Arquivo da categoria: Filmes

Detective Dee and the Mistery of the Phantom Flame (Tsui Hark,10)

27 anos após Zu Warriors, Tsui Hark segue filmando espetáculos como poucos. Neste que é o seu melhor filme em um década pela primeira vez ele parece fazer uso completo dos recursos sem fim da indústria cinematográfica chinesa e poucas coisas em cinema são melhores que Tsui deixando sua imaginação fluir. Parte Wuxia, parte mistério histórico, parte fabula política, Detective Dee tem de tudo de heroínas mutantes e veados falantes a coreografia sublime de Sammo Hung fotografada com uma inteligência que faria o charlatão oficial do cinema chinês corar. Tsui Hark segue a minha idéia de bom cinema popular.

2 Comentários

Arquivado em Filmes

Mostra

Muito trabalho na Cinética e acabei sem tempo de atualizar durante a Mostra, segue então as cotações com comentários rápidos sobre todos os filmes vistos pela primeira vez.

Mistérios de Lisboa (Raul Ruiz,10) – *****

Na Cinética.

Cleveland Vs Wall Street (Jean-Stephane Bron,10) – ***

Na Cinética.

O Solteiro (Hao Jie,10) – *

O eletrobrega chinês da trilha sonora é a única coisa que eu me lembro deste filme é a única coisa que eu me lembro dele. Diz muito sobre o filme.

O Estranho Caso de Angélica (Manoel de Oliveira,10) – *****

Na Cinética.

Air Doll (Hirokazu Kore Eda,09) – 0

Nunca doses tão grandes doçura a fórceps foram empurradas ao espectadores. Costuma achar Kor Eda extremamente irregular, mas neste ele errou a mão feio.

Símbolo (Hitoshi Matsumoto,09) – ****

Na Cinética.

A Última Estrada da Praia (Fabiano de Souza,10) – ***

Belo filme com algumas cenas muito inspiradas, mas acho engraçado como ele expõe bem uma deficiência do jovem cinema brasileira em lidar com dramaturgia. Os picos dramáticos são invariavelmente as piores e mais mal resolvidas seqüências do filme. Mas não quero me concentrar nas partes frágeis porque o filme é muito bom e não fosse o Houve uma Vez Dois Verões daria para dizer que é o melhor filme gaucho desde Deu Pra Ti Anos 70.

As Quatro Voltas (Michelangelo Frammartino,10) – *****

É um conceito extremamente básico, mas Frammartino extrai dele muito mais do que se esperaria, incluindo uma notável leveza. O cachorro é o melhor ator da Mostra e o melhor ator não-humano desde os patos do Kiarostami.

Sentimento de Culpa (Nicole Holofcner,10) – **

Clássico indie americano que levanta as perguntas porque eu estou vendo um filme sobre estas pessoas e porque alguém achou que ele era uma boa idéia?

A Cidade Abaixo (Christoph Hochhausler,10) – ****

Na Cinética.

Não Me Deixe Jamais (Mark Romanek,10) – *

A Ilha refilmado por James Ivory na verdade é conceito interessante, mas não nesta versão. Alguns bons atores, mas o Romanek nulifica tudo e perde completamente o ponto do texto.

Agreste (Paula Gaitan,10) – ***

Marcelia Cartaxo e a paisagem nordestina. Desequilibrado, mas com belos momentos.

Historia Mundana (Anocha Suwichakompong,10) – ***

Na Cinética.

Poesia (Lee Chang Dong,10) – ***

Um típico filme de Lee Chang Dong: boas idéias, ótimos atores, execução desajeitada.

Bróder (Jefferson De,10) – ***

Bem melhor que os curtas do De. Tudo que não tem relação com a trama plicial é muito bom.

O Último Romance de Balzac (Geraldo Sarno,10) – ***

O mistério da criação artística neste belo doc exploit espírita.

Lily Sometimes (Fabienne Berthaud,10) – **

Na Cinética.

Rosa Morena (Carlos Oliveira,10) – **

Bons atores, filme frágil.

Filme do Desassossego (João Botelho,10) – 0

O inferno.

Gol a Gol (Fabio Allon e Adriano Esturilho,10) – 0

Na Cinética.

Caterpillar (Koji Wakamatsu,10) – ****

Espólios de guerra segundo Wakamatsu que como sempre vai ao fundo do problema por belos caminhos tortos.

Vips (Toniko Melo,10) – **

Filme B com bons atores.

Avenida Brasilia Formosa (Gabriel Mascaro,10) – ***

Entre a observação e a auto-ficção.

Striptease Familiar (Lluis Miñarro,09) – ***

Na Cinética.

A Espada e a Rosa (João Nicolau,10) – ****

Sobre ser pirata. Desequilibrado, gordo, mas memorável.

Um Dia na Vida (Eduardo Coutinho,10) – ****

Um grande evento. Talvez o maior feito de Coutinho é pegar uma série de imagens de segunda mão sem nenhum interesse cinematográfico e construir o único filme da Mostra que realmente só faz sentido visto na tela grande.

Jean Gentil (Laura Amelia Guzman/Israel Cardenas,10) – ***

Na Cinética.

Ponto Org (Patricia Moran,10) – W/O

Fazia 5 anos que eu não optava por abandonar uma sessão porque o filme era insuportável.

A Fabrica de Tigres (Woo Ming Jin,10) – *

Na Cinética.

Almas Silenciosas (Aleksei Fedorchenko,10) – **

Na Cinética.

Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (Woody Allen,10) – *

Allen alcança a senilidade. Não basta a preguiça com filme e escreve agora faz filmes francamente estúpidos também.

