Arquivo do mês: agosto 2012

Algumas observações sobre a lista da Sight & Sound

O Homem com a Camera, de Dziga Vertov

Semana passada como todo meio cinéfilo sabe foi divulgada a 7º lista de melhores filmes de todos os tempos da Sight & Sound. A atenção inevitavelmente acabou voltada para Um Corpo que Cai terminar a frente de Cidadão Kane pela primeira vez, mas acho mais atraente olhar para as margens dela. O que torna a lista da S&S, um objeto tão interessante é menos os filmes do que como a idéia de refazê-la de dez em dez anos permite um olhar sobre seu recorte. Em suma, inevitavelmente é menos uma lista sobre filmes do que sobre um cânone e entendo que discussão de cânones seja chata para alguns, mas não para mim.

O top 50 esta disponivel aqui para quem ainda não viu.

Algumas observações sobre a lista:

— O Homem com a Câmera como grande novidade do top 10 é simbólico por muitos motivos. Ao contrario de filmes que surgiram no top 10 em décadas passadas, o filme do Vertov não  contou com nenhuma restauração ou grande retrospectiva nos anos recentes para ajuda-lo, o máximo que se pode dizer é que o filme esta disponível numa excelente edição de DVD lá fora.É o primeiro filme de não-ficção no top 10 desde 52 e é também certamente o titulo mais experimental a entrar numa dessas listas. O Homem com a Câmera não só entrou no top 10 como o filme que ele tirou da lista foi o Encouraçado Potemkin. Vertov a frente de Eisenstein é uma quebra de cânone habitual muito inesperada e bastante simbólica se formas pensar mudança de paradigmas do que seria um cinema político hoje. Eisenstein por sinal não foi bem na lista como um todo, Ivan, o Terrivel caiu do top 50 para fora do top 100, o que me entristece bem mais do que Potemkin não estar no top 10.

— Nada, porem me entristece mais em toda lista do que a desvalorização de Charles Chaplin. Luzes da Cidade (em outros tempos uma inevitável presença no top 10) terminou num distante 50º e Tempos Modernos em 63º. Chaplin historicamente é o único diretor de comédias cujos filmes costumam figurar constantemente neste tipo  de lista, mas desta vez ele terminou inclusive recebendo menos votos que Buster Keaton (que teve A General em 34º e Sherlock Jr em 59º). Não é incomum encontrar artigos sobre os limites da história oficial que ao tocar em comédia menciona Chaplin como exceção no descaso com o gênero justamente pelos motivos extra humor (o sentimentalismo, o lado social, etc.), mas aparentemente nem estes bastam mais. Eliminado estes fatores faz certo sentido que Keaton, cujo estilo mais formalista e dinâmico certamente torna-o mais contemporâneo, colhera mais votos.

— Muito se reclamou – como sempre acontece após exercícios como esse – dá ausência de filmes  recentes, mas vale dizer que em 2002 entraram no top 50, 0 filmes da década de 90 e só 2 da de 80, contra os 2 dos 00 e 3 dos 90 desta vez. No top 100 como um todos apareceram 3 filmes dos anos 2000 (In The Mood For Love, Mullholand Dr, Yi Yi), 5 da década de 90 (Satantango, Close Up, Historie(s) Du Cinema, Beau Travail, A Brighter Summer Day) e 6 filmes da década de 80 (Shoah, Touro Indomável, Blade Runner, Sans Soleil, Veludo Azul, Fanny & Alexander). 14 filmes das últimas três décadas pode parecer pouco, mas é muito similar ao desempenho do cinema até 1939 (17 filmes). Pessoalmente, me preocuparia mais com M e A Atalante serem os únicos filmes da década de 30 não dirigidos por Renoir ou Chaplin ou com a lista contar com só 11 filmes asiáticos do que com a ausência de filmes recentes.

