A artista e a máquina

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Qualquer revisita tardia a um filme famoso será sempre assombrada tanto pelo peso das imagens anteriores quanto pela desconfiança que se trata de um gesto criativo cínico. Um retorno carregado por significados passados e por um desejo de explorar essas imagens no presente. Isto vale igualmente para algo como 2010 (1984) ou Blade Runner 2049 (2018), sem falar de dezenas de remakes de qualidade variada que a indústria cinematográfica sempre produziu. Não é um fenômeno recente, Hollywood produz imagens em eco desde os seus primórdios, Charles Chaplin interpretou Carlitos de uma forma ou outra por quase trinta anos até O Grande Ditador (1940) e o público nunca lhe perdoou simbolicamente abandonar o personagem no clímax dele. Claro que tal saturação alcançou uma nova extensão nos anos recentes, filmes que por vezes existem como promessas de filmes futuros e ecos de filmes passados se tornaram não apenas dominantes, mas o único negócio possível dentro do cinema de alto orçamento. Alguns meses atrás a Warner Brothers lançou uma sequência tardia Space Jam 2 que se desdobrava como um exercício de nostalgia pelo filme original e um passeio bastante consciente pela biblioteca do estúdio. O novo Matrix Resurrections, feito 22 anos depois do filme original e quase duas décadas após as suas sequências-evento, é um filme imaginado a partir das angústias criativas que derivam dessas observações.

Existe um motivo real para Lana Wachowski (trabalhando aqui sem sua irmã Lilly) revisitar seu filme mais famoso tantos anos depois? Em termos práticos a resposta seria não. Matrix Resurrections é um filme que existe porque um grande conglomerado midiático, a mesma Warner Brothers, decidiu que dentro do seu acervo era algo a ser reempacotado e porque uma das suas criadoras num momento em que se torna cada vez mais difícil conseguir financiamento resolver tentar ver se algo poderia ser feito a partir disso. Não significa que se trate de um mau filme, gosto bastante dele, mas esta é a realidade do qual ele surge e a primeira e de certa forma mais importante decisão criativa é assumir este ponto de partida, Em determinado momento Neo (Keanu Reeves), novamente dentro da Matrix – porque um certo reset é essencial para esta cultura de repetição –, e que na nova realidade dela é um criador de videogames responsável por uma trilogia famosa chamada Matrix é informado pelo seu parceiro comercial de que seus donos Warner Brothers planejam uma nova sequência para o jogo e que ela acontecerá com ou sem seu criador. É uma cena bastante engraçada, assim como a subsequente em que vários tipos criativos destrincham o apelo dos filmes originais de maneiras que invariavelmente o reduzem a pouco mais que termos a ser explorados comercialmente.

Alguns viram este mesmo movimento como um derrotismo passivo-agressivo, já não há nada a fazer a não ser administrar a própria criação e tentar reduzir os estragos da corporação. Me parece uma leitura mais literal do que simbólica das possibilidades ali presentes. Tornar os Matrix originais parte do texto do novo filme e ir além e trazer para a obra as suas condições de produção são gestos essenciais para imaginar Matrix como um gesto criativo e não somente cínico em 2021. Se a algo de derrotista é a consciência do filme de que do ponto de vista da indústria de entretenimento as máquinas venceram e que o filme original não deixa de ser parte deste processo.

O Matrix original é claro um dos filmes da virada do milênio mais imprimidos no imaginário coletivo, uma estética e uma série de imagens que foram saturadas nos anos seguintes, mesmo quem nunca assistiu o filme pode ser incapaz de apontar a trama, mas certamente reconhece uma série de seus procedimentos, do estilo visual as cenas de ação influenciadas pelo cinema de Hong Kong a muito da terminologia que o filme adota. É um raro sucesso popular cuja existência supera bastante o seu retorno econômico para seu estúdio, o filme persistiu em homevideo, na televisão e infinitas paródias da imagem de Keanu Reeves de óculos escuros e sobretudo preto. Matrix Resurrections surge do que é feito deste imaginário.

Há duas ideias recorrentes ligadas a ela que o filme retoma múltiplas vezes, uma é de que a trilogia original é algo de significado bastante pessoal e sentimental tanto para Neo que a teria vivido quanto para Lana Wachowski que o criou. O que se faz a partir de arte pessoal massificada é o que esta em jogo aqui. Resurrections é um filme bastante generoso neste sentido, sua angústia está muito mais em como estas imagens são comodificadas do que necessariamente deslidas. O filme ainda opera por impulsos contraditórios, se Wachowski pode por vezes ser uma artista didática, ela não é uma que sente necessidade de impor sentido às coisas. A tragédia de Matrix original é o que a indústria e não os espectadores fizeram com ele. Na já mencionada sequência em que a trilogia original é dissecada tudo de “politica trans” a “bullet time” termina tendo o mesmo efeito esvaziado e publicitário. Existem sentimentos e ideias ali que são coisificados para serem mais bem explorados.

