Arquivo do mês: janeiro 2013

Algumas listas

holy_motors

Como sempre a edição de janeiro da Film Comment vem acompanhada de listas de melhores do ano de muita gente boa. Separei algumas:

Thom Andersen

Attenberg (Athina Raqchel Tsangari)
O Cavalo de Turim (Bela Tarr)
Era uma Vez na Anatolia (Nuri Bilge Ceylan)
The Forgotten Space (Allan Sekula e Noel Burch)
O Garoto da Bicicleta (Jean-Pierre e Luc Dardenne)
Gerard Richter Painting (Corinna Belz)
Isto Não é um Filme (Jafar Panahi)
Jean Gentil (Israel Cardenas e Laura Amelia Guzman)
Robinson in Ruins (Patrick Keiller)
Tabu (Miguel Gomes)

Anton Dolin

1)O Mestre (Paul Thomas Anderson)
2)Eternal Homecoming (Kira Muratova)
3)Holy Motors (Leos Carax)
4)Prometheus (Ridley Scott)
5)Gebo e a Sombra (Manoel de Oliveira)
6)Amor (Michael Haneke)
7) Paradise:Faith (Ulrich Seidl)
8)Skyfall (Sam Mendes)
9)Mud (Jeff Nichols)
10)O Segredo da Cabana (Drew Godard)

Marco Grosoli

1) Vous n’avez encore rien vu (Alain Resnais)
2)To the Wonder (Terrence Mallick)
3)Florentina Hubaldo, TCE (Lav Diaz)
4)Holy Motors
5)Eternal Homecoming
6)Cosmopolis (David ronenberg)
7)A Bela que Dorme (Marco Bellocchio)
8)The Millenium Rapture (Koji Wakamatsu)
9)Tabu
10)J Edgar (Clint Eastwood)

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Da valoração do exploitation

Mandingo1

Vou escrever sobre Django para a Cinética, mas é difícil ao ler boa parte do que se produziu sobre o filme (aqui, mas também lá fora) não notar como certa preguiça por vezes se apodera do discurso crítico, especialmente na forma como se adota certas lógicas fáceis que acompanham o marketing do filme. 90% do que se escreveu sobre o filme parece bater na tecla de que se trata de uma sátira/homenagem ao faroeste italiano a começar pelo filme homônimo do Sergio Corbucci. Não deixa de ser curioso notar que não houve nem de longe a mesma insistência em conectar o mais bem visto Bastardos Inglórios com o filme do Enzo Castellari que lhe emprestava o nome, por sinal o protagonista daquele filme Bo Svenson está em Bastardos tanto quando Franco Nero neste, mas sem receber um décimo da atenção. Django Livre tem certamente sua dose de faroeste italiano (especialmente na sua primeira metade), mas descrevê-lo como tal é uma considerável má representação do que o filme tenta ser. É pegar algumas referencias e elementos de superfície e trata-los como se representassem o filme como um todo. Assim como Kill Bill e A Prova de Morte, Django Livre tem uma estrutura dual e a segunda parte do filme só é um western na medida em que a maior parte dos filmes históricos passados nos interior dos EUA por volta de 1860 costuma ser classificada como tal. É muito mais próxima dos dramas exploit de escravidão dos anos 60/70 do que qualquer um dos Sérgios (a critica do Sérgio Alpendre para a Interlúdio, de longe o melhor texto publicado por aqui sobre o filme, ao menos menciona Mandingo do Fleischer), mas estes filmes não tem o mesmo valor dos faroestes (eles são por demais incômodos para receberem o tratamento crítico dispensado hoje em dia aos italianos) e boa parte do discurso crítico a respeito das referencias de Tarantino frequentemente se confunde com consumo. É muito mais fácil retomar aos filmes italianos e fazer de conta que Django Livre é algum mash up de faroeste spaghetti e blaxploitation, as referencias são óbvias e já mais ou menos canonizadas,  e torna também o filme muito mais fácil delidar seja a favor ou contra.