O Ultraje (Takeshi Kitano,10) – ****

Kitano retomando de forma furiosa o filme de gangster. Deveria se chamar Yakuza Slasher.

Minha Felicidade (Sergei Losnitza,10) – **

Filme de tese no que o termo de pior apesar de impecavelmente bem filmado. A primeira metade é forte, a segunda se reitera até perder o gás.

Venus Negro (Abedelatif Kechiche,10) – ***

Verdadeiro filme de terror do ano. Tortura física mesmo que faz muito bom uso das experiências com tempo de O Segredo do Grão.

O Mito da Liberdade (David Robert Mitchell,10) – ***

Muito bem observado filme adolescente.

Vocês Todos são Capitães (Oliver Laxe,10) – ****

Na Cinética.

O Caçador (Rafi Pitts,10) – ***

Na Cinética.

A Antropóloga (Zeca Pires,10) – 0

Na Cinética.

Aurora (Cristi Puiu,10) – ****

Na Cinética.

Um Homem que Grita (Mahamat-Salah Haroun,10) – ***

Quando a desdramatização deságua no melodrama.

A Rede Social (David Fincher,10) – ****

Na Cinética.

A Vala (Wang Bing,10) – ****

Na Cinética.

Howl (Rob Epstein/Jeffrey Friedman,10) – **

Na Cinética.

9 Comentários

Arquivado em Filmes

Festival do Rio III

Com muito atraso a última parte.

Carancho (Pablo Trapero,10) – ***

Trapero retorna a trama policial nos suburbios de Buenos Aires quase 10 anos depois de El Bonarense. No meio tempo, ele se tornou essencialmente um cineasta comercial e uma forma de olhar para Carancho é justamente como esta revista. Por um lado, é um filme precisamente dirigido , de outro há um inegavel tom sintético na empreitada todo. O que redime Carancho é sobretudo o olhar de Trapero para os detalhes que garante a Carancho uma riqueza para alem da trama de redenção de um escroque que o filme apresenta.

Somewhere (Sofia Coppola,10) – ***

Evidencia maior até hoje de que Coppola é uma sensibilidade a procura de um filme (não é a toa que o unico filme muito forte dela fosse adaptado de material alheio). Há algumas cenas fortes (a do Rock Band é ótima por exemplo) e Dorff é um vácuo perfeito. Os últimos 5 minutos mais estúpidos de qualquer filme interessante que vi este ano.

O Senhor do Labirinto (Geraldo Motta,10) – *

Na Cinetica. Este filme ganhou a votação popular da Premiere Brasil, o Serra conseguiu ir para o segundo turno, de alguma forma estas duas catastrofes me parecem interligadas.

Boca do Lixo (Flavio Frederico,10) – **

Por parte da sua duração, Boca do Lixo faz bom uso do que sua trama de gangster tem de genérica e vaga sugerindo um mito paulistano bem particular, com o tempo passa a sugerir um beco sem saída estético.

O Olhar Invísivel (Diego Lerman,10) – **

Poderia se chamar “Um filme argentino”. Lerman filma tudo com muita habilidade e o filme tem momentos em que se sustenta muito bem como estudo de personagem, mas ao mesmo tempo sua alegoria torna o filme fechado demais no seu conceito e ao usar cada truque da Nova Onda, Lerman so aumenta a impressão de abstração.

Film Socialism (Jean Luc Godard,10) – ****

Ao longo dos ultimos 20 anos os filmes de Godard que me falam muito costumam ser os filmes “menores”, videos ou comissões pequenas, nas produções maiores como Elogio ao Amor ou Notre Musique, fico sempre com impressão de que o próprio Godard sofre de enfado quando lida com uma estrutura maior, em suma após o Nouvelle Vague, eu acredito que Godard se tornou o maior diretor de filmes caseiros do mundo. Menciono tudo isso para dizer que se Film Socialism não é um grande Godard, me interessa muito mais do que qualquer outro dos longas principais dele posteriores ao Nouvelle Vague.

A Vida Durante a Guerra (Todd solondz,09) – 0

Na Cinética.

Amigo (John Sayles,10) – **

Na Cinética.

Turnê (Matthieu Amalric,10) – **

Menos particular e interessante que os dos longas anteriores do Amalric. Um amigo me disse que achou que era o longa de estreia e realmente é o tipo de genérico de Cassavetes que se imagina de um filme de estreia de um ator.

Curitiba Zero Grau (Eloi Pires Ferreira,10)

Na Cinética. Depois da sessão propus que a Novos Rumos fosse rebatizada Velhissimo Cinema Brasileiro.

Ex Isto (Cao Guimarães,10) – ***

Na Cinética até a Mostra.

Armadillo (Janus Metz,10) – ***

Um crítico meu amigo assistiu Armadillo e não curtiu muito, chegou em casa descobriu que o filme na verdade era um documentário e não ficção e mudou de opinião. A história di muito sobre o filme. É um documentário sobre uma tropa dinamarquesa no Afeganistão montado e decupado seguindo uma lógica de ficção ao ponto de que realmente não é um absurdo que um espectador desinformado não se toque de que se trata de uma. É muito interessante (esta na Mostra e eu recomendaria que conseguir encaixar, veja), mas o limite dele é claro, seu interesse está todo no conceito.

A Autobiografia de Nicolae Ceausescu (Andrei Ujica,10) – ****

Na Cinética.

