Alguns filmes da semana (14 a 20/04)

vida-provisoria-1968

A Vida Provisória

Para quem não me segue nas redes sociais, as informações sobre a mostra de Hong Kong que começa já nesta quarta no CCBB-RJ (e vai depois para Brasília e São Paulo) estão disponíveis aqui.

A Vida Provisória (Mauricio Gomes Leite, 1968)
Vida pública brasileira pelos meados de 1968. O tom conspiratório dos bate papos, a brevidade dos momentos privilegiados entre os amantes, aquela câmera segundo o Paulo José sempre a sugerir um observador distante, o humor que surge do nada e a violência que está sim se espera. Ficção paranoica à brasileira, uma agonia só, entrecortada por esperança e prazer. Um viver após o abismo. Paulo José, ator iluminado. O que o Mauricio Gomes Leite tira daqui é um desespero numa chave que me parece distante dos outros filmes brasileiros pós Terra em Transe. Ele chama Glauber para dançar, mas tem um bom tanto da versão de Welles para O Processo no seu misto de humor doente e gozo interrompido. 1968 no cinema brasileiro é rico nesses filmes de agonia e paranoia: O Bravo Guerreiro, As Amorosas, O Bandido da Luz Vermelha, O Pornografo, Fome de Amor, Jardim de Guerra. O filme de Gomes Leite é uma das contribuições mais interessantes este ciclo e talvez a mais doída.

The Duel (Chang Cheh, 1971)
O masoquismo é um elemento essencial numa parcela do cinema de ação de Hong Kong e Chang Cheh é o patrono dessa escola. A ideia da afirmação do masculino, do sofrimento corporal como forma de purificar a alma. The Duel é um dos melhores filmes de Cheh e um dos mais melodramáticos. O herói vivido por Ti Lung (num dos seus melhores papeis) é mais transparente e direto possível, ele até tem uma tatuagem para a amada sobre o coração, e precisa passar pelo martírio da violência. A ideia da purgação transpassa as imagens. Deve ser o filme de Cheh que mais lembro o trabalho futuro do seu discípulo John Woo, tanto nessa violência catártica como na forma espelhada com que constrói a dualidade entre Ti Lung e David Chiang. A sequência final com a aproximação final deles, seus corpos  ensanguentados oferecidos de sacrifício um ao outro, é um dos grandes momentos do erotismo no cinema.

You Were Never Really Here (Lynne Ramsay, 2017)
No outro extremo dos filmes sobre o masculino eis aqui um bem equivocado. Lynne Ramsay é uma cineasta habilidosa com um talento natural para imersão. É inegável que Ramsay nos coloque na subjetividade do veterano de guerra vivido pelo Joaquin Phoenix. Para que fim, me parece algo bem mais questionável. A seriedade da arte aqui é um fim em si só e ela resulta justamente em tornar crível e aceitável todo um excesso, o masoquismo da masculinidade visto de fora como conto moral de Cheh, vira aqui internalizado e normatizado. É um Taxi Driver mais brucutu que se considera mais sério. Um filme de vingança vagabundo para pessoas que compartilhar artigos contra filmes do tipo. Me deem Clint Eastwood qualquer dia da semana.

Azougue Nazaré (Tiago Melo, 2018)
Falando em filmes que me parecem equívocos temos aqui a estreia do Tiago Melo que ganhou prêmios em festivais como Roterdã e Buenos Aires. O centro do filme é uma oposição entre a turma do maracatu e os evangélicos. Como diagnostico, o filme tem lá seu valor. A execução é frágil sem nenhuma imaginação para tentar lidar com as questões que quer tratar. O grande problema não é com a caricatura dos evangélicos em si (o povo do maracatu é só um pouco menos caricatural), mas a incapacidade de pensar os personagens, de imaginar as situações para além da dicotomia mais grosseira. O filme não anda e quando o faz no terceiro ato é atropelado e cheio de golpes grosseiros de dramaturgia. É um daqueles filmes que parecem ter se encerrado no dia que o projeto fechou, a filmagem uma mera execução. A possível sedução das questões de carne contidas ali dando lugar para o mero exotismo. São imagens que ilustram, mas não sentem, nada passa do diagnóstico inicial.

Covil de Ladrões (Christian Gudegast, 2018)
The Debt Collector (Jesse V. Johnson, 2018)
Dois bons policiais B, a despeito de Covil de Ladrões ter quase duas horas e meia. Em ambos, existe um sentimento palpável de submundo, um desejo de descrever aquele meio que realista ou não, mantém o espectador sempre interessado. Covil de Ladrões como muitos já apontaram é uma versão bem vagabunda do Fogo Contra Fogo do Michael Mann, menos o romantismo e o sentimento de epopeia (e claro Pacino e DeNiro são substituídos por Gerard Butler e Pablo Schrieber e a versão vagabunda afinal). Tem horas que parece um supercut de 140 minutos de algum seriado de policiais e ladrões, mas o filme tem um bom olho para detalhes e bom material de roubo, e usa bem as poucas ideias que tem, não é nada demais, mas dentro do universo de cinema americano de 2018 tem seu valor. The Debt Collector é melhor (e é melhor que o Accidental Man que o diretor e Scott Adkins lançaram uns 2 meses atrás e já comentei aqui). É um filme do Johnson como o anterior era do Adkins, pouca ação, mas bom clima e um bom olho e imaginação para este submundo que ele constrói. A trama  é quase nada, 3 dias de uma dupla de coletores de dívida (um novato e um veterano), uma série de situações bem pensadas em si mesmas, a grande tensão do filme é ver quando algo vai dar errado para criar uma situação de ação maior.

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