Não vou repetir o longo ensaio com que eu abri a lista do ano passado, mas as observações gerais dele ainda valem, temo que sobretudo as mais negativas. O comercio do cinema segue a todo o vapor em 2024 (e com ele esta sensação de uma distancia cada vez maior do cinema para com o mundo) e ser critico de cinema ou por sinal simplesmente um cinéfilo mais ativo meio que torna inevitável esta interrogação constante. Até que ponto o seu olhar esta só capturado e servindo a ele, trata-se de uma indagação/crise constante. E exercícios como esta lista são ao mesmo tempo um esforço lúdico pessoal e algo que nunca vai se separar por completo dela. De certa lidar com o cinema hoje é este esforço constante de se lembrar que a sua cinefilia não são as suas redes sociais, que a história do cinema não é a Criterion Collection, que o dito cinema de autor não esta lá para servir os Fremauxs e as MUBIs. Todas essas coisas são mediações difíceis de evitar dela, mas se relacionar com o cinema vai sempre além disso. Gosto de listas em parte porque gosto do processo de elabora-las e porque compartilhar filmes sempre me é um prazer.
Os critérios dessa são os mesmos de sempre, filmes que vi ao longo de 2024, com mais de 45 minutos e que foram exibidos pela primeira vez nos últimos três anos. Como sempre gosto de reforçar a ordem é bastante aleatória sobretudo quando mais bo fundo dela os filmes se encontram, sei que gostei do 21º mais do quedo 45º e este mais que 80º, mas não sei se mesmo hoje prefiro eles aos filmes que estão logo antes ou depois. Queria aproveitar também para mencionar Realismo Socialista que Raul Ruiz filmou em 1973 e Valeria Sarmiento finalizou ano passado. Nunca sei como incluir estes filmes suspensos no tempo ainda mais este que foi originalmente interrompido pelo golpe do Pinochet.
Meus filmes de menos de 45 minutos vistos em 2024 favoritos foram Bouquets 31-40 (Rose Lowder) e Film annonce du film qui n’existera jamais: Drôles de guerres (Jean-Luc Godard); Também gostei bastante de Trabalgo de Amor Perdido (Vinicius Romero), Où sont tous mes amants? (Jean Claude-Rousseau), I Thought the World of You (Kurt Walker), Duna Atacama (Romero) e Songy Seans (Darezhan Omirbayev).
100) Tempo Suspenso/Hors du Temps (Olivier Assayas) e The Volunteers: To the War (Chen Kaige)
Estou começando com um empate, e talvez eu devesse colocar algo como Black Dog (Guan Hu) nesse lugar. Nem sei se Tempo Suspenso se qualifica como um bom filme; o fato de ser uma espécie de não-filme é parte do motivo pelo qual ele está aqui. O que eu sei é que gostei de assisti-los e talvez tenha gostado ainda mais de pensar sobre eles. São trabalhos de cineastas que já foram celebrados, mas quase ninguém gosta de Tempo Suspenso e suspeito que apenas pessoas muito interessadas no cinema chinês mainstream saibam que To The War existe (a propósito, é o primeiro de uma trilogia). Desconfio que o que eles têm a dizer só irritaria as pessoas, pois Tempo Suspenso é puro olhar para o umbigo de um homem muito bem-sucedido que às vezes parece mais e às vezes menos em paz com sua própria posição. Será que a a gentilidade do cinema francês sobre como a grande casa da família significa algo se torna algo melhor com alguns acenos metalinguistiscos? To The War é um kitsch nacionalista, pura patriotada sobre se sacrificar pela China, chama-se “Para a Guerra” e não faz nada para questionar isso. Também é muito expressivo quando está nas trincheiras com os soldados. Gosto de Tempo Suspenso porque Assayas se olha no espelho, vê que se tornou o cinema du papa e dá de ombros, meio perturbado, meio derrotado. Gosto de To The War porque Chen Kaige sempre foi um cineasta decorativo capaz de encontrar uma imagem, e as que estão nesse filme não são muito piores do que em Adeus, Minha Concubina; elas estão apenas fora do gosto dos programadores e críticos que gostavam dele há três décadas. Esses são filmes de cinema de autor perto do fim e, como tenho alguma relação não apenas com os artistas, mas com o seu entorno, considero esses últimos ritos de algum interesse genuíno.
97) Cidade; Campo (Juliana Rojas) e Levante (Lillah Halla)
Dois longas de cineastas brasileiras, uma mais estabelecida (Rojas) e a outra começando (Halla) , ambos sobre mulheres se movendo por espaços e situações onde a violência esta sempre próxima. São filmes um pouco mais formatados do que eu preferiria, mas tem bastante força quando olham para as protagonistas e são melhores quando se aproximam do sobrenatural que paira sobre eles mais do que quando se entregam ao naturalismo.
96) One Second Ahead, One Second Behind (Nobuhiro Yamashita)
Nobuhiro Yamashita é um favorito meu, e nesse filme ele está trabalhando como um contratado da indústria cinematográfica japonesa e refilmando um romance taiwanês desses comuma sacada chamativa. Jovens vivendo suas vidas enquanto uma construção artificial similar a de um filme os afeta é bem o toque de Yamashita. O conceito principal de tempo me fez pensar em minha própria relação com os filmes de Yamashita, pois como no ocidente não se importam o suficiente com ele para programar ou lançar seus filmes, estou sempre dependendo dos grandes heróis da cinefilia atual (legendadores amadores) e, portanto, estou sempre atrasado em relação a ele (tem pelo menos dois filmes depois deste).
95) Bursting Point (Dante Lam, Tong Wai-Hon)
Dante Lam voltou a Hong Kong depois de muitos anos na China fazendo filmes grandiloquentes (um dos quais co-dirigido por Chen Kaige) e é um retorno consciente ao tipo de filme que ele começou com um pouco do peso dos seus filmes chinês. Num ano fraco para filme de Hong Kong é um bom ver um belho mestre no território familiar.
94) Terminal Young (Lucía Seles)
A cineasta argentina Lucia Seles encontrou um lugar bem particular para ela. Este novo filme é uma extensão natural dos 3 filmes de 2022 que eu inclui ano passado. Gostamos dos nossos artistas avançando sem mudar muita coisa, Seles parece preferir ignorar isso. O que conta é o prazer e precisão da sua construção e eles tem uma graça a parte da maioria dos filmes no seu entorno.
