Arquivo do mês: março 2018

Alguns filmes da semana (10 a 16/03)

ornamental

Ornamental Harpin (Hiroshi Shimizu, 1941)
Um filme de projeções e incertezas. Desejos e supressões. As coincidências dão partida a trama, mas o filme da forma com que Shimizu empresta encantamento aos menores momentos. Um romance onde as duas partes pouco fazem além de dividir espaços e desejos. Há uma graça muito grande em como o filme se desvia por digressões. Não estamos muito longe do universo de um Ozu, mas com mais liberdade. Os prazeres do viver aqui muito próximos do espectador de cinema. E tem aqueles planos finais que são arrasadores.

No More Comics! (Yojiro Takita, 1986)
A certa altura dessa sátira ao jornalismo televisivo nosso intrépido reporte invade o velório de uma garota de 14 anos enfia um microfone na cara da mãe e na ânsia de fazer uma matéria com cunho social pergunta “é verdade que a sua filha estava envolvida com prostituição?” e pergunta de novo e de novo e de novo e de novo após ser agarrado pelos parentes e ser empurrado para fora. É engraçado, depois constrangedor e finalmente muito engraçado, tudo isso ao longo de uns 5 minutos que de distendem bem além do que seria aceitado. É o momento mais cristalino dessa espécie de Rede de Intrigas reimaginado por Takeshi Kitano. Raivoso, super óbvio, mas cheio de desvios inquietantes e muito engraçado. O próprio Kitano aparece no último ato com uma ponta essencial e violenta. O arco dramático do filme com seu auge tenso seguido de queda precipitosa na cobertura da noite com suas boates de strip e prostibulos sugere um microcosmo da trajetória do cinema japonês e o filme fruto da era das vacas magras dos anos 80 é muito marcado por este contexto.

The Death of Stalin (Armando Iannucci, 2017)
No outro extremo da sátira óbvia esta este filme do Iannucci que recebera muitos elogios por ser um filme do momento nesta ascensão do totalitarismo. Sem dúvidas a risadas, mas existe uma falta de especificidade no humor no filme que mina a sua eficácia. No final das contas é seguro sobre nada e ninguém. Os atores seguram um mínimo interesse, sobretudo Steve Buscemi como Kruschev. Mas salvo pela eficaz mudada de rumo nas sequencias finais do humor ao horror, suspeito que Iannucci pouco faz além de tornar o totalitarismo trivial. Até Trump ou Erdogan dariam boas risadas.

Mowhawk (Ted Geoghegan, 2017)
Neowestern brutalista com toques sobrenaturais. Em algum lugar entre Romero e Bone Tomahawk, ou um Mel Gibson que tem certeza que as américas são uma terra amaldiçoada por um massacre suprematista. Um ménage a trois entre um casal indio e um rebelde inglês fugindo de um bando de trogladitas brancos para quem o escalpo deles significa o retorno ao exército. Falta de grana limita o mundo do filme em alguns momentos, mas os atyores são bons e o filme tem uma grande força ressonante. Geofhegan tem uma das sensibilidades mais interessantes do horror de baixo orçamento contemporâneo.

Annihilation (Alex Garland, 2018)
Hibrido de ficção cientifica e filme de horror de encantamento filmada por uma pessoa que pensa cinema a partir da lógica e não da imaginação. Um Predador despirocado que pede por um Apichatpong e recebe um Villeneuve. Como artista Garland sempre teve um pé nas estrturas de gênero como quebra-cabeça e um desejo de desaparecer no visceral. Este filme segue nesta toada, mas infelizmente nunca vai longe demais. Até o último ato no qual o filme entra de vez na metafisica sofre de ser literal demais. Existem momentos nos quais Garland produz uma imagem perturbadora no limite do mistério da proposta original e o filme conta com boas atrizes, mas é pouco.

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Trama Fantasma (Paul Thomas Anderson, 2017)

Phantom-Thread

Com uma parceria real num casal é atingida: com cogumelos envenenados e um gosto pela dor. Este dia o Eduardo Valente falava mal do filme e dizia que tinha mais paciência para Anderson quando os filmes dele puxavam para o lado do humor, concordo com ele, mas diria que Trama Fantasma é justamente a grande comédia sadomaso sobre o poder na esfera privada que eu não sabia que precisava.

