Os Equinócios de James Benning

Benning

Equinócio de Primavera, de James Benning

Neste último mês de Julho, os cariocas tiveram a oportunidade de acompanhar uma seleção bem expressiva de cinema experimental recente cortesia do Ecrã, festival ao qual pretendo retornar mais tarde, incluindo ai dois filmes recentes de James Benning que muito pouco circularam, o díptico Equinócio de Primavera e Equinócio de Outono, ambos de 2016.

Os filmes têm pouco mais de hora cada e cerca de 13 planos de aproximadamente 5 minutos rodados na mesma montanha na região de Serra Nevada na Califórnia. A ação transcorrendo nas estações respectivas. Cada plano é apresentado por uma cartela que lista a latitude do plano, a altitude da montanha e o momento da filmagem.  Na Primavera, Benning organiza o filme na direção de subirmos a montanha (apesar das informações apontarem que estamos voltando no tempo), enquanto no outono, o filme desce a montanha.

Uma descrição básica do processo de Benning é essencial para qualquer reflexão sobre o efeito dos filmes (conversando sobre os filmes com o Fabio Andrade, ele comentou que dava para imaginar bem os filmes pela descrição e não disse isso  como algo negativo). A ênfase no horário da rodagem de cada plano reforça como a incidência de luz é central na proposta dos filmes e boa parte dos contrastes entre eles são os imaginados nos contrastes entre estações.

Um contraste que me fascina não é entre os filmes, mas entre o método cartesiano do processo de filmagem e a organização dele por Benning e a nossa experiência diante dos dois filmes. A frieza quase científica com que cada plano é apresentado, a lógica muito americana com o Benning procede cada um dos seus planos não poderia ser mais distante do jogo lúdico que o espectador desenvolve com os dois filmes. Este efeito de luz sobre passagem do tempo em planos estáticos é algo ao qual Benning retornou muitas vezes, mas o contraste constante entre a revisita que Outono propõe sobre a Primavera (uma revisita de somente 6 meses ao contrario por exemplo daquele de 27 anos entre os dois One Way Boogie Woogie) reforça muito este efeito. Diante da lógica do processo se sobrepõe a imaginação do espectador, e ali no meio encontra-se essa experiência de cinema.

O outro frescor do filme vem de como este encontro entre ênfase no tempo e na altitude, leva os filmes a encontrarem uma forma de movimento. Há um momento narrativo muito particular em ambos os filmes e bastante distintos, estes arcos de subir e descer a montanha existem em contrassenso com a suposta austeridade do plano. O Pedro Tavares, curador do Ecrã, mencionou para mim após a exibição do Equinócio de Primavera que tratava-se de um faroeste e acho que tem algo ai. Não exatamente a narrativa de gênero, mas ao seu tema maior: o que o arco dramático de movimento que os Equinócios de Benning sugere é uma ideia de civilização. Todo o por em jogo do processo de Benning é uma maneira de inserir o cinema naquele espaço, e com isso homem, uma espécie de pacto civilizatório de um artista solitário.

Um homem e sua câmera e dali todo um infinito de possibilidades. A Primavera é este movimento continuo, perde-se na natureza, mas ao mesmo tempo doma-se ela com a tecnologia do cinema. Não deixa de ser um estranho contrassenso. O uso de som é muito interessante e sugere uma atividade continua. O homem a subir a montanha. Primavera é uma fita de aventura secreta.  No Outono o processo se inverte, e junto da secura das arvores, essa possibilidade se afunila. O silêncio é maior até ser interrompido pelo som dos carros no penúltimo plano. O movimento continuo de Benning parece ser rumo a um crepúsculo. Já não há a possibilidade, mas a ausência dela. Equinócio de Outono é um filme desolador. Os espaços só são alterados pelos efeitos naturais da passagem do tempo, mas a promessa do filme anterior é traída como se o efeito desse pacto civilizatório fosse desastroso. Ali em pouco mais de duas horas e dois filmes vemos uma miniatura da conquista do oeste. Resta a estrada no fora de campo.

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