Mostra Internacional de São Paulo – Parte 3

Ordem Moral

Primeira Parte
Segunda Parte
Quarta Parte
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Terceira parte da cobertura da Mostra com os filmes vistos entre a quinta, 29 e o Domingo, 1.

Ana. Sem Título (Lucia Murat)
Lucia Murat vem trabalhando com variações deste material desde os tempos de Que Bom Te Ver Viva. Um esforço de encontrar uma perspectiva histórica para a esquerda latino-americana do século XX. Entre os filmes que ela realizou nessa chave este Ana. Sem Título me parece um dos mais fortes justamente porque se move muito bem entre a ficção e documento histórico de forma a fazer a usar arte para permitir esta história ecoar no presente. O filme consegue encontrar boas soluções para casar o seu trabalho investigativo e o desejo de dar conta tanto dos traumas como um legado de resistência.

Ao Entardecer (Sarunas Bartas)
No seu começo Ao Entardecer permanece próximo do sofrimento austero que o cineasta lituano sempre dominou muito bem. O vazio da vida lituana no imediato pós-segunda guerra oferece um peso histórico que ancora de forma mais direta um trabalho de investigação formal que Bartas vem de uma maneira ou outra explorando ao longo das últimas três décadas. Não faltam cenas de rostos perfeitamente iluminados de homens falando enquanto a atmosfera reforça o vazio que toma todos. Quando Ao Entardecer busca solucionar seu misto de drama familiar, formação e resistência de forma a coloca-la em movimento acaba com uma encenação robusta e física. O último ato está entre o que melhor Bartas filmou até hoje, com um peso para cada gesto e explosão de violência e uma sequência de ação que está entre as melhores do ano.

O Despertar de Fanny Lye (Thomas Clay)
Misto de conto de liberação com faroeste de horror. Uma fazenda controlada com mão de ferro pelo marido conservador recebe a visita de um casal “pagão” e dos inquisidores no seu encalço. Seco e violento com um gosto por carregar nos detalhes mais grotescos da vida do período ao mesmo tempo que sobrepõe todo uma serie de signos carregados de violência masculina com um arco de conscientização e liberdade da personagem título. O misto das imagens austeras com os elementos de gênero baratos funciona muito bem. O diretor Thomas Clay é bem consciente das tradições de filme de horror inglês e faz muito bom uso de folk horror (e múltiplos ecos de Witchfinder General) se repensados para um registro brutalista. Ótimo elenco também ajuda em particular Charles Dance como o marido cuja presença também traz a lembrança o muito interessante e pouco visto Undertow (1996) do Eric Red (e roteiro da Kathryn Bigelow) no qual tinha um personagem parecido apesar de aqui a comedia de demarcar território masculino é puxada a extremos ainda maiores.

Um Dia com Jerusa (Viviane Ferreira)
Duas gerações de mulheres negras brasileiras compartilhando as proximidades e distancias das histórias. Um filme de espelhos e reconhecimentos, muito mais simbólico do que dramático, mas conduzido com muita atenção e algum bom humor pela diretora Viviane Ferreira. O que garante a potência de Um Dia com Jerusa é a forma que o filme balanceia o caráter alegórico/memorialístico da ação com as atividades diárias do dia prometido pelo título, mantendo o filme amplo no seu escopo, mas ancorado na sua ação.  Além da Lea Garcia cuja presença de cena é um significado por si só e que tem muitas oportunidades de brilhar.

Gênero, Pan (Lav Diaz)
O quão repetitivo é Lav Diaz? É uma pergunta bastante recorrente entre autores contemporâneos, ainda mais nesse universo de festivais onde a assinatura é um valor de uso.  Certamente não se encontrara no cinema de Lav muitas variações de estilo (a parte o ocasional filme a cores ou exercícios como os diálogos cantados de Temporada do Diabo) e ainda menos de tema e situação, Lav Diaz é um cineasta com uma missão e esta é dar conta do fascismo nas Filipinas. Mas a questão certamente permanece. Talvez mais óbvia em Gênero, Pan pois se trata deliberadamente de um filme menor, seus 157 minutos os mais curtos de um longa de ficção de Diaz desde que se encontrou como artista com Batang West Side em 2002. A longa duração pode ser o fait divers que serve de gancho para ocasional texto mainstream sobre o seu cinema, mas é base que permita que ele exista: todos os filmes de Diaz são tratados simbólicos sobre fascismo e violência embutidos na história e psique filipina e as durações superiores a quatro horas servem como maneira de dar corpo a elas estende-las para além do campo da alegoria.  Gênero, Pan transforma uma caminhada na floresta no exercício simbólico para colocar essas forças em movimento, Diaz encena a regressão primaria e explosão de crueldade esperadas, mas elas existem num tom demonstrativo sem o frescor dramatúrgico de outros filmes. Vale mencionar que como o grande crítico filipino Noel Vera apontou é um incomum trabalho no qual nem Marcos nem Dutarte são mencionados, Gênero, Pan tem as feridas deixadas pelo fascismo, mas é no geral um filme radicalmente introspectivo. Se há algum respiro é na recorrência dos planos da estrada vazia aos quais sempre se retorno. Como preencher esses espaços? Há alguma esperança possível? Pode Lav Diaz permanecer fiel a si mesmo e responder a isso? Encontrar alguma saída?   