O filme do Anderson que ele mais lembra é justo o Embriagado de Amor, o último filme cômico romântico dele. É quase um espelho reverso do filme anterior, onde antes o domínio era de uma certeza de algo maior ao seu alcance e neurose judaica do Adam Sandler, aqui temos uma perversidade latente e uma vontade de dar uma boa sacaneada em todo o sentido de respeitabilidade das classes altas inglesas. Sandler começa embaixo e era levada as alturas pelo amor, aqui Daniel Day-Lewis começa no alto é tem que ser levado aos joelhos pela amada. Até a oposição Sandler/Day-Lewis, literalmente o máximo de humor baixo e grande ator que o imaginário da indústria americana produz reforçam essas oposições complementares.

Trama Fantasma é todo construído a partir de noções de cumplicidade e poder. Previsto nesta ideia de que igualdade é sempre algo buscado e difícil de atingir. De um princípio de desequilíbrio. Os filmes de Anderson se movem de forma parecida. Sempre digo que o pior do Anderson é a fan base que não só está sempre pronta para colocá-lo nas alturas, mas age como se cada filme fosse um objeto idealizado, neste sentido Anderson é mesmo o novo Kubrick.  Uma certa irregularidade, uma disposição de jogar na tela cada ideia independente da qualidade sempre foram parte da graça do cinema dele (mesmo Magnolia que acho de longe o pior, tem um charme no ridículo da coisa toda). Trama Fantasma é até bem disciplinado para os padrões dele, a mudança para Inglaterra provavelmente ajudou neste sentido, mas por exemplo as tentativas de se aproximar dos grandes movimentos de câmera do Max Ophuls são ainda mais frágeis que imitações similares do Kubrick.

Os três filmes anteriores de Anderson, Sangue Negro, O Mestre e Vício Inerente, eram todos à sua maneira grandes painéis históricos americanos. Road movies sobre os detritos esquecidos de uma sociedade capitalista se movendo da ascensão do capital empreendedor do século XIX até a decadência da contracultura nos anos 70. A política em Trama Fantasma se reduz radicalmente a figura do casal e seus jogos de poder, mas há algo que resta desses filmes na descrição da tecelagem do personagem de Day-Lewis. Como sempre Anderson é cuidadoso neste trabalho descritivo e há ali ainda atuação contida quase fantasmagórica da Lesley Manville, como a irmã que de fato toca o negócio a família.

Há aí um dos elementos mais cativantes do filme pois Trama Fantasma só parece ser um filme sobre um gênio temperamento difícil, de gênio Reynolds Woodcock tem só a pompa (até no nome que parecer algo que Pynchon inventaria para sacaneae um “grande” estilista). A casa de Woodcock é uma fábrica de salsichas de classe. Aquele festival de mulheres formiguinhas a executar a “visão” do artista que é muito mais um símbolo, uma ideia a ser vendida de status, do que um fato. Conversei com mais de uma amiga que ao contrário de mim entendem de moda, e elas foram unanimes em dizer que os vestidos do filme são muito menos bons do que parecem, que existe ali uma ideia de “grandes vestidos”, mas que tudo soa de segunda linha.

Vale apontar que Trama Fantasma é ele próprio um filme bem menos classudo do que aparenta, uma comédia perversa sobre a forma de romance elegante. O filme se fecha ali sobre aquele casal que só ama pelas vias do sofrimento do outro. O que nos filmes anteriores era um esgarçamento do estar no mundo, vira aqui esta competição de supremacia entre duas pessoas. Esta lógica do mundo retomada em esfera privada. E daí vale destacar o esforço de Day-Lewis de servir de escada para a muito menos famosa Vicky Krieps. O sorriso dela com a certeza que domou o homem e o colocou no seu lugar a imagem maior de satisfação do filme.

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Alguns filmes da semana (3 a 9/3)

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Zatoichi’s Flashing Sword, de Kazuo Ikehiro

Ufa, terminando os posts atrasados.