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Pina Bausch, Wenders, Akerman e o produto cultural

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NB: You often set bodies in states of pure survival, what they do when cold, when hungry, when threatened, where they get the resources to bear it physically. Your films often gauge the concrete strength of bodies.

 CA: Yes, but also the joy of expending energy; I love to dance, it’s like a drug, a liberation of all the bonds of pleasure – yes, as you say, definitely related to sexuality, but not only sexuality.

 NB: However, that’s not what your film on Pina Bausch is about.

 CA: No. At first, I had been dazzled, I only saw the beauty, the aestheticism. But in making a film on her, I understood that in fact she makes you take pleasure in her sadism through formal beauty. But she’s a great artist.

 NB: Isn’t the very principal of mise en scène intrinsically sadistic, to put bodies at your disposal and take pleasure in them?

 CA: No, it’s not the same thing because it goes through the image. On stage, we see the body in real life. And in the same moment. The cinema is both at the time now, the day when you’re watching the film, but also the moment when the film was made. No, it’s not the same thing at all. And moreover, for her, the actors fall down, throw themselves against the walls, for instance – but it’s through the form, her aestheticism, that we take pleasure in it.

 She talks with a soft, gentle voice. She’s a guru, nobody dares to say anything. For each show, she takes notes, she bandies words, the dancers give themselves over to improvisation. And she works up a montage, an assemblage of what interests her. She dominates completely, with a sweet voice that’s worse than a fistfight. In 1973, ‘Psychoanalysis and Politics’ with Antoinette Fouque – it boils down to the same thing. She would psychoanalyse you savagely and almost kill you. Many mistaken ideas held reign after May ’68; for example, there were many Jewish Maoists, I don’t know how it was possible, I never believed in any ideology. After Stalin and the camps, you know for sure that an ideology leads to the worst. Even if it seems beautiful and good and like just a theory.

Semana passada conversava com um amigo sobre o Pina do Wenders, filme que tanto eu como ele nutrimos pouca simpatia, quando ele me perguntou se eu conhecia o média que Chantal Akerman rodara sobre Pina Bausch. Fui atrás de ver o filme este fim de semana e Un jour Pina m’a Demandé faz um contraste muito forte com o elogiado filme do cineasta alemão. É algo que fica claro nesta longa passagem de uma entrevista sobre a carreira de Akerman que Nicole Brenez realizou com ela ano passado, especialmente quando Akerman aponta que a experiência de realizar um filme sobre Bausch transformou seu olhar sobre a obra dela, uma experiência que presume de principio que exista um olhar algo que o Pina de Wenders dispensa por  completo (Wenders a muito deixou de olhar imagens para somente consumi-las).  Un jour Pina m’a Demandé mostra coreografia de forma muito mais recortada, mas a nele uma atenção para o corpo e sobretudo para o esforço de cada membro da equipe de Bausch para realizar cada movimento pedido por ela que a torna muito mais expressiva. Uma atenção ao processo, uma admissão de que a beleza tem um custo, que nasce de algum lugar (na visão de Akerman, o sadismo de Bausch) que a torna muito mais que uma série de imagens bonitas para bom consumo da plateia do Reserva Cultural.  É a velha questão de ponto de vista: Akerman oferece um olhar, Wenders somente um produto cultural.

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Melhores de 2012 (25-1)

Primeiro um pequeno adendo: esqueci de incluir nas menções honrosas Lomge do Afeganistão, filme organizado pelo John Gianvito cujo todo é mais forte do que suas partes irregulares e que inclui um episódio (Fragments of Dissolution do Travis Wilkerson) que estaria fácil bem perto do topo da lista se eu incluisse curtas.