O filme opera na direção de reafirmar que estas imagens têm significado próprio, que elas são ressonantes para além de como são vendidas. Uma das ideias mais fortes e tocantes do filme é de como estas imagens são habitadas, dois dos personagens mais famosos da trilogia original, os vividos por Laurence Fishburne e Hugo Weaving são reimaginados por novos atores, Yahya Abdul-Mateen II e Jonathan Groff. São atuações muito conscientes, ecos e desleituras deliberadas das originais. Eles não interpretam personagens que estão escritos, mas personagens aos quais já foi dado um corpo por intérpretes originais. O prazer dos atores é nítido ao longo do filme. Velhas identidades ganhando corpos novos e localizando nesses sentidos diferentes. Matrix original não atualizado, mas revivido por novos sentidos, os novos atores encontrando em figuras icônicas rígidas no imaginário uma realidade gestual nova e nele procedimentos e obsessões que não se resumem a mais do mesmo. Ser e criar são movimentos contínuos e parte da força do filme é sua crença nesta ideia.

A outra ideia que é retomada é a nostalgia como uma forma de controle. O novo Matrix não traz só para dentro do texto a sua existência, mas também a ideia de que esta nova existência é baseada num desejo de que ela siga fixa no tempo. Não se quer um novo Matrix, mas o mesmo, um Matrix que tenha a impressão de ser novo, mas que recauchute elementos do original (algo como O Despertar da Força). O novo vilão do filme vivido por Neil Patrick Harris faz múltiplos discursos da importância reconfortante da nostalgia, Lambert Wilson, um dos poucos atores da trilogia original trazidos de volta, aparece em cena apenas para reforçar os méritos do passado, uma figura de nostalgia discursando sobre nostalgia. Tudo era melhor na Matrix original. O desejo da indústria de cinema de constante reconfiguração do passado imaginado como algo sinistro. A nova Matrix é movida por duas ideias de que as coisas constantemente pioraram porque isto mantém o mundo mais engajado e de que existe algo reconfortante neste retorno constante. Não dá muito trabalho para imaginar que esta nova Matrix como uma alegoria da mídia social tal qual ela existe hoje e como esta obsessão com um passado reimaginado presente é vital para seu funcionamento.

O filme original é frequentemente descrito como uma ficção distópica e se a ideia geral de uma humanidade transformada em baterias para máquinas reforça esta visão, é também preciso dizer que Matrix é um filme que pertence ao primeiro momento da popularização da internet e as possibilidades inerentes a mesma. É um filme que nasceu de um ponto de partida terrível, mas que imaginava saídas para o mesmo e enxerga a comunidade online como parte integral deste processo. A neve de Morfeu era formada por um grupo de anarquistas que sequestravam os significados da web, a ideia de identidade era algo fluido (existe uma tradição rica de leituras do filme como alegoria para transexualidade), o vilão era um agente da ordem cujo objetivo era manter uma ordem binária clara do mundo, a cadeia de zeros e uns precisava ser respeitada. A realidade difusa da Matrix era algo que podia ser transformada, um espaço em disputa pronto para ser tomado por ideias radicais.

Se o primeiro filme era trabalho de duas artistas jovens tendo uma primeira oportunidade de realizar sua visão com todos os recursos da indústria e o filme novo é trabalho de alguém que nestas duas décadas de intervalo perdeu e ganhou o suficiente para olhar de forma mais desconfiada este processo todo, o novo filme também surge num momento em que a visão da internet como uma sociedade de controle ganhou e ele se movimenta no sentida de achar buracos no meio. Menos uma afirmação utópica do que gesto de subversão e contrabando.