Scott Pilgrim contra o Mundo (Edgar Wright,10) – ***

Curioso como o filme meio que funciona como uma versão mainstream do filme do Gregg Araki. Como grande fã da graphic novel, é uma pena que Wright não considerou cortar um par de ex-namorados, passado a primeira meia hora o filme é corrido demais e os namorados sempre foram mais um gancho do que um fim.

6 Comentários

Arquivado em Filmes

Festival do Rio II

Carlos (Olivier Assayas,10) – ****

Na Cinética.

Nostalgia da Luz (Patricio Guzman,10) – *

Absolutamente nada neste ensaio do Guzman me interessa e fico com impressão muito ruim que tudo ali é so um gancho desesperado para Guzman poder justificar outro filme sobre Pinochet.

Renegado do Leste (Sharunas Bartas,10) – **

Bartas segue filmando com grande elegância, mas aqui constrói um pequeno filme B incapaz de sustentar o peso que seu autor deposita nele.

Terça, Depois do Natal (Radu Muntean,10) – *****

Muntean pega sua trama básica (homem precisa decidir entre a esposa e a amante) e o naturalismo que já esperamos do cinema romeno e constrói um filme onde o olhar apurado levanta uma tensão digna de thriller. Os dois filmes anteriores do cineasta (The Paper Will Be Blue e Boogie) eram bem interessantes, mas este Terça, Depois de Natal é muito melhor.

Buraco Negro (Gilles Marchand,10) – *

Na Cinética.

O Errante (Avishai Sivan,10) – *

O de sempre do cinema de arte contemporâneo.

Malu de Bicicleta (Flavio Tambellini,10) – *

Na Cinética.

Trampolim do Forte (João Rodrigo Mattos,10) – **

Na Cinetica.

Memórias de Xangai (Jia Zhang-ke,10) – ***

Temo que minha reação diante destes filmes recentes de Jia seja similar a que outros tem diante do Kiarostami pós Vento nos Levará: por mais que eu admire fica a impressão constante de que o cineasta optou por uma camisa de força que limita muito seu talento. Ao menos, este é melhor que 24 City.

Machete (Robert Rodriguez/Ethan Maniquis,10) – ****

Na Cinética.

Santos Dumont: pré cineasta? (Carlos Adriano,10) – ***

È sempre curiosa a experiência de festival que aproxima filmes improvaveis. Neste caso, assistir este primeiro longa de Carlos Adriano após muitos curtas de interesse logo após Robert Rodriguez e notar como a apropriação que ele faz de Santos Dumont e o primeiro cinema neste ensaio sobre invenção coloca-o muito mais próximo de um filme como Machete do que os fãs de ambos gostariam.

Como Esquecer (Malu de Martino,10) – 0

Deveria se chamar “Quero Esquecer”. Teria sido insuportável não fossem as muitas piadas que eu e o Eduardo Valente soltamos durante a sessão.

Copia Fiel (Abbas Kiarostami,10) – ****

A despeito de todos os comentários sobre o retorno de Kiarostami a narrativa e comparações com cineastas diversos como Rossellini e Linklater, este é essencialmente uma extensão dos experimentos recentes do cineasta iraniano, só que com dois atores como seus objetos em fluxo.

Tio Bonmee que se lembra das suas vidas passadas (Apichatpong Weerasethakul,10) – *****

Joe oficialmente atravessa a barreira Manoel de Oliveira onde comentar seus filmes parece uma atividade desnecessária. Os momentos de deslumbramento se acumulam.

2 Comentários

Arquivado em Filmes

Festival do Rio I

Ao Mar (Pedro Gonzales-Rubio,09) – ****

Bela ficção flahertyana.

A Woman, a Gun and a Noodle Shop (Zhang Yimou),09) – *

Na Cinética.

180o. (Eduardo Vaisman,20) – **

Bons atores, alguns momentos bem construídos a serviço de uma estrutura que vampiriza toda sua força.

Atração Perigosa (Ben Affleck,10) – ***

Affleck pega o que melhor funcionara na sua estreia (bom uso das locações de Boston, direção de atores) e coloca para bom uso num filme menos ambicioso, mas bem melhor filmado. Só quer ser um sub-Heat e é muito bem resolvido nestes termos.

Luz nas Trevas (Helena Ignez, Icaro Martins,10) – **

 Filme de altos altos e baixos, um tanto perdido no tempo sem nem sempre saber o que fazer com herança de Sganzerla. Sugere o que o filme do Mojica seria se mal pensado.

O Sequestro de um Héroi (Lucas Belvaux,09) – **

Na Cinética.

Essential Killing (Jerzy Skolimowski,10) – *****

Literalmnte o grande filme de ação do ano. Cinema físico e direto como poucos.

Kaboom (Gregg Araki,10) – ****

Texto deve aparecer na Cinética nos próximos dias mas este é um bom Araki, o que acontece com menos frequencia do que eu gostaria. Interessante comparar em como o filme do Belvaux tão perfeitamente crível jamais seja capaz de sugerir a autenticidade cena a cena de Kaboom a despeito do material de Araki ser basicamente o equivalente de uma conto de ficção cientifica escrito por um garoto de 18 anos sexualmente confuso. 

Riscado (Gustavo Pizzi,10) – ***

Irregular, mas sempre envolvente e cheio de pequenos momento inspirados. Um pequeno filme no bom sentido.

Of Gods and Men (Xavier Beauvois,10) – ****

Critica deve aparecer na Cinética em breve.

