Vera Cruz revista na Cinemateca

Proibido_beijar

É Proibido Beijar, de Ugo Lombardi

Aconteceu entre os últimos dias 5 e 15 a mostra Classicos da Vera Cruz. evento dos mais interessantes na Cinemateca Brasileira.  Acho que nos meus quase vinte anos em São Paulo, a Cinemateca fez pelo menos uma meia dúzia dessas, mas não me lembro de outra tão bem pensada e provocadora na sua curadoria. Estavam lá dois dos clássicos oficiais prometidos pelo título: Caiçara, do Adolfo Celi, filme inaugural do estúdio paulistano, e o incontornável O Cangaceiro, do Lima Barreto. De resto no lugar dos dramas “de qualidade” que associamos a Vera Cruz, dois filmes do Mazzaropi (Sai da Frente e O Gato da Madame) e um outro grupo de comédias (A Familia Lero Lero, É Proibido Beijar, Osso Amor e Papagaios).

Antes de entrar no mérito da qualidade dos filmes (e me parece um agrupamento bem bom no geral, salvo Caiçara que segue um pé no saco, me desculpem), promove-se um saudável curto circuito. A Vera Cruz segue uma sombra, e nas avaliações historiográficas a necessidade de reforçar a condenação do erro Vera Cruz por parte do Glauber ou de protege-la segue muito grande. O mérito dessa seleção me parece que está justamente deslocar a discussão um pouco ao apresentar uma Vera Cruz bem menos monolítica do que a do mito. Não um quadro completo certamente, mas um que nos lembra que o estúdio era mais que só O Cangaceiro, Tico Tico no Fuba e Floradas na Serra.

A Vera Cruz que aparece ali é uma influenciada diretamente pela comédia de costumes italiana (e não só pela presença do Lombardi e Pieralisi), mas uma com um esforço de observação que existe na contramão do “mofo importado” do mito historiográfico, mesmo que nem sempre com resultados completos. O tom é bem outro do humor carioca da chanchada, mas a leveza quebra as expectativas.

Nisso me surpreendeu em particular descobrir o É Proibido Beijar que era o único filme da seleção que eu nunca tinha visto, screwball brasileiro com uma Tonia Carrero iluminada e uma velocidade e graça cativantes. Completamente o oposto da imagem que se faz dos “italianos da Vera Cruz”, até a dureza do Mario Sergio, não o mais natural dos galãs de comédia romântica, é funcional na dinâmica Levada da Breca do filme e o profundo incomodo dele com as mentiras sobre mentiras da Carrero são bem engraçados.

Não revi o A Familia Lero Lero agora, pois vi faz só uns dois anos, mas é um filme que não faria feio se comparado por exemplo com o El Gran Cavalera do Buñuel com quem ele tem alguns pontos de contato na farsa de redenção familiar que propõem.  E o filme tem um olho para gesto e performance e um senso de humor bem apurados. Não é tão forte quanto a primeira versão do O Comprador de Fazendas que o Pieralisi fizera na Maristela, uns dois anos antes, mas um lembrete que junto do Christensen ele é o melhor dos gringos que estabeleceram por aqui na época e as contribuições dele ainda merecem ser melhor celebradas.

Osso, Amor e Papagaios pertence ao período posterior pós falência do estúdio, mas rodado por lá e com apoio do espolio. É mais próximo do cinema independente feitro ali na esteira do sucesso do Nelson. Adaptado do Lima Barreto, com momentos de inspiração, mas com uma certa CPCisse enfadonha tão comum aos filmes menores do período e que a sua maneira envelheceu tão mal quanto coisas mais mal faladas da época.

Os dois filmes do Mazzaropi são um caso a parte e fecho com eles justamente para retomar o argumento inicial. Que Mazzaropi tenha começado na Vera Cruz é algo que segue pouco discutido a sério. No Revisão crítica o Glauber lhe reconhece o talento comico e se livra dele em uma linha imputado a ruindade dos filmes a “burrice do Abilio Pereira de Almeida”, talvez porque lidar com Mazzaropi é ter que reconhecer que o capítulo sobre a Vera Cruz é baseado numa teoria bem furada sobre “o falseamento da realidade brasileira”. Em Mazzaropi reina a irregularidade, a primeira metade de Sai da Frente é bem melhor que a segunda, por exemplo, mas um desejo de aproximação não só do tipo vivido pela personagem, mas do cotidiano paulistano inegável. Tanto Sai da Frente como O Gato de Madame propõe travelogos que colocam essa figura Mazzaropi em colisão com a sociedade exterior e é uma coalisão bastante ambiciosa nos seus ruídos de costumes e uma que envelheceu com muito interesse. O Gato é mais simples um pouco, mas se sustenta melhor, porque tem uma imaginação maior no cena a cena, mas isso me parece secundário a notar o valor dos filmes.

Todos os filmes mencionados aqui estão disponíveis do site acervo que a Cinemateca lançou. Uma bela iniciativa, infelizmente prejudicada pela decisão indefensável de meter uma marca d’agua gigante do logo da entidade sobre os filmes. Um lembrete de que a despeito dos muitos acertos que a Cinemateca merece ser elogiado, tem sempre um estranho ranço institucional que lhe envolta.

4 Comentários

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4 Respostas para “Vera Cruz revista na Cinemateca

  1. João Carlos Rodrigues

    “Sinhá Moça”, a segunda parte dirigida pelo Oswaldo Sampaio, é o melhor filme da Vera Cruz na minha opinião, de longe. Foi um grande sucesso de bilheteria e foi proibido em Angola e “províncias ultramarinas” de Portugal por provocar agitação nos pretos da plateia (assim me contou Dona Joana, angolana que era secretária da Cinemateca de Portugal nos anos 1980). Mas parece que por algum motivo inconcebível (provavelmente receio de patrulhas racialistas) não fez parte da mostra. Um dia quem sabe voltaremos novamente a ser Brasil. Axé!

    • Filipe Furtado

      Pois é ,mostra eram esses 7 filmes que mencionei. Estou querendo rever Sinha Moça (que não gostei nos tempos de faculdade) desde que finalmente vi A Estrada do Sampaio ano passado, mas ainda não tive oportunidade.

  2. João Carlos Rodrigues

    Tem no youtube e no makingoff.

  3. Tadeu Nascimento

    Que bom que atualizado. Parabéns pelo trabalho.

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