— Apesar de eu suspeitar muito da ideia de que vivemos uma era em que “tudo esta facilmente disponível” é verdade que esta é a primeira lista da S&S em que a combinação DVD/Blu-Ray + Internet tornou muitos filmes bem mais fáceis de acessar em boas copias; em 1992, por exemplo, seria muito difícil para A Cor da Romã aparecer numa lista dessas entre outras coisas porque era um filme difícil de sequer assistir.  Outro efeito provável da web é ajudar a permitir que certos guetos críticos refinem seus próprios cânones o que ajuda a explica o desempenho notável de Bela Tarr (não só Satantango em 35º, mas tanto Werckmeister Harmonies e O Cavalo de Turim entre os 10 mais votados dos anos 2000) ou Edward Yang ser o mais improvável diretor com dois filmes na lista.

— A lista como um todo diluiu muito mais seus votos do que nas edições anteriores, mas ainda sim se concentrou bastante na obra de alguns poucos diretores. Godard, Hitchcock e Bergman tiveram quatro filmes mencionados entre os 100, e Renoir, Welles, Dreyer, Tarkovsky, Coppola e Bresson tiveram três títulos cada um. Estes oito diretores terminaram responsáveis por 30% da lista.

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Veneza

È Stato il Figlio, de Daniele Cipri

Competição
OLIVIER ASSAYAS – APRÈS MAI (SOMETHING IN THE AIR) França, 122′
RAMIN BAHRANI – AT ANY PRICE EUA, 105′
MARCO BELLOCCHIO – BELLA ADDORMENTATA Italia, 115′
PETER BROSENS, JESSICA WOODWORTH – LA CINQUIÈME SAISON Belgica, Holanda, França, 93′
RAMA BURSHTEIN – LEMALE ET HA’CHALAL (FILL THE VOID) Israel, 90′
DANIELE CIPRÌ – È STATO IL FIGLIO Italia, França, 90′
FRANCESCA COMENCINI – UN GIORNO SPECIALE Italia, 89′
BRIAN DE PALMA – PASSION França, Alemanha, 94′
XAVIER GIANNOLI – SUPERSTAR França, Belgica, 112′
KI-DUK KIM – PIETA Coreia do Sul, 104′
TAKESHI KITANO – OUTRAGE BEYOND Japão, 110′
HARMONY KORINE – SPRING BREAKERS EUA, 92′
TERRENCE MALICK – TO THE WONDER EUA, 112′
BRILLANTE MENDOZA – SINAPUPUNAN (THY WOMB) Filipinas, 100′
VALERIA SARMIENTO – LINHAS DE WELLINGTON Portugal, França, 151′
ULRICH SEIDL – PARADIES: GLAUBE (PARADISE: FAITH) Austria, França, Alemanha, 113′
KIRILL SEREBRENNIKOV – IZMENA (BETRAYAL) Russia, 115′