Uma das ideias mais radicais que o filme brinca com é justamente esta aproximação entre o maquinário hollywoodiano e esta sociedade de controle. O primeiro ato do filme, que é o mais bem resolvido e envolvente é uma serie de tentativas frustradas de Neo de se separar da Matrix em um mundo em que tudo se move para reafirmar aquela realidade inclusive o próprio imaginário criativo que é tanto uma forma de fuga como de controle. Até o seu amor por Trinity (Carrie Anne Moss) é usado para manter este status quo com ambos frequentando o mesmo café e a imagem dela tão similar a da personagem do seu jogo/sonhos ajudando a conservar esta ideia. Dar o suficiente do velho com aparência de novo para que as coisas sigam como estão é algo que o filme retorna constantemente. Não é mais preciso figuras de autoridade como o Agente Smith para executar esta tarefa, policiais não são mais muito populares em filmes hollywoodianos, afinal, formas reforçantes de desejo cumprem esta tarefa policianesca muito bem e o cinema e cultura popular estão sempre lá para ajudar a disseminá-los. Uma das melhores piadas do filme é escalar Chad Stahelski, hoje mais conhecido como o diretor dos filmes de John Wick estrelados por Reeves, como o marido de Trinity dentro desta realidade. Stahelski foi também ao longo dos anos 90/00 o duble principal de Keanu Reeves, logo é ele que em está em cena em alguns dois mais famosos momentos de ação do filme original, Trinity está casada com a ilusão hollywoodiana de Neo.

Se os filmes originais se voltam muito para a ideia da descoberta de uma nova realidade por trás de uma existência artificiosa, o novo filme reimagina a questão de Matrix em termos mais terapêuticos. Não é acidental que o novo controlador da Matrix seja um analista e que a ideia das pílulas azuis e vermelhas seja ressignificada como antidepressantes, não é que Resurrections seja um filme anti-terapia, mas um que localiza o mal-estar contemporâneo como chave para administrar este maquinário capitalista, menos Baudrillard e mais Mark Fisher. A sociedade de controle é pensada em termos de lei e ordem no que ela afeta os medos, mas existe uma serie outra de neuroses e desejos frustrados que também são essenciais para sustentar esta sociedade doente e a segurança e reconhecimento das coisas, e nos termos que importam mais ao filme, da criação artística, são essenciais a este processo. Nisto cabe também referencias recorrentes ao suicídio. A antiga Matrix era uma simulação pensada para satisfazer seus usuários, a nova Matrix existe no movimento constante entre a depressão e o consumo, uma sociedade que é mais funcional quanto mais doente. O papel de Hollywood é garantir mais do mesmo reconfortante, as imagens da nova Matrix como as imagens da maioria dos filmes de grande orçamento sugerem este espelho constantemente atualizado e sempre ponto para servir um espectador consumidor.

Boa parte dos primeiros cinquenta minutos de Matrix Resurrections sugerem uma comédia onde a narrativa segue sendo bugada, uma série de repetições e interrupções que precisam, mas nem sempre voltam aos eixos. A sequência inicial é uma reprodução errada da cena de abertura do filme original, motivos do filme são retomados, mas sempre com algum estranhamento, a ideia da trilogia original como algo preso a um passado que precisa ser explorada por uma série de novos olhares retornada muitas vezes. A tripulação da nova nave que substitui a do filme original é formada por jovens para quem a história de Neo é algo mitológico (e num movimento que dobra o jogo de espelhos é formada quase toda por atores com quem Wachowski trabalhou na sua série Sense8). A ideia de que precisa retomar as imagens originais é repetida e parodiada muitas vezes. O filme retoma muitas vezes o recurso de usar imagem do filme original como eco seja em flashs rápidos seja pela sua reprodução em superfícies, o encontro principal entre Neo e novo Morfeu se dá numa sala de cinema na qual imagens do mesmo encontro são reproduzidas na tela. Não se trata de imagens desgastadas, mas de seu oposto, é um filme que deseja dar nova vida a elas, o que importa neste contraste são as diferenças e não as similaridades.

Um pouco como Cry Macho, Matrix Resurrections se propõe como um filme para fãs, mas o fã em questão não é o da franquia corporativa Matrix para quem os filmes existem como uma série de procedimentos eternizados no tempo, mas da Lana Wachowski como artista. São filmes que reforçam a ideia do autor não no sentido de alguém genial para quem os colaboradores pouco importam (a utopia wachowskiana é sempre prevista no coletivo), mas de um ponto de vista próprio tomado por suas idiossincrasias. Se a máquina opera para eliminar o artista e suas contribuições em favor de uma idealização mercantil, estes filmes operam na direção de reforçar de que boa parte do que os tornam algo interessante de se engajar com é peculiar, torto e por vezes fora do tom. O filme retoma sempre esta ideia da maneira como Matrix pertence e não pertence a ela, uma obra que está aí lançada ao mundo, mas cuja assinatura é inconfundível, pode-se fazer muita coisa com ela inclusive pedir o mínimo possível, mas ele segue mais um filme de Lana Wachowski do que da Warner Brothers.