Irmã (Luciana Mazeto, Vinicius Lopes)
A proposta dos diretores Luciana Mazeto e Vinicius Lopes é a princípio bem arejada para o cinema brasileiro independente recente dada a sua aposta aberta na força ficcional para dar conta do estado emocional das suas protagonistas. A situação de apocalipse familiar (morte da mãe, um pai omisso, mas que deseja impor seu poder) encontra eco na ideia do fim do mundo. Nesses termos de filme adolescente Irmã extrai alguma força sobretudo quando os diretores se aproveitam da química entre as suas atrizes, mas o domínio de drama do filme é frágil e tornado pior pela falta de confiança na sua própria proposta com uma aposta em truques festivaleiros que diluem ainda mais a sua força.  

Jantar na America (Adam Rehmeier)
Faz tempo que não assistia um filme tão laboratório de Sundance quanto este aqui. Não é de todo mal, duas ótimas atuações centrais, alguns bons detalhes e nos momentos em que o humor funciona ele é mesmo bem engraçado, mas cabe tudo numa caixa bem estéril. O movimento do abrasivo até o doce em particular é um jogo de cartas marcadas bem desinteressante. Curioso como o filme, que é sobre um cantor punk anarquista, fale tanto de revolta, mas entregue tão pouco nesse sentido.

Mães de Verdade (Naomi Kawase)
Há uma diferença notável entre Mães de Verdade e a obra anterior de Naomi Kawase já que trata-se de uma adaptação de um best seller. Isto tanto reforça o que existe de muito especifico sobre o olhar da cineasta como distancia o filme pela forma como muitos mecanismos narrativos são distantes dela. Isto é tanto a limitação como o que Mães de Verdade tem de mais interessante, se por um lado existe trama demais ao longo dos 140 muito escritos minutos (algo reforçado pelas mudanças de perspectiva), tem algo em como o olhar bem essencial de Kawase trabalha contra isso. Ela é uma das cineastas mais diretas e sem subterfúgios do mundo e quando o melodrama familiar de Mães de Verdade funciona, ele desarma e conecta emocionalmente. Devo dizer que como fã me diverte muito que ela tenha encontrado uma forma de reforçar ainda mais o gosto por usar a natureza para pontuar os sentimentos num filme em que isso a princípio não cabe.  Mães de Verdade é um drama familiar próximo de Koreeda nas suas articulações e sentimentos (se nem tanto no foco na maternidade), provavelmente é o filme mais acessível dela e deve agradar bem nos nossos cinemas de arte se passar longe de conquistar novos fãs nos meios cinéfilos. Confesso sempre ficar confuso com a questão Kawase e agressividade com que as vezes é tratada, se é verdade que a promessa dos documentários e ficções do começo da carreira nunca se cumpriu, ela tem bem mais talento que seus detratores lhe dão credito e um olhar idiossincrático muito bem-vindo. Mães de Verdade é um filme bem intermediário na carreira dela, mas ninguém mais o faria e este ano cinematográfico é melhor porque ela o fez.

Notturno (Gianfranco Rosi)
Em Notturno, Gianfranco Rosi volta sua câmera para o drama do Oriente Médio. Dois dados saltam aos olhos: primeiro a abordagem de cinema direto, com uma montagem que organiza de forma inteligente o material, mas se recusa a oferecer qualquer contexto para as imagens para além do nosso conhecimento prévio sobre os conflitos e refugiados da região. A outra é uma opção por apagar as fronteiras e tentar imaginar a situação de uma forma ampla. Existe aqui uma ideia de que estamos diante de um desastre pós-colonial que pode ser traçado a divisões artificiais ao menos em parte decididas pelos interesses das antigas potencias europeias. Nisso cabe dizer que, para o bem e para o mal, a despeito de toda a empatia demonstrada por Rosi, Notturno seja um filme profundamente europeu cujo interesse pelo drama árabe é intimamente ligado ao que ele significa ao continente. A força do filme reside muito neste ato de chegar depois e lidar com as consequências dos abalos.

Ordem Moral (Mario Barroso)
O diretor Mario Barroso foi fotografo de muitos clássicos do cinema português, principalmente em filmes de João Cesar Monteiro e Manoel de Oliveira. Este seu segundo longa é de certo uma das melhores surpresas da Mostra. Ordem Moral traz consigo a precisão do drama português, aquele misto de atenção para o teatro das situações e despojamento da encenação. Um bom olho para canalhice dos a volta da personagem central, mas também para como as paixões e transparência dela ameaçam o tecido social a sua volta. E tem lá Maria de Medeiros numa das grandes atuações do ano.

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