2 Comentários

Arquivado em Filmes

Jerzy Skolimowski

Um dos grandes destaques do Festival do Rio sem dúvida nenhuma é a pequena retrospectiva do Jerzy Skolimowski.  Fica ai o meu texto escrito ano passado para a Revista Taturana:

Todo o Desarranjo do Mundo

Por Filipe Furtado

O grande evento mais discreto do cinema ano passado foi o retorno as telas de Jerzy Skolimowski após 17 anos sem filmar. Quatro Noites com Anna abriu a Quinzena dos Realizadores em Cannes com boas críticas e passou por boa parte do circuito de festivais internacionais (incluindo o do Rio) sem chamar muita atenção para si. O retorno quase ocorreu em outros termos, por anos seus fãs acompanharam noticias de uma adaptação de Na America de Susan Sontag com Isabelle Huppert no papel central. O retorno hipotético – o projeto oficialmente segue em pré-produção – garantiria outro tipo de atenção e até alguns holofotes sobre Skolimowski, mas Quatro Noites com Anna não deixa de ser o retorno ideal para seu cineasta: um filme miniatura orgulhosamente menor metade dele transcorrendo num quarto com as câmeras voltas para os movimentos de um só ator. O único grande evento é o próprio retorno do cineasta para seus poucos, mas devotados fãs. De quebra, trata-se do retorno de Skolimowski a sua Polônia natal, seu primeiro filme polonês desde 67.

Assim como seu conterrâneo Roman Polanski (para quem escreveu Faca na Água), Jerzy Skolimowski é um destes cineastas exilados cuja obra é a primeira vista transnacional com filmes na França, Inglaterra e EUA que variam da adaptação literária de prestígio (filmou Nabokov, Graves e Turgenev) ao pulp, de filmes rigorosamente construídos a outros completamente fragmentados. Apesar disso não só há uma grande unidade na maior parte da sua obra como a Polônia segue uma assombração mesmo sobre boa parte dos seus filmes ocidentais. De todos os cineastas do bloco comunista que emigraram ao ocidente no fim dos anos 60 (Passer, Forman, Polanski), Jerzy Skolimowski é o único que jamais abandonou sua terra natal mesmo que só dois dos seus filmes ocidentais lidem diretamente com a sua Polônia (A Classe Operária, O Sucesso é a Melhor Vingança).

Não deixa de ser reflexo da facilidade com que Skolimowski filma homens deslocados. Seus filmes expressam esta sensação de confusão e perda tão facilmente que muitos críticos não tem trabalham algum em localizar um discurso sobre exílio ali.Pensemos naquele que talvez seja seu melhor filme Ato Final (70): um adolescente inglês arranja trabalho numa sauna e lá se apaixona pela garota alguns anos mais velha que trabalha com ele que se aproveita da situação ao máximo. Um ponto de partida corriqueiro para um filme consideravelmente duro e cruel sobre adolescência. Podemos dizer que Skolimowski tem facilidade para se identificar com seu adolescente perdido, mas é bom também lembrarmos que cada um dos quatro filmes que ele fizera no seu pais natal se centram em personagens não muito diferentes deste jovem inglês. Para além disso a força de Ato Final deriva justamente da forma como o filme consegue apresentar uma experiência de adolescência muito reconhecível e preenche-la de situações muito especificas. Numa das melhores sequências o rapaz leva um cano (ou o que ele acredita ser um) e fica esperando junto a um carro de cachorro quente para matar o tempo ele começa a consumir um sanduíche atrás do outro mesmo muito depois de ficar claro que ele vai permanecer ali sozinha. Como se a maior história d horror de rejeição adolescente de alguém da produção fosse revivida ali com cores bem fortes.

Os dois primeiros longas de Skolimowski Rysopsis e Walkover se centram entorno de Andrzej (o próprio cineasta). Mesmo personagens, os mesmo sentimentos centrais (deslocamento, o panico da vida adulta), filmes radicalmente diferentes. Rysopis é um filme toda drenado, a neutralidade que o ator Skolimowski expressa tão bem domina a ação. Dentro do tal cinema moderno dos anos 60 poucos filmes parecem se esforçar tanto para anular a euforia do cinema. Existem muitos planos-seqüências cuidadosamente coreografados e a tensão inevitável quando existe uma data limite (Andrzej é informado logo no começo que precisa se apresentar ao serviço militar as três horas do dia seguinte), mas o filme segue dedicado ao seu retrato duro quase sem concessões. A exceção fica por uma excitante seqüência subjetiva enquanto Andrzej desce as pressas à escadaria do seu prédio. Raro momento de liberdade num filme previsto no afunilamento dela. Apesar da secura não se trata de um filme realista (o cineasta emprega a mesma atriz para os três principais papéis femininos). Rysopsis se assemelha mais a alguns filmes japoneses do período do que vinha se produzindo na Europa seja na sua crueldade, seja nas suas operações preferidas para desestabilizar o naturalismo. O filme simpatiza com a posição anti-social de Andrzej, mas não mostra mais do que curiosidade por ele.

Rysopsis termina com Andrzej pegando um trem e Walkower começa com ele descendo de um. A quase gag interna mais do que conectar os dois projetos diz muito sobre a mudança de tom aqui. Walkower é ainda mais rigorosamente construído, mas é um filme que respira com uma leveza bem distante de Rysopsis. A deadline aqui é muito mais abstrata e ao mesmo tempo real: Andrzej está beira dos 30 anos. Ele tem ainda menos raízes e se desespera ainda mais sobre a idéia de fincá-las. Walkower se distancia de Rysopsis sobretudo por ter uma empatia que a secura do estudo de caso do filme anterior impedia: Andrzej é lutador de boxe como Skolimowski e o filme o associa a poemas escritos pelo diretor. Entre Rysopsis e Walkower chegamos a primeira pessoa. Boa parte do filme se constrói entre elaborados planos seqüências em que Andrzej corteja uma ex-colega que encontra no seu retorno a Varsóvia. Walkower tem bem mais cenas de discussão que Rysopsis mas ambos são filmes impulsionados pela ação: os longos planos vão aos poucos sugerindo um completo desarranjo entre Andrzej e o mundo que ele desesperadamente tenta se afastar.