25) O Verão de Giacomo (Alessandro Comodin)
1225

O prazer com que Comodin filma este dia de verão e o sentimento de descoberta presente nele chegam a lembrar o Um Dia no Campo de Renoir e a ecos constantes tanto da segunda parte do Aquele querido Mês de Agosto, quanto do trabalho de alguns outros cineastas italianos recentes com gosto por se localizarem na fronteira entre ficção/documentário (Michelangelo Frammartino, Pietro Marcello). O que realmente torna o filme marcante porém é como a abordagem táctil imposta por Comodin consegue levar este aparente dia banal entre aquelas duas pessoas  e revelar dali todo um sentimento de história pregressa repartida entre aqueles duas figuras, que é algo que se revela ainda mais forte quando da mudança de garotas no último rolo (a única intromissão realmente radical de Comodin sobre seu filme) que reestabelece a ação como um todo como parte da história daquele rapaz.

24) Nuit Blanche (Frederic Jardin)
1224

Um dos filmes de ação mais excitantes da safra recente. Jardin parte da mais essenciais premissas (policial corrupta vai a uma boate devolver uma maleta com drogas) e encontra nela um sem  numero de novas possibilidades (geográficas, emocionais, narrativas) que vão se acumulando enquanto mais e mais portas de entrada se abrem.  A última meia hora é basicamente uma longa sequencia de ação sustentada que segue encontrada novas formas de elevar tensão.  Alguns momentos muito criativos de ação (a uma sequencia que não ficaria deslocada num filme de Jackie Chan dos fim dos anos 80) e um trabalho muito cuidadoso com câmera na mão (a fotografia é do Tom Stern, fotografo do Eastwood). Lançado por aqui erm DVD pela California sob o super genérico titulo Pura Adrenalina, mas é melhor que todo o catalogo para cinema que eles lançaram em cinema este ano. Por curiosidade o filme foi co-escrito pelo Nicolas Saada, um dos melhores críticos da Cahiers nos anos 80.

23) Outrage Beyond (Takeshi Kitano)
1223

Sustentando no espaço entre Brother  e os dois Eleição de Johnnie To, é o melhor filme de Kitano em alguns anos (e isto vindo de alguém que defende a maior parte dos filmes dele dos últimos dez anos). Se Outrage era um slasher com Yakuzas, Outrage Beyond muito rapidamente se revela uma comédia de maneiras de gangsters que ao mesmo tempo celebra o código que supostamente os rege e faz troça de todos os rituais e traições que os dominam. Se o filme anterior era um banho de sangue com a disposição de um Mario Bava, este é uma questão de um plano a mais, seja da câmera segurar por um segundo a mais sobre uma ação ou um contraplano perfeitamente executado.

22) In Another Country (Hong Sang-soo)
1222

Um tanto fácil na sua estrutura se comparado a outros filmes recentes de Hong, mas ainda assim carregado por uma série de achados de situações e locações que o aproximam muito de alguns dos filmes mais relaxados de Rohmer dos anos 80. E somente Hong poderia pegar Isabelle Huppert e despoja-la de todo os excessos de grande atriz, ela não esteve tão relaxada e bem num filme em anos.

21) The Great Cinema Party (Raya Martin)
1221

Um dos grandes filmes políticos do ano. Perfeitamente estruturado na maneira que consegue estabelecer um estado de violência histórica e depois procede em esvazia-lo e por fim preenchê-lo com seus amigos. É um filme construído sobre a presença da história das Filipinas, mas sobretudo dos amigos de Martin que relaxadas a jogar conversa fora servem como contraponto essencial a mesma. Fazer uma festa também pode ser um ato político.
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Melhores de 2012 (50-26)

Como nos últimos anos o critério da lista é a de filmes lançados nos últimos três anos vistos por mim pela primeira vez em 2012.

