Mostra Internacional de São Paulo – Parte 4

City Hall

Primeira parte
Segunda parte
Terceira parte
English version

Parte final da cobertura da Mostra com os filmes vistos nos últimos dias do evento e uma observação geral.

O Ano da Morte de Ricardo Reis (João Botelho)
Ao longo de quatro décadas João Botelho vem tocado um projeto maneirista com um gosto pelo artifício e gesto teatral que não está muito distante de outros colegas portugueses, as vezes dá mais ou menos certo (o filme que ele fez a partir de Os Maias que passou na Mostra de 2013), as vezes soa só aborrecido (como quando filmou Pessoa em O Filme do Desassossego em 2010). Aqui filma um romance de Saramago sobre Pessoa e seu pseudônimo Ricardo Reis no momento que a Europa mergulha no fascismo e se o material está a mão, o filme vai aos poucos afundando no auto referencial do tique autoral que reforça que Botelho pode sonhar com Oliveira, mas existe como uma cópia pálida e sem vida.

Chico Rei Entre Nós (Joyce Prado)
Logo no começo de Chico Rei Entre Nós, um dos entrevistados conta que é difícil estabelecer a história de Chico Rei junto a historiadores oficiais porque estes são obcecados por documentação. Algo que a história negra brasileira sempre marginalizada e apagada não oferece. O documentário de Joyce Prado usa Chico Rei justamente para dar conta desse apagamento, das muitas formas como a história oficial brasileira segue um processo de embranquecimento que sistematiza este apagamento do papel negro nas áreas diversas como nas suas contribuições para a engenharia de mineração ou das origens do bairro paulistano da Liberdade. A diretora Prado costura isso muito bem numa combinação de crença na história oral, pesquisa e montagem. É um filme que trabalha muito bem os pontos de contato entre religião, economia e raça ao longo da história do país.   

City Hall (Frederick Wiseman)
City Hall da sequência ao projeto de Frederick Wiseman na última década de deslocar seu olho sobre instituições para algo como a resistência de um projeto civilizatório num momento de fragilidade (algo que eu espero retornar aqui no blog eventualmente). No caso um filme sobre a prefeitura da sua cidade Natal Boston e as maneiras como o estado chega até o cidadão. Com 4 horas e meia é o segundo filme mais longo da carreira de Wiseman e mesmo assim a duração está longe de catalogar os serviços da cidade. Isso apesar de colocar de forma bem consciente em relativo segundo plano das primeiras atividades associadas com o estado aos quais Wiseman já dedicou filmes completos como segurança e educação – num lugar mais civilizado acrescentaria a saúde, mas o filme se passa nos EUA. É um filme sobre funcionalismo público bem feito (e há mais impressão de um trabalho bem realizado aqui do que em qualquer outro filme de Wiseman que eu vi), mas também de todas as maneiras com que o estado ainda deixa o cidadão na mão (e como o recorte de quem é bem servido funciona). Wiseman sempre foi um grande cineasta do teatro público e City Hall é talvez seu filme mais bem realizado neste sentido com o prefeito Marty Walsh assumindo um protagonismo raro num filme dele, cria-se uma distancia para o espectador julgar Walsh tanto como representante de uma política humana como uma figura de retórica vazia se assim desejar (provavelmente a leitura diz mais sobre o espectador do que Walsh ou City Hall), mas com certeza dentro da construção do filme seu lugar é menos do grande administrador do que do grande ator desta política de estado (Jake Mulligan que é de Boston escreveu algumas coisas bem interessante sobre isso aqui). E não seria esse espaço entre as ações realizadas pelo Estado e da performance das mesmas no qual boa parte do engajamento político local funciona? É também um dos vários retratos de comunidade que Wiseman realiza de tempos em tempos, o terceiro na última meia década aqui também as correlações com os outros recentes In Jackson Heights, sobre um bairro multicultural de Nova York e Monravia Indiana sobre uma cidade de interior são bem iluminadores sobretudo por este ser um retrato comunitário filtrado pela presença auto reflexiva do estado. A última vez que Wiseman filmara o governo em State Legislature (2007), seu olhar não podia ser mais caustico, City Hall não é otimista exatamente (seu último ato reforço os fracassos), mas afirmativo sobre a necessidade uma comunidade bem administrada, o que após quatro décadas de supremacia do discurso de desmonte neoliberal soa como uma mensagem política eloquente e necessária (devia ser exibido nos corredores da Folha cada vez que contorcem a realidade para justificar a reforma administrativa deles). Uma imagem imperfeita talvez, mas essencial.

Dente por Dente (Pedro Arantes, Julio Taubkin)
Filme de detetive bastante derivativo se imaginado com alguma competência. Os ecos de relevância contemporânea são soterrados pelas memórias de uma dúzia de outros neonoirs sobre negociatas imobiliárias e o plot labiríntico é muito menos interessante do que acredita ser. Os diretores optam por uma encenação opressiva que cansa bem rápido, a mesmo nota repetida até sua completa dissolução no cinismo habitual do gênero.

