Eu publiquei uma versão desta lista regularmente já faz 15 anos e devo admitir que pelos últimos 5 no começo de Dezembro sempre me aparece a mesma dúvida “será que devo aposentar a lista?”. Quando eu comecei a publicá-la em 2008 nos moldes que faço até hoje (filmes dos últimos três anos, vistos pela primeira vez ao longo do ano), o desejo era centrar ela na minha experiência pessoal e deixar de lado ao máximo possível as regras do mercado, o que não deixa de ser um algo fadado ao fracasso até certo ponto. A lógica que rege o discurso cinematográfico contemporâneo meio que garante que no final das contas tudo termina um tanto mercantilizado, uma praga cada vez mais difícil de se evitar.
Lembro-me do cineasta Pierre Leon sugerindo numa entrevista dar uma distância para que os filmes novos assentem para longe dos discursos em torno deles e talvez devêssemos realmente ver e considerar os filmes de 2023 em 2028, seria mais justo para com eles e mais saudável para nós. Da minha parte eu gosto de fazer listas, gosto do lado lúdico da cinefilia que elas representam, e apesar de ter simpatia pelos argumentos sobre os limites e problemas de cânones, me parece que a melhor solução para eles e tentar imaginar um olhar mais amplo para com o cinema e isto é mais fácil numa prática direta.
O que me leva ao outro motivo pelo qual a despeito das dúvidas eu persisto com este exercício, eu gosto de filmes e eu gosto de destacar filmes queridos, o que é uma das razões pelas quais eu faço questão de manter estas listas gordas, e a crítica nas suas versões variadas (existem tantos tipos de crítica quando existem mundos de cinema, afinal) tendem a afunila-las, na maior parte do tempo falamos dos mesmos filmes, esta lista certamente inclui muitos destes filmes, mas eu espero que alguns outros como Le gang des bois du temple, Meu Falcão, Os Últimos Dias da Humanidade, Raid on the Lethal Zone ou Boston Johnny se beneficiem um pouco de estarem aqui. Se um leitor resolver dar uma chance para qualquer deles, as horas que gastei com essa lista vão estar justificadas. Adoro todos eles, mas lhes faltam-lhes o peso de divulgação de outros ou ainda estarem em sintonia com as preferências dos curadores de festival. Parte do trabalho do crítico contemporâneo me parece tentar romper o quanto possível estas barreiras.
Falando em cânones, meu texto crítico favorito de 2023 foi justamente sobre listas e cânones: o editorial da nova e ótima revista Lucky Star, escrita por Jhon Hernandez. É sobre o que podemos esperar da crítica e dos olhares formadores hoje e se beneficia muito de Hernandez observar isso como um verdadeiro forasteiro, que o texto não parta de um desejo de pertencimento é o que lhe dá força. Precisamos de imaginar mais pontes cinematográficas que funcionem para além dos métodos mais estabelecidos.
Um dos desenvolvimentos mais positivos dos últimos anos na cinefilia ocidental é o interesse crescente no cinema popular indiano já que ele surgiu de forma bem independente dos mediadores habituais e mesmo na indústria muito mais da necessidade de servir o público indiano no ocidente. Minhas próprias reservas com o tema vêm do meu temor de terminar mistificando uma cultura do qual conheço pouco, mas venho tentando meus próprios passos mesmo que eu permaneça muito mais a vontade falando de cinema popular chinês ou japonês. Também me sinto culpado de ter visto muitos poucos curtas novos em 2023 e me parece sintomático que meu favorito deles seja As Filhas do Fogo do Pedro Costa, um apêndice de um projeto de longa metragem futuro.
Dois eventos das duas pontas da indústria de cinema me parecem centrais para o ano. No mundo dos festivais a demissão de Carlo Chatrian do Festival de Berlim. Chatrian é bastante próximo de partes do meio crítico e querido entre realizadores (houve até uma petição cheia de nomes conhecidos em sua defesa) e desde que esteve à frente de Locarno se notabilizou por buscar filmes um pouco mais arejados e fora das estruturas mais manjadas do circuito de cinema internacional e é justo dizer que seu trabalho foi descontinuado por melhorar o festival e as únicas pessoas que parecem satisfeitas são aqueles que preferiam um evento ainda mais voltado para o tapete vermelho. Por outro lado, num mundo ideal, eu provavelmente não reconheceria o nome de Chatrian, assim como o das pessoas à frente de Cannes e Veneza ou de eventos menores como Cinema du Reel. Posso soar como um advogado em causa própria, mas por todos os muitos defeitos da crítica de cinema (e acreditem nós fazemos bem pouco por merecer mais atenção), a cultura cinematográfica não se beneficiou da preferência nos últimos 15 anos da figura do curador sobre a do crítico.
Filmes deveriam importar bem mais do que eventos e isto nem sempre é possível com a forma como estes são centralizados na cultura cinematográfica contemporânea. Chatrian fez um trabalho tão bom quanto podemos esperar dentro das estruturas do festival contemporâneo, mas que ainda precisava existir dentro destas estruturas que ele não vai continuar para além da próxima edição reforça que tais estruturas sequer estão prontas para lidar com algum reformismo. A economia do festival de cinema moderno pede por um espaço de consenso bastante padronizado, o que explica porque os três grandes festivais europeus são hoje diferenciados somente pelas suas atenções às indústrias locais e por como suas respectivas datas ajudam a delimitar os filmes que buscam estrear lá.
Festivais de cinema são espaços conservadores extremamente ligados as lógicas do pequeno mercado de cinema mundial, algo que piora quanto maior e mais influente o evento, e provavelmente seria útil pensa-los mais como espaços de difusão do que como algo que ajuda a mediar um olhar para com o cinema. No começo do mês o Mubi Notebbok publicou um bom artigo de A.E. Hunt que lida com muito deste terreno de uma perspectiva mais próxima deles
Saindo do mercado de cinema mundial e indo para o mercadão da indústria americana, as greves simultâneas de atores e roteiristas ajudaram a pensar o cinema de um ponto vista mais artesanal do esforço de realização em si. Inclusive, eu diria, um poucas das contradições envolvidas em pensar a criação artística dentro de uma escala industrial que na maior parte do tempo evitamos lidar com. A greve ajuda a reforçar quase todas as tendências da indústria nos últimos anos, seguindo a direção do capital contemporâneo, existem para precarizar o trabalho. As condições materiais nos quais filmes são feitos importam e uma das consequências das pessoas que fazem filmes serem tratados com cada vez menos respeito é que os filmes se tornam ainda mais uma linha de imagens amorfas sem significado para serem exibidos na TV.