93) Abiding Nowhere (Tsai Ming-liang)
Por falar em confiar no que você faz, Tsai Ming-liang e Lee Kang-sheng continuarão fazendo filmes sobre um monge que se move muito lentamente e eu continuarei achando fácil entrar no ritmo deles.
92) Carnage for Christmas (Alice Maio Mackay)
Apesar do título, esse slasher de Natal é menos sangrento do que tem como objetivo proporcionar às adolescentes trans um bom filme de terror para assistirem em turma e é muito divertido. Mackay é muito boa em combinar um conceito maior com os prazeres do gênero e o estilo mais bruto de baixo orçamento.
91) Black Storm (Qin Pengfei)
Rápido, barato e completamente dedicado ao que coreógrafos e dublês chineses são capazes de extrair de um exercício masoquista de ação continua.
90) Coringa: Delírio a Dois/ Joker: Folie à Deux (Todd Phillips)
É mais um triunfo conceitual cujos grandes movimentos superam sua execução, mas um objeto estranho de grande orçamento fracassado tão fascinante quanto Megalopolis. E como uma representação de se mover em um torpor depressivo enquanto se dissocia ficcionalmente, pode ser surpreendentemente tocante.
89) Ricky Stanicky (Peter Farrelly)
Enquanto as pessoas assistiam a Christopher Nolan ganhar 100 Oscars, eu assistia a Peter Farrelly fazendo um filme de Peter Farrelly pela primeira vez em muito tempo, e fiquei feliz por essa escolha. Valeria a pena pela atuação engraçadíssima de John Cena, mas esse filme tem um equilíbrio entre o humor e o sentimento patético de caras que têm muito medo de passar vergonha por não serem exatamente quem eles querem projetar, algo que os Farrelly sempre fizeram muito bem.
87) Horizon: Uma Saga Americana – Capítulo 1/Horizon: An American Saga – Chapter 1 (Kevin Costner) e Na Terra de Santos e Pecadores/In the Land of Saints and Sinners (Robert Lorenz)
Dois westerns sobre como seus respectivos países (EUA e Irlanda) são presos a seus ciclos de violência. Ambos combinando um temperamento classicista com uma superfície para bem e para o mal bastante contemporânea. O filme de Costner é grandiloquente demais, mas tem momentos maravilhosos no qual só se instala na vida de colonos e uma coleção de rostos marcantes. Lorenz, que durante muito tempo foi braço direito de Clint Eastwood não nega a influência e tira dela alguns belos momentos e faz ótimo uso do seu elenco de ótimos atores irlandeses.
86) Paixão Sinistra (João Pedro Faro)
A juventude perdida do Rio sonha musicalmente com um passado de cinema brasileiro que ela não tem como voltar.
85) O Reino Animal/Le Règne animal (Thomas Cailley)
Eu prefiro o primeiro filme do Cailley Amor a Primeira Briga (que tem essencialmente o mesmo principio de maturação e abertura para o mundo através de uma atração) porque no geral prefiro um bom ator (naquele caso, Adele Haenel) a uma metáfora, mas este filme usa tecnologia e a mata que lhe serve de locação muitíssimo bem.
83) Life After Fighting (Bren Foster) e One More Shot (James Nunn)
Os dois melhores filmes de ação em DTV em inglês do ano. Como o anterior One Shot, de Nunn e Adkins, One More Shot é um filme de um falso plano unico que faz muitas escolhas criativas dentro de seu conceito e de sua locação única, porque se trata mais de encontrar maneiras de se movimentar em um espaço contínuo do que de vender o truque. Para ser sincero, todas as cenas dramáticas de Life After Fighting, um veículo para seu impressionante astro/diretor Bren Foster, não são nada boas, mas, felizmente, elas se tornam mais raras à medida que o filme vai se apossando de suas impressionantes habilidades de luta. Como uma forma de narcisismo por meio de punição e expressão de raiva reprimida, a segunda metade é muito expressiva. Os dois filmes formariam uma curiosa dupla de fantasias paranóicas da direita atual, mas são, sobretudo, um tributo à inteligente encenação de baixo orçamento.
82) Orlando, minha biografia politica/Orlando, ma biographie politique (Paul B. Preciado)
Preciado é um intelectual publico se aventurando no cinema, neste caso com um filme ensaio que aproxima o livro de Virginia Wolff de vivencia trans contemporânea, e o que me parece notável aqui é como ele compreende que sua articulação só tem como encontrar força na potência dos vários rostos que ele convida para colaborar e misturar suas vidas com o filme.
81) Dahomey (Mati Diop)
Independentemente do que se faça, continua sendo difícil se desvencilhar do peso colonial. Perspicaz e muitas vezes muito expressivo. Falando sobre como o status quo do cinema atual tem uma relação distante e excessivamente conceitual com o mundo, vi o filme de Diop, um vigoroso ensaio anticolonial que venceu o Festival de Berlim deste ano, em uma sessão dupla com o superestimado Grand Tour de Miguel Gomes, uma fantasmagoria colonial com distanciamento irônico, em um evento promovido por sua distribuidora mútua Mubi, e é isso que os filmes muitas vezes se tornam agora: sabores diferentes a serem preenchidos sob uma capa de fácil venda. Isso não diminui a realização de Diop, a seriedade e o foco de seu filme ficam mais claros ao lado de Gomes.
80) Megalopolis (Francis Ford Coppola)
Megalópolis é bom ou apenas extremamente fascinante? É um filme impossível de separar de seu contexto, seja ele a favor ou contra. Um grande acontecimento artístico. Como um filme de ideias, é bem ruim, mas como uma expressão de como Coppola pode continuar nos distraindo disso com vários fogos de artifício, mostra que ele ainda tem muitas de suas habilidades hollywoodianas, mesmo em um movimento lateral como esse. Coppola sempre foi um hollywoodiano que sonhava em ser seu próprio Irving Thalberg, e ele pode brincar com isso aqui por um alto custo. É um tributo à expressão artística em um mundo esgotado e tecnocarata, mas com qual finalidade? Eu estava conversando com um amigo na semana passada e ele me disse que nunca tinha visto um filme tão desprovido de tensão em sua realização, o que achei uma boa maneira de descrever a experiência. O que podemos fazer com um artista que pode comprar tudo?
79) Nuit Obscure – Au Revoir Ici, N’Importe Où (Sylvain George)
Existências resilientes as margens da ruina do projeto colonial europeu.