The Big House (George W. Hill, 1930)
Filme de presidio de 1930 de muito prestigio na época, indicação ao Oscar, etc. Sempre tive grande curiosidade pois supostamente foi a principal fonte de inspiração  do O Código Criminal do Howard Hawks. Bem surpreende vindo da MGM: físico, direto, sujo. Enquanto está dentro do presidio é de uma vivacidade, tem uma textura para os mecanismos internos dos presos inesperada. As poucas cenas fora de lá tem um enfado típico da MGM do período, mas elas são breves. A primeira surpresa já nas cenas iniciais, o jovem de classe média vivido pelo Robert Montgomery não é nosso protagonista mediador, mas pelo contrário um agente instigador de confusões. E no lugar o filme se fecha sobre os dois criminosos de carreira Chester Morris e Wallace Beery (como o brutamontes pagando prisão perpetua cheia de beerismos daqueles que se ama ou se odeia). O clímax com a rebelião inevitável é de uma imersão na ação notável. Filme de ambientação, descida a esta casa dos homens quebrados destinada a virar panela de pressão e explodir. O Diretor George W. Hill morreu em 1934, sem, portanto, chances de formar uma obra extensa, o que ajuda a explicar o esquecimento do filme.

Street Without End (Mikio Naruse, 1934)
Girl in the Rumor (Mikio Naruse, 1935)
Dois Naruses deste momento de transição do cinema japonês para o sonoro. Street Without End é o último filme mudo do diretor, o material dramático é bem conhecido dele, mas aqui a apresentação é mais segura e radical, o filme todo se movendo entre possibilidade e negação. Já Girl in the Rumor é impressionante, um dos seus melhores filmes, só 54 minutos e dentro dele tantas possibilidades dramáticas. É de uma densidade, um mundo inteiro, alegrias, tragédias, resolvido com imensa economia. Filme de um cineasta em pleno controle da sua arte. Há um belo texto na monografia online que o Dan Sallitt publicou sobre a obra do Naruse, recomendo a analise deste e de todos os outros.

Advance Patrol (Kazuo Mori, 1957)
Um pequeno filme de homens numa missão passado na guerra nipo-russa da primeira década do século passado. Kurosawa supostamente também pensou em filma-la no começo da carreira, mas o trabalho coube ao veterano Kazuo Mori que dirigiu filmes de samurai do fim dos anos 20 até os 70. Aqui o impacto é o enquadro em scope, um filme todas possibilidades do quadro, onde a aventura, o risco é definido pelos limites da imagem.

Zatoichi’s Flashing Sword (Kazuo Ikehiro, 1964)
Mais um filme da série, Zatoichi, mais um filme de muita invenção. A primeira hora é o nosso típico filme de samurai conduzido com firmeza e as vantagens da presença de cena do Shintarô Katsu, que como sempre domina o personagem. Ai chega a parte da ação final, com Ichi, o samurai cego, lançado com um desejo de violência que ele não demonstrara nos filmes anteriores, quase toda ela encenada no escuro, frequentemente pouco mais que silhuetas para nós e completa a ideia de que os membros da gang contra a qual ele se insurge entendendo que Ichi precisa que eles ataquem primeiro para escuta-los. Ação/paralisia, luz/sombra, sublime.

Madhouse (Ovidio G. Assonitis, 1981)
Cinema de horror italiano as vésperas da crise que varreria ele uns anos depois. Existem coisas porém que os excessos do horror italiano fazem que nenhum outro cinema consegue fazer igual. Aqui temos um conto demente e triste sobre família e religião como instituições opressoras que só poderiam vir de uma sociedade tão católica e conservadora como a da Itália e com um excesso de tintas barrocas que novamente pertence só a eles. É tão louco quanto destrambelhado, um andamento super irregular, mas tem um sentimento muito forte que acaba em primeiro plano.

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Alguns filmes da semana (24/2 a 2/3)

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Star of David, de Norifumi Suzuki

Seguindo o tirar o atraso, amanhã tem mais uma.

Five Star Final (Mervyn LeRoy, 1931)
Denúncia sobre o sensacionalismo da impressa no começo dos anos 30. Filme importante, elogiadíssimo na época como exemplo de cinema responsável e relevante. É um apanhado de gatos desequilibrado entre um típico filme de jornal do começo dos anos 30 (um verdadeiro gênero à época) e uma peça moralista super determinista. LeRoy provavelmente teve acesso ao Edward G. Robinson, como o editor que topa tudo pela circulação, por não mais que uns 3-4 dias já que ele passa 90% das cenas dele sentado atrás da mesa. Alguns dos closes tem uma qualidade caustica, apesar de suspeitar que o temperamento de LeRoy está bem mais próximo dos jornalistas que o filme faz crer. No geral visto hoje, fica a curiosidade de ver como o jornalismo impresso sempre esteve em crise e a certeza de que Hollywood esta a tentar passar este tipo de tolice hipócrita como denuncia relevante desde sempre. O tempo passa, as coisas seguem iguais, em suma.

