Território em chamas

Raging Fire

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Existe ainda algo que pode ser chamado de um cinema de Hong Kong? Esta sempre foi uma questão complexa dada a sua posição de um cinema nacional que pertencia a uma colônia. Mas se torna cada vez mais com a passagem do tempo desde que ela se tornou uma zona autônoma chinesa. Cineastas que associamos no Ocidente com o cinema local como Tsui Hark ou Stephen Chow, se dedicaram na última década a filmes que são mais bem descritos como chineses a despeito de co-produções e nostalgia fazer com que sejam descritos de forma oposta. Ainda existe um cinema regional por ali, Louis Koo em particular vem se dedicando considerável tempo e dinheiro a tentar manter a indústria viva, mas a distância entre os filmes com dinheiro, cujo foco principal é a China Continental e as produções locais é cada vez maior.

Para um cinéfilo ocidental o nome Hong Kong nos últimos 40 anos tende a trazer à mente filmes policiais violentos, e eles seguem um dos grupos de filmes locais mais populares por aqui, ao mesmo tempo que ocupam um lugar cada vez mais tênue. Primeiro existe a questão da censura chinesa que opera no filme policial de forma muito semelhante ao antigo Código Hays fazia em Hollywood até meados dos anos 60: a polícia precisa ser retratada como boa e eficiente e a atividade criminal tem que ser punida ao final. Há também uma mudança de gostos das plateias locais ao longo das últimas duas décadas em favor de comédias e romances, algo acentuado após os protestos de 2019. Sem me aprofundar no tema que em complexidades demais para um artigo como este, é certo que a imagem da polícia local saiu bastante arranhada dos confrontos com uma grande quantidade de relatos de violência não provocada. Quando o site popular Lovehkfilm, que apesar de em inglês é bastante acessado por locais, fez uma votação ano passado sobre os melhores filmes de Hong Kong de 2010, Drug War do Johnnie To foi o único filme policial no top 10.  

Boa parte dos filmes policiais de Hong Kong recentes são filmes de época, o governo chinês faz vista grossa quando o período retrato é de domínio britânico, geralmente protagonizados por estrelas veteranas que trabalham no gênero há pelo menos duas décadas e invariavelmente possuem um forte apelo nostálgico. Filmes sobre os anos pré-devolução que sugerem que o mundo congelou por volta de 1993. Este ano teve até o lançamento de um Era Uma Vez em Hong Kong passado nos anos 1970 e cujas quatro estrelas tinham média de idade de 57 anos (Louis Koo, aos 51, era o jovem do elenco principal). Desde que os cinemas chineses reabriram no fim do ano passado tivemos, porém, um grupo forte de filmes policiais que quebram um pouco desta visão: Shock Wave 2 (Herman Yau), Raging Fire (Benny Chan) e principalmente Limbo (Soi Cheang). São filmes de ação vigorosos que fazem bom uso da estrutura da indústria chinesa, se passam atualmente e usam suas histórias de lei e ordem de forma a alegorizar um território em disputa.

Shock Wave 2 (uma sequência apenas no nome como é comum por lá) e Raging Fire tem essencialmente a mesma trama visto por ângulos opostos tratando de ex-policiais radicalizados ao se sentirem traídos pelo governo chinês. No primeiro, Andy Lau é um especialista em desarmar bombas que perdeu uma perna numa explosão e após a fisioterapia descobre que o governo não tem interesse por devolvê-lo a ativa. No segundo, Nicholas Tse acaba de sair da cadeia por matar um suspeito e acredita que o sistema lhe negou a proteção habitual para violência policial. Lau é claro muito mais simpático nos ressentimentos, apesar de Raging Fire ser honesto sobre abuso de força policial geralmente não gerar punições. Lau é um anti-herói e Tse o vilão psicótico dos seus respectivos filmes, mas eles ocupam o mesmo lugar de mobilizadores de um ressentimento que se desencadeia numa série de ondas violentas. Ambos os filmes oferecem bons policiais de contraponto, com Lau Ching Wan como um velho amigo de Lau pronto para dar um olhar moral à ação e Donnie Yen como o antigo mentor de Tse que precisa capturá-lo. São personagens corretos, morais e chatos.

Os títulos dos dois filmes são similares na forma que prometem uma violência de purgação e suas estratégias de cenas de ação seguem esta toada. Não são filmes sobre criminalidade, mas terrorismo, o espaço público de Hong Kong constantemente tomado por erupções de violência, o papel da polícia a de contenção de danos. A ação de Shock Wave 2 é grandiloquente e de coreografia elaborada com Yau desenhando cenas expansivas com Lau ao centro com cenas que ecoam a ideia de encruzilhada e Hong Kong como um espaço em disputa moral. Raging Fire é mais direto e brutal, uma série de tiroteios e perseguições bem ao gosto de Chan que escalam sempre em direção à destruição. A influência de Michael Mann é notável com Chan encenando múltiplas variações do tiroteio após o assalto de Fogo contra Fogo. Se o drama aponta para a lei e ordem, as imagens encontram escape na anarquia dos atos. Raging Fire é tecnicamente um veículo para Yen e faz bom uso da sua imagem de herói nacionalista cultivada na última década com a série Ip Man, mas seus prazeres estão na demolição promovida por Tse e seus comparsas, sabe-se que eles precisam ser punidos, mas vive-se perigosamente enquanto executam policiais e explodem coisas. A narrativa conformista consumida pela forma anárquica.

