na Floresta/Onoda, 10 000 nuits dans la jungle (Arthur Harari)
Um homem permanece mais da metade da sua vida lutando contra o seu ambiente depois que o mundo se esqueceu da sua guerra. Uma experiência envolvente e imersiva muito porque se foca nas tarefas diárias e custos da sua sobrevivência e luta.

24) The People You’re Paying to Be in Shorts (Jon Bois)
O filme parte do que parece uma grande curiosidade que o “pior time da história da NBA” pertencesse ao atleta mais celebrado da história da liga para contar uma história sobre trabalhar diariamente numa função ingrata onde a derrota vem todo dia, ninguém presta atenção e seu patrão é um literal traidor de classe que só se incomoda quando as coisas começam a ficar embaraçosas demais. Tudo contado sem praticamente nenhum dos recursos esperados do gênero.

23) Viens je t’emmène (Alain Guiraudie)
Uma farsa sexual sobre como libido insatisfeito serve de combustível para diversas formas de paranóia e ressentimento contemporâneos.  Engraçado, absurdo, de mau gosto e criativo daquela maneira de Guiraudie.

22) Armageddon Time (James Gray)
Um filme sobre olhares o da criança para com o mundo dos adultos e o do artista para com o seu passado que extrai muito do espaço mal resolvido entre eles porque é justamente sobre um certo horror da vida adulta. É também um filme muito duro sobre ideologia, assimilação e as maneiras com que a família ajuda a tornar toleráveis muitas dessas ideias.

21) Fabian – o mundo está acabando (Dominik Graf)
Apocalipses de ontem e hoje. Graf é um grande contador de causos que aqui une Sternberg e Fassbinder para falar de fins da república de Weimar, mas não só dela e no meio do caminho e no seu vigor também encontra uma imagem perdida de cinema.

20) Nuit obscure – Feuillets sauvages (Les brûlants, les obstinés) (Sylvain George)
Corpos resistentes, simbólicos, mas nunca encerrados em si mesmos que se movem por entre um espaço colonial e de exploração que ainda permanece. Um filme construído sobre todo um acúmulo de vida em meio a um espaço de violência do estado, um acúmulo que teima em nunca se dobrar a pacificação do inaceitável.

19) Contratempos/À plein temps (Eric Gravel)
Um ataque de ansiedade quase tão grande quanto Joias Brutas, mas é sobre uma mãe solteira tentando manter o trabalho e quem sabe arranjar um melhor. Lembro de poucos filmes tão bons sobre ficar puto com o trânsito e tentar não ser notado pelo chefe, logo certamente uma dos filmes mais universais do ano. Laura Calamy segue uma das atrizes mais subestimadas do mundo.

18) Fogo Fátuo (João Pedro Rodrigues)
Desejo e privilégio através do filtro de erotismo de bombeiro queer, logo este é provavelmente o filme mais puro de João Pedro Rodrigues. Bons números musicais, ótima coreografia, um maravilhoso olho para cor e locação, engraçado, mas mordaz.

17) Noites em Paris/Les Passagers de la Nuit (Mikhaël Hers)
Utopias e fracassos na França de Mitterrand. Mais consciente nas suas construções do que os outros filmes do Hers, talvez por ser um filme tão marcado por este retorno ao tempo passado e sua distância. Como sempre, ele é um mestre em dar espaço aos seus personagens e encontrar força neste gesto de tocar as coisas no dia a dia. Tem alguns pontos de contato interessantes com Armageddon Time.

16) O Filme do Escritor (Hong Sang-soo)
Como quase todos os filmes de Hong ele é muito preocupado com a construção da ficção, o gesto de transformar experiência em narração e mais do que a maioria ele é bem atento ao como um acúmulo de momentos se transforma no segundo.

15) The Fire Within: Requiem for Katia and Maurice Krafft (Werner Herzog)
Herzog pega o arquivo do casal Kraftt com suas imagens de natureza em revolta impressionantes para fazer um ensaio sobre cinema e sua relação/atração com a morte e o perigo.

14) Skinamarink (Kyle Edward Ball)
Um quarto é um lugar perigoso, cheio de becos escuros e mistérios. Skinamarink é um filme de terror previsto sobre esta ideia, mas atinge a paranóia e a ameaça através de uma coleção de efeitos texturais, luzes e sombras que existem fora das expectativas habituais do gênero. Um filme sobre tornar o conhecido pouco reconhecível.

13) Pacifiction (Albert Serra)
Como todo o filme do Serra trata-se de uma provocação, mas é o seu filme mais imediato e o cerimonial da morte muito menos conceitual. Pelo contrário, seu burocrata colonial segue muito próximo dele e a ficção aqui mais um gesto de auto-aniquilação.

12)  Com Amor e Fúria/Avec amour et acharnement (Claire Denis)
Amor como uma forma de negociar uma linguagem corporal violenta. Um pouco como Trouble Every Day, mas sem a necessidade do sobrenatural para representar como aquelas pessoas vão se ferir e permanecer num jogo de atração/repulsa na tela.