O filme e personagem finalmente alcançam seu habitat natural quando Andrzej sobe ao ringue. Boxe poucas vezes fez tão sentido do que quando Skolimowski está ali ele próprio disparando socos e sendo castigado em retorno. O cineasta filma o ringue de dentro sem nenhum interesse no tipo de tour de force hustoniano que Scorsese eternizaria mais tarde em Touro Indomável: boxe em Walkower é uma questão de corpos coreografados no plano. Não é a câmera que projeta energia, mas o próprio corpo do seu autor/ator que pode finalmente sair da posição defensiva e se liberar junto ao espectador. Walkower é a despeito de toda sua energia um filme ainda mais fatalista que Rysopsis: caminha de forma estreita até duas escolhas igualmente inúteis. O filme até nos nega seu retorno ao ringue e entrega só os rituais esvaziados do boxe amador. Até a recusa da responsabilidade leva a mediocridade. Walkower encontra seu palco e depois o esvazia.

Se entre Walkower e Rysopsis, qualquer sugestão de realismo se dissolvia e o filme aos poucos se estabelecia como um duelo entre seu protagonista e o mundo, Bariera intensifica o processo ainda mais. Jan Nowicki não tem nada da presença do ator Skolimowski e quase desaparece em meio ao mundo a sua volta que ganha tons de cinema fantástico. A atmosfera sobrenatural que ocasionalmente ecoavam nos planos-seqüências de Andrzej caminhando em Walkower se torna predominante aqui. A paisagem que Nowicki transpassa tem um inegável valor simbólico, mas Bariera nunca sugere abstração, seus sentimentos de inadequação por demais diretos para uma alegoria.

O filme se abre num elaborado jogo entre um grupo de universitários que tem como premio a oportunidade de largar a faculdade. Skolimowski sempre teve um bom olho para o potencial de intensidade do ritualístico e ele é mais que aparente aqui. Ao final desta primeira seqüência de que Bariera é um filme incomum, Skolimowski famosamente afirmou que sua mente sempre fora treinada por associações poéticas e que narrativa direta lhe elude e Bariera é o momento onde seu cinema dá o salto definitivo. Se Walkower e Rysopsis se construíam na relação entre ator Skolimowski e a sua câmera, em Bariera seu principal colaborador é o compositor Krzystof Komeda cuja música vai aos poucos se estabelecendo como verdadeiro texto do filme. Nosso verdadeiro guia pelo seu mundo. Enquanto progride, Bariera vai aos poucos criando uma fissura dentro deste universo no meio de seu variado de situações (nunca temos certeza se o que vemos faz parte da narrativa ou se trata de uma alucinação), o desarranjo de Andrzej retomado de forma ainda mais cristalina enquanto a tal barreira do título – a primeira vista simplesmente referente só ao velho e o novo – vai ganhando mais sentidos.

Bariera acrescentou um peso histórico sugerido somente a distancia nos filmes protagonizados por Andrzej com a II Guerra uma assombração ainda muito viva a despeito de ser uma memória distante para os jovens personagens do diretor. Skolimowski realizou um último filme na Polônia, Hands Up! aue acabou interditado pelo censores e permaneceu inédito. Depois de 13 anos em que o cineasta filmou majoritariamente na Inglaterra, o governo polonês lhe deu sinal verde para finalmente lançá-lo. Só que a esta altura fica a pergunta o que fazer com material que representa um momento muito especifico da Polônia e do seu cineasta perdido 13 anos no tempo. No lugar de simplesmente lançar Hands Up! em 1981, Skolimowski o reeditou e acrescentou um prólogo de 25 minutos em forma de filme diário. As duas partes do filme não dialogam diretamente, nada no diário posterior do cineasta clarifica os significados do filme posterior, ao invés disso, elas assombram uma a outra. Hands Up! estabelece uma ponte entre 67 e 81, um filme que termina sendo ele próprio uma fissura no tempo. O Hands Up! original é um happening teatral bem mais obtuso que os três longas anteriores, muito do seu sentido quase indecifrável sem um conhecimento razoável sobre a Polônia. Skolimowski sempre afirmou trata-se do seu trabalho favorito e o filme avança em direção a meia dúzia de minutos finais de espetáculo físico impressionante, mas o filme parece mais completo e focado neste seu estado eternamente transitório entre dois momentos, o fim dos anos 60 e o surgimento de Lech Walessa.

Holds Up! devolveu a Polônia ao centro das preocupações do cineasta, o resto da sua produção dos anos 80 toda voltada para um dialogo com seu país do ponto de vista de um artista expatriado. A Classe Operária e O Sucesso é a Melhor Vingança são estudos em contrastes; o primeiro – único filme na obra do diretor a alcançar alguma popularidade fora do circulo dos seus cultores – equilibra uma construção clássica com a improvisação diária no set proveniente da decisão de incorporar a corte marcial baixada no seu país natal durante as filmagens, enquanto o segundo – uma produção bem maior – é deliberadamente fragmentado e descentralizado. Ambos os filmes fazem uso extensivo da residência londrina do cineasta. Curiosamente o clássico A Classe Operária é de um frescor maior que o jogo de espelhos ultra moderno de O Sucesso é a Melhor Vingança.