Me lembro de que uns 25 anos atrás Kent Jones comentando que a antiga ideia do gênio do sistema havia se transformado de forma que precisava-se ser algum tipo de gênio para fazer um filme de valor dentro do sistema e estes são os tempos que estamos nostálgicos por agora. Mark Asch escreveu um artigo muito bom esta semana para Filmmaker Magazine que pensa o ano do cinema a partir da ideia do trabalho . Recomendaria também muito a edição de Abril da Cahiers du Cinema, que inclui um dossiê sobre cinema americano contemporâneo muito precioso, é anterior a greve, mas o que é interessante na coleção de artigos e entrevistas é como os filmes são pensados a partir de uma perspectiva regional muito material, Hollywood como uma consequência de Los Angeles e as estruturas a sua volta, o que garante a ele o frescor raro como abordagem do assunto.
O que me leva de volta a uma última polêmica do ano que de alguma forma aproxima os dois temas: a carta aberta que o cineasta espanhol Victor Erice publicou a respeito da exibição do seu novo longa Fechar os Olhos em Cannes este ano. A princípio não é uma história das mais interessantes, um cineasta veterano reclamando de não receber o tratamento privilegiado que esperava de um evento que sempre lhe destacou. E quem quiser chamar Erice de birrento terá sua dose de razão, mas entre um grande realizador como ele e um burocrata escroque como o diretor de longa data de Cannes Thierry Fremaux, eu tendo a pelo menos ouvir o artista mais e a a sua reclamação central de que o festival efetivamente lhe tapeou para garantir a exibição do filme é uma que merece uma consideração.
Cannes famosamente não exibe filmes do Netflix, mas Fremaux não é lá muito diferente do presidente da plataforma Ted Sarandos, no que lhe cabe o artista é um produtor de conteúdo cuja função principal é trazer filmes para a feira de cinema anual da cidade. O primeiro longa em três décadas do mestre espanhol é intrigante o suficiente para a cinefilia para o evento forçar a barra para garanti-lo, mas não tem os nomes atrativos o suficiente para indústria para gerar a projeção que o próprio realizador esperava. É uma visão profundamente cínica de como o cinema deveria funcionar, uma que desvaloriza aqueles que importam (Fechar os Olhos, Erice e seus muitos colaboradores talentosos) e uma que soterra o que realmente vale a pena num evento desses que são os filmes em nome de garantir algumas manchetes.
Pensei em escrever só um par de parágrafos e terminei com um texto, então vamos ao que importa de fato. São 100 filmes seguindo os critérios de sempre, duração superior a 45 minutos e exibidos pela primeira vez entre 2021 e 2023 e assistidos por mim pela primeira vez ao longo de 2023. A ordem é bastante arbitrária, eu certamente prefiro o 21º. Ao 45º, mas não sei se o prefiro ao 26º.
Ainda antes de começar uma menção a A Praga do José Mojica Marins que eu não me sinto à vontade de contar como um filme novo já que ele existe através do tempo entre o começo dos anos 80 e a década atual, mas que é um acontecimento.
100) Os Assassinos da Lua de Flores/Killers of the Flower Moon (Martin Scorsese)
Comecemos pelo maior evento que vale uma discussão longa do ano. Não acho que Os Assassinos da Lua de Flores propriamente funcione, mas a sua paralisia perante a forma de dar conta de um episódio muito sombrio da história de violência dos Estados Unidos do início do século XX é, em si, bastante significativa. Às vezes, afinal, um filme vale pelos seus defeitos tanto quanto por seus acertos. O suposto maior cineasta vivo da indústria americana transforma o que era no papel uma história de salvador branco numa de culpa branca, de acordo com os gostos do momento (e que claro que continua a ser protagonizado por Leonardo Di Caprio), mas o que é realmente bom é o que é sempre bom no trabalho do artista: o tesão e a habilidade de Scorsese em filmar corrupção. Este é um filme ótimo sobre gestos perniciosos, compreende como eles ganham corpo e fica muitas vezes aterrorizado com como capturá-lo de forma responsável. Lily Gladstone está ótima, mesmo que o filme, e para ser honesto, parte da sua recepção, pareça tentar transformá-la num símbolo.
99) Viver Mal (João Canijo)
João Canijo é um cineasta português talentoso que pouco recebeu atenção fora do país. Este ano isso mudou um pouco porque ele tinha um projeto ambicioso de dois filmes conjuntos que foi exibido em Berlim, dois filmes passados no mesmo hotel familiar um focado naquelas que ali permanecem chamado Mal Viver e este nos clientes passageiros. O tipo de filme conceito que ajuda um realizador a quebrar as resistências do mercado. São ambos bons e Viver Mal é o que não passou na competição, mas eu acho-o um tanto mais focado, então incluo aqui.
97) Pathaan (Siddharth Anand) e O Silêncio da Vingança/Silent Night (John Woo)
Dois filmes de ação sobre os seus próprios excessos de estilo. Pathaan foi o primeiro filme da superestrela indiana Shah Rukh Khan em vários anos, e O Silêncio da Vingança é o regresso do mestre de Hong Kong John Woo ao cinema americano. Os dois filmes concentram-se nas suas imagens hiper-estilizadas, pura fantasia em Pathaan e tormento católico em O Silêncio da Vingança. O filme indiano é como o melhor dos filmes de James Bond da fase Roger Moore, ajudado por uma estrela muito mais magnética, e Noite Silenciosa é como uma versão DTV de Rolling Thunder, todo sobre violência virtuosa e inútil que alcançou o seu ponto de extinção.
96) Andança: Os Encontros e as Memórias de Beth Carvalho (Pedro Bronz)
Às vezes, um documentário simplesmente tem imagens de arquivo fantásticas. Este sobre Beth Carvalho tem uma coleção tão boa que justificaria sua existência apenas por torná-la pública, mas também é muito bem pensado e tem uma liberdade que combina com a própria Carvalho.