11) XCXHXEXRXRXIXEXSX (Ken Jacobs)
Parte da série de filmes de Jacobs que retomam/animam imagens antigas pelo viés da manipulação e extensão delas neste caso um filme erótico silencioso francês. O filme safado de Jacobs no qual sexo vira algo sagrado e fantasmagórico.

10) Don Juan (Serge Bozon)
Don Juan desmontado e assombrado com Efira a interpretar todas as mulheres a sua volta. Bozon fez uma aproximação entre o fiolme e as comédias mexicanas sobre machismo ferido de Luís Buñuel e é de certo um dos filmes recentes que trabalham nesta linha que mais perto chegam de reviver dom Luís, com seu pulso de ficção de ilusão doentia.

9) Benediction (Terence Davies)
Homens a ferirem-se uns aos outros porque não há outra maneira de se amarem. Um melodrama suspenso de arrependimento e violência passiva que faz grande uso do talento de Davies para recordação cinematográfica e do que ele e as suas personagens estão dispostos a partilhar e a manter fora da tela.

8) Os Fabelmans (Steven Spielberg)
Muito próximo do filme do Gray, não apenas pelas várias cenas comuns, mas em lidar com a dificuldade de desmistificar os pais, só que no lugar da fabula política toma a forma sem mediações de um pesadelo freudiano. O cinema precisa mentir porque quando ele não faz, o que ele revela é doloroso demais. É curioso ver Spielberg no final da carreira no seu filme mais pessoal chegar tão perto do seu amigo De Palma na forma como a ilusão do cinema e trauma andam juntos como expor um só revela mais do outro.

7) Revolution+1 (Masao Adachi)
Masao Adachi sempre foi um cineasta político frontal, aqui ele faz um filme sobre o assassino do ex-primeiro ministro japonês Shinzo Abe, um filme de inevitabilidades, de decisões politicas que tornam seu desfecho selado. Me fez pensar muito no 15:17 do Clint Eastwood com toda distância sócio ideológicas que os separam.

6) Il Buco (Michelangelo Frammartino)
Uma caverna e um mundo eterno. O cinema é um lugar de revelação ainda maior quanto mais concreto suas imagens se revelam. Só no cinema o sagrado e o material são o mesmo.

5) Não! Não Olhe!/Nope (Jordan Peele)
O cinema é um espetáculo incrível pois a despeito de tudo que você pode jogar nele tem poucas coisas mais marcantes do que saber filmar um céu e suas nuvens. O filme de Peele é sobre prática e espetáculo e como seus fascínios são inseparáveis, um filme anti-ilusionista profundamente sedutor porque coloca em primeiro plano este gesto de olhar o alto da paisagem. De como tem poucas coisas mais incríveis do que Daniel Kaluuya a montar num cavalo cortando aquele lugar com o céu acima dele.

4) Dead for a Dollar (Walter Hill)
Um ato de recuperação de formas antigas. Walter Hill, aos 80 anos, faz o faroeste realizado por um grande cineasta mais desprovido de adornos desde que ele entrava na indústria uns cinquenta anos antes. E agradeço-o muito por ter a ideia de que entre outros os atores possíveis a pessoa certa para interpretar Randolph Scott em 2022 fosse Christoph Waltz.

3) Petite Solange (Axelle Ropert)
Axelle Ropert segue fazendo os melhores filmes de família pois os mais dolorosos. É um filme sobre o trauma do fim da unidade familiar, mas sobretudo sobre as relações de poder que existem ali e como é ser aquela que tem menos. E ela segue pensando o drama como música como ninguém mais no cinema atual consegue.

2) Mato Seco em Chamas (Adirley Queirós, Joana Pimenta)
Como todos os filmes do Adirley Queirós (aqui co-assinando com Joana Pimenta que já havia fotografado seu filme anterior), Mato Seco em Chamas esta atrás de localizar uma ficção possível para achar fugas de uma sociedade de controle, uma ficção que possa unir um imaginário popular com uma estética criativa de simplicidade e baixo orçamento, existe nesta crença de que deste encontro seja possível surgir uma imaginação de resistência.

1) Stars at Noon (Claire Denis)
Acho curioso que Stars at Noon e Mato Seco de certa forma se completam a despeito do primeiro se assumir desde o primeiro instante como um olhar mistificante de estrangeiro e o segundo ser um filme orgulhosamente regional pois está ali mais do que uma questão de deslocamento diante de forças políticas repressoras, o do estranhamento da impossibilidade de se definir diante delas e angústia que isto carrega. É um filme sobre se agarrar a um outro corpo porque ele é o único disponível, de procurar um romance como fuga. Sei que vi o filme uns três meses atrás e não tem um dia que não penso nesse estranhamento, neste desespero perante o incompreensível, de tudo que eu vi este ano foi o filme que mais permaneceu comigo.

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