A Classe Operária é quase um filme de ação. Tudo nele se resolve em atividades concretas. Enquanto O Sucesso é um filme todo construído sobre possíveis discursos sobre a Polônia, os personagens de A Classe Operária só podem se concentrar no momento seguinte. Temos um grupo de operários poloneses lançados ilegalmente em Londres para reformar uma casa de algum figurão em quatro semanas. Apenas o mais jovem deles Nowak (Jeremy Irons) fala qualquer palavra de inglês e enquanto a obra atrasa, o orçamento para sobrevivência se revela consideravelmente enxuto e seu país natal entra em crise, Nowak começa a tomar decisões progressivamente extremas para concluir o trabalho: manter seus homens no escuro sobre as noticias, alterar relógios de forma a tornar a jornada de trabalho mais longa e algumas soluções bem criativas para multiplicar as compras (digamos apenas que cada cena passada num supermercado é um clássico). O elenco de apoio polonês é a melhor companhia de comediantes mudos de todo o cinema e Irons isolado na maior parte do tempo faz um solo quase silencioso num trabalho de cinema físico impressionante. Como tradução do exílio, isolamento, de ter de viver no tempo presente – nenhuma margem de segurança, somente cada momento contando – a poucos paralelos para esta bela e triste comedia.

Depois do sucesso de A Classe Operária, o cineasta fez o fascinante e caótico O Sucesso é a Melhor Vingança e uma série de adaptações literárias (a melhor sem dúvidas The Lightship entre o filme de câmara e o thirller) antes de entrar num longo sabático em que se dedicou a sua carreira paralela de pintor. O que nos traz de volta a Quatro Noites com Anna. Um filme simplíssimo sobre o desajeitado e desagradável voyeur que passa seus dias e noites obcecado por uma enfermeira. È um filme de mestre impecavelmente controlado nos seus pouquíssimos elementos de cena – da secura da paleta de cores da fotografia as poucas locações e atores. Estamos muito distantes dos jovens desorientados dos seus primeiros longas e da necessidade de tentar dialogar com seu pais distante de Classe Operaria e da versão 2.0 de Hands Up!, mas lá está o mesmo absurdo, a mesma confusão perante ao mundo. Jerzy Skolimowski é um dos grandes cineastas pouquíssimo reconhecidos, a precisão de Quatro Noites com Anna só reafirma isso.

2 Comentários

Arquivado em Filmes, Programação

Revisitando Howard Hawks, semana 3: Fazil (1928)

Fazil sugere um verdadeiro filme de terror sobre casamento.  Trata-se de um romance exótico entre o príncipe árabe do título e uma burguesa francesa. O tom perverso da narrativa, assim como certas opções visuais sugerem Josef Von Sternberg – para quem Hawks recentemente escrevera Underworld – muito mais que outros romances de fundo exótico da época. Fazil (Charles Farrell) conhece sua noiva (Greta Nissen) numa viagem a Veneza; fazem ótimo sexo (estamos ainda alguns anos antes do Código Hays), se casam no impulso e só depois percebem que nenhum dos dois está disposto a se mover minimamente dentro dos seus hábitos culturais. Segue uma hora em que cada sem intenção tortura constantemente o outro.

Não há nada na filmografia de Hawks similar a Fazil, mas trata-se menos de uma questão de tom ou tema do que de apresentação. Geralmente seus filmes mais carregados e apocalípticos são comédias que por conta disso disfarçam parcialmente seu conteúdo (pensemos em como reduzido a sua essência Levada da Breca é sobre uma mulher que sistematicamente destrói toda a vida de um homem), mas aqui estamos no terreno do melodrama mais direto possível acompanhada de um considerável toque de crueldade que o diretor só ocasionalmente reserva a alguns personagens a margem das suas tramas.

O material ao contrário de Paid to Love parece genuinamente interessar muito ao cineasta.  Hawks se esforça muito em tornar os particulares específicos da relação dos protagonistas ganharem uma força extra e parece especialmente preocupado em torná-lo mais universal que um simples choque cultural. Voltando ao que dissemos antes Fazil se revela após sua charmosa meia hora inicial um cruel filme de horror sobre matrimonio e é bem claro que seu cineasta vê seu material como o pior final possível para qualquer relação e não só entre um árabe e uma ocidental. É justamente ênfase que o filme que ganha uma força bem maior que o romance exótico que o material a primeira vista sugere.

Hawks também parece muito mais envolvido na busca de boas soluções para o material. Se uma encomenda como Paid to Love só pode ser energizada as margens,  um filme como Fazil apesar de provavelmente ser igualmente efeito da falta de controle do cineasta sobre a carreira, é possível encontrar os toques particulares no centro do material. A primeira meia hora em particular e cheia do tipo de pequenas boas saídas (como o primeiro encontro do casal). Muito por conta disso Fazil soa como um típico filme de Hawks sem o gesso que o material a principio alienígena poderia criar. Não é uma questão do que, mas de como. Boa parte do cinema de Hawks parte do principio da gerencia de situações e um filme estrangeiro bem sucedido como este Fazil termina uma bela aula de como este processo se realiza. Não surpreende que o filme esteja no seu melhor no flerte da primeira parte e no ato final que tem uma precisão e lógica langiana. O tom sufocante da parte final segue a mesma lógica de gerenciamento das situações da corte cheia de possibilidades do príncipio.

1 comentário

Arquivado em Filmes

Segurança Nacional

Crítica na Cinética.