Torrent of Desire (Lo Chen, 1969)
Shaw Bros em 1969 refilmando na cara dura Palavras ao Vento (sério a Universal e os roteiristas podiam procsessar). É Hong Kong no fim dos anos 60, então o filme se fecha mais na ideia de uma virilidade desencontrada, de um excesso de sexualidade descontrolada. A suposta impotência do marido rico a segurar o rifle fálico do papai o símbolo maior da elite infeliz e sem saída que o filme retrata. O diretor Lo Chen não é um Douglas Sirk é óbvio, mas o filme é visualmente caprichado e de um excesso e sem-vergonhice que complementam os sentimentos infelizes de todos em cena, um bom aluno do mestre.

Fang in the Hole (Seijun Suzuki, 1979)
Poucos viram, mas depois de ser demitido da Nikkatsu, Seijun Suzuki não passou a década posterior em sabático por completo, mas fez alguns filminhos para a TV japonesa. Este de 79, um mistério de 45 minutos escrito pelo seu parceiro habitual Atsushi Yamatoya é uma pérola. Um whodunit onde a questão é como tanto como o quem. Um crânio perfurado sem respostas. Tem um clima sobrenatural a despeito da investigação terrena e Suzuki capricha na estética agressiva, o uso de verde é ótimo.  Um meio termo entre seu trabalho dos anos 60 e a trilogia Taisho que começaria no ano seguinte.

The Secret (Ann Hui, 1979)
A muitos anos este filme da Ann Hui é um favorito meu, o que torna ainda mais triste que ele siga disponível no ocidente só num LCDRip muito vagabundo. Primeiro longa dela, retirado direto de um crime brutal da crônica policial da época sobre o qual o filme circunda especulando as motivações. Mas o que importa não são os jogos narrativos ou mesmo o crime em si, mas o sentimento que o filme exala, um mal estar profundo da sociedade de Hong Kong.  É cheio de variações de clima e cortes inesperados. É fácil compreender porque ele segue longe do home vídeo já que é muito desagradável. A obra da Ann Hui merece ser melhor vista e aqui está uma chave essencial e mais confrontadora que o costume.

Star of David: Hunting for Beautiful Girls (Norifumi Suzuki, 1979)
Falando em confrontador eis um filme desagradável até para os padrões do pinku, que é um dos gêneros mais desagradáveis que existem.  Um festival de taras e perversões que deixaria Sade orgulhoso. Atsushi Yamatoya escreveu este aqui também e como sempre ele tem mais em mente do que mero choque, dentro da câmera de horrores do nosso “heroí” passa toda uma história de privilégios, negações e violência reprimida da sociedade japonesa. O vomito grotesco do filme circula o fato dos japoneses nunca terem exorcizado sua relação com o fascismo. Um Saló sem qualquer possível distanciamento intelectual. Norifumi Suzuki, um especialista exploit, dirige de forma direta e sem meio tons.

Flamengo Paixão (David Neves, 1980)
Sobre a paixão intoxicante que o esporte provoca. O Flamengo é ao mesmo tempo o dado mais e menos relevante do filme. O mais porque só um clube de massa passando por um grande momento como aquele poderia estar no centro deste filme. E o menos pois é sobre um sentimento de torcedor que ultrapassa em muito a barreira clubista, motivo pelo qual envelheceu tão bem, não é preciso ser flamenguista para ficar emocionado. Em tempo, David Neves era vascaíno.

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Alguns Filmes da Semana (17 a 23/02)

Blackpanthers

Black Panthers, de Agnes Varda

Estou bem atrasado aqui devendo 3 semanas, então tentarei nos próximos dias subir todos estes posts.

A Dançarina de Izu (Heinosuke Gosho, 1933)
Melodrama do Heinosuke Gosho a partir de um livro do Yasunari Kawabata. Muito fluido, muito direto no seu tratamento dessas figuras deixadas para trás pela marcha do progresso. Como frequentemente nestes filmes japoneses o olho para tapeçaria social é espantoso na sua eficácia e economia. O final com a separação inevitável dos amantes é tão previsível como efetivo.

