Arquivo do mês: fevereiro 2018

Alguns Filmes da Semana (10 a 16/02)

PaixaoeVirtude

Paixão e Virtude, de Ricardo Miranda

The Magnificent Concunbine (Han-Hsiang Li, 1962)
Princess Chang-Ping (John Woo, 1976)
Um mesmo gênero popular, a opereta, e dois momentos muito distintos da indústria de Hong Kong. Em The Magnificent Concunbine, toda a estrutura da Shaws Brothers a disposição, incluindo o principal diretor da casa na época, o muito talentoso Han-Hsiang Li para recontar a vida e sacrifício da concubina Yang Guifei, a mesma figura histórica que serviu de inspiração para A Princesa Yang Kwei Fei de Mizoguchi (uma co-produção da Shaw & Sons, o primeiro estúdio da família Shaw). Um filme ágil, muito luxuoso no qual a intriga política existe pelas suas possibilidades dramáticas e musicais. Corte para 14 anos depois e cá estamos nós com este filme do começo da carreira de John Woo, a opereta abandonada pela Shaws em função das artes marciais, mas ainda popular com a plateia. Filme independente lançado pela Golden Harvest (a principal competição da Shaws, mas uma que se especializou em ser distribuidora não produtora frequentemente dependendo de independentes para completar a sua cartela). Os cenários são simples, a trilha menos marcante, há uma dissonância entre as origens primeiro escalão do gênero e o filme que vemos. A Princesa Chang-Ping não parece pertencer a tempo nenhum, nem ao apogeu das operetas de Li, nem a Hong Kong do fim dos anos 70. É um dos primeiros filmes de Woo, e é útil lembrar que antes de explodir com A Better Tomorrow, ele era conhecido sobretudo como um hábil diretor de comédias populares. Este filme reforça que ele era conterrâneo dos cineastas do chamado Cinema Novo de Hong Kong, com os quais ele raramente é aproximado (salvo pelo Tsui Hark) e seu tom áspero e cru sugere os revisionismos das formas populares que se tornariam mais comuns no cinema local dali a 4-5 anos, mesmo que por acidente.

Ele, o Boto (Walter Lima Jr., 1987)
Revisionismo era o mote de Walter Lima nos anos 80 quando se dedicou a um velho projeto de Humberto Mauro em Inocência e aqui a um antigo roteiro de Lima Barreto a partir de uma ideia da Vanja Orico (o filme ainda é dedicado ao Mario Peixoto, como se Walter quisesse entre os dois filmes fechar a santíssima trindade do nosso cinema clássico não chanchada). Remonta-se ao folclore dos ribeirinhos da Amazonia, a figura do homem-boto que visita a terra dos homens para seduzir suas mulheres. História de sedução, história de terror, o cinema popular brasileiro sempre teve um bom pé para este fantástico. O que mais me impressiona é a personalidade do boto (bela atuação física do Carlos Alberto Riccelli), uma criatura anarquista, que parece antes de mais nada ser movido pelo desejo de tripudiar do mundo dos homens, a sedução somente uma parte das suas armas, que a mulher escolhida (Cassia Kiss, ótima) tenha como pretendente um Ney Latorraca tentando gourmetizar a região só reforça o boto como espécie de figura de resistência. A procura pelo filho, acrescenta um toque de Mojica, mas imagem que me fica é do boto a fugir dos homens com tanto prazer no ato de dribla-los. Enquanto o mundo dos homens decai, a natureza tripudia.

Paixão e Virtude (Ricardo Miranda, 2014)
Paixão e Virtude foi o segundo filme do que deveria ser uma trilogia a partir de textos pouco conhecidos do início da obra de Flaubert (o primeiro é o também bem interessante Djailoh de 2011). Agora incompleta, pelo falecimento de Miranda alguns meses depois do lançamento do filme. Filmes sobre o ato de por em cena um texto, que paradoxalmente obscuro permanece distante do espectador. Do ato de imaginar sensoriamento o mundo, com destaque particular para as locações e atores. Tem um que das adaptações de Bressane, outro tanto de Oliveira, mas antes de mais nada de uma liberdade muito própria. Me parece dos filmes mais fortes feitos por aqui nessa década. O Paulo Santos Lima escreveu muito bem sobre o filme na Cinética à época da primeira exibição.