The Milllennial Rapture, de Koji Wakmatsu

Orizonti
HAIFAA AL MANSOUR – WADJDA Arabia Saudita, Alemanha, 100′
CARLOS ARMELLA – LAS MANOS LIMPIAS Mexico, 11′
KIANOOSH AYARI – KHANÉH PEDARI (THE PATERNAL HOUSE) Iran, 100′
ALEXEY BALABANOV – JA TOZHE HOCHU (I ALSO WANT IT) Russia, 89′
MIN BHAM – BANSULLI (THE FLUTE) Nepal, 15′
FERNANDO CAMARGO, MATHEUS PARIZI – O AFINADOR Brasile, 15′
RENATE COSTA, SALLA SORRI – RESISTENTE Dinamarca, Paraguai, Finlandia, 20′
IVANO DE MATTEO – GLI EQUILIBRISTI Italia, Francia, 100′
LEONARDO DI COSTANZO – L’INTERVALLO Italia, Suiça, Alemanha, 90′
IBRAHIM EL BATOUT – EL SHEITA ELLI FAT (WINTER OF DISCONTENT)
Egito, 94′
FRÉDÉRIC FONTEYNE – TANGO LIBRE Belgica, França, Luxemburgo, 105′
ALESSIO GIANNONE – LA SALA Italia, 16′
IDAN HUBEL – MENATEK HA-MAIM (THE CUTOFF MAN) Israel, 76′
NICK KING – MARLA Australia, 15′
RUIJUN LI – GAOSU TAMEN, WO CHENG BAIHE QU LE (FLY WITH THE CRANE) China, 90′
TOBIAS LINDHOLM – KAPRINGEN (A HIJACKING) Dinamarca, 99′
JAZMIN LOPEZ – LEONES Argentina, França, Holanda, 80′
JAKE MAHAFFY – MIRACLE BOY EUA, 17′
BERTRAND MANDICO – LIVING STILL LIFE França, Belgica, Alemanha, 16′
SALVATORE MEREU – BELLAS MARIPOSAS Italia, 100′
CONSTANCE MEYER – FRANK-ÉTIENNE VERS LA BÉATITUDE França, 15′
ROBERTO MINERVINI – LOW TIDE EUA, Italia, Belgica, 92′
PAOLA MORABITO – I’M THE ONE Australia, 14′
CELIA RICO CLAVELLINO – LUISA NO ESTÁ EN CASA Espanha, 19′
BERNARD ROSE – BOXING DAY Inglaterra, EUA, 91′
DJAMILA SAHRAOUI – YEMA Algeria, França, 90′
CARLO SIRONI – CARGO Italia, 15′
MING-LIANG TSAI – DIAMOND SUTRA Taiwan, 20′
YESIM USTAOGLU – ARAF (ARAF – SOMEWHERE IN BETWEEN) Turquia, França, Alemanha, 124′
KOJI WAKAMATSU – SENNEN NO YURAKU (THE MILLENNIAL RAPTURE) Japão, 118′
BING WANG – SAN ZI MEI (THREE SISTERS) França, Hong Kong, 153′
MIN-YOUNG YOO – CHO-DE (INVITATION) Coreia do Sul, 16′
YORGOS ZOIS – TITLOI TELOUS (OUT OF FRAME) Grecia, 10′

Penance, de Kiyoshi Kurosawa

Fora de Competição
JEAN-PIERRE AMERIS – L’HOMME QUI RIT França, Republica Checa, 95′
LYUBOV ARKUS – ANTON TUT RYADOM (ANTON’S RIGHT HERE) Russia, 110′
SUSANNE BIER – DEN SKALDEDE FRISØR (LOVE IS ALL YOU NEED) Dinamarca, Servia, 112′
PASCAL BONITZER – CHERCHEZ HORTENSE França, 110′
HINDE BOUJEMAA – YA MAN AACH (IT WAS BETTER TOMORROW) Tunisia, 74′
SIMON BROOK – THE TIGHTROPE França, Italia, 83′
LILIANA CAVANI – CLARISSE Italia, 21′
JONATHAN DEMME – ENZO AVITABILE MUSIC LIFE Italia, EUA, 80′
STEPHEN FUNG – TAI CHI 0 China, 100′
SILVIA GIRALUCCI, LUCA RICCIARDI – SFIORANDO IL MURO Italia, 51′
AMOS GITAI – CARMEL (2009) Israel, França, Italia, 93′
AMOS GITAI – LULLABY TO MY FATHER Israel, França, Suiça, 90′
DANIELE INCALCATERRA, FAUSTA QUATTRINI – EL IMPENETRABLE Argentina, França, 95′
KIYOSHI KUROSAWA – SHOKUZAI (PENANCE) Japão, 270′
SPIKE LEE – BAD 25 EUA, 123′
CARLO MAZZACURATI – MEDICI CON L’AFRICA Italia, 80′
MIRA NAIR – THE RELUCTANT FUNDAMENTALIST India, Paquistão, EUA, 128′
MANOEL DE OLIVEIRA – O GEBO E A SOMBRA Portugal, França, 95′
ABDALLAH OMEISH – WITNESS: LIBYA EUA, 57′
ROBERT REDFORD – THE COMPANY YOU KEEP EUA, 125′
KIMBLE RENDALL – SHARK (BAIT 3D) Australia, Cingapura, 93′
HENRY-ALEX RUBIN – DISCONNECT EUA, 115′
DANIELE VICARI – LA NAVE DOLCE Italia, Albania, 90′
ARIEL VROMEN – THE ICEMAN EUA, 98′

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