78) O Caso Goldman/Le Procès Goldman (Cédric Kahn)
O processo cinematográfico e o judicial estão atrelados em uma liturgia de identidade, política e como estes são performados, percebidos e consumidos.
77) A Morte Virá/La Mort viendra (Christoph Hochhäusler)
Um bom thriller de capitalismo tardio, algo como Boarding Gate, de Assayas, só que com melhores cenas de ação.
76) Esta Minha Vida/Ma vie ma gueule (Sophie Fillières)
Um filme tocante se irregular inseparável de que Fillieres faleceu dias após completar as filmagens. A abertura e exposição das fragilidades emocionais acabam assombrados.
75) Aquela Sensação que o Tempo de Fazer Algo Passou/The Feeling That the Time for Doing Something Has Passed (Joanna Arnow)
Não sou contra esta presença anual de um indie americano influenciado por Hong Sang-soo nessa lista entre outras coisas porque é uma tensão ficcional que leva o naturalismo deles para um lugar muito mais interessante.
74) É Apenas um Adeus/Ce n’est qu’un au revoir (Guillaume Brac)
Brac encontrando a ficção e um mundo, ou seja, o cinema, na vida cotidiana e nas aspirações de alguns adolescentes franceses reais.
73) A Invenção do Outro (Bruno Jorge)
Um filme de encontro, mas sobretudo um filme em que o peso da câmera, do lugar do cinema nessas relações é revelado com muita força.
72) The Order (Justin Kurzel)
Um duelo de machões entre um policial e um neonazista, cujas fortes e diferentes relações ideológicas com a idéia de ordem estão lá para justificar suas auto-imagens. Um filme que se dedica a muitas ideias antigas de artesanato cinematográfico e de expressão pessoal, mas Kurzel, cujo gosto pelo realismo nunca me impressionou, encontra no trabalho de Jude Law e Nicholas Hault uma expressão ideal. Duas atuações notáveis que fazem o filme.
70) El juicio (Ulises de la Orden) e Mário (Billy Woodberry)
Dois documentários políticos de imagens de arquivo. Um de afirmação da democracia argentina pelas imagens do julgamento da junta militar, outro de crise sobre as limitações e concessões do projeto anticolonial do sul global pela trajetória do intelectual marxista angolano Mario de Andrade. Ambos são filmes de hoje, ensaios potentes sobre os ecos do século XX que chegam até nós.
69) Pavements (Alex Ross Perry)
O que nos diz que este ensaio sobre como qualquer arte por mais que intencionalmente dissonante termina sendo embalada pelo capital, sobretudo nas formas em que esta dissonância é celebrada? Tem uma cena maravilhosa da abertura de uma exposição sobre a banda e todas essas artistas oferecendo versões de musivas deles e em algum momento fica óbvio que alguém decidiu convidar somente mulheres e fica impossível separar o cinismo curatorial de que eu genuinamente aprecio ouvir uma cover deles da Soccer Mommy? E voltamos para o loop eterno. Perry faz um filme sobre Pavement, outra pessoa poderia fazer um filme sobre, digamos, John Waters igual, tirando claro que Pavements sabe que é um souvenir que só interessa quem como eu tem uma relação com eles.
68) Todos Menos Você/Anyone But You (Will Gluck)
Um confeito pop muito bom, feito por pessoas que entendem que o principal nesse tipo de filme é criar uma atmosfera agradável e positiva tanto para os atores quanto para o público se instalar. Assisto a muitas comédias românticas atuais, a maioria delas não é nada boa e quase todas têm uma ansiedade de gênero tardio, tentando desesperadamente justificar por que os cineastas ainda estão voltando à velha fonte. Essa também faz isso ao exagerar nos ecos de Muito Barulho por Nada, mas percebe que a principal justificativa é colocar um grande número de piadas de fato em torno das estrelas atraentes.
67) Malaikottai Vaaliban (Lijo Jose Pellissery)
Formação de mitos excelente, tão sensual e envolvente. Outro exemplo de cinema populista muito bem sucedido. Por que perder tempo com uma bobagem tardia e prolixa de Ridley Scott quando um filme como Malaikottai Vaaliban está logo ali?
66) Caixa Preta (Bernardo Oliveira, Saskia)
Um musical radical no movimento do som ao concreto escrito na forma do filme da maneira mais abrasiva possível.
65) Boa Menina/Good One (India Donaldson)
Um filme de lugar, de observação de como três corpos se transformam enquanto cortam ele, como a consciência de uma relação com o mundo vai se transmutando aos poucos. Lembra algo da Kelly Reichardt, as vezes um pouco reiterativo, mas bem o River of Grass também tinha as suas limitações e esta é uma estreia muito talentosa sobretudo no ambiente e atuações. A diretora India Donaldson é filha do Roger Donaldson, e é fácil pensar este filme como uma espécie de dialogo com o melhor filme dele Smash Palace, ambos são filmes sobre filhas que vão para o mato em companhia do pai divorciado e ressentido com ênfase em como as locações refletem os estados de espirito das personagens que dominam o seu olhar, aquele era uma expressão de fúria masculina, este sobre ter que lidar com ela.
64) Raayan (Dhanush)
Exercício narcisista delirante do astro indiano Dhanush.
63) Look Back (Kiyotaka Oshiyama)
Sobre criar e dividir isso com que importa, mas também um belíssimo sobresseu próprio processo e todaa força de imagens que Oshiyama consegue extrair da obra original.
62) O Quarto do Lado/La habitación de al lado (Pedro Almodóvar)
Como todo o Almodovar tardio ele é muito consciente da sua posição como cinema de grife, mas é um filme que emcontra no seu deslocamento forças para interromper o estipor. É sobre como Julianne Moore é uma das melhores atrizes do mundo e sobre encontra o espaço ideal para permitir o melodrama ressoar.
61) El auge del humano 3 (Eduardo Williams)
Uma presença constante de mundo que a imagem digital esta sempre prestes a dissolver. O que o cinema como arte que esta constantemente engajada nesta presença consegue diante desse estar no mundo de concretude incerta.
60) Fogo do Vento (Marta Mateus)
Um filme straubiano-huilletiano muito estudado, alguns diriam que algo acadêmico, mas a melhor versão possível de certo formalismo contemporâneo. O que ficou comigo foi sobretudo o verde e marrom das suas locações naturais.