ManHunt (John Woo, 2017)
A última década não foi das mais felizes para o Woo. Desde o retorno a China, ele vem revelando uma dificuldade enorme de se adaptar a indústria local. Este Manhunt sugere um filme seguro após um par de superproduções de época: filme de caçada entre dois homens que aprendem a se respeitar, passando por uma série de sequencias e motivos visuais que aludem aos tempos melhores do diretor. Pura digressão, um passeio em casa. Só que se a aparência de filme B é simpática e se há o inegável know how do diretot para imaginar sequencias de ação, tem algo aqui que nunca decola. Eu diria que o motivo é porque Woo é sobretudo um diretor de melodramas para os quais a ação é uma forma de extensão barroca musical dos sentimentos dos seus personagens. Como aqui o drama é nulo, uma reles autoparódia, essas sequencias giram em falso. Woo já trabalhou nessa chave antes (A Better Tomorrow 2), mas falta a Manhunt o que aquele filme tinha de corrosivo e anárquico. Nada mais distante do filme do que aquele princípio católico de purgação violenta que sempre animou os filmes do diretor.

Thirst Street (Nathan Silver, 2017)
Silver é um cineasta curioso dentro do universo do cinema americano independente pelo gosto pelas tintas excessivas que negam as origens naturalistas típicas desse cinema. Stinking Heaven já prometia uma quebra total com este meio e este filme europeu, uma espécie de espelho fassbinderiano, com um pé na sátira cruel e outra no melodrama, e ambos no puro artificio, não deixa mais qualquer dúvida. O material é ao mesmo muito direto nas suas origens de gênero (lembrem-se homens muito cuidado com aquela conquista de uma noite que não se toca no dia seguinte) e amplo nos seus desejos simbólicos: os EUA a se atrapalhar no exterior, o trauma (a morte do namorado) que desengata na mais pura fantasia (o barman gostosão francês como destino final). A fotografia de Sean Price Williams (de longe o melhor técnico do cinema americano na atualidade) mantém o filme sempre neste espaço de artifício, de espelho cinematográfico torto, uma constante realidade paralela, enquanto a atuação central de Lindsay Brudge de uma enorme empatia garante que o filme se mantenha sempre longe do patético.

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Alguns Favoritos de 2017 Parte 3

Finalmente a última parte cobrindo os filmes a partir de 1968.

The Human Bullet (Kihachi Okamoto, 1968)fav61
“Empatia, humor, horror”, descrevi assim Fort Greveyard do Okamoto semana passada e The Human Bullet refeito com doses ainda maiores de absurdos e sem a tentativa de se aproximar de gênero. “O Japão,é um grande país, um país puro”.

Nanami, o Inferno do Primeiro Amor (Susumu Hami, 1968)fav62
Uma existência sem sentido do qual não se consegue livrar. Aquelas duas forças maiores do cinema japonês, a impotência sexual e o excesso de energia sexual postos no mesmo plano em conflito eterno. Nanami não é o melhor filme do movimento, mas talvez seja aquele que mais diretamente expõe as suas muitas contradições.

Tenchu! (Hideo Gosha, 1968)
fav63O filme de samurai como puro delírio formalista. Duas ações: a paralisia e o movimento. Dois modos de se filmar: a beleza da composição de plano e a agressão com que ela é desmontada.

Caveira My Friend (Alvaro Guimãraes, 1970)
fav64O irmão mais novo do Meteorango Kid. E bem o filme deu ao mundo os Novos Baianos, o que torna ele uma das maiores contribuições legadas pelo nosso cinema.

Eugenie (Jesus Franco, 1970)
fav65“Nenhuma casa moderna é completa sem a obra do Marques”. Franco essencial. Um sonho sujo do mais puro mal. Continuar lendo

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Alguns Filmes da Semana (03/02 a 09/02)

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One-Armed Swordsman (Chang Cheh, 1967)

Não revia One-Armed Swordsman faz uns 10 anos e reencontra-lo é lembrar como o filme destila a essencia dos primeiros wu xias da Shaw Brothers. Um filme tão dramaticamente redondo, que ao mesmo é expansivo (as quase duas horas são das durações mais longas do gênero) e tão direto ao ponto. E lá no centro está a figura masoquista do Jimmy Wang Yu explorada com tanto cuidado por Chang Cheh, um lembrete de que o wu xia na sua gênese lida diretamente com explorar com representação do masculino no imaginário chinês (bom lembrar que nos gêneros mais populares do cinema local até o começo dos 60 (melodrama, opereta, musical as figuras masculinas em geral eram bem fracas). É curioso que o gênero naqueles tempos frequentemente trabalhava com triângulos com uma heroína e dois pretendentes contrastantes, mas aqui são as mulheres que se duplicam entorno dele.