95) RGNCNTRL (Alvin Santoro)
Assim como as imagens concretas desaparecem no reino do virtual, La Region Centrale de Snow é reimaginado como a exploração de uma paisagem de videogame.
94) Ito (Satoko Yokohama)
Uma jovem mulher procura formas de forjar uma conexão com o mundo, mesmo que estas pareçam excêntricas. Um filme adorável sobre abertura e comunicação.
93) Offbeat Cops (Eiji Uchida)
Dirty Harry vai à banda marcial da polícia. Um desses deliciosos filmes populares japoneses excêntricos, muito ajudado pelo seu sempre ótimo protagonista Hiroshi Abe.
92) Saint Omer (Alice Diop)
A liturgia do poder e a forma como esta é absorvida pela camera de cinema e por aqueles que tem que lidar com ele.
91) SINFON14 (Raúl Perrone)
Perrone continua seu projeto de criar uma mitologia do cinema completamente artesanal. Este é bastante análogo aos filmes recentes do Albert Serra, mas Perrone não está interessado na provocação, mas na construção de um mundo particular.
90) Anhell69 (Theo Montoya)
Sobre todos os corpos queer que a violência latino-americana deixa para trás e todas os imaginários que são sufocados com eles.
89) The Adults (Dustin Guy Defa)
Hong Sang-soo americano, logo sobre como laços familiares são assustadores e impossíveis de se escapar.
88) How to Blow Up a Pipeline (Daniel Goldhaber)
É melhor como filme de género do que como agitprop político que deseja ser, mas é tão habilidoso no mapeamento e na execução da sua ação revolucionária que não me importo que ele atinja os limites da sua funcionalidade.
87) Espaço Liminar (Gabriel Papaléo)
O diretor Papaleo é meu amigo, portanto, sintam-se à vontade para ignorar este se assim desejarem, mas é difícil para mim resistir a alguém no Rio fazendo uma distopia experimental à Albert Pyun a partir de pura imaginação lo-fi e uso de luz bem pensada. Não há absolutamente nada parecido com ele no cinema brasileiro atual.
86) Padre Pio (Abel Ferrara)
Ferrara e as consequências da história, Da ideologia chega-se ao corpo. Um pouco limitado pelo baixo orçamento, mas os altos são altos.
85) O Caftan Azul/Le Bleu du caftan (Maryam Touzani)
No que diz respeito a triângulos amorosos bissexuais sobre as múltiplas disputas de poder envolvidas lá dentro, prefiro O Caftan Azul ao mais obviamente impactante Passages. A realizadora Touzani tem um olho maravilhoso para a linguagem corporal do seu trio de atores e cria um mundo detalhado a partir do estúdio que serve como palco dos seus desejos.
84) The Comeback (Chris Huo)
Qualquer crítico tem os seus próprios enviesamentos e limites, muitos amigos queridos adoraram Os Rejeitados de Alexander Payne, um filme que faz um trabalho justo de sugerir um elogio americano aos perdedores de 1971, da minha parte eu adorei The Comeback, um filme sobre Simon Yam como um Jason Bourne geriátrico a sair do frio, que parece ter sido concebido para me fazer pensar nos filmes de Hong Kong do final dos anos 90 que tanto gosto. Há muitos filmes locais que querem sugerir o passado glorioso, mas são normalmente pesados e morosos. The Comeback tem a energia insensata daqueles filmes, mesmo que as suas superfícies sejam muito 2023.
83) O Assassino/The Killer (David Fincher)
Uma comédia muito engraçada sobre a nossa precariedade sob a forma de um filme de assassino professional. Tão corrupta quanto o seu mundo extra contemporâneo. Faz sentido que seja o melhor original Netflix do ano.
82) Priscilla (Sofia Coppola)
Por falar em autores contemporâneos com assinaturas muito reconhecíveis, Priscilla é o melhor filme de Sofia Coppola desde Somewhere, muito também por ser o filme mais Sofia Coppola que ela já fez. É sobre como um corpo perde o seu brilho através da erosão de uma imagem pela brutalidade cotidiana e o seu uso de Graceland como um universo privado que lentamente envenena tudo é uma abordagem melhor ao mito de Elvis do que o filme que era realmente sobre o cara.
81) Les chambres rouges (Pascal Plante)
Um não-thriller formalista sobre todas as formas como o mal é embalado e produz o nosso fascínio nos dias de hoje.
78) Smog en tu corazón, Saturdays Disorders e Weak Rangers (Lucía Seles)
Uma das boas descobertas deste fim de ano foram os filmes da realizadora argentina Lucia Seles. Esta é uma trilogia lançada ano passado (desde então ela já lançou um quarto adendo), é sobre um mundo absurdo em meio a relações ácidas de poder, lembra um pouco os filmes do Martin Rejtman mas com uma violência bem própria. É uma grande conspiração entre amigos definida pela disputa entre o que os atores performam dentro do quadro e o olhar autoral da cineasta que segue impondo sobre eles.
77) É Noite na América (Ana Vaz)
Uma viagem para longe da civilização humana. Um ato político de imaginação que tenta aproximar-se dos animais e do seu ecossistema e da forma como eles vêem e se relacionam. Muito revigorante e o excelente olhar de Vaz aproveita-o ao máximo.
76) The Plains (David Easteal)
Outro filme que faz um ótimo trabalho na elaboração de um mundo particular, desta vez o interior de um carro sempre em movimento e sua relação ou falta dela com o exterior. É um pouco pragmático demais, naquela maneira bem anglo-saxónica, para ser tão mirabolante como eu preferiria, mas a viagem de três horas vale muito a pena.
74) The Integrity of Joseph Chambers (Robert Machoian) e Men of Deeds (Paul Negoescu)
O velho tema do homem contra o mundo naquela necessidade constante de se provar. Um pelo viés de uma fisicalidade exaustiva e outro levando o realismo romeno ao paradoxo do absurdo.
73) L’Amour et les Forêts (Valérie Donzelli)
Filme francês sobre violência doméstica que se beneficia de um excelente trabalho de Virginie Efira e Melvil Poupaud e da capacidade da realizadora Donzelii para casar a escalada didática do seu enredo com os excessos depalmianos das suas imagens de thriller. Um filme que acredita que a ficção é o caminho para os seus temas sérios.