59) Roma em Chamas/Adagio (Stefano Sollima)
Assim como The Order, este é um retorno a um antigo cinema local masculino, um policial duro lá, um melodrama de homens sobre laços trágicos e violentos aqui. É pesado, portentoso e muito muito sério, mas todas as emoções são tratadas de maneira frontal e permitidas a se expandir e assumir o controle da própria Roma. Chame-o de tolo ou ultrapassado, mas é feito com muita habilidade por Sollima para não ser registrado com força.
58) The Bodyguard (Qin Pengfei)
Qin Pengfei é um homem muito ocupado, 4 filmes este ano (os três que eu vi bem bons), já que os streaming chineses sempre precisam muito de filmes de ação ligeiros e elefazeles muito bem. Este é o melhor dos que eu vi provavelmente porque menos masoquista, mas preocupado em encontrar soluções par continuar se movendo e parando só o suficiente para permitir aos dubles algumas cenas de impacto. Há poucos filmes atuais tão pouco elevados quanto os de Qin Pengfei, o que você retira deles é só o prazer da sua realização.
57) Le chemin du serpent (Kiyoshi Kurosawa)
Uma variação de uma variação. O ano muito ocupado de Kurosawa foi muitas vezes marcado por olhar para trás. Esse remake francês de uma do seu duo de thrillers de rapto de baixo orçamento de 1998, uma expansão de coprodução internacional de um pequeno filme voltado para o mercado de vídeo local, tem muitos pequenos prazeres, mas também é muito sobre a distância que a carreira de seu cineasta percorreu enquanto permaneceu ele mesmo desde então.
56) A Fidai Film (Kamal Aljafari)
Filme de arquivo feito a partir de material recuperado de um centro de imagens palestinas do Libano que havia sido levado pelo exercio israelense em 1982. Um resgate, mas sobretudo uma investigação sobre a materialidade da imagem do cinema e como intervir nela para ressaltar seu peso politico.
55) A Garota Adamante/Kottukkaali (P. S. Vinothraj)
Um filme de movimento constante e de muitas violências matizadas que se negocia silenciosamente, mas que se acumulam de forma inevitável. Muitissimo bem controlado por Vinothraj.
54) Conann (Bertrand Mandico)
Um carnaval de imagens queer sobre uma identidade que se multiplica numa paisagem violenta, um mundo de ficção barbara que ainda assim pode ser constantemente adaptado pelo olhar de Mandico.
53) A Prática/La práctica (Martín Rejtman)
Um cotidiano áspero e frustrante lentamente tomado pelo encanto da ficção cinematográfica. É preciso admirar como Rejtman repete a piada de um cara que cai em um buraco de repente e a torna mais engraçada.
52) Last Things (Deborah Stratman)
O tempo se move, a geologia permanece. A materialidade do cinema encontra uma dimensão cósmica.
51) The People’s Joker (Vera Drew)
É um prazer observar alguém pegar todo o entulho de imaginário de filmes de super herói dos últimos anos e tirar dali algo artesanal e muito pessoal, sempre bastante inventivo enquanto negocia as suas superfícies artificiais e dores muito verdadeiras. Faria um velasessão dupla com Batguano do Tavinho Teixeira.
50) A Prisioneira de Bordeaux/La prisonnière de Bordeaux (Patricia Mazuy)
É ótimo ver que a talentosa Mazuy vem obtendo financiamentos com mais regularidade nos últimos anos; nesse filme, ela volta a trabalhar com Isabelle Huppert, então espero que mais pessoas o notem. É um quase thriller social (mais de um amigo apontou que Mazuy parece estar deliberadamente ecoando Mulheres Diabolicas, de Chabrol), mas o que se destaca é o cuidado com que ela aborda as autoilusões de Huppert. Huppert e Hafsia Herzi também estrelaram este ano um filme político da Techine, construído em torno de sua improvável amizade, e aquele foi tão medíocre quanto este é vibrante. Isso nos lembra que ter o cuidado de fazer os detalhes contarem é tão importante quanto ter boas intenções.
49) Dear Kaita Ablaze (Hisayasu Satô)
O espectador ocidental que conhece os filmes do Hisayasu Satô o associa a uma descrição muito desagradável das mais variadas formas de obsessão e violência sexual com ênfase grande no lugar do cinema e seus espectadores nele. Satô faz filmes sujos de uma maneira muito literal. Os personagens de Dear Kaita Ablaze não tomados pelo desejo, mas com o impacto da obra de um pintor do período Taisho chamado Keita Murayama, mas as imagens violentas, a superfície grosseira e incomoda, este duelo constante entre uma dimensão física e a imagem que a capta seguem muito reconhecíveis.
48) Gigi la legge (Alessandro Comodin)
Uma obra a Kiarostami sobre mover-se enquanto se desempenha o papel de homem da lei e das ficções que o cinema pode localizar nisso. A força do filme reside na forma como consegue permitir que o significado chegue sem tentar moldar a personagem e as suas ações.
47) No Other Land (Yuval Abraham, Basel Adra, Hamdan Ballal, Rachel Szor)
A terra, como se conecta com ela e as violências que se faz por ela. Imagens de poder, sobre como se abusa dele. Um cinema em primeira pessoa cuja proximidade do relato de violência nunca oferece distância. No qual a única informação é o peso dessa experiencia de se viver numa terra ocupada.
46) Incompatível com a Vida (Eliza Capai)
Outro filme politico calcado na experiência em primeira pessoa. No caso da diretora com uma gravidez de um feto sem chances de sobreviver que ela foi forçada pela lei brasileira a levar a cabo. Capai filme a própria experiencia e conversa com casais que passaram pela mesma situação. Tem algo muito forte ali em como cada um se apresenta diante da câmera e das próprias imagens que Capai, sobre o poder e a ausência dele, sobre o corpo da mulher e as formas como ele é negado pela sociedade.
45) Heard She Got Murdered (Charles Roxburgh)
Gosto muito desses filmes que Roxburgh e Matt Farley fazem em sua produtora Mottern Media pela liberdade que eles frequentemente sugerem e por serem ao mesmo celebrações dessa criação conjunta e conscientes dos diversos processos de poder entorno deles. Esta é uma das duas sequencias que eles fizeram recentemente que retornam a cena de crime de forma muito mordaz. A arte não consegue escapar da violência, quase o seu contrario, um musical de assassinato.
44) All You Need Is Death (Paul Duane)
Na corrida por um horror relevante, o gênero perdeu contato com as imagens que esse filme irlandês pode gerar, sórdidas e tomadas por algo maligno, um mal-estar geral que é apresentado em momentos penosos, mas muito claros.
