O Passageiro (Jaume Collet-Serra, 2018)

passageiro

Jaume Collet-Serra faz thrillers enxutos e eficientes com um cuidado de artesanato quase inexistentes nos lançamentos de grande folego. Ele também adora o pulp mais rasteiro e mais executa-o do que eleva seus materiais, o que resulta por vezes em terceiros atos bem desequilibrados e ocasionais blocos de ação inertes. Daí este efeito improvável na recepção dos filmes do cineasta catalão de serem subestimado em alguns lugares (por trabalhar com material “menor”) e superestimado em outros (por representar um certo ideal de cinema que já não existe); Este, O Passageiro, quarto filme que ele faz com Liam Neeson, é um dos seus melhores, sem necessariamente resolver suas limitações.

Como em Sem Escalas, estamos num misto de mistério de câmara com trama redentora calcada em ansiedades sociais (o 11 de Setembro lá, a crise financeira de 2008 aqui). A trama desta vez coloca Neeson para identificar a vítima de uma conspiração no tempo de viagem do trem comunitário até o subúrbio de Nova York. A conspiração em si é o que filme tem de mais frágil, apesar de Collet-Serra manipular bem na aproximação de necessidades de trama e paranoia com o estado policial.

O que o filme tem de melhor é a forma como ele relaciona o que tem de rotineiro com a mecanização da vida. Da abertura excelente que resume os últimos dez anos de Neeson ao longo dos créditos, o filme expõe o Collet-Serra cineasta-operário e as dificuldades rotineiras do trabalhador contemporâneo. A lógica do capital e Hollywood tardios unidos com este estado policial conspiratório servindo de mediador. O trabalhador classe média americana não tem um encontro marcado com o paraíso, mas com um trem desgovernado. A lógica do trem de O Passageiro, é nossa lógica da vida mecanizada. A formula hollywoodiana contaminada por uma dose considerável de ansiedade econômica (isso, e claro, Liam Neeson a arrebentar um maluco com uma guitarra, pois os simples prazeres pulps merecem ser preservados).

O diretor catalão tem um talento natural para o rascunho rápido de personalidades e para o casting de pequenos papeis, o que serve muito bem esses filmes em que Neeson fica andando de um lado para outro em transportes públicos. A banalidade do mistério segue constante, a identidade do vilão deve ser óbvia para qualquer pessoa que viu meia dúzia de filmes, assim como o arco redentor se move para a convenção.

O panóptico de Collet-Serra tudo registra, mas pouco se envolve. Há uma raiva latente no subtexto do filme, a ação até para em determinado momento prta Neeson soltar um “fuck you, Goldman-Sachs”, a paranoia do filme reforça a certeza que o governo é para poucos e não para o cidadão comum, ao mesmo tempo o andamento do filme é da conciliação, da redução das arestas. Jaume Collet-Serra sugere por vezes um Tony Scott sem os elementos mais agressivos e subversivos, o preço de ser o operário padrão do cinemão americano é este gap entre percepção e ação.

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