
A Prece, filme novo de Cedric Kahn, pode a princípio sugerir um filme sobre fé, mas é antes disso um filme sobre vício. Anthony Bajon, que ganhou um merecido prêmio de melhor ator no Festival de Berlim, está lá como um jovem viciado que pós overdose de heroína é enviado para uma fazenda comunitária mantida por membros da Igreja católica. O filme traça este longo e muito comum processo da igreja como salvação e seus efeitos.
O que torna o filme substantivo é a honestidade e distancia com que Kahn e sua equipe encaram tal processo. A fazenda é o que ela é, faz seu papel genuíno e bem intencionado de melhorar a vida daquelas pessoas, mas o filme nunca doura a pílula de que este processo de substituir a droga por Deus tem algo de aterrador, de que no fundo o que se propõe é só uma recanalização do vício para algo que não vai te matar. O vício em A Prece é somente uma forma de devoção que pode ser direciona de maneira diferente. Abordagem de Kahn calcado numa descrição de processo é muito feliz em como lida com isso. Um olhar materialista sobre crença.
A atuação de Bajon é bem hábil em apresentar essa ideia de alguém que olha com desconfiança se não resistência completa para o seu ambiente, mas sente a necessidade dele. Uma das melhores cenas do filme acontece razoavelmente cedo quando ele abandona a fazenda e uma personagem o convence a voltar e percebemos no seu olhar a lenta realização “se eu fizer o que eu quero, eu vou morrer e eu não quero morrer”. Medo é um sentimento recorrente no filme, entre muitas coisas essa relação entre medo e fé é algo que A Prece capta muito bem. Tem algo muito forte no tratamento da paisagem do interior francês por parte de Kahn, ao mesmo tempo desoladora e deslumbrante, o homem sempre prestes a ser engolido. Kahn está longe de ser um Bresson, mas na sua descrição física que ele se propõe se aproxima de como o divino devora os homens em alguns dos últimos filmes do mestre francês.
O filme tem seus momentos desiguais. O texto em especial as vezes busca uns atalhos fáceis para adiantar o processo, em particular um episódio mal-ajambrado para estabelecer os termos do último ato. A radicalização da parte final tem muita força, justamente na forma direta com que o filme leva o seu processo até as últimas consequências. Mesmo a reviravolta final para um desfecho mais apaziguador é ela própria assombrado pelo mesmo sentimento de só mais uma substituição. A força de A Prece é da honestidade com que lida com a psicologia do vício. Devoção é uma série de formas de danação, o vício é um ciclo difícil de se romper, a salvação no outro seja droga, a igreja, uma pessoa que te apoie guarda seus próprios caminhos tortos.
Imagem e Palavra é um dos vídeo-ensaios mais diretos que Godard realizou na sua fase pós-Historia(s) do Cinema. Não haverá preocupações com qualquer mediação via personagens ou narrativa, mesmo a persona de Godard permanece secundaria e a opção por só legendar parte das falas reorça que o filme se resolve muito mais sobre a imagem do que a palavra. Até o Godard, palhação triste figura essencial para servir de escape mesmo num filme como História(s) esta ausente aqui, apesar do filme ter seus momentos engraçados já que humor permanece uma das suas qualidades mais subestimadas.
Não há dúvidas de que Maya, longa novo da Mia Hansen-Love, exista sobre um espaço que nosso olhar contemporâneo tenha como problemático. O próprio filme parece ter plena consciência disso. Está ali um jornalista de guerra francês recém libertado por uma organização terrorista que resolve curar as feridas passando uma temporada em Goa onde viveu na infância. Há também a Maya do título a muito mais jovem filha do seu padrinho indiano com quem ele terá um romance um tanto envergonhado. Os signos do poder e do colonialismo estão por todo o filme, assim como uma cortesia do sujeito de primeiro mundo que parece assumir que os bons modos e a passividade vão lhe permitir escapar ileso diante de qualquer canalhice. Filme e personagem se misturam e pode-se questionar se não é a própria Hansen-Love quem acredita que reconhecer os estragos do colonialismo francês lhe absolve de qualquer exotismo e turismo fácil, nesse sentido o filme não deixa de sugerir o reverso dos bons filmes que André Techiné realizou sobre o tema.
3 Faces se diferencia dos outros que Jafar Panahi fez depois da sua prisão. O drama e a encenação são mais elaborados, a própria figura do diretor mais marginal, um observador da ação no lugar de protagonista. A revolta típica dos seus filmes é um pouco mais resignada, com a observação se sobrepondo ao confronto. Há uma influencia clara de Kiarostami, em particular nos filmes da trilogia de Koker, como não se via desde os seus primeiros longas. Os temas são aqueles que sempre figuram de alguma maneira no seu trabalho: o lugar da artista na sociedade, o machismo iraniano, poder, representação, classe. Estão ali três atrizes de gerações e posições distintas e as margens da ação o próprio Panahi, tentando representar um patriarcado benigno. Essa talvez seja a maior novidade do filme ao contrário de outros filmes de Panahi que lidam mais diretamente com a mulher na sociedade iraniana, aqui ele não se permite a mesma distância, a sua presença encena te relembra o tempo toda das próprias vantagens, mesmo que o filme nos relembre que o diretor ainda seja um homem com suas liberdades limitadas. A atria veterana, “aposentada depois da revolução”, é mantida fora de campo pelo que seria uma opção própria, mas também pela sua desconfiança para com os diretores “todos iguais”. A investigação e a incerteza do terço inicial vai dando lugar a um jogo de espelhos e poder. Um jogo de cinema, sem saídas fáceis, enfim.
Federico Veiroj permanece um dos mais interessantes cineastas latino americanos muito por ser também um dos mais modestos. Belmonte assim como Acne, A Vida Útil e O Apostata, é um cuidadoso exercício de retrato. Há ainda menos eventos do que nos filmes anteriores, somente a figura do pintor Belmonte a lidar com seus sentimentos para com a filha e a ex-esposa gravida do novo marido, há ainda uma futura exposição para ocupar seu tempo, mas como Michael Sicinski bem observou na Cinema Scope este é o raro filme sobre um artista no qual a obra se revela secundária a sua família. Há uma ideia de enraizamento e desejo que contrastam bem com a virilidade da obra do pintor. O filme lembra sobre alguns aspectos Ramiro de Manoel Mozos exibiu na Mostra do ano passado, outro retrato de artista em chave menor mais preocupado com o seu ambiente e persona. Há um cuidado e imaginação nos momentos individuais que os valorizam e as cenas com a filha em especial tem uma observação bem próprias. O trabalho com cor também merece uma menção a parte especialmente pela forma com que consegue ser elaborado sem que o filme caia na tentação da composição excessivamente pensada para acompanhar a obra do personagem. Por último entre as muitas coisas a se elogiar sobre o cinema de Veiroj é que ele sabe ser direto e compacto, nada desperdiçado, Belmonte cumpre todos os seus objetivos em menos de 75 minutos.