43) Malu (Pedro Freire)
Pedro Freire fez este filme inspirado na sua mãe a atriz Malu Rocha, é um filme bonito mas bem duro, um retorno a uma certa ficção histérica que o cinema brasileiro sempre fez bem, sentimentos exacerbados pintado por imagens cotidianas mas excessivas, e quase desapareceu nas últimas décadas no qual realismo e contenção foram muito valorizados. Malu está mais preocupado de chegar no cerne daquela a relação de três gerações do que com soar de bom gosto, ainda bem. E as três atrizes, Juliana Carneiro da Cunha como a avó, Carol Castro como a filha e sobretudo Yara de Novaes como a mãe, são formidáveis.
42) La Passagère (Héloïse Pelloquet)
Uma dança de sedução sobre o poder, um romance muito consciente de cada decisão tem peso e consequências e que elas não são aas mesmas para cada uma das três partes envolvidas. Filme observado e modulado com muito cuidado.
41) Vaazhai (Mari Selvaraj)
Uma memória de infância que se torna devastadora ao ser apresentada como um grande espetáculo cinematográfico. Sobre classe, trabalho, os prazeres de sair das estruturas de poder e o lembrete constante de que sempre haverá um limite para isso. Selvaraj é muito bom em combinar a perspectiva de seu jovem representante com o temor constante que paira as margens do quadro.
40) Stress Positions (Theda Hammel)
Uma roda de desejo queer como comedia screwball, que se torna mais engraçada e desesperada porque todos os personagens ficaram mais excitados e neuróticos por estarem presos em quarentena. É muito bem ancorado em seu ambiente, tão engraçado e alicerçado em seus personagens. Entre os poucos bons filmes sobre pandemia, esse é o que tem a menor escala humana enquanto multiplica as perspectivas, o que facilita a identificação.
39) Aqui/Here (Robert Zemeckis)
Um relato meio sentimental, meio amargo, de como a ideologia oficial americana só pode ser aceitável sob uma série de autoilusões. Sua força vem do fato de reconhecer e permanecer inseparável dela, já que o próprio Zemeckis é incapaz de encontrar qualquer distância. É um filme repleto de grandes conceitos (o cenário/enquadramento único, o uso de seus protagonistas de Forest Gump, as imagens de plástico feias sob uma pesada maquiagem CGI) que o determinam demais, mas seu fracasso e sua tristeza são muito expressivos. A forma como o que acontece dentro do quadro permanecer sempre um conceito digital esboçado da experiência vivida, uma imitação da vida literal apresentada como um panorama histórico, permanece fascinante.
38) E a festa continua/Et la fête continue! (Robert Guédiguian)
Robert Guédiguian é um artista resistente a mais de 40 anos a filmar as mesmas coisas que lhe importam: sua cidade de Marselha, sua esposa Ariane Ascaride, seus amigos e uma política baseada numa generosidade para com a comunidade. E a festa continua combina uma serie de observações sobre a passagem do tempo e de gerações com um episódio da política local, não é um filme urgente ou calcado no seu momento, mas ele é muito honesto para como Guédiguian se sente a respeito dele. Por isso mesmo ele nunca perde o viço.
37) Eephus (Carson Lund)
Tentando manter as luzes acesas em um mundo que desaparece. Melancolia engraçada sobre uma vida americana com a qual seus filmes independentes precisam sonhar.
36) Kubi (Takeshi Kitano)
Uma das coisas notáveis sobre Takeshi Kitano é que ele é um artista popular e um dos cineastas mais peculiares do mundo. Entra este épico de samurai, o grande retorno dele ao gênero desde Zatoichi, talvez seu último filme a viajar bem pelo mundo, que se revela uma comedia amarga sobre um bando de homens desesperados para conquistar uns aos outros de preferencia via decapitação. Para gostar de Kubi você precisa concordar com Kitano que homens perdendo sua cabeça é algo muito engraçado.
35) Chien de la casse (Jean-Baptiste Durand)
Outra comédia desesperada baseada em uma série de elementosde cena muito bem colocados e uma boa observação do comportamento masculino. O diretor Durand esteve ótimo como a vítima em Misericordia, de Alain Guiraudie, e Chien de la casse se aproxima muito do cinema dele,
34) I Saw the TV Glow (Jane Schoenbrun)
Tem algo que se perde quando Schoenbrun se move do filme de quarto quase artesanal do seu longo anterior para toda esta estrutura maior com imagens muito bem cuidadas, referencias diversas a Lynch e ponta da Phoebe Bridgers, mas ao mesmo tempo me parece ter uma experiencia muito forte que elu cartografa aqui. Como é um filme muito dado a artigos e textões, sinto uma certa necessidade de tratar ele como algo a ser lido ou intencionalmente obscuro quando me parece o contrário um filme muito direto e muito sentido. Não é um desses filmes de horror de arte, mas o filme que aposta num mal-estar constante e não exatamente uma alegoria sobre se descobrri trans porque a forma como o filme lida com disforia e dissociação, alguém que substitui a própria vida não-vivida por esta fuga constante para a cultura pop é puro texto e drama (apesar de ser um cenário também reconhecível para algumas formas de depressão de pessoas cis). Me parece sobretudo um filme muito sentido, de uma tristeza enorme, mas também encontra nela algo muito vigoroso que o permite não se encerrar nisso.
33) Greice (Leonardo Mouramateus)
O Leonardo Mouramateus mora a anos em Portugal e o que lhe da uma perspectiva muito própria sobre a angustia do jovem cinema de autor brasileiro perdido entre aqui e os sonhos de Europa. Todos os longas delesão farsas baseadas em dualidades e deslocamentos, ele vinha tateando Greice faz tempo e em parceria com a Amandyra como a personagem titulo faz aqui um belo elogio a força da ficção e de criar novas situações. Um cinema de aventuras, no qual a malandragem de Greice sempre da um jeito de entortar as situações e encontrar um frescor novo.
31) Kyrie (Shunji Iwai) e Levados Pelas Marés/Caught by the Tides (Jia Zhangke)
Iwai e Jia são dois dos melhores cineastas asiáticos durante a maior parte dos últimos 30 anos e parecem ter se proposto a repensar muitas vertentes de seus antigos trabalhos. Levados Pelas Marés faz isso de forma muito direta, reenquadrando imagens de alguns de seus filmes anteriores em uma nova história, enquanto Kyrie revisita muitos elementos familiares do trabalho de Iwai. Nenhum deles parece uma recauchutagem cansada, mas, ao contrário, são grandes gestos em direção ao presente e como tais bastante tocantes. Filmes de uma curiosidade e o mesmo tempo uma emoção muito forte, Levados pelas Marés não deixa de ser um belo achado de titulo que descreve ambos bem neste movimento constante que mantem entre o privado e o mundo.