Eyimofe (Arie Esiri, Chuko Esiri)
Um filme nigeriano com dois contos sobre imigração, bem observados com uma boa ideia sobre as opções que existem e deixam de existir para seus personagens e seus significados assim como o peso do trabalho e atividades diárias. O todo é bastante reiterativo e os pequenos momentos registram mais forte com arco geral. Muita gente boa respondeu bem mais forte do que eu e considerando que vi no último dia de festival é possível que o desgaste do evento já batesse forte.

Este Não é um Enterro. É uma Ressurreição (Lemohang Jeremiah Mosese)
Viver as bordas de um processo de modernização. Este Não é um Enterro, é uma Ressurreição existe em algum lugar entre um conto de resistência bem formatado para o gosto das plateias de festivais contemporâneos e uma tradição do cinema africano em lidar com o assunto e suas contradições. Nisso o filme traça paralelos entre comunidade, individualismo e o pertencimento a um lugar que o colocam bem distantes dos exemplos aos quais provavelmente seria associado. A protagonista é uma personagem notável e o esmero com quadro e luz perceptíveis, mas o filme me interessa menos por essas qualidades plásticos, mas na relação que estabelece com aquele espaço.

Malmkrog (Cristi Puiu)
Não sei se alguém fez a comparação antes, mas o filme que Malmkrog me trouxe a memória ao longo de toda a sua duração foi O Oito Odiados do Quentin Tarantino mesmo que a violência aqui seja majoritariamente verbal como bem cabe a um filme de barbarismo com boas maneiras (em oposição a orgulhosa selvageria do filme americano). O frio, o teatro violento, as divisões por capitulo, os choques bem posicionados por um narrador oniscientes (em ambos os filmes personagens são bonecos de seu autor), a muito simbólica história de origem política. Seis pessoas tendo um argumento filosófico e trocando insultos intelectuais enquanto as entranhas escuras do iluminismo revelam uma aristocracia decadente movendo-se em direção ao horror. É formalmente muito forte, como todos os outros filmes de Puiu se trata de um épico em chave minimalista feito num estilo especifico que ele leva até o limite via acumulação e repetição, os mesmos gestos e técnicas executados até a saturação. É muito fácil se perder aqui se decidir-se por se engajar completamente com a discussão intelectual, mas me parece mais recompensador aceitar que Puiu as usam como ponto de partida cujas palavras especificas importam menos que sua ressonância e articulação. O que é dito importa, mas como é dito e como os personagens se posicionam em relação aos outros importam mais. Malmkrog é um filme muito violento cuja violência é consistentemente sublimada. No que cabe a explorações de uma Europa decadente do século XIX está mais para Sokurov do que Oliveira (e podem ler essa observação com um julgamento de valor negativo). De fato, o outro filme que Malmkrog me fez pensar muito foi o Arca Russa de Sokurov, igualmente esteticamente expressivo e conservador na sua construção de um passeio por um século XIX de horrores europeu com subtexto similar que o que vemos na tela trouxe à tona os horrores definitivos do século XX, o momento que a história europeia se perdeu (e também aquilo que aconteceu na Rússia e que ambos os cineastas acham melhor não ser mencionado). Como Tarantino, boa parte da tensão da história de origem barbárica de Puiu vem do tanto de prazer que ele encontro nos personagens grotescos que criou: é muito uma história de fantasmas do século XXI que suspira pelos seus horrores do século XIX. Uma contradição, uma exasperação, mas um objeto político fascinante em quão transparente e impossível pode ser.

Shirley (Josephine Decker)
Menos uma biografia de Shirley Jackson do que um estudo entre relações entre viver e criar com algumas boas ideias sobre vampirização do entorno que se desdobram numa construção de uma atmosfera barroca que espelham no filme muitas das ideias que busca desenvolver. A direção de Decker é bastante feliz tanta na articulação dessas ideias contra na construção de um ambiente para elas, mas o filme sobre de um problema sério de imaginação: tanto as cenas do casamento de Jackson como o jovem casal com que ela convive são muito pobres, então o filme acaba jogado todo nas costas de uma Elizabeth Moss com excesso de tiques.

