Mostra (7): Maya

mostramayaNão há dúvidas de que Maya, longa novo da Mia Hansen-Love, exista sobre um espaço que nosso olhar contemporâneo tenha como problemático. O próprio filme parece ter plena consciência disso. Está ali um jornalista de guerra francês recém libertado por uma organização terrorista que resolve curar as feridas passando uma temporada em Goa onde viveu na infância. Há também a Maya do título a muito mais jovem filha do seu padrinho indiano com quem ele terá um romance um tanto envergonhado. Os signos do poder e do colonialismo estão por todo o filme, assim como uma cortesia do sujeito de primeiro mundo que parece assumir que os bons modos e a passividade vão lhe permitir escapar ileso diante de qualquer canalhice. Filme e personagem se misturam e pode-se questionar se não é a própria Hansen-Love quem acredita que reconhecer os estragos do colonialismo francês lhe absolve de qualquer exotismo e turismo fácil, nesse sentido o filme não deixa de sugerir o reverso dos bons filmes que André Techiné realizou sobre o tema.

Existe, porém, o filme em si para além desses significantes assumidos a priori, que é bem mais interessante nos choques que promove. A começar pela forma como ele se assume incompleto. Como vários filmes da cineasta, ele já começa no meio da ação (a liberação dos prisioneiros) e permanece nesse estado até o seu fim. Pois Maya é justamente a história de um fracasso. Um filme onde nada se conecta. Onde o “homem branco rico vai ao terceiro mundo lamber suas feridas” e só encontra mais indiferença. Não há redenção ou catarse possível aqui. Entre a primeira e a última sequência (no qual o jornalista retoma ao trabalho), muitos eventos acontecem, mas o mundo segue imutável.  A melhor sequência de Maya, aquela que apresenta este projeto de forma mais clara, é o encontro entre o jornalista e a mãe, que abandonou ele e o pai diplomata ainda na infância. Encontro tenso, aberto, mas irreconciliável, nem a presença da ameaça da morte e do terror islâmico permite que as feridas do tempo sejam perdoadas, a tensão inicial, o ressentimento de três décadas, é intransponível. Longe de oferecer um alivio só aumenta-se as incertezas. Maya todo é uma serie desses encontros desastrados: com Paris, o pai, a ex-namorada, Goa, o lar da infância, o padrinho, a mãe, a própria Maya. Quer-se um consolo no outro e encontra’se apenas mais desespero.

Há de principal, este sentimento que é menos de trauma, do que de desenraizamento. É disso que a viagem de Maya trata, um homem sem pátria. O retorno a Goa é o desejo frustrado de se preencher, de pertencer a algo elusivo. As próprias imagens do filme têm um sentimento de lugar muito preciso (a sequência da viagem pela Índia é muito feliz nesse sentido) que contrasta com o restante do filme. A diretora meio que tenta repetir o procedimento que usara no seu longa anterior O que está por vir, e isolar o protagonista dentro das situações com menos sucesso pois apesar de Roman Kolinka estar bem em cena, ele não tem a mesma facilidade de Isabelle Huppert para solar com pouca ajuda do universo exterior. A força maior do filme vem deste desespero constante do não-pertencimento, um grito abafado que Maya sempre retoma. Passeia’se pelo mundo, mas nunca se preenche, o mundo exterior segue impassível diante do terror existencial. Cabe-se perguntar se a força desse não-pertencimento se sobrepõe as questões que o filme levanta, talvez seja por eu andar me sentido bastante apátrida eu mesmo, mas para mim ela ressoa fundo.

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