30) Tudo Que Imaginamos Como Luz/All We Imagine as Light (Payal Kapadia)
Um filme tão preciso em como descreve as estruturas no entorno das suas protagonistas, tanto aquelas que limitam como as múltiplas fraturas nos vários espaços que elas frequentam que permitem escapes e sobretudo um filme que faz esta dança entre individuo e o mundo de uma maneira progressivamente apaixonante. Acho que este primeiro longa de ficção de Kapadia (que fizera um bom ensaio epistolar chamado A Night of Knowing Nothing uns anos atrás) deve ser o mais próxima de uma unanimidade no meio cinéfilo este ano, me agrada que seja um filme tão bom.
29) T Blockers (Alice Maio Mackay)
Tão engenhosamente concebido e hábil em fazer com que seu enredo de terror, o desejo de filmar e as observações sobre a vida de jovens trans combinem. Nisso é um filmede horror bastante à antiga. A química do elenco é tão boa que quase me decepciono quando o filme tem de lidar com seus zumbis intolerantes. O fato de Alice Maio Mackay ter 19 anos quando lançou esse filme faz com que muitos de seu bom olhar e ouvido façam sentido, e espero que ela continue recebendo orçamentos melhores e liberdade suficiente, pois ser fã de terror tem sido um pouco frustrante nos últimos anos e o gênero precisa de mais cineastas como ela.
28) Blackout (Larry Fessenden)
Falando nisso, Fessenden provavelmente o mais próximo de um herdeiro de que certa parcela do cinema de horror americano dos anos 70, aquela de Romero e Hooper, tem hoje como bem aponta este conto de licantropia como porta de entrada para um olhar caustico sobre uma impotência geral do liberalismo americano especialmente porque ele sabe como se mover entre o simbólico e o visceral.
27) Crisis Negotiators (Herman Yau)
Yau vem alternando entre pequenos projetos ocasionais e filmes de ação de grande porte há anos. Este é um remake de um filme americano (A Negociação, de F. Gary Gray) que se mantém fiel ao seu enredo, mas se distingue da maioria da recente safra de filmes de ação de Hong Kong muito por causa da única mudança significativa de Yau, fazendo com que o outro negociador seja um ex-policial que deu as costas para esse mundo, o que lhe dá uma perspectiva diferente. O que diferencia os filmes de ação de Yau de praticamente todos os outros é o fato de ele realmente se importar com os efeitos colaterais, de modo que esse é um filme sobre a filosofia de Herman Yau para o cinema de ação. É claro que ele tem sua parcela de ação bem executada, Yau prefere cenas de perseguição e é divertido vê-lo encontrar maneiras de incluir um par delas nesse filme, que funciona muito bem como um veículo para Lau Ching-wan e Francis Ng.
26) A Spoiling Rain (Haruhiko Arai)
O ponto de partida lembra um filme de Hong Sang-soo de uns vinte anos atras: dois caras que trabalham na indústria de filme erótico japonesa bebem e lamento a morte de uma ex que conheceram por lá (é claro demora uma eternidade para eles perceberem que falam da mesma mulher). Arai é um cineasta e crítico que trabalhou como roteirista nos anos 70 para os melhores cineastas que saíram do meio dos pinkus (Wakamatsu, Kumashiro) e existe uma especificidade aqui que filmes do tipo raramente encontram. È um lamento sobre os últimos suspiros do meio, sem grande nostalgias para além de uma observação de uma dissolução.
25) Chime (Kiyoshi Kurosawa)
Uma demonstração concentrada de 45 minutos da maioria dos aspectos formais excitantes do trabalho de Kurosawa. Um dos filmes mais angustiantes e de mal estar dos últimos anos. É pura afirmação autorista, mas o desconforto nunca é apenas jogo de cena.
24) Assassino por Acaso/Hit Man (Richard Linklater)
Um dos perigos de se deixar levar pela ficção sedutora é que confiar demais nela pode transformá-lo em um sociopata. Hit Man é uma ótima variação de um dos mais antigos clássicos da ficção, “você é quem você finge ser”. Ele está ciente de algumas de suas implicações mais complicadas e é encantado demais por si mesmo para se importar com isso, o que, paradoxalmente, lhe dá um caráter mais inquietante. Ele oferece a Linklater e Glen Powell amplas oportunidades de brincar com cenários lúdicos, é um dos filmes mais fáceis de se gostar lançados este ano, o que torna suas limitações (o uso genérico demais de Nova Orleans, sua recusa em sequer acenar para os aspectos negativos da operação de intimidação real que o inspirou) mais decepcionantes. Quando consegue fazer com que suas múltiplas ficções funcionem, ele serve como um lembrete de que, quando o cinema americano convencional é excelente, ele pode ser ao mesmo tempo maravilhoso e maligno.
23) O Menino e a Garça (Hayao Miyazaki)
Imagens de morte e vida.
22) Local Legends: Bloodbath! (Matt Farley)
Farley fez o primeiro Local Legends há cerca de uma década e é mais singelo do que os outros filmes da Mottern, uma celebração do prazer no trabalho artístico com piadas suficientes sobre si mesmo para diminuir o narcisismo. Desde então, ele desenvolveu um número suficiente de seguidores para se tornar uma espécie de artista cult e essa sequência muito engraçada é um filme muito perspicaz sobre a economia da arte atual e o inferno do termo “conteúdo”.
21) Favoriten (Ruth Beckermann)
A política da escola. Beckermann acompanhou uma classe escolar por três anos, uma para alunos a quem o alemão não era o primeiro idioma, e ela consegue extrair muito da interação entre o comportamento natural das crianças, os esforços genuínos da sua professora e os aspectos mais rígidos da própria escola. Um filme cativante sobre como algumas pessoas muito jovens passam pela negociação de um espaço ideológico que não compreendem totalmente.
20) O que Queríamos Ser/Lo que quisimos ser (Alejandro Agresti)
Um casal de meia idade se conhece na saída do cinema e por anos mantem o mesmo ritual de se encontrarem sem revelar quem são criando personas que eles adaptam aos poucos. Agresti suspende o mundo no entorno deles e vai deixando algumas arestas entrarem aos poucos. Um filme muito bonito sobre ficções e cinema composto por dois atoresa se encontrar numpar de restaurantes.