Sportin’ Life (Abel Ferrara)
É um diário sobre 2020 segundo Abel Ferrara e por consequência um grande ensaio sobre como a vida alimenta o cinema. Sportin’ Life expande numa ideia de documentário rascunho que Abel Ferrara vem se dedicando nos últimos anos, filma-se o que passa pela câmera e interessa o realizador e dali se acha um filme. Não existem grandes diferenças de princípio entre Sportin’ Life e Alive in France de 2017 com a diferença de que estamos em 2020, também conhecido como o pior ano da história e o pobre Abel Ferrara está eternamente preso ao Festival de Berlim, também conhecido como último evento normal do ano cinematográfico e onde Ferrara lançava Sibéria já comentado por aqui. Uma das coisas que Sportin’ Life deixa claro é que existem poucas coisas piores que visitar uma dessas feiras de cinema que acontecem na Europa e o filme deriva boa parte da sua força do retorno constante a Berlim no qual, Ferrara, esposa, filha e Willem Dafoe passeiam entre os eventos oficiais e entrevistas de divulgação e a completa desconexão do mundo do festival com a sua volta (“eu não acredito que Berlim está acontecendo normalmente” era recorrente nas minhas timelines em Fevereiro e bom lembrar Ferrara mora em Roma). Festivais de cinema são ecossistemas previstos numa constante retroalimentação de ego e si próprios incluindo este que eu cobri de casa. Há um pouco de tudo aqui naquele caos perfeitamente articulado que Ferrara faz seu: clipes dos mais diversos filmes dele, imagens da sua filha feliz no tapete vermelho e triste no apartamento em Roma, amplo material televisivo e de computador sobre a pandemia sobretudo vindo dos EUA (nem precisa dizer Ferrara não é um homem feliz, útil relembrar que o advogado de Donald Trump é o vilão estrutural ausente de todas as obras-primas de Ferrara nos anos 90 e declarado no R’X Mas de 2001), performances e mais performances da banda do Ferrara excitantes e chatíssimas em igual medida, Dafoe falando sobre o documentário que vão fazer que é e não é este, Dafoe falando sobre atuação, Dafoe interpretando Ferrara enquanto interpreta Pasolini, Dafoe lendo uma crítica de Siberia no The Guardian sobre o crítico abandonar o filme, muitas entrevistas promocionais tão estupidas em festivais ditos inteligentes do que em qualquer outros (acabo me lembrando do meu amigo Eduardo Valente, que trabalha e estava em Berlim, dizendo que as coletivas de imprensa de Abel Ferrara são as únicas coletivas de imprensa que justificam perder um filme), o festival engolindo a si mesmo e Roma vista pela janela de Ferrara uma imagem angustiante. A vida e arte de Ferrara são uma coisa só se retroalimentam, ontem e hoje.    

Valentina (Cássio Pereira dos Santos)
Um drama teen trans brasileiro sobre uma garota tentando se matricular com seu nome na sua nova escola de interior que se move com desenvoltura entre o tom bem menor do cena a cena do cotidiano dela e o simbolismo político da trama. Existe uma tensão curiosa entre a opacidade de algumas situações e tom direto de outras. O diretor Cássio Pereira dos Santos sobe o tom do nada muitas vezes e depois freia novamente. As cenas de cumplicidade com a mãe são muito boas. Existe uma opção de majoritariamente manter as forças opressoras no fora de cena e investir num tom afetuoso nos momentos ressaltados (salvo por uma sub trama e um par de personagens), o que ao mesmo tempo ameniza as situações e ajuda a criar o universo no qual o filme acredita.

Filme a filme foi uma boa Mostra. A ausência de nomes consagrados foi compensada por uma consistência na seleção e poucas grandes decepções. Como sempre na Mostra a ausência de curadoria, entendida aqui menos como acertar e errar nas escolhas individuais, mas de olhar sobre cinema mesmo é bastante sentida. A Mostra é dos poucos eventos que eu acompanho que me parece se beneficiar mesmo de textos individuais para cada filme porque é difícil encontrar um retrato amplo nos filmes exibidos. Esta sensação de amontoado foi reforçada por esta edição online que retirou até as poucas escolhas curatoriais forçadas pela necessidade de construir uma programação. O culto a figura do curador é um mal do mercado do circuitinho, mas a sua ausência é ainda pior. Esta incapacidade de tomar escolhas (o que esperar de um festival que terceiriza para o público sua competição?) é um problema histórico da mostra que encontrou no site do Mostra play talvez sua representação perfeita um site com cerca de 150 filmes que o espectador pouco sabe como se guiar (houve uma tentativa de criar um guia temático bastante burocrático) e que era visível nas reações dos cinéfilos com quem eu e amigos conversamos “não sei o que o ver” e algo que se reflete nos sucessos do festival terem se limitado aos filmes nas duas plataformas gratuitas e algumas apostas seguras como “a adaptação da Clarice”, “o vencedor do urso de Berlim” ou no cantinho dos cinéfilos radicais filmes de autores de predileção como Jia e Tsai. Esta edição online fez da Mostra mais Mostra do que nunca seja no que isto tem de bom (a recusa ao hype pelo hype como acontece no seu concorrente carioca, a fidelidade a alguns nomes, apostas em certas filmografias menos da moda e amplo espaço para jovens realizadores) e de ruim (esta ausência curatorial, um progressivo desinteresse no cinema de repertório ainda mais desse ano com a crise da Cinemateca, quase completa ausência de cinema experimental ou de cinema de gênero off- grande indústria). É preciso enfatizar o lado certamente positivo desses eventos online que são sua democratização e foi um prazer notar amigos de fora daqui especialmente de lugares com ausência de eventos do tipo tendo oportunidade de acompanhar a Mostra. Espero que uma versão menor seja mantida nas próximas edições. Como sempre na Mostra sobraram os filmes e estes foram bastante animadores.

Deixe um comentário

Arquivado em Filmes

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s