Alguns filmes da semana (31/03 a 6/04)

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Nomad

If You Were Young: Rage (Kinji Fukasaku, 1970)
Kinji Fukasaku fez este filme com a grana que ganhou como co-diretor de Tora!Tora!Tora!. Foi sua primeira produção fora do esquema de estúdios japoneses e seu tema muito adequadamente é a independência. Trata-se de uma atualização de O Salário do Medo, cinco amigos compram um caminhão de entregas e o filme é a história deste caminhão, que serve de esperança e danação para cada um deles. No mundo de Fukasaku já não é preciso ir para algum país de terceiro mundo para este espirito aventureiro e desastre posterior serem postos em prática, basta permanecer no Japão, ele próprio um espaço colonizado, nas mentes se não na prática. Fica claro ao longo do filme que o que está em jogo são os destroços do individualismo japonês no pós-guerra.

Love Massacre (Patrick Tam, 1981)
Nomad (Patrick Tam, 1982)
Dois filmes irmãos radicalmente opostos que Patrick Tam realizou no começo dos anos 80. O primeiro um slasher de arte, yuppies deslocados em San Francisco prontos para virar carne de abate de um sujeito acuado e desequilibrado, no outro um drama erórico adolescente sobre como desejo serve de gancho para uma busca pelo utopia (social, sexual, econômica). Em ambos, o formalismo de Tam é preciso e ajuda a ideia de uma sociedade aprisionada, mas em Love Massacre ele é inquisitivo e em Nomad, liberador. Nomad vai estar na retrospectiva Cidade em Chamas: o cinema de Hong Kong, que começa no CCBB do Rio dia 2, e em junho vem para Brasília e São Paulo.

Just Like Weather (Allen Fong, 1986)
Allen Fong é uma das figuras mais curiosas e radicais do cinema de Hong Kong. Um dos poucos não cineastas de gênero locais. Just Like Weather é o seu terceiro longa, como sempre misturando elementos de biografia com outros documentais. Aqui um jovem casal reencena a própria crise do casamento (ela ganha mais que ele, o que fere o sexismo dos dois) enquanto de tempo em tempo recebem visitas do documentarista Allen Fong que colhe depoimentos e as vezes tenta interferir na relação deles. A autoficção proposta por Fong tem algo do Kiarostami dos anos 90 e outro tanto dos documentaristas de entrevistas de Coutinho. Estão lá o poder do cinema, a natureza do performe, o foro íntimo e a sua projeção pública.

Rouge (Stanley Kwan, 1988)
Rouge é outro filme que vai estar na mostra e sobre ele eu escrevi um pouco na catalogo. Não quero me alongar aqui, mas precisava observar que este filme sobre uma fantasma (Anita Mui) atrás do amante (Leslie Cheung) com quem ela teria cometido suicídio 50 anos antes, dividido entre os flashbacks do romance proibido intoxicantes e aspereza da metrópole do fim dos anos 80, me pareceu mais forte e tocante revisto hoje. Muito pela coincidência de rever o filme junto do aniversário de 15 anos do suicídio do Cheung. Ai me caiu a ficha, que Mui morreu seis meses depois de câncer. Ali estão os dois no auge de juventude e glamour, escalados entre outras coisas justamente por essa posição de estrelas de cinema num filme que é entre outras coisas sobre este maquinário sedutor no que traz vida e morte.

As Criaturas atrás das Paredes (Wes Craven, 1991)
Acho que este segue o melhor filme do Craven. Piada doente sobre o pesadelo urbano americano nos anos Bush I. Mais do que os filmes do Joe Dante, A Criaturas atrás das Paredes sugere a versão desviante de um filme do Spielberg da década anterior. Está ali o garoto negro a adentrar a casa dos senhorios da família e logo descobrir que eles são psicopatas com praer em caçar invasores. A tensão racial, a especulação imobiliária, o conflito de classes. E lá está o reverso do velho conto de horror do monstro do sótão com toda uma subsociedade de jovens abandonados, bestificados a viver entre as paredes, das sobras do casal. Como sempre no Craven as ideias são dotadas de uma força que a execução desiquilibrada nem sempre da conta, mas aqui este desacerto me parece aumentar a potência do filme.

Jogador Número 1 (Steven Spielberg, 2018)
Falando em Spielberg e nos anos 80, me parecem que muitas injustiças foram cometidas contra este Jogador Número 1, em parte porque ele foi recebido pelo que seus press releases e materiais de divulgação prometiam e não pelo que ele é. Trata-se muito mais de um filme sobre 2018 do que 1988, muito mais sobre o simulacros da rede social do que os da realidade virtual. Vale dizer tem bem mais em comum com as ficções cientificas que o diretor realizou no começo dos anos 2000 (AI, Minority Report, Guerra dos Mundos) do que com ET ou Caçadores da Arca Perdida. Um filme que por toda sua exuberância nas cenas dentro do jogo (animadas na sua grande maioria, vale lembrar) é bem triste e está lá a figura do Mark Rylance em bela atuação numa espécie de autorretrato do artista em negação pelos efeitos da própria obra. O filme não resolve a contento nada do que levanta, mas seria demais vindo de Spielberg, que sempre foi melhor em reconhecer as contradições (suas, da sociedade americana) do que as solucionar para além de uma conciliação ficcional.

3 Comentários

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3 Respostas para “Alguns filmes da semana (31/03 a 6/04)

  1. Rogerio Silva

    Estou muito animado com essa mostra de cinema de Hong Kong, sabe se vai ter algum filme em pelicula? Ou apenas cópias digitais.
    Obrigado e sucesso para a mostra.

  2. Rogerio Silva

    Legal, obrigado por responder.
    Você sabe quando sai a programação? Estou ansioso.
    Muito obrigado.

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