19) Soundtrack to a Coup d’État (Johan Grimonprez)
Grimonprez baseia seu filme no fato de que a politica externa americana enviou alguns dos seus melhores músicos negros a Africa como embaixadores culturais ao mesmo tempo que trabalhava para sabotar qualquer elemento progressista dos movimentos de independência locais. Usando jazz e a trajetória de Patrice Lumumba como princípios organizadores para um ensaio muito forte sobre os princípios coloniais por trás de boa parte da politica americana para o sul global durante a Guerra Fria.
18) Três Amigas/Trois amies (Emmanuel Mouret)
Mouret segue aplicando seu olhar formalista muito cuidadoso para uma série de encontros e desencontros românticos. O cinema como forma de mediar desejos. Não tem um plano que não seja pensando com precisão e o elenco é maravilhoso.
17) REFORM! (Jon Bois)
Bois aplica seu interesse em perdedores não ao esporte, como de costume, mas à política. Nesse caso, a ascensão e a queda do Partido Reformista Americano durante os anos 90. Uma visão muito engraçada e aterrorizante das limitações do vício dos EUA na política como espetáculo e seu sistema bipartidário, além de um elenco de personagens incrível.
16) Meiyazhagan (C. Prem Kumar)
Uma ponte sentimental para o passado. Tira tanto dessa ideia de reconstruir uma ligação com um lugar e laços pessoais e o trabalho dos dois atores centrais é precioso. Foi o melhor dos filmes indianos que vi este ano apesar de existir bem fora do que a cinefilia ocidental vem valorizando neles.
15) Cloud (Kiyoshi Kurosawa)
Economia onlime é um inferno. O mundo proposto por Cloud é tão raso, tão desprovido de emoção ou perspectiva, um filme pós apocalíptico sobre hoje. Claro que podíamos descrever Pulse desta maneira em 2001, este só acrescenta alguns novos horrores online.
14) Oeste Outra Vez (Erico Rassi)
Um neowestern brasileiro sobre uns perdedores tristonhos fugindo e atirando uns nos outros enquanto choram por mulheres que eles absolutamente não entendem. O fato de ser um western faz sentido, já que se trata de se imaginar como parte de uma tradição mítica para compensar o fato de sua vida não i a lugar algum. O equivalente cinematográfico de assistir um bando de maluco ficar bêbado cantando Roberto Carlos e digo isto de forma muito positiva. Muito, muito engraçado e muito, muito triste. Filme brasileiro do ano.
13) A Arte do Caos/Verbrannte Erde (Thomas Arslan)
O crime como só mais uma forma de trabalho. Ainda mais do que Nas Sombras que Arslan fizera mais de uma década atras, um filme de assalto esvaziado de qualquer noção romântica associada com o gênero, até a celebração do profissionalismo do protagonista é esvaziada. A cidade, as relações, as múltiplas reviravoltas tudo ponta para esta mesma alienação constante. Que Arslan torne este pacote tão excitante é o seu maior mérito.
12) As Aventuras de uma Francesa/A Traveler’s Needs (Hong Sang-soo)
Há uma entrevista recente de Isabelle Huppert em que ela menciona que Hong criou esse filme na hora, quando eles conversaram sobre trabalhar juntos novamente. Muito do que é adorável em As Aventuras de uma Francesa, e no trabalho recente de Hong em geral, vem disso: a simplicidade e a espontaneidade, a alegria de criar algo, o relacionamento entre os cineastas e seus atores. Esse é um filme sobre Huppert na Coreia, há tão pouco nele, mas também sugere tanto.
11) Le Grand Chariot (Philippe Garrel)
Garrel está com 76 anos, seu pai Maurice faleceu em 2011, e todos seus filmes desde então são marcados pela ideia da paternidade, sobre ser o pai e não o filho e a responsabilidade envolvida nisso. E Garrel ao contrario da maioria dos cineastas veteranos é obcecado pela juventude. Assim como o seu anterior O Sal das Lagrimas, é um filme sobre o que se passa ou não para as gerações posteriores, sobre o filho que assume as responsabilidades do pai e das maneiras melhores e piores que ele aplica essa sabedoria. As imagens em scope um lembrete de que Renato Berta é um dos melhores fotógrafos do mundo.
10) Agarra-Me Forte/Agarrame fuerte (Leticia Jorge, Ana Guevara)
As cumplicidades que um grupo de mulheres formam em morte e vida. Um filme calcado em modular seu drama e na forma que permiti as suas atrizes, todas ótimas, a se estabelecerem naquele lugar que pertence somente a elas.
9) Armadilha/Trap (M. Night Shyamalan)
Shyamalan fazendo seu filme de De Palma. Ele revira algumas das coisas em que sempre depositou fé nos seus filmes anteriores a respeito de contar histórias e a importancia da família, e talvez o mais fascinante em Armadilha seja o fato de que, ao fazer algo muito negativo em relação ao que ele costuma valorizar, Shyamalan conseguiu fazer seu filme mais puramente divertido. Tem algo muito forte no Hartnett se movendo por todo esse aparato cinematográfico opressivo, o filme está muito contido em seu título, e grande parte do que ele faz envolve a forma como equipara o trabalho da polícia com o dos cineastas, dois aparatos de controle que apertam o cerco sobre seu assassino psicótico, cujo talento para projetar uma imagem afável de normalidade só lhe permite ir até certo ponto. Créditos também para a fotografia do Sayombhu Mukdeeprom.
8) Twilight of the Warriors: Walled In (Soi Cheang)
Kowloon Walled City era a area de maior densidade populacional do mundo nos anos 80. Twilight of the Warriors: Walled In a reconstrói no cenário cenográfico mais impressionante do ano. Um lugar que transporta a um passado, da cidade e também do seu cinema, espaço em disputa que se perdeu, que o filme celebra e lamenta. O mais excitante dos réquiens. Cinema de Hong Kong é algo que sempre me disse muito e hje ele é um zumbi moribundo, um pouco como a própria independência cada vez mais tênue da cidade. A câmera excitante de Cheang se movendo por aquele espaço, a vitalidade dos seus atores, veteranos e jovens, todo o seu cuidadoso artesanato suspende isso por duas horas.