Estes estão longe de serem filmes redondos. Shock Wave 2 fraqueja no terceiro ato em parte porque é difícil estender um impasse em parte por necessidade precisar manter a sua organização terrorista vaga. Raging Fire como muitos filmes de Benny Chan tem dificuldades de animar seu drama e toda a conversa sobre Yen e Tse como irmãos de sangue soa a uma concessão às tradições locais do que algo que o filme se importe. Chan faleceu após as filmagens, mas antes da montagem do filme ficar pronta, mas o filme respeita a excitação momentânea dos seus melhores trabalhos. Os créditos finais com imagens do diretor no set explicitando se tratar de um filme póstumo acrescentam um distanciamento ao tom mais imediato encenado até ali. Shock Wave 2 também não esconde seu caráter auto reflexivo, o anti-herói de Lau é uma figura no qual todos projetam desejos. Lau provavelmente representa o cinema de Hong Kong mais do que qualquer outro ator ou realizador em atividade, ele permanece extremamente popular na Ásia tanto como ator quanto cantor e identificado mais com Hong Kong do que a China e ele segue relevante e não encerrado em nostalgia. Em Shock Wave 2, ele finalmente se transforma no próprio cinema de Hong Kong, tentando permanecer relevante, servir seus financiadores chineses e uma série de vontades conflitantes e impossíveis de resolver.

Limbo é mais ambicioso do que Shock Wave 2 e Raging Fire e menos dado a concessões. É uma trama de gênero, no caso um filme de caça a um serial killer, mas mais preocupado com a sua ambientação. Se a violência naqueles filmes carregava um peso alegórico, em Limbo Hong Kong em si é o espaço prometido pelo título. A fotografia cuidadosa em preto e branco que reimagina Hong Kong como um pesadelo em tons de cinza reforçando uma irrealidade para ação que passa a existir mais pelo seu caráter simbólico.

Eu escrevi muitas vezes sobre o diretor Soi Cheang no passado e desde que ele realizou SPL 2: A Time for Consequences (minha escolha para melhor puro filme de ação da década passada), ele se dedicou a uma série de filmes sobre a figura mítica chinesa do rei macaco reimaginados como grandes espetáculos de CGI. Me parece um desperdício dos seus talentos consideráveis, mas os três filmes foram bastante populares na China e Limbo sugere um filme feito com o tipo de cheque em branco que gostaria se que gente talentosa gastando seu tempo em filmes como estes tivesse a oportunidade de fazer para compensar, mas raramente se encontra.

A trama se refere a dois policiais, um veterano ríspido e abusivo e um mais jovem que faz o contraponto mais aprazível usando uma informante ex-presidiária para se mover no submundo e localizar o assassino. Boa parte do centro emocional do filme os esforços da atriz Liu Yase de se mover entre antigos asseclas criminosos, o assassino e o policial veterano cada vez mais instável e violento (muito bem interpretado pelo veterano Gordon Lam). O filme se sustenta sobre o ato de se mover sobre uma Hong Kong em ruinas.  O limbo do título internacional não poderia ser mais claro (o título em cantonês se refere ao dente podre que incomoda o policial jovem ao longo do filme, digamos que Cheang não é exatamente discreto).

Alguns stills de Limbo

Limbo é por princípio um filme experiencial. Um triunfo de direção de arte suja e carregada, que parte do cenário central ser um lixão e expande a ideia para toda a cidade. Os membros decapitados de mulheres encontrados pela polícia se desdobram por toda a ideia de uma cidade abandonada. A investigação tem algo da segunda metade do Céu e Inferno de Kurosawa, câmera e polícia unidas num olhar cortante sobre espaços esquecidos. Hong Kong costuma aparecer no cinema como um caso de sucesso de capital, lugar da modernidade e da promessa de um mundo novo que deu certo, Limbo oferece o ponto de vista oposto, um lugar apertado, desagradável, deixado para trás pela China e o Ocidente. Hong Kong não pertence a ninguém e está condenada a naufragar no esquecimento. Boa parte do que os enquadramentos sempre claros de Cheang traçam é como se negocia o movimento neste território hostil. A ideia da cidade como prisão é recorrente nos thrillers de Cheang e encontra em Limbo uma versão maximalista. Quando o filme estreou no começo do ano no Festival de Berlim alguns críticos internacionais fizeram uma aproximação entre ele e É Difícil ser um Deus, o épico de ficção científica medieval do Aleksey German e se estes aparentam ser filmes bem distantes, eles operam por conceitos estético-narrativos similares escavações monumentais sobre mundos barrocos violentos e sufocantes.    

Cheang é um cineasta muito mais prático que German. Se os filmes dividem certo delírio barroco, Limbo é muito mais direto e propulsivo. A construção do mundo estabelece os sentidos, mas o filme nunca se deixa sufocar pelo seu peso. É um filme por demais punitivo para ser populista, mas nunca deixa de ser um excitante. Lá pelo meio ele encena uma elaborada perseguição que envolve os vários grupos rivais que circundam a informante que é mais envolvente do que qualquer coisa que se vai encontrar num filme mais convencional este ano, de uma clareza geográfica, movimento físico e consequência difíceis de serem encontrados. É o filme todo em miniatura e o conceito de cinema lido pelo viés das ações no que ele tem de mais idealizado. Se Limbo é o pesadelo de uma cidade sufocando no lixo tentando e fracassando em servir diversos desejos, é também por demais excitante para completamente se afogar com ela, seu espetáculo físico se sobrepõe aos horrores que permite ressoar.  

O que mantém Limbo muito próximo de Shock Wave 2 e Raging Fire é esta aposta constante nas ruas da cidade como um espaço em tumulto. São fantasias de convulsão social com pontos de chegada distintos, mas animados pelo mesmo mal-estar.

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