72) Não Espere Muito do Fim do Mundo (Radu Jude)
Um filme que complementa bem o do Fincher: outra comédia mordaz sobre nosso pesadelo de precariedade aqui sobre uma forma mais ensaística. Similarmente corrupto, mas mais agressivo no seu diagnóstico. Se o mundo esta as beiras de acabar pelo menos podemos performar o absurdo dos seus últimos dias.
71) Kokomo City (D. Smith)
Quatro trabalhadoras sexuais trans negras encenam a si mesmas para a cineasta e falam com uma franqueza desarmante. A realizadora Smith cria um espaço muito íntimo que as suas quatro protagonistas utilizam como arma. Um filme político, um filme retrato expressivo e uma boa resposta à ideia de representação bem intencionada.
70) Retratos Fantasmas (Kleber Mendonça Filho)
O que resta da cidade quando somos condicionados a não mais sonha-la.
69) Asteroid City (Wes Anderson)
Arte nos tempos da bomba, uma série de anotações a partir de um ludismo formalista. Cada momento entre Jason Schwartzman e Scarlett Johansson é precioso.
68) Paixões Recorrentes (Ana Carolina)
Das formas de representar o conflito de discursos. Muito excitante, mesmo que mais na maneira do que nas ideias.
67) Isolamento Mortal/Sick (John Hyams)
John Hyams permanece um dos grandes formalistas do cinema de gênero contemporâneo. Uma aula sobre usar o fora de quadro.
66) De Humani Corporis Fabrica (Lucien Castaing-Taylor, Véréna Paravel)
Um filme muito violento sobre o corpo humano e sua presença na tela.
65) Propriedade (Daniel Bandeira)
Um mal-estar bem brasileiro tensionado bem além dos limites habituais do nosso cinema. É um espetáculo excitante sem um único sentimento positivo entre as suas intenções.
64) Batem a Porta/Knock at the Cabin (M. Night Shyamalan)
Podemos esperar muito do fim do mundo? Um dos trabalhos cinematográficos mais frontais que qualquer filme popular poderá invocar. Shyamalan é um cineasta religioso no mesmo sentido que Rossellini, o seu é um cinema de revelação, de um mundo aparte de uma forma que pode ser inquietante. Dave Bautista tem uma atuação tão despojada e honesta, tão sincera e ao mesmo tempo aterrorizante quanto o filme a sua volta.
63) Moscow Mission (Herman Yau)
O que mais me toca nestas produções grandes que Herman Yau comandou nos últimos anos é que elas mobilizam o melhor maquinário do cinema chinês, mas existem a partir da pergunta do peso e custo que tais fogos de artificio carregam consigo.
62) Jawan (Atlee)
O narcisismo de Shah Rukh Khan como texto e forma. Um ótimo casamento entre o cinema maximalista e a presença de uma grande estrela. Um filme está a fazer algo certo quando é exaustivo por concepção e melhora à medida que avança.
61) Uma Bela Manhã/Un beau matin (Mia Hansen-Løve)
Como quase todos os filmes da Hansen-Løve, Uma Bela Manhã existe num espaço pessoal bastante doloroso ao qual se constantemente negocia, talvez este ainda mais do que os outros já que é sobre a morte do pai. É um filme sobre estar sempre numa passagem pelas coisas assombrado por esta lembrança de que existe numa finitude.
60) Music (Angela Schanelec)
Sobre localizar o drama no mundo. Cinema de partitura que move do sentimento para uma existência muito concreta dos corpos e lugares quer mal conseguem conte-los.
59) The Caine Mutiny Court-Martial (William Friedkin)
O último filme de William Friedkin é de um minimalismo equilibrado e preciso, ainda mais comovente por ter sido feito com recursos tão pobres, e a sua filmografia termina com um último plano que é um vomito perfeitamente direcionado sobre o seu público, tenho a certeza de que o homem ficou satisfeito.
58) Walk Up (Hong Sang-soo)
Da construção da memória pessoal a partir da engenharia do cinema.
57) The Channel (William Kaufman)
Um filme B dos anos 50 com influência pós-Mann e a estética atual do DTV. Um cinema muito prático, que cumpre a sua missão e que compreende o seu peso narrativo.
56) Just Something Nice (Karoline Herfurth)
Uma espécie de Cameron Crowe alemão que trata com seriedade os problemas de cada uma das suas personagens femininas e imagina uma fuga fictícia para elas. Por trás de toda a doçura, um ótimo olho para o comportamento e as fobias humanas. A melhor comédia romântica do ano.
55) La Place d’une autre (Aurélia Georges)
O tipo de coisa que o cinema francês faz melhor do que ninguém: a defesa da ficção e da força da fábula. Um melodrama de época muito bem executado, em cada quadro e luz. Até tem Sabine Azema em cena para trazer a memória do últimos filmes de Resnais.
54) Sem Ursos (Jafar Panahi)
Da responsabilidade do cinema e dos poderes destrutivos que ele carrega. É o filme do Panahi que mais lembra que Kiarostami desde os seus primeiros longas, mas com uma raiva desencantada muito dele.
53) EO (Jerzy Skolimowski)
Uma viagem de morte pela União Europeia e de certa maneira pela história das formas do cinema europeu moderno por um dos seus mestres. Um exercício formalista sobe olhar para um mundo terrível.
52) Suzume (Makoto Shinkai)
O maravilhamento a partir de um mundo doloroso.
51) L’Envol (Pietro Marcello)
A distancia entre as texturas da fábula cinematográfica e dureza do relato.
50) Boston Johnny (Charles Roxburgh)
Num mundo justo Matt Farley seria um artista multimidia celebrado e o mundo do cinema prestaria atenção no que ele, o cineasta Charles Roxburgh e a produtora deles Motern Media fazem, mas que eles existem como um corpo estranho e intransigente no cinema americano atual é parte da graça, e como os filmes afirmar o trabalho criativo será sempre um fim prazeroso em si mesmo. Boston Johnny é tolo, abrasivo, muito especifico e o uso de repetições é muito inspirado.