7) Henry Fonda for President (Alexander Horwath)
As maneiras pelas quais Hollywood e a ideologia americana se cruzam, principalmente durante os dias do Código Hays, em um ensaio cinematográfico minucioso que usa a imagem de Fonda como guia. Um trabalho notável de crítica cinematográfica, inteligente e muito bem organizado por Horwath, ele próprio um excelente crítico/historiador/programador. Por coincidência, recebi várias encomendas para escrever sobre filmes de Fonda este ano (A Mocidade de Lincoln, O Homem Errado, Madigan), então também pensei muito nele, o que me deixa ainda mais impressionado com o trabalho de Horwath. Não temos esse tipo de investigação séria, não apenas sobre a história do cinema, mas também sobre nosso próprio passado, com muita frequência.
6) Culpa e Desejo/L’été dernier (Catherine Breillat)
A moralidade e as maneiras que ela é contorcida para fins próprios. Desejo como este elemento que com frequência não se encaixa nela. Breillat filma tudo de forma tão franca e frontal, nenhum subterfugio e justificativa, todas as observações cabem ao espectador. Curiosamente trata-se de um remake de um filme dinamarquês que eu não vi que segundo amigos é muito pior sem que a versão de Breillat altere muita coisa, o produtor Said Ben Said, o assistiu e decidiu que daria um bom filme de Breillat e ofereceu a ela, considerando o estado calcificado de muito do cinema de autor contemporâneo, talvez mais deles deviam embarcar numa encomenda como essa.
5) Ao Contrário/Volveréis (Jonás Trueba)
Assim como As Garotas Estão Bem que a parceira de Trueba Itsaso Arana fez ano passado, e que aqui protagoniza e co-escreve, esta é uma prazerosa ficção de descoberta. Um jogo a partir das comédias de recasamento (o livro do filosofo Stanley Clavell sobre o gênero até figura nele) com múltiplas opções que desenvolvem a partir do cenário inicial, vários possíveis formas de estender o afeto quando a intimidade se torna maior que a paixão. Acho que o que torna esses filmes da Los Ilusos Film especialmente cativantes é que eles sugerem uma aventura para realizadores e espectadores.
4) Misericordia/Miséricorde (Alain Guiraudie)
O filme mais conhecido de Guiraudie, Estranho no Lago, era uma versão hitchcokiana de um thriller erótico, esse Misericordia é uma comédia hitchcockiana sobre culpa. Tem um cenário bucólico maravilhoso, um pequeno vilarejo onde todos sabem tanto que a polícia tem as chaves de todas as casas e parece que as pessoas passam os dias bebendo e pensando em dormir uns com os outros. Ele consegue ser muito engraçado e, ao mesmo tempo, amarrar cada vez mais o nó das ações de seu personagem principal. Além disso, o padre apaixonado é o melhor personagem de qualquer filme deste ano.
3) Jurado #2/ Juror #2 (Clint Eastwood)
O filme de Eastwood se relaciona bem com os filmes de Guiraudie e Breilat; ele é previsto em termos de culpa e moralidade, mas o faz em uma autoimagem muito americana, sobre o desejo de afirmar que você é bom. O que é justiça quando tudo é uma questão para sustentar uma imagem e, esta boa vida que é seu dureito pode ser usada para justificar suas decisões. O filme continua sendo descrito como algo que vem do passado do cinema americano, porque Eastwood é supostamente um classicista, e é o raro cinemão de gênero voltado para adultos, mas a maioria dos antigos dramas de tribunal faz muito pouco do que esse filme faz tão bem. Jurado #2 não está tão preocupado com o que acontece no filme quanto com as implicações maiores que essas ações desencadeiam. Todos no elenco fazem um trabalho incrível (especialmente Nicholas Hoult e Toni Collete nos papéis principais e Cedric Yarbrough), e os aproximadamente 45 minutos finais do filme têm um poder raro à medida que aumentam sua indagação. Se esse acabar sendo realmente o último filme de Eastwood – afinal, ele tem 94 anos -, a cena final é uma ótima saída de cena.
2) O Senhor dos Mortos/The Shrouds (David Cronenberg)
Da relação entre os nossos corpos e o virtual. Sobre um viúvo que doentiamente se agarra a reprodução dos ossos da esposa morta enquanto busca desesperadamente uma nova intimidade. É um filme informado pela viuvez do cineasta, mas que me parece ter muito a dizer sobre o nosso mundo hoje, talvez mais do que qualquer outro lançado recentemente. Agoniado como ele é por essa desconexão com o mundo que a mediação constante da web produz. Me fez pensar muito em um Videodrome menos violento e mais melancólico. Sei que tem poucas coisas que me tocaram mais este ano do que Cassel tentando vestir a mortalha do titulo original para sentir o que os seus defuntos sentem ou do seu primeiro encontro com Sandrine Holt. Um lamento sobre as consequências emocionais w morais do fim da fisicalidade quando não se percebe o outro, o que resta?
1) Através do Fluxo/By the Stream (Hong Sang-soo)
Como mencionei anteriormente, os filmes de Hong dos últimos anos foram marcados por uma agilidade íntima, mas não tanto em Através do Fluxo que parece muito mais deliberado e cuidadosamente mapeado sem perder essa espontânea proximidade. Todos os personagens são exatamente o que parecem ser e são impossíveis de serem definidos. É um filme muito satisfeito em apenas acompanhar os muitos encontros que desencadeia. Com exceção do diretor mulherengo demitido, cujas ações desencadeiam a trama, o filme tem um carinho muito especial por todos (ainda assim esse personagem protagoniza duas das melhores cenas de comédia de constrangimento de Hong). O jantar pós-espetáculo é uma das cenas mais mágicas em um de seus filmes, tão engraçada e tão terna. E não é esse o segredo de todo o cinema de Hong? Ficar bêbado enquanto se é assombrado por todas as coisas boas e atrapalhadas que se fez. Isso e, é claro, o sorriso de Kim Min-hee na última cena.






































































































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Filipe, sua lista é obrigatória pra mim desde sempre. Aguardo os dias para a sua publicação. Se vc relacionou na lista é porque vale a pena procurar. Se for por falta de incentivo, dá minha parte sempre fico muito feliz quando vc publica uma lista (melhores americanos, melhores italianos, melhores chineses, ano de 1967, ano de 1986). O seu relato passa a ser o meu parâmetro.
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