Menções honrosas: 21 Jump Street (Phil Lord e Chris Miller), Abendland (Nikolaus Geyrhalter), Abrir Puertas y Ventanas (Milagros Mumenthaler), Aprés Mai (Olivier Assayas), Argo (Ben Affleck), Boa Sorte, Meu Amor (Daniel Aragão), Buenas Noches España (Raya Martin), Djailoh (Ricardo Miranda), Dredd (Pete Travis), Eden (Bruno Safadi), Flying Swords of Dragon Gate (Tsui Hark), A Guerra Esta Declarada (Valerie Donzelli), Hotel Mekong (Apichatpong Weerasethakul), The Inkeepers (Ti West), J Edgar (Clint Eastwood), Killer Joe (William Friedkin), Margaret (Kenneth Lonergan), Mientras Duermes (Jaume Balagueró), Missão Impossivel 4 (Brad Bird), La Noche de Enfrente (Raul Ruiz), O que se move (Caetano Gotardo), Pa Negre (Augustin Villaronga), The Raid (Gareth Evans), White – The Melody of a Curse (Got Kim e Sun Kim), The Woman Knight of Mirror Lake (Herman Yau)

50) Ballet Aquatique (Raul Ruiz)
1250
O penúltimo filme de Ruiz não poderia ser mais simples construindo-se a partir de material alheio e alguns poucos elementos de cena e atores. É uma homenagem a Jean Painlevé, mas é sobretudo um filme de Ruiz que na sua simplicidade não deixa de ser uma declaração de princípios:  tudo no cinema permite um novo mergulho no imaginário. Ruiz é um maluco do qual sentiremos muita falta.

49) Lockout (James Mather e Stephen St. Leger)
1249

Entre os filmes desta lista Lockout deve ser de longe o menos ambicioso. Basicamente uma desculpa para os diretores estreantes Mather e Leger e o produtor Luc Besson reimaginar Fuga de Nova York numa estação espacial. Tudo aqui é perfeitamente genérico e dispensável, mas Lockout possui algo que uma bomba inflada como Skyfall jamais terá: uma compreensão total do seu material e dedicação a ele que evita trata-lo como mais ou menos do que é. Nenhuma tentativa envergonhada de se justificar ou tentar soar espertinho e irônico (para um filme que procura tanto se aproximar do cinema de ação dos anos 80, Lockout não demonstrar nenhum fetiche auto referencial).  Alem disso o filme se beneficia muito da presença de Guy Pearce (apesar de duas sessões do filme depois eu ainda não ter certeza se ele estava a se divertir horrores ou horrorizado que seu agente lhe colocou num filme como este).

48) Les Mains en l’air (Romain Goupil)
1248

Um filme sobre a política de imigração francesa do ponto de vista de um grupo de crianças que trata o olhar infantil com respeito e sem nenhuma condescendência ou exploração.  Les Mains em L’air faz um trabalho notável de combinar história nos rituais infantis (incomporavelmente melhor do que a maioria dos filmes sobre olhar infantil sobre história). Goupil é um ótimo diretor que merecia ser mais conhecido.

47) Vamps (Amy Heckerling)
1247

Bem longe da sátira sobre vampiros  que inevitavelmente será vendida/vista, mas uma muito pessoal e agradável comédia sobre passagem do tempo.  Tem uma série de ótimas ideias e sobretudo um olhar muito claro e forte sobre seu tema central. Alem disso os últimos dez minutos são consideravelmente mais envolventes do que uma comédia ligeira sobre vampiros lançada direta em vídeo deveria ser.

46) Sightseers (Ben Wheatley)
1246

Wheatley segue seu tour pelo ficção cinematográfica inglesa com sua contribuição para o mais inglês dos gêneros: a comedia de humor negro de serial killer. Se há algo terrível na Inglaterra de Sightseers é que o mal dela é um dado que o filme reconhece como existindo antes dele, só um fato a mais dentro da sua construção, com o qual simplesmente se deve conviver.  É um filme a principio muito mais ligeiro do que Kill List, mas que faz o mesmo movimento de naturalismo para um mal estar assustador.
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