49) Doce e Sangrento/Leo (Lokesh Kanagaraj)
É um filme muito interessante para se pensar as diferenças entre o filme de ação indiano e o ocidental já que o ponto de partida é a mesma HQ que inspirou o Marcas da Violência do Cronenberg, mas as experiências dos filmes não podiam ser mais distantes. Basta pensar na cena do assalto ao café do protagonista que no filme anterior é curta e seca no momento que ele percebe que não poderá só baixar a cabeça, mas precisa tomar a ação as coisas se encerram de forma brutal e brusca, enquanto neste filme do Lokesh Kanagaraj cada instante da decisão e cada parte da situação é expandido e distendido e quando a violência vem ela segue a mesma lógica, uma ideia de explorar cada possibilidade dramática da situação.
48) La grande magie (Noémie Lvovsky)
Um musical encantadoramente excêntrico e muito pessoal sobre as consequências emocionais da intrusão da fantasia na vida cotidiana, da sempre segura Noemie Lvovsky. O elenco é fantástico, o cenário pastoral é ótimo, as canções são irregulares, mas são interpretadas com muita energia e prazer evidente por todos os envolvidos.
47) The White Storm 3: Heaven or Hell (Herman Yau)
Fantasmas do antigo cinema de ação de Hong Kong.
46) Anatomia de uma Queda/Anatomie d’une chute (Justine Triet)
O que diz sobre mim o fato de que Anatomia de uma Queda, o tão celebrado vencedor da Palma de Ouro, seja o meu filme menos favorito entre os quatro longas-metragens de Justine Triet até o momento? Provavelmente é algo entre um problema meu e um problema do cinema mundial, mas, de qualquer forma, estou muito feliz que uma artista que adoro esteja tendo seu momento. É um filme muito engenhoso, às vezes até demais, mas é muito bom em explorar seus próprios dispositivos ficcionais e como eles informam a maneira como as experiências privadas são socializadas por meio de ficções públicas. Em um grande ano para animais no cinema, uma coisa é certa: o cachorro de na Anatomia é um ator maravilhoso.
45) John Wick: Chapter 4 (Chad Stahelski)
No início do ano, parecia que todo mundo falava muito bem desse filme, mas ele não apareceu muito nas discussões de fim de ano, apesar dos melhores esforços do meu amigo Sérgio Alpendre. Creio que é essa a vida descartável dos filmes de grande orçamento hoje em dia, o que é uma pena, porque esse é, de longe, o melhor dos que tivemos recentemente. Apesar de sua tendência pulp excessivamente sério e do inchaço habitual, continua sendo uma ótima comédia silenciosa Keatonesca, e toda a parte de Paris é uma grande pirueta inspirada atrás da outra. Eu certamente prefiro o masoquismo de Keanu ao de Tom Cruise, já que por mais punitivo que esse filme possa ser, seu sacrifício não tem nenhum significado além das incríveis façanhas envolvidas e, a parte de quaisquer senões, é um filme muito gracioso, repleto de excelentes intérpretes físicos, muitas vezes subestimados. O desejo de Stahelski e Reeves de dividir o palco com eles traz uma beleza extra para a ação.
44) Shin Kamen Rider (Hideaki Anno)
Este é o terceiro da série de filmes Shin que Hideaki Anno vem realizando nos últimos anos é premissa é bastante atual dar um tratamento realístico a vários personagens populares da ficção e fantasia japonesa da segunda metade do século XX, mas o que segue fascinante é como os resultados saem sempre experimentais e muito distante do burocrático de tentativas similares americanas porque o grande feito de Anno é na hora de pensar seus personagens como parte do nosso mundo tornar tanto o maravilhamento como os temores que eles despertam mais pronunciado. Ele provavelmente nunca vai igualar Shin Godzilla, mas aceito um novo desses a cada poucos anos.
43) Mad Fate (Soi Cheang)
Uma alegoria com matizes religiosas para o estado mental de Hong Kong que aproveita ao máximo a formação em filmes de terror de Soi Cheang. A ideia de destino paira sobre a ação, e o destino se torna uma abertura para interrogar as formas de controle em um filme que, muitas vezes, está prestes a perder qualquer um. O destino intermedia a cidade e a violência contida nela, mas também o cinema como uma prática para representá-la. Soi Cheang é o raro cineasta atual que pensa puramente por meio de imagens, e as imagens sinistras e muito tristes que ele alcança aqui têm muito poder.
42) Raid on the Lethal Zone (Herman Yau)
Quando o cinema de ação se perde no filme-catástrofe. A terra treme, assim como a maior parte da lógica do cinema popular chinês. Puro cinema ambiental, não se pode atirar na natureza, então o que resta ao típico herói chinês hipercompetente fazer?
41) Trenque Lauquen (Laura Citarella)
Sobre se perder em seu próprio labirinto de ficções. Estes filmes maratona da El Pampero sempre têm um certo elemento exaustivo em sua produção, mas esse é menos sobre o processo do filme do que sobre como os personagens consomem suas ficções auto imaginadas. Trenque Lauquen cria esse grande conceito de história/lugar e o segue até chegar ao seu fim natural.
40) Queens of the Qing Dynasty (Ashley McKenzie)
Conexão através do cinema.
39) Youth (Spring) (Wang Bing)
Este filme é seis minutos mais longo do que Assassinos e como por um desses acidentes de destino ele foi exibido na competição de Cannes ele parece alienar até mesmo quem esta pronto para defender a duração do Scorsese (crédito onde ele é merecido: Fremaux aterrorizar os blogueiros do Oscar fazendo-os assistir a um filme de Wang Bing é a coisa mais legal que ele fez desde que colocou Pedro Costa na competição 17 anos atrás). Wang Bing meio que trabalha contra a lógica habitual dos filmes longos, as 3h32 aqui são sobre aquelas pessoas e aqueles lugares não como nós os experenciamos, eles precisam deste espaço e o cineasta chinês vai abri-lo. É sobre jovens a trabalhar na indústria chinês, não é um retrato bom ou mau, mas próximo daqueles rostos, daqueles gestos, daqueles atos no trabalho e no repouso.
38) Dust To Dust (Jonathan Li)
Os pesadelos do empreendedorismo chinês e o que ele deixa para trás. Há um assalto pós Mann e alguns outros momentos de ação, mas a forma é desesperada e conduzido pelo bom olho do diretor Li para paisagem. Da Peng está incrível tanto como empresário de sucesso, intelectual do criminoso ou trabalhador pai de família.
37) A Besta/La Bête (Bertrand Bonello)
A ansiedade contemporânea pelo viés de closes depalmianos desesperados da Lea Seidoux.
