Nelson Pereira dos Santos, Castro Alves e a Guerra do Paraguai

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Nesta triste ocasião da morte do Nelson Pereira dos Santos, muito se falará e celebrará com razão os grandes filmes que ele fez, mas aproveito aqui para recuperar algo que escrevi na década passada sobre o grande filme que ele não fez: Guerra e Liberdade – Castro Alves em São Paulo. É o parágrafo final de um dos meus artigos favoritos, História Espectral do Cinema Brasileiro (1995-2005) escrito para Cinema Brasileiro 1995-2005: Ensaios sobre uma Década que o Daniel Caetano organizou para a Contracampo e a Azougue. Um texto sobre o cinema fantasma e esquecido da década da retomada, um pouco datado pois contexto do cinema brasileiro mudou muito e o desejo totalizante dele se torna ainda mais utópico do que já era na época. No último terço do artigo me centro em projeto não realizados e nos dois parágrafos finais e observações mais precisas sobre dois filmes que tive o prazer de ler os roteiros, a adaptação do Carlos Reichenbach para A Morte de Empédocles, Empédocles o Deus das Sandálias de Bronze, no qual o Carlão planejava alternar uma adaptação clássica do texto do Hoderlin com outra passada numa favela contemporânea estilizada, e este Guerra e Liberdade do Nelson. Aqui o que escrevi sobre o projeto do filme a época:

 

O mais representativo filme não realizada da década é provavelmente Guerra e Liberdade – Castro Alves em São Paulo, que Nelson Pereira dos Santos tentou produzir por boa parte da década de 90. O filme deveria ter saído no auge do boom de filmes históricos que surgia na cola do sucesso de Carlota Joaquina. Ao contrário da maior parte destes filmes, porém, tratava-se de projeto muito bem pensado, inclusive do ponto de vista comercial, já que o aspecto “filme histórico” não existe por si mesmo, tendo o roteiro o suficiente de ação, intriga e romance para entreter o espectador para além do seu interesse pelo poeta. Um dos elementos mais interessantes do projeto é justamente como ele se distancia do filme-biográfico, usando Castro Alves muito mais como porta de entrada para o Brasil do período da Guerra do Paraguai. A maior parte do roteiro se dedica a fazer um painel dos diferentes interesses políticos em conflito no momento. Só pelo tratamento dado a guerra – tema espinhoso que ao menos na ficção o cinema brasileiro nunca confrontou a contento –, já é uma decepção a não concretização do filme. Estamos aqui bastante distantes do registro oficial/conservador que dominou este ciclo de filmes históricos, uma vez que o material subverte a maior parte das tendências que esta corrente de filmes estabeleceu, inclusive no seu lado mais didático. Fosse o filme lançado à época, teria certamente gerado várias reflexões sobre este lado da produção do cinema brasileiro. Apesar da mídia sempre lembrar de Nelson Pereira dos Santos (quando precisa apontar exemplos de cineastas brasileiros de peso que permanecem sem filmar) e do flerte que ele estabelece com um modelo de cinema na moda na época que o cineasta tentou realizar o filme, Guerra e Liberdade – Castro Alves em São Paulo teve que ser abandonado em favor de projetos menos ambiciosos. A situação de Guerra e Liberdade nos lembra de quantas obras e cineastas parecem interessar ao cinema brasileiro da última década apenas para serem invocados a distância; boas para os números estatísticos ou como presenças benignas de um passado ao qual se olha de bom grado, mas que prefere-se que não se materialize no presente

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