Black Panthers (Agnes Varda, 1968)
Política como ação e como performance. Varda passeando pelos EUA e aterrissando no centro do furacão. Filme direto sem mediações. Como gesto político muito forte, ainda mais quando consideramos a criminalização do partido dos panteras negras à época. Um dado curioso é a maneira como Varda se aproxima de muitos registros de convulsões do “terceiro mundo” por parte de documentaristas europeus. Se é um movimento estético consciente ou mero reflexo de eurocentrismo desconheço (no As Praias de Agnes tem 30 segundos pelo filme quase turísticos), mas é muito eficaz. E pensar que a diretora capaz de documento tão impactante, seja hoje memificada por uma lógica cultural que no fundo é muito mais confortável com este olhar de puro consenso, a vovó bacana melhor ser humana, Varda é isso, mas é muito mais como este filme nos lembra.

Golden Exists (Alex Ross Perry, 2017)
Como nos últimos filmes do Perry temos a sensação de estar diante de uma sensibilidade particular insegura sobre como se mover em meio ao mainstream. Muita tradição relida (no caso Bergman pelo viés de Allen) de forma superficial e questionável, o que não deixa de ser interessante pois leva a um particular. Excesso de verbosidade autoconsciente que precisa se explicar o tempo todo. São sete personagens centrais, mas desconfia-se que é no fundo um só, dado o solipsismo do cineasta. Tenta-se escapar, mas termina-se sempre no mesmo lugar. O filme busca seguir a acessibilidade crescente dos filmes de Perry, mas não consegue a escapar da sensibilidade tóxica dele, algo positivo já que esta toxicidade segue a real contribuição dele ao cenário independente americano.

Happy End (Michael Haneke, 2017)
The Square (Ruben Ostlund, 2017)
Dois filmes horrorosos irmãos. Aquele cinismo burguês calculado do Haneke encontrando um herdeiro ideal em Ostlund. The Square são duas horas e meia de metralhadora giratória calculada para não ofender ninguém enquanto finge o contrário. É o pior do mundo da arte que ele supostamente crítica. Haneke é muito mais talentoso que Ostlund, as vezes é até capaz de produzir um bom filme no meio da piadinha malvada, mas diante deste Happy End, uma espécie de sequência vagabunda de Amor, tem-se a sensação que ele terminou de perder o viço. É uma repetição de procedimentos sem nenhum tesão, até as provocações encontram de vez a banalidade. Minha única reação foi no final quando nas palavras do Marcus Martins, o Trintgnant se oferece a Iemanjá, admito ri muito, tem horas que é impossível resistir a babaquice do cara. Devo dizer que só cheguei até o fim para descobrir qual era a ironia do final feliz do título. No fundo Happy End me lembrou o Manderlay, do charlatão dinamarquês, a aguardar se este também anuncia o fim de Haneke como cineasta viável. O que seria uma pena, já que gosto de ficar puto com os filmes dele, neste o que dominou foi o enfado. Como a palma anuncia Ostlund vai longe, o circuito de arte está sempre pronto para abraçar um arrivista com jeito de mal.

Pantera Negra (Ryan Coogler, 2018)
Uma operação mais que um filme como frequentemente são estes filmes da Marvel. Redobrada dada ao excesso de atenção que recebeu. Dentro destes termos me parece um sucesso, certamente o melhor filme da Marvel desde o primeiro Vingadores, não que isso signifique muita coisa. É sempre um passo a frente e outro atrás, por exemplo o filme é bem imaginado visualmente, mas limitado por uma completa falta de interesse de imaginar Wakanda para além das intrigas de poder palacianas da nobreza local. Coogler tem méritos de imaginar o filme em termos políticos, mas previsivelmente não tem muito como soluciona-los dentro dos termos dele. O grosso do que resta são sobras da conciliação dos anos Obama, um filme a frente e perdido no tempo, talvez. O que tem de melhor é Michael B. Jordan, ator exuberante como sempre, na pele do vilão, lá para complicar como pode esta lógica de consenso.  A parceria anterior entre ele e Coogler, Creed, no seu esforço de apropriar a iconografia ítalo-americana de Rocky para a cultura negra local era um filme muito mais radical e bem superior. Deixo dois textos antagônicos em tudo, mas que creio no seu choque dão conta de muita das possibilidades e conotações do filme, Bernardo de Oliveira na Cinética e K. Austin Collins no The Ringer.

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