Mostra (10): Duas Vezes Hong Sang-soo

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Hotel as Margens do Rio

Pela primeira vez até onde eu me lembre a Mostra exibiu os dois filmes do ano do nosso workholic favorito. Grass e O Hotel as Margens do Rio são filmes bem diferentes, apesar da insistência da ideia de Hong Sang-soo realizar sempre o mesmo filme. Em comum mesmo além de parte expressiva da ação se passar enquanto as personagens bebem, é o tom amargo que veem dominando os seus filmes desde o começo do seu romance com a Kim Min-hee e subsequente exposição pública.

Grass é um filme quase miniatura, bem curto até para os padrões dele (67 minutos) com uma série de sequencias de diálogos em cafés e bares semi-circulares unidos pela presença de Kim Min-hee que na maior parte do tempo está lá como testemunha. Há alguns ecos do O Dia Depois do ano passado, especialmente no tom egocêntrico de cada personagem perdido na sua própria narrativa, mas naquele filme a ficção girava entorno de como Kim era tragada a fórceps para o drama alheio e aqui ela permanece na maior parte do tempo numa posição passiva, a maior parte dos personagens tomados demais pelos seus próprios dramas para lhe dar mais do que uma olhada ocasional.

É um exercício de sustentar cada um dos blocos de ação e uma ácida comédia sobre solipsismo. Labirintos de eu reforçados pela apresentação de Hong – fotografia digital preto e branco, uso constante de música clássica, um certo distanciamento de olhar, uma economia narrativa que reduz cada ação ao mínimo de informações e gestos – que reforçam uma sensação de abstração da ação. Atores e escritores se multiplicam e reforçam a impressão de que todos ali são performers e autores dos próprios dramas. Por toda a amargura e egoísmo exibidos, o final deixa uma porta aberta esperançosa.

Num outro registro se encontro O Hotel nas Margens do Rio. Certamente, um dos filmes mais peculiares que Hong dirigiu até hoje. Primeiro, é um filme sobre morte, tomado por um sentimento de final das coisas inexistente em outros trabalhos dele. Segundo, toma-se a opção curiosa de manter os personagens masculinos e femininos separados durante quase a ação toda.  Há um poeta tomado por sentimentos de morte que convida os dois filhos adultos para o que assume ser uma última conversa e a um casal de amigas que os observa a distância (é curioso que Kim Min-hee interprete testemunhas em ambos os filmes desse ano, apesar da natureza desses testemunhos ser radicalmente diferente). Se há algum ponto fraco no filme é que os dois polos da ação são bem desnivelados, isto dito as cenas entre as amigas são ótimas e muito bem imaginadas, o que garante que o filme nunca caia quando mude o foco do drama familiar para elas.

Existe uma fragilidade muito grande que transpassa ação. A melancolia das imagens dá o tom. Não será surpresa que a morte prenunciada passará, como é típico das ficções de Hong quando algo é proposto como possibilidade, significa que este algo já aconteceu ou acontecerá. E também porque o tom crepuscular que toma o filme retira qualquer outra possibilidade.

Haverá essa conversa prometida de pai para filhos, um acerto de contas que nenhum dos dois filhos que estão lá por respeito mais do que vontade tem qualquer interesse. A primeira metade do Hotel mantém essa sensação tateante circula-se o centro que não se quer confrontar. A conversa em si é uma dessas DRs movidas a soju que Hong se especializou, mas no lugar de casais ou rivais românticos temos ali a fratura exposta de ressentimento familiar e abandono.

Esse misto de crepúsculo com comédia do embaraço puxa a meia hora final para uma das mais fortes na filmografia de Hong. Um filme no qual a exaustão física encontra este sentimento de finalidade. Há em o Hotel as Margens do Rio um amargor, uma crueza e uma feiura de sentimentos, mas há também o gracejo, um desejo de tentar sorrir perante as piores fobias humanas, como quase todos os filmes de Hong o horror e humor andam juntos. Se há algo que num olhar autorista une Grass e Hotel é esta certeza de que observar e catalogar nossos pequenos desastres é um caminho para algo melhor. Menos uma descrição de ações, do que uma atitude perante ao mundo.

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