Também na Cinética repostaram minha crítica de Solo do Ugo Giorgetti da época da Mostra.

2 Comentários

Arquivado em Filmes

Revisitando Howard Hawks, semana 2: Paid to Love (1927)

Paid to Love é não só um dos trabalhos mais raros de Hawks, mas um dos filmes que parecem mais desagradar seu realizador. Com o tempo ganhou certa reputação como o “filme de arte” de Hawks que a combinação da sua invisibilidade com as palavras duras do cineasta ajudou a espalhar. É verdade que o filme como muitos dos trabalhos realizados na Fox logo após os copiões de Aurora começarem a circular lança mão ocasionalmente de fotografia à Murnau (apesar do trabalho de câmera majoritariamente ter a simplicidade de sempre de Hawks), mas passa bem distante desta descrição.

Isto dito, Paid to Love coloca Hawks em curioso território estrangeiro muito mais próximo de Lubtisch do que do seu cinema habitual. O cineasta emprega um olhar bem mais seco e pragmático sobre o universo retrato do que o habitual no subgênero dos filmes que vendiam exotismo europeu (geralmente com tramas importadas de operetas) bem populares à época. Ainda assim é inegável que aristocracia européia é um espaço estranho ao Hawks, assim como o romance de verve lubtischiana e por mais que ele busca preencher o filme de detalhes que lhe interessem, há um desencontro entre cineasta e objeto que nunca se resolve de todo. Não surpreende a informação de que este seja dos poucos projetos de Hawks que ele não desenvolveu – precisou arranjar um projeto extra após alguns dos que viam desenvolvendo atrasaram –, o que explica um pouco da má vontade de Hawks para com o filme. È interessante apontar que o roteirista original do filme, Seton Miller, se tornou o principal escritor de Hawks nós quatro anos seguintes, o que sugere que a experiência de Paid to Love foi provavelmente melhor do que Hawks sugere.

Uma descrição da trama principal é muito informativa: um país fictício do leste europeu que vê um empréstimo ameaçado pela falta de interesse do príncipe herdeiro em mulheres, o que obriga o rei e o embaixador americano importar uma dançarina para despertar o interesse do rapaz. Só que eles se conhecem sem saber da identidade um do outro e se apaixonam. Qualquer bom editor diria que eu apresentei a sinopse de forma a enterrar o que seria o principal. Só que é assim que Paid to Love se apresenta (o filme gasta vinte dos oitenta minutos com a introdução e não porque ele busque algum ritmo mais deliberado). É como se a moldura do filme tomasse conta dele, sufocasse toda a ação central.

É um filme curioso para este projeto na medida em que é um dos mais frágeis do cineasta e ao mesmo tempo um dos que lhe apresentam mais distantes do seu meio natural. A reação fria é conseqüência disso ou de algo inerente ao filme e somente a ele? Eu diria que o segundo é mais provável, apesar da ausência de familiaridade certamente ajudar a ele não receber o desconto que muitos filmes menores de mestres freqüentemente levam. O próprio Hawks parece buscar esta familiaridade com elementos como os hobbies do protagonista ou a maneira como a dançarina sugere um primeiro protótipo da mulher da vida que de Louise Brooks em A Girl From Every Port a Angie Dickinson em Rio Bravo surgem para de forma mais ou menos benigna atraplhar a vida dos seus heróis. O resultado final sugere dois personagens hawksianos perdidos em meio a maquinações que pouco lhes dizem respeito.

1 comentário

Arquivado em Filmes

Cannes

Alguns filmes certamente imperdiveis

1 comentário

Arquivado em Filmes

Revisitando Howard Hawks, semana 1: Fig Leaves (1926)

Já a algum tempo tateio com está idéia que finalmente coloco em pratica: visitar/revisitar toda a filmografia do Howard Hawks em ordem cronológica. Em parte pelo prazer cinéfilo inegável que a obra dele me proporciona, mas muito também como exercício crítico. A carreira de Hawks afinal é “repetitiva”, com os mesmos temas, situações e por vezes personagens essencialmente reaparecendo em múltiplos filmes. É um cinema convidativo para uma abordagem autorista, mas também perfeito para exercermos certa preguiça crítica. Eu próprio tenho curiosidade em saber se ainda terei muito a dizer na altura de meado dos anos 50, espero que sim, já que parte do meu objetivo aqui é justamente buscar o que me fascina nestes filmes tanto nas suas generalidades como nas suas particularidades. Não pretendo fazer apartes sobre a crítica, mas o projeto é mesmo tanto sobre ela – e especialmente minha atividade nela – como sobre Hawks. Poderia fazer alguns artigos de auto-analise, mas tenho certeza que está série de textos será muito mais produtiva para mim e bem menos chata para vocês.

Algumas considerações gerais antes de começar:
– A idéia é cobrir um filme por semana, mas tenho certeza que falharei ocasionalmente. Pelas minhas contas cobrirei 38 filmes e me dou por satisfeito se Rio Lobo for coberto no fim de Abril do ano que vem. Espero que sejam pacientes já que a primeira metade da filmografia dele é marcada por filmes pouco vistos hoje: o primeiro que muitos devem ter visto, Scarface, é o 7º na minha ordem aqui e só a partir de Levada da Breca, o 16º, é que os filmes conhecidos se tornam mas comuns que as raridades. Eu mesmo só conhecia 3 dos primeiros 10 filmes (A Girl in Every Port, A Patrulha da Madrugada e Scarface), então estas primeiras semanas terão um olhar mais limpo da descobertas. Alias, usem estes textos de desculpa para ver os Hawks que não conhecerem, A Patrulha da Madrugada seria o melhor filme de 2010. Tenho certeza disso!