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Alguns Favoritos de 2017 Parte 2

Segunda parte dos meus favoritos vistos pela primeira vez ano passado cobrindo o período entre 1928 e 1967.

Crossroads (Teinosuke Kinugasa, 1928)
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Kinugasa fez este filme logo na sequencia do Uma Pagina de Loucura,infelizmente ele não tem a mesma fama, mas é de uma densidade de imagens ede uma simplicidade arrebatadora.

Blackmail (Alfred Hitchcock, 1929)
fav22O filme de transição de Hitchcock para o cinema sonoro.  O uso do som fora de campo é especialmente bom. E o filme tem um bloco de ação entorno do assassinato principal que é precioso. Precisão de Lang, se muito menos punitivo na moral. E já esto ali quase todos os temas centrais do gordinho.

Eternal Love (Ernst Lubitsch, 1929)
fav23Um Lubitsch nada típico. Seu último filme mudo. Uma fantasia romântica mais ao gosto der um Borzage.  Imagino que a eficácia do filme dependa de como cada um se sente diante da canastrice do John Barrymore, a mim ela raramente incomoda e neste caso completa o romantismo destrutivo. O filme é puro sentimento.

Gardiens de Phere (Jean Gremillon, 1929)
fav24É uma pena que esta maravilha só circule em cópias bem ruins, dop contrário talvez estivesse na lista da semana passada. Quase uma completa abstração de luz em cima de temas de vida e morte a partir do farol aludido no título.

The Doorway to Hell (Archie Mayo, 1930)
fav25Proto gangster antes do trio Little Cesar/Inimigo Publico/Scarface solidificarem o gênero. James Cagney até está em cena como segundo em comando como se a aludir onde o gênero estaria em um par de anos.Um filme de gestos mais do que de atos violentos. Lew Ayres é o menos durão dos gangsteres, mas há uma inteligência em ação na performance dele que localiza o filme além do seu tempo. E quase tudo que podia ser genérico tem um toque inesperado. Continuar lendo

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Alguns Filmes da Semana (27/01 a 02/02)

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Estranho Encontro

Estranho Encontro (Walter Hugo Khouri, 1958)
Creio que não via Estranho Encontro desde a retrospectiva do Khouri no CCBB, creio que em 2002. É meio um choque reencontra-lo agora. Aquelas imagens super estudadas do Khouri colocadas num contexto dramático em que não só fazem todo o sentido, mas que dotam elas de uma abrasividade que o cinema dele normalmente não tem. Lembrei-me que Jairo Ferreira na primeira edição do Cinema de Invenção escreveu um capítulo sobre os filmes de horror do cineasta localizando-os na nossa tradição do experimental. É um jogo de poder claustrofóbico, um estudo cuidadoso de opressão langiana a partir dessa figura da mulher explorada, a câmera do Khouri só um objeto a mais de agressão assim como a arquitetura daquela casa de campo burguesa de trevas. É algo entre Val Lewton e Buñuel, mas tão brasileiro que a salvação é um gigôlo (quase um Breakfast of Tiffanys campestre e decadente). Tudo recoberto por uma atmosfera de fetiche sexual perverso e sem filtros.

Zatoichi and the Chest of Gold (Kazuo Ikehiro, 1964)
Sexto filme da série de Ichi, o samurai cego. Depois de ser apresentado no primeiro filme, os quatro seguintes se moveram no sentido de tirar mais e mais elementos dele. Faz sentido que nessa altura ele seja tabula rasa para aventura e este é o filme mais funcional e direto da série até aqui. O que sobra são aqueles temas centrais do filme de samurai, honra e ganancia e no centro Shintaro Katsu cuja presença projeta este movimento continuo da ação. O diretor Kazuo Ikehiro, estreante na série, entrega algumas cenas de luta de espada inspiradas e o filme tem o misto de estilização e contenção que caracterizam os esforço de mitificação da série.