36) Essential Truths of the Lake (Lav Diaz)
Em um lugar com uma história violenta soterrada, não há muitas maneiras de sair das cinzas. Uma investigação criminal que não leva a lugar algum, mas sua própria tarefa impossível de ser compreendida. É um filme breve, para os padrões dele, de 215 minutos, mas muito carregado de angústia existencial.
35) Un prince (Pierre Creton)
Tesão pela natureza. Cuida-se do jardim e da atração dos corpos. Um filme livre.

34) A Longa Viagem do Ônibus Amarelo (Júlio Bressane, Rodrigo Lima)
O título é apropriado, pois se trata mesmo de uma viagem, mas o filme não apresenta o cinema como uma autobiografia, e sim como uma prática. Os filmes que ele fez são o que Bressane deixou para trás e, portanto, será para eles que ele deve retornar para pensar sobre imagens passadas e futuras. Este é um filme sobre Bressane como um grande explorador do mundo, mas principalmente sobre como o cinema, como um mecanismo, permitiu que essa curiosidade tomasse forma. Um verdadeiro diálogo entre Bressane e seu editor de longa data Rodrigo LIma sobre o que essa viagem pode significar.
33) The Sweet East (Sean Price Williams)
Uma aventura picaresca sobre um EUA agressivamente contemporâneos, com o corpo de um filme de gênero europeu bastante vulgar dos anos 70, há muito esquecido que algum selo de bluray de respeito acaba redescobrindo. Eu me diverti muito acompanhando como o filme podia encontrar novas abordagens e permitir que Talia Ryder se adapte a elas.
32) A Fera na Selva/La bête dans la jungle (Patric Chiha)
Sincronias improváveis: duas adaptações francesas do mesmo romance de Henry James ambas contemporâneas e com uma ambição de usa-la para um comentário mais amplo. Acho que gosto um pouco mais deste filme do Chiha porque a fotografia é da Celine Bozon, é também um filme sobre a luz e ela é uma das maiores artistas do mundo.
31) Allensworth (James Benning)
Retratos de uma cidade fantasma. Uma experiência imersiva na ideia de uma pequena cidade negra do início do século XX, sobre o que a história e a imagem cinematográfica podem registrar.
30) Leme do Destino (Júlio Bressane)
É sempre incrível quando o Bressane se propõe a filmar as intoxicações do desejo porque ele é um dos nossos cineastas mais carnais e olhar das personagens se transmuta em cada elemento de cena.
29) Rapito (Marco Bellocchio)
Bellocchio exumando mais um pecada da igreja, e por consequência, da sociedade italiana. Melodrama bruto de poucas mediações.
28) Os Últimos Dias da Humanidade/Gli ultimi giorni dell’umanità (Alessandro Gagliardo, Enrico Ghezzi)
O cinema, e a cinefilia, do século XX como um grande arquivo que chega até o mundo e a tentativa de organiza-lo, pensar o que ele viu e o que dele podemos retirar. O crepúsculo de uma ideia de cinema que aos poucos desaparece.
27) Master Gardener (Paul Schrader)
Um filme sobre como uma história violenta sobrevive no corpo e nos lugares, mas, para os padrões de Schrader, surpreendentemente esperançoso. Cinema como um ato de imaginação, Schrader o descreve como uma fábula, uma fantasia de regeneração apresentada como um ato de ilusionismo cinematográfico, não autêntico, mas profundamente sentido. É tudo muito questionável, mas duvido que Schrader tenha perdido o sono por causa disso, sua liberdade é o que torna seu trabalho nas últimas décadas, bom e ruim, tão empolgante.
26) Bowling Saturne (Patricia Mazuy)
Esse filme tem a minha cena casual favorita de todos os filmes novos que vi este ano: um policial pegando a mão de uma mulher morta para abrir seu telefone, a violência naturalizada mundana de tudo isso é muito impactante. O filme em si é o oposto do mundano: uma abordagem brutalmente envolvente e totalmente estilizada sobre como a violência se espalha de uma família para um lugar. O filme sugere a maravilhosa estreia de Mazuy, Peaux de vaches (1989), para um mundo ainda mais envenenado e impossível de escapar.
25) Retorno a Seoul/Retour à Séoul (Davy Chou)
História de uma fratura irreconciliável.
24) The Blue Rose of Forgetfulness (Lewis Klahr)
Outra coleção de curtas-metragens de Lewis Klahr que parecem um álbum conceitual, seis movimentos em torno de ficções sonhadas que buscam um compêndio de imagens antigas de Hollywood, reconfigurando-as de forma a tornar seu desejo romântico único no contexto atual.
23) A New Old Play (Qiu Jiongjiong)
Teatro, história e representação. Não deixa de sugerir um resgate dos filmes chineses dos anos 90, que começam com a pergunta: como você pode levar em conta toda essa história em termos de filme de ficção? Mas ele é muito mais inventivo, ácido e abrangente em sua adoção da dualidade ficção/história do que eles costumavam ser.
22) Crescendo Juntas/Are You There God? It’s Me, Margaret. (Kelly Fremon Craig)
Craig tem uma habilidade muito boa para modular a ação e se mover do agridoce para ansiedade. É um belo filme sobre pré adolescência como o anterior dela Quase 18 era sobre adolescência, sobretudo porque é muito bom em achar a distancia para o olhar da personagem central.
21) A Torre Sem Sombra/The Shadowless Tower (Zhang Lu)
As sombras da história estão em toda parte, em todos os lugares e em todos os rostos, e estamos sempre nos deparando com um espelho dela.
20) The United States of America (James Benning)
Ficções americanas ou os EUA como um filme de James Benning.
19) O Mal Não Existe (Ryusuke Hamaguchi)
Um western engraçado e angustiante sobre o absurdo da ideia de progresso. Acima de tudo, uma façanha ambiental ao mapear a terra em disputa em toda a sua beleza e perigo.
18) Las chicas están bien (Itsaso Arana)
As ficções que a gente encontra no verão. É um filme a partir de um ensaio de uma peça e é um filme sobre o prazer do encontro daquelas mulheres com o texto e uma com a outra. A satisfação de Arana com seu filme e como ela é compartilhada com suas outras quatro atrizes é muito palpável.