– Os textos vão ser mais longos do que o habitual aqui. Pelo menos 3 mil toques, mas prometo que nada tão interminável quanto os 22 mil que gastei com Rio Lobo uns 6 anos atrás.

– Como a idéia aqui é acompanhar a carreira completa de Hawks devo entrar com freqüência em detalhes de produção para dar um contexto maior aos filmes.


Howard Hawks partiu para as filmagens de Fig Leaves (26), tão longo acabara de finalizar sua estréia The Road to Glory. Segundo o diretor – sempre fonte questionável dada a sua mitomania – o segundo filme surgiu como espécie de resposta ao primeiro, numa tentativa de mostrar que poderia realizar um longa com grande apelo junto ao público (as descrições existentes sugerem que The Road to Glory era um melodrama um tanto pesado e muito pouco ao afeito do seu cineasta). Como empreendimento suas premissas são bem claras com uma estrutura tirada do muito popular Os Dez Mandamentos original de Cecil B. DeMille (prelúdio bíblico seguido de ação contemporânea) e uma trama cômica ligeira de guerra dos sexos com um par de atores muito populares (George O’Brien, Olive Borden). Começamos com Adão e Eva reencenando as agruras de um casamento num Éden todo anacrônico com um Adão turrão e uma Eva que não para de reclamar de que precisa de vestidos melhores até dissolvemos para os EUA em 1926 quando o encanador Adam Smith está as turras com a pressão da esposa Eve que quer uma mesada maior para poder comprar obviamente mais vestidos.

Se o gancho da estrutura é primeiramente uma forma de vender o filme junto ao espectador, ele termina por ser essencial ao projeto como um todo.Permitindo ao filme costurar uma sensação constante de permanência que termina diferenciando-o de outras comédias do tipo feitas á época. Não pelo contraste, a piada óbvia, ou pela simples repetição, mas pela forma como a postura de George O’Brien permanece imutável seja diante da estilização cartunesca do Éden ou do suposto naturalismo de estúdio das cenas contemporâneas. A comédia é a mesma no espaço absurdo como na ilusão do real, assim como o casal.

Fig Leaves se destaca pela sua forma arejada e moderna. É um filme que soa estranhamente atemporal na medida em que parece existir a parte do cinema da época. A concepção de comédia de Howard Hawks tem pouca relação seja com a boa ou com a má comédia muda, o que fica claro por exemplo na forma como o filme coloca ênfase na troca de diálogos nos intertítulos. O humor de Fig Leaves parece existir seis ou sete anos deslocado no tempo e ficaria mais a vontade na primeira época das screwball comedies.

Há algo de extremamente arejado no projeto do filme como um todo. Primeiro sinal da atitude “do que podemos fazer para nos divertirmos um pouco aqui?” que é tão freqüente na filmografia do diretor. As seqüências do Éden, por exemplo, estilizam toda a direção de arte e figurino de forma a criar um absurdo constante e brincar de forma jocosa com a percepção do espectador do que seria o paraíso (que termina soando mais com uma “idade da pedra” cartunesca do que o habitual sentido bíblico). Mais tarde, quando o diretor precisa filmar uma série de desfiles de moda – uma das complicações da trama é justamente Eve se tornar secretamente uma modelo – procura se evitar o tom protocolar da mesma maneira mesmo que contando com muito menos elementos para isso. Nesta busca acaba sendo muito útil a presença de George O’Brien cuja figura um tanto aborrecida poucas vezes fora tão bem utilizada.

10 Comentários

Arquivado em Filmes

Os Amantes do Pont Neuf

Artigo escrito por mim para o folheto da Sessão Cinética sobre o belo filme do Leos Carax.

1 comentário

Arquivado em Filmes, Links

William Lubtchansky (1937-2010)

4 Comentários

Arquivado em Filmes

As Melhores Coisas do Mundo (Lais Bodanzki,10)

O maior mérito de As Melhores Coisas do Mundo é justamente o que ele tem de conservador que captura bem certo universo de colégios classe média alta. Infelizmente vem em parte daí a pior qualidade do filme a forma que o suposto afeto do filme esconde um olhar impiedoso contra quem desvie do seu universo “positivo”.  O problema é muito menos o que este olhar tem de excludente e mais de que ele vem acompanhado de um esforço constante de soar afetuoso e terno, lembrete de que ver Truffaut de mais na sua formação pode ser algo muito nocivo a um cineasta.  Isto soma num outro problema do filme que a pesquisa sobre o universo dos adolescentes resulte justamente nisso uma pesquisa que se encaixa num roteiro absurdamente costurado em que nada na vida dos seus jovens exista sem estar lá perfeitamente amarrado ou para servir como exposição do trabalho de pesquisa ou para mover seus dramas. Para um filme que se propõe a primordialmente ficar ali em meio a suas personagens e seu mundo é curiosamente desprovido de momentos que façam justamente isso, tudo aqui é um dado e uma função. Seu mundo é mais asfixiante que natural. O outro grande problema é algo que Luis Carlos Oliveira Junior flerta na crítica dele na Contracampo: há dois filmes aqui, o que acompanha os adolescentes e o drama da dissolução familiar e eles simplesmente funcionam pessimamente juntos. Casa a Lais Bodanzki partisse para realizar só um deles, o resultado final certamente teria uma força maior.

Deixe um comentário

Arquivado em Filmes

La Danse (Frederick Wiseman,10)

Crítica na Cinética.

4 Comentários

Arquivado em Filmes