The Flying Dagger (Chang Cheh, 1969)
Poucos sabem por aqui, mas foi o sucesso de filmes de samurai em geral e da série Zatoichi em particular que levou a Shaw Brothers a se mover da operetta ao filmes de espadachim no qual Cheh fez seu nome (um dos últimos filmes da série devolve o favor com Katsu enfrentando Jimmy Wang Yu em Zatoichi meets the One-Armed Swordsman).  The Flying Daggger é um perfeito exemplar de Chang Cheh no que ele tem de mais vital. Um tratado sobre violência como uma doença que se espalha, cada paulada da adaga voadora prometida pelo título se multiplicando em outras três. O prologo engenhoso (rodado num P&B expressivo que por si só o destaca dos filmes de ação locais da época) oferece o tom com um casal sendo assassinado e a heroína extraindo a justiça/vingança do assassino que vai promover a contra ação. O preto e branco também ajuda a reforçar a crueza da violência aqui. O herói em si é Lo Lieh, sempre o mais distante dos protagonistas de Cheh, uma qualidade que é bem explorada aqui e reforça o tom áspero e movediço do filme.

D’jagão Mata para Vingar (José Mojica Marins, 1973)
Ninfas Diabólicas (John Doo, 1978)
Violência e sexo. Estradas diferentes de perdição. Um pouco da vitalidade da indústria de cinema brasileira, aquela que nosso discurso anti-histórico insiste não existia. Mojica longe do registro do horror, mas no faroeste no qual ele também sempre se aclimatou bem (estreou por ele em A Sina do Aventureiro), intrigas e vingança em cima de vingança. O protagonista cigano oferece um desvio a mais e meio que sugere uma versão peculiar de aproximação com o faroeste indianista em voga em Hollywood na época. A se notar a montagem de Mojica de uma fluição e liberdade que ajudam a reorientar o sentido de tal estrada da violência. John Doo não tem a forma invulgar de Mojica, pelo contrário Ninfas Diabólicas vai com facilidade do livre ao canhestro, tem dificuldades de negociar este meio termo entre horror e pornochanchada (Garret fazia isso com mais habilidade, por exemplo). É um filme de sereias míticas, aqui transvestidas de ninfetas colegiais. O marinheiro vira o pai de família enjoado vivido por aquele operário padrão da indústria de São Paulo Sergio Hingst que encarna como sempre o enfado paulistano como ninguém. O desvio pela praia de Santos, espaço de lazer do trabalhador paulistano por excelência, vira aqui o palco da danação enquanto o triangulo do poder vai aos poucos se movendo. Não um filme com o completo do controle do que faz, mas sempre um filme de grande força.

Projeto Flórida (Sean Baker, 2017)
Parte do que me fascina aqui é o diálogo entre  conceito e a encenação. Pois muito do filme parece pronto antes da câmera rodar, mas ele existe sobretudo naquele olhar generoso que os filmes do Baker têm, no desejo de criar algo com as suas duas atrizes principais, de existir no momento. Existe este pôr em cena num fluxo constante e existe a rigidez das ideias calcadas na dureza da existência socio-econômica dos personagens, ali no limiar dessa narrativa de dissolução. Quase tudo que se escreve sobre o filme meio que independe dele, pois as ideias já estão ali prontas na pesquisa inicial de imersão que o Baker (de certa forma o dispositivo aqui não está muito distante dos documentários do Eduardo Coutinho). O único momento em que o filme falseia é na cena final quando joga atoalha e assume a mistificação de cinema como saída. De resto o filme existe neste misto de imersão num espaço e imersão com as duas atrizes que fazem mãe e filha. Nisso não surpreende que o filme converge com tanto frequência para o atrito entre elas e Dafoe, que é o elemento mais escrito e mais pensado em cena, o profissional de Hollywood (e que seja na lógica dramática do filme o administrador bem intencionado mas limitado pelas durezas do mundo, o bom neoliberal que a mídia de um modo geral adora mitificar).

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