17) Jigarthanda DoubleX (Karthik Subbaraj)
Imagens robustas e delirantes a partir de outras imagens robustas e delirantes. A potencia delas, mas também o que elas carregam de violento e desestabilizador. Acender uma vela na igreja do Clint.
16) Meu Falcão (Dominik Graf)
Uma mulher divide um quarto com um falcão, com ela uma grande dose de história pessoal dolorosa e ainda mais incertezas quanto ao futuro, mas no momento há apenas ela e o animal e o que eles compartilham. Somente um contador de histórias habilidoso e tão apaixonado pelos prazeres da narrativa poderia chegar a algo assim, cujos pontos fortes só poderiam pertencer ao cinema.
15) Na Água (Hong Sang-soo)
Ou, como será eternamente conhecido, o filme fora de foco de Hong Sang-soo (não deixa de ser uma maneira de garantir que você deixe sua marca no mercado atual). Entendo que esse seja um passo longe demais para alguns, mas, de certa forma, o dispositivo destaca como poucos conseguem imaginar uma ficção com a precisão de Hong, mesmo quando parece que nada está acontecendo, a maneira como tudo subitamente faz sentido e te atinge nos planos finais é um prazer por si só.
14) May December (Todd Haynes)
Há muitos espelhos de representação, cada um compartilhando muita violência. Como todo filme de Haynes, é uma investigação sobre o que esses modos de representação carregam, e é muito lúgubre para com o que encontra. Pode chamar de anti “a magia do cinema”. Toda dor é matéria-prima para uma ou outra forma de drama, seja a variação de Persona do autor respeitado ou o conteúdo ruim de streaming.
13) Ferrari (Michael Mann)
Ferrari é, em muitos aspectos, um filme muito semelhante a Oppenheimer: dois biografias de grandes homens, muito interessados na destruição que deixaram para trás e atentos a como ela está ligada ao ímpeto do capital em meados do século XX, mas que, ainda assim, não deixam de se maravilhar com seu homem e Mann e Nolan obviamente os amam e se identificam profundamente com eles. Ferrari implica o cinema e a arte de uma forma mais direta, afinal, é um filme sobre uma forma de espetáculo e compreende como tudo, desde os esportes até as artes, muitas vezes opera em direção à mistificar e torna aceitáveis muitos dos mecanismos cruéis da sociedade. As duas linhas principais aqui, como uma forma de comércio “artesanal” deixa de lado sua fachada apenas o suficiente e como a herança pessoal é apenas um outro aspecto disso, são combinadas para que seja um filme sobre as formas de criar essas imagens de respeitabilidade. Quando, mais tarde no filme, ocorre o inevitável grande acidente, ele é apresentado com irrealidade suficiente para acrescentar um véu extra de horror cinematográfico e, então, o filme continua, porque o que são mais alguns corpos mortos além de um aborrecimento momentâneo? É um projeto idealizado há muito tempo, de fato a tanto tempo, que o roteirista Troy Kennedy Martin está morto há 14 anos e Mann tem um crédito de produtor executivo em Ford vs. Ferrari, porque em algum momento aquele filme foi este e, embora seja tecnicamente o melhor filme de Hollywood do ano, ele só foi finalmente possível devido a um daqueles complicados acordos internacionais de coprodução que existem muito além dela (35 nomes listados entre os produtores). Um grande trabalho do diretor de fotografia Erik Messerschmidt e, mais ainda, de Penélope Cruz. Além disso, para os brasileiros, há um papel de destaque para Gabriel Leone.
12) O Melhor esta por Vir/Il sol dell’avvenire (Nanni Moretti)
Um velho rabugento de esquerda aborda o tipo de utopia cinematográfica que lhe é possível imaginar a partir de um presente empobrecido. A maioria dos filmes que Moretti fez depois de seus filmes diários dos anos 90 existe na tensão entre o seu sentimento de revolta e a vida feliz burguesa de um cineasta bem-sucedido e, de certa forma, O Melhor Esta por Vir traz essa tensão para o próprio texto. Não tenho certeza se nada disso faz muito sentido para quem não tem a priori um bom investimento no cinema dele, que é constantemente revisitado de uma forma ou de outra, e certamente tem muito mais a ver com uma luta contra as decepções do passado, mas assistir a Moretti desabafar e seu desejo de alcançar algumas novas imagens pode ser muito comovente e expressivo, um dos melhores filmes do ano do tipo “o velho mestre ainda tem algo a realizar”.
11) O Dia que te Conheci (Andre Novais Oliveira)
Um romance encantador e engraçado sobre duas pessoas que se aproximam pelo fato de serem os únicos negros em seu emprego de merda e seus remédios antidepressivos. O filme é feito quase inteiramente de momentos fortuitos que ocorrem ao longo de um dia, de pequenos gestos que lentamente geram uma grande carga de emoção. A casualidade das imagens se junta à forma como os dois se relacionam. Novais, que sempre tem um ótimo ouvido para diálogos, está em sua melhor forma, e seus protagonistas, seu irmão Renato e Grace Passo, são excelentes. O segundo melhor romance proletário do ano.
10) Menus Plaisirs – Les Troisgros (Frederick Wiseman)
A gastronomia de luxo como um dos últimos vestígios da arte tradicional. Um filme que existe entre a observação do trabalho artesanal de excelência, toda a estrutura em torno dele e o privilégio necessário para consumi-lo e sustentá-lo.
9) Crônica de Uma Relação Passageira/Chronique d’une liaison passagère (Emmanuel Mouret)
Algumas das coisas mais significativas da vida acontecem nos momentos fortuitos de interim. É um filme previsto no que nos é permitido ver, essas duas pessoas estão tendo um caso, os momentos que temos acesso são geralmente muito felizes e, ao mesmo tempo, o filme é hiperfocado neles e muito consciente do que está fora da tela, que há outras vidas que essas duas pessoas vivem que Mouret não está acompanhando, mas que ainda agem sobre elas. O filme opera no sentido de minimizar tudo e deixar sua pequena dimensão jogar contra uma ideia de um mundo maior. Da mesma forma, ele entende suas percepções de desejo romântico de maneiras que são constrangedoras, embaraçosas e muito sinceras em todos os momentos. O cuidadoso formalismo de Mouret permanece impecável, não há nenhum plano que possa ser questionado e, quando ele passa do casual para uma ruptura emocional, é impossível não se sensibilizar.