Matrix Resurrections existe sempre numa negociação constante com este lugar pré-determinado. Não é uma do qual o filme vença todas as batalhas, segue uma obra de remix (o original já o era), que evita o fan service óbvio, mas ainda se estrutura de forma bastante similar ao primeiro incluindo um terceiro ato em que Neo parte para um resgate mais movido por sentimentos do que bom senso. Dramaticamente o filme todo gira entorno de Trinity, mas Moss recebe surpreendentemente pouco tempo em cena até este ato final (ela está ótima de qualquer forma, o filme sofre bastante no miolo quando ela é discutida, mas pouco vista). Existe uma negociação constante no esforço de afirmar o olhar de Wachowski. A troca envolve seus curto-circuito terem limites claros e muito mais voltados para si mesmo. Algumas das fraquezas dos filmes anteriores se repetem como a tendência das cenas fora da Matrix serem bem menos interessantes do que as dentro da simulação ou o gosto por monólogos expositivos exasperantes (Harris tem um que especialmente para o filme).

É fascinante observar, porém como as atualizações aqui tem pouco interesse em fazer Matrix como produto para 2021 e sim em revisitar uma obra inicial e colocá-la em sintonia com a obra futura da sua realizadora. O filme tem menos interesse em regurgitar a mitologia dos filmes originais (e eles estão entre os maiores responsáveis pela obsessão de Hollywood com o termo), de oferecer grandes explicações e se auto parasitar. Neo e Trinity voltam a estar vivos porque a lógica do maquinário hollywoodiano assim determina, os detalhes pouco importam, assim como o desenho da ação final é determinada pelo que uma personagem menor define. O filme se esforça em evitar o hard reboot que outras séries de filmes reiniciadas optam por, o filme expande o final de Matrix Revolutions de forma coerente com as preferências posteriores de Wachowski. Se algo se destaca em Resurrections é o desejo de permanecer em diálogo com Speed Racer ou O Destino de Júpiter. O certo sentimentalismo que se torna progressivo dos filmes das irmãs vai para primeiro plano.

O que a de melhor nas sequencias o esforço de aprofundar a relação entre Neo e Trinity de convenção de uma história de messias super heroico para algo mais baseado em desejo e comprometimento mútuo se torna o núcleo dramático da ação. Para alguns o gosto por sentimento sobre ação pode soar piegas, mas é visível que ele é para Lana Wachowski essencial, mesmo revolucionário como forma de interromper o funcionamento da máquina hollywoodiana. Já foi muito observado como ao longo das últimas duas décadas o dito blockbuster se viu cada vez mais tomado por uma imaginação do desastre, imagens de cataclisma de um mundo traumatizado tendem a dominar suas conclusões tanto quanto elas tendem a ser limpas de qualquer consequência. Matrix Resurrections opta pelo oposto, seu final é definido por um gesto, o seu movimento é restaurador. Se existe algo um tanto decepcionante sobre este filme novo é justamente as suas cenas de ação não serem tão bem imaginadas como nos filmes anteriores. O cineasta e coreógrafo de Hong Kong Yuen Woo-ping um dos colaboradores chave das irmãs nos filmes originais não foi trazido de volta e o aspecto o que o corpo humano é capaz de produzir, uma questão de graça mais do que violência vale reforçar, não é algo que este filme parece muito interessado. O que é diferente de afirmar que Wachowski não pensa nessas situações, há um peso físico para os gestos por exemplo que distancia o filme de muitos dos seus contemporâneos. Há um desejo claro por repensar o lugar da ação na série. Como alguns apontaram pela web, o filme se esforça muito para evitar que Neo e Trinity carreguem armas e o clímax é todo pensando em função disso, heróis reativos no meio de uma intriga violenta. Wachowski localiza algumas imagens pesadas de multidão e paranoia no meio deste terceiro ato que distanciam do que se espera deles. Há um plano em particular reimaginado do filme original com cápsulas de balas expressivamente caindo após serem usadas que abandonam um ideal plástico da violência em movimento para algo opressor e agressivo. Os movimentos de Resurrections existem sempre para reforçar o que o primeiro filme tinha de conectivo no seu bale de corpos, os momentos em que imagens são retomadas de maneira mais descomplicada são estes que reforçam a união e não separação de corpos.  O filme pode não quebrar com os paradigmas da existência em loop do cinema industrial vigente, mas Lana Wachowski pode afirmar a sua assinatura ao dar a estes corpos uma verdade que os distingue da maior parte do detrito no seu entorno.

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