8) Le gang des bois du temple (Rabah Ameur-Zaïmeche)
Um filme de assalto sobre existir as margens da sociedade europeia, sobre o peso diário das violências de relações de poder de todo o tipo. Um pesadelo materialista com uma compreensão muito grande de lugar e de um olhar sempre bastante específico que ao mesmo tempo reconhece seu peso alegórico. Ameur-Zaïmeche filma tudo num impressionismo realista próximo de um Pialat, mas os significados são todos seus.
7) Em Nossos Dias (Hong Sang-soo)
O mundo seria um lugar melhor se nós o percebêssemos como um gato consegue.
6) Showing Up (Kelly Reichardt)
Um dos melhores filmes sobre trabalho criativo e as concessões envolvidos em sustentá-lo que me lembro de ter visto, porque tudo no próprio trabalho de Reichardt e Williams é tão focado em gestos concretos.
5) Bom Dia a Linguagem/Bonjour la langue (Paul Vecchiali)
Paul Vecchiali faleceu aos 92 anos no último mês de janeiro, ele fez este último longa às pressas movido pela morte de Jean-Luc Godard, 91, quatro meses antes. É um filme sobre parar o tempo por um último momento sobre o que o cinema consegue fixar e também as permanências de cada um e sobre reforçar as relações enquanto isso ainda é possível. É um filme bonito e afetuoso também por ser honesto sobre como as recriminações da história não se apagam facilmente. E lá está em cena o próprio Vecchiali, sempre sentado, a reclamar dos problemas respiratórios da Covid longa, sonhando com os últimos filmes de seus mestres queridos e a lembrar que seus dias estão cada vez mais longos porque os amigos se vão cada vez mais. Vecchiali foi um dos grandes mestres do melodrama no cinema e acho justo que chorei tanto no seu último suspiro,
4) Folhas de Outono (Aki Kaurismaki)
Uma troca de olhares estabelece que duas pessoas devem ficar juntas, mas o mundo conspira da maior variedade de métodos cósmicos e práticos para distanciá-los até a mão benigna do autor colocá-los juntos no plano final. Até lá tem uma coleção de rostos maravilhosos, as duas melhores piadas de cinéfilo em muito tempo, karaokê, muita bebida e um cachorro adorável chamado Chaplin. Kaurismaki não muda uma nota do seu habitual minimalismo, este não deixa de ser um adendo décadas depois da sua trilogia do amor proletário, mas é talvez seu filme mais acessível, tudo que seu cinema tem de ser generoso e benigno reforçado sem perder a melancolia, o mundo a volta pode seguir miserável, mas o cinema pode torná-lo justo por 80 minutos.
3) Afire (Christian Petzold)
Sobre um mundo que termina. É tão casual, uma comédia de férias sobre um artista chato muito reconhecível que vai à praia ficar um pouco mais miserável assistindo aos outros, que quando o fogo do título internacional (o alemão céu vermelho também vale) se revela factual é um choque, mesmo que o filme seja precisamente estruturado e inevitável. Mas o filme todo existe neste movimento exato entre o narcisismo de Leon e a violência do mundo ao seu entorno. É um filme tocante porque ele existe neste reconhecimento constante da fragilidade das coisas nas esferas mais diversas.
2) O Trio em mi bemol (Rita Azevedo Gomes)
Muito se comparou Afire a um filme de Rohmer, o que é justo, mas este último filme da Rita Azevedo Gomes é baseado numa peça de Rohmer, mas não se parece nada com ele. É sobre uma série de encontros de um casal de ex-amantes e sobre o filme que se realizado a partir deles, é sobre o sentimento gerado deste encontro e sobre o trabalho e a aventura da descoberta de chegar até ele com o texto de Rohmer como uma partitura musical que Gomes e seus colaboradores exploram e localizam sempre novas coisas. Há um momento em que o casal (maravilhosamente interpretado pela Rita Durão e Pierre Leon) discute e a câmera de Gomes arbitrariamente se move para longe deles até encontrar um piano que é uma das coisas mais bonitas que vi em qualquer filme nos últimos tempos.
1) Fechar os Olhos/Cerrar los ojos (Victor Erice)
O primeiro longa-metragem de Victor Erice em três décadas é um filme sobre o tempo e como ele se relaciona com o cinema. A velhice e a memória e também como a captura do filme funciona, permitindo que as coisas permaneçam enquanto registra seu desaparecimento. Ele existe em um presente suspenso, mas é surpreendentemente caloroso e engraçado, e é a busca pelo passado que é sempre preocupante. As sequências em que acompanhamos o nosso cineasta interrompido em sua vida de exílio são essenciais, porque é uma vida gratificante: ele tem um cachorro maravilhoso, uma rotina diária que aprecia e está cercado por muitas pessoas que ama, e até consegue tocar “My Rifle, My Pony and Me”, de Rio Bravo. E há o mistério do rosto de Ana Torrent, a única referência cinematográfica que importa como referência cinematográfica, tão memorável quando criança no O Espírito da Colmeia, de Erice, há 50 anos, e ainda lá, também contemplando algo para tentar entender esse intervalo de tempo. Fechar os Olhos é um filme muito sábio, muito tocante, que abrange muito em seus 169 minutos. Será que ele produz o mesmo efeito se você não passou a vida inteira contemplando e refletindo sobre filmes como Victor Erice fez? Eu sinceramente não sei, mas sei que ele me comove e me marcou profundamente. Com o passar do tempo, fica claro para mim que, depois que o sucesso de Avatar, de James Cameron, levou a uma substituição de todo o parque de distribuição, da película para o digital, entramos em um novo período do cinema, de certa forma tão significativo quanto o dos filmes falados, que nos últimos doze anos, mais ou menos, estivemos em um novo período do cinema que ainda não compreendemos totalmente e não acho que Fechar os Olhos seja o melhor filme do ano, mas sim o melhor filme desta era do arquivo, entre outras coisas porque ele se refere a tudo o que veio antes, mas que só poderia ser feito agora.




































































